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Apesar de acreditar nas diversas vantagens da aprendizagem através de jogos, eu tinha sérias dúvidas sobre quando e como uma criança deve começar a jogar. Como observei no caso do Tokyo e do Dixit, ensinar jogos para crianças não é algo trivial. Em alguns momentos é difícil para os adultos abrir mão de toda sua capacidade para entender como o mundo é visto e entendido pelas crianças. É importante entender que elas não são adultos em miniatura:  a capacidade de concentração deles é diferente e a própria noção de tempo e espaço muda. Um ano para uma pessoa de 40 anos não é nada, mas equivale a um quarto da vida de uma criança de 4 anos. É verdade que o trabalho voluntário foi um excelente laboratório, ainda mais considerando que o que eu faço é jogar com crianças, mas algumas das melhores idéias mesmo vieram da experiência de amigos.

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A Lilian de Paula foi uma das minhas primeiras guias nesse campo e foi quem me sugeriu o King of Tokyo como um jogo de entrada, com resultados para lá de divertidos. Além de recomendar o Ave Cesar e Camel Up.  O Gustavo Miranda afirmou que os filhos dele também adoram o Tokyo.

Rinaldi Maya começou a tentar quando seu filho estava com 4 anos com um jogo de pescaria, aquele das varas, também usou jogo da memória (com cartas) e o tradicional dominó. Nesses casos sem focar em estratégia só ensinando as regras, a mecânica dos jogos. Com 5 anos ele também apresentou os jogos Uno,  Entrelaçados, que foi o que melhor funcionou em termos de competitividade e Halli Galli. Também foi nessa idade que ele apresentou o King of Tokyo para o seu filho. Agora que ele está com 6 anos os conceitos e a leitura se solidificaram e ele não apenas adora jogar como sempre está animado com novas experiências. Segundo o Rinaldi, nas primeiras partidas ele ignorou as habilidades e foi para a brincadeira dos monstros que querem dominar a cidade. Em outras palavras, ele concentrou o foco na história. A mecânica dos dados e as regras de quem afeta quem em combate foi tranquila, mas ele sempre agiu um pouco como coach explicando a mecânica e como isso refletia na fantasia. Depois das 3 ou 4 primeiras partidas ele incluiu as habilidades mas sempre explicando o que como funcionavam as cartas que estavam em cima da pilha assim que essas entravam no jogo. Com o tempo seu filho já foi escolhendo as preferidas e hoje a intervenção é quase zero sendo que ele já compreende os textos, no máximo explicando algo quando ocorre alguma confuso, geralmente nas regras das habilidades especiais. Ainda assim, ele manteve seu papel de coach, dando dicas de quando era útil ou não empregar alguma carta. Ticket to Ride ele também consegue jogar, mas com uma estratégia bem direta.

Pessoalmente, eu achei a estratégia do Rinaldi semelhante à minha, com resultados similares. Eu confesso que não havia me dado conta do papel coaching que acabamos atuando durante os primeiros jogos, mas concordo com ele que faz toda a diferença. É um trabalho discreto que têm um papel fundamental no início e depois vai se reduzindo, algo a ser praticando por quem deseja ensinar qualquer jogador.

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Rinaldi pretende adicionar a extensão Power Up pois seu filho fica curioso com a caixinha. E depois que expliquei que adiciona poderes exclusivos de cada monstro ele ficou mais interessado ainda. Outro jogo que, segundo ele, foi bem fácil, foi o Exploding Kittens. Nas primeiras vezes a estratégia não foi muito compreendida, mas na quarta ou quinta tentativa ele já começou a conseguir jogar sozinho.

Já o Marcello Larcher pode não ter filhos, mas um interesse especial em apresentar novos mundos para crianças e algum expertise no assunto com a experiência do D30. Ele considera o jogo Floresta Encantada, da Grow, excelente para ensinar estratégia para crianças e afirma que o melhor jogo de tabuleiro para crianças seria o Haba (se for editado para o Brasil mudem esse nome pelamordedeus)

content_dob001_3d-box_400pxUmas das minhas aquisições recentes me foi apresentada pelo Fábio Lopes do Carcassone Pub. O simples e simpático Dobble, um jogo que demanda concentração, percepção e rapidez de raciocínio que ainda tem o mérito de igualar crianças e adultos.  Apesar da recomendação para  6 anos, uma criança de 5 se adaptou sem problemas e pretendo testar com crianças ainda mais novas para ver o que acontece. Eu também adoraria testar seu impacto como um exercício de concentração.

No mais, as experiências são muito promissoras e meus amigos observaram isso por experiência própria. Os jogos são uma experiência de aprendizagem para Vygotsky nenhum botar defeito. O jogo de tabuleiro é um ambiente social de aprendizagem onde uma criança pode aprender de fontes variadas. E uma tremenda oportunidade para expandir os limites mentais das crianças. Por exemplo, meu amigo João Paulo, professor de física, ficou impressionado em observar um certo infante conseguindo fazer operações matemáticas básicas, como soma e subtração, durante uma partida de King of Tokyo. O que está de acordo com a ideia de zona proximal de aprendizagem.

Imagens dos jogos: Galapagos Jogos

Persuasive Games, de Ian Bogost foi um livro marcante para mim. Além de achar a idéia da retórica procedural proposta no livro simplesmente genial, foi uma das definições de jogo do autor que me inspirou para o potencial dos jogos na educação ambiental. Considero uma leitura obrigatória para quem tem interesse por jogos.

Se um jogo for a demonstração do funcionamento de um sistema, então um jogo poderia ser utilizado para demonstrar a dinâmica de funcionamento de um ecossistema. A retórica procedural poderia ser utilizada para superar uma barreira contra o comportamento pró-ambiental. De acordo com Kolmuss e Agyeman (2002, p:253) em sua análise sobre as barreiras para o comportamento pró-ambiental, como existe um grande espaço de tempo entre causa, a ação humana, e o efeito, a degradação ambiental. Mesmo mudanças que teoricamente seriam observáveis acabam passando despercebidas pelos leigos devido a essa diferença temporal entre a causa e o efeito. Como agravante, muito do impacto ambiental é descrito através de informação, científica, “impessoal” como gráficos, artigos e etc. o que reduz o envolvimento emocional do público e leva ao não envolvimento, em termos propagandísticos, a questão ambiental simplesmente perde apelo. O hábito de construir em barrancos é um ótimo exemplo disso. A casa construída hoje eventualmente será destruída numa chuva anos depois. E as pessoas tendem a culpar o clima e não a construção num local indevida. Pois consideram aquilo resultado de um fator climático não-eventual. Quando, na verdade ,os ciclos climáticos acontecem numa escala maior do que o ser humano está acostumado, sendo assim esses ciclos não são fáceis de serem percebidos. Porém no ambiente de jogo eu posso controlar a varíavel tempo para que o efeito da degradação ocorra dentro de um espaço observável pelo estudante. O que foi o “pulo do gato” dentro do meu projeto.

Mas, voltando ao livro, eu realmente fico curioso sobre uma futura edição, porque sinceramente acho que alguns dos exemplos que ele usou não estão à altura do potencial que a retórica procedural implica para jogos. Por exemplo, joguei o McDonald’s Videogame e achei retoricamente fraco. Ele reforça posições já assumidas: se você acha que os empresários são calhordas isso é reforçado, assim como a idéia de que não existe outro modo de viável de ação, já que o jogo não oferece outra opção. A mensagem que ficou para mim é que ser um empresário calhorda é inevitável. Talvez eu esteja sendo injusto por ele ser uma peça de propaganda e eu esteja tentando ver o jogo sobre um prisma educacional. Enfim me soou como algo simplista e maniqueísta. Para mim ele não cumpre a definição dos jogos persuasivos. Um exemplo eficaz para mim foi o Frasca e seu genial September 12th, um exemplo de jogo pacifista. Como não há como vencer e confesso que não sei se ele pode ser considerado um jogo no sentido estrito do termo, mas me parece um excelente uso retórico da linguagem dos jogos.

Nesse aspecto da diferença entre os jogos persuasivos e os serious games eu penso de forma diferente do Bogost. Os jogos sérios realmente atuam como reforço dos interesses de instituições e justamente por isso são persuasivos, assim como a Molleindustria também se propões a fazer jogos persuasivos, mas com outras mensagens e interesses em mente. Eu consideraria o jogo do McDonald’s mais como um advergame (um jogo de propaganda) ideológico, o que não é um julgamento de valor, mas acho seu potencial retórico fraco. Best Amendment é um jogo com uma proposta interessante, mas acho ele rápido demais, não há muito tempo para refletir e acho que esse é um aspecto essencial para a informação se transformar em conhecimento.

Não que a primeira rodada de análises esteja completa, mas depois de uma sessão com os especialistas em Cerrado e outra com o pessoal de Educação Ambiental era preciso avançar para um novo protótipo que incorporasse os pontos que ambas as reuniões levantaram. Então, baseado em umas 20 páginas de entrevista e mesa redonda eu tive toneladas de dados para analisar e produzir a versão 2.

Isso soa bem prosaico, mas o problema foi que ela deu chabu, observei que o jogo tinha alguns problemas que não seria mudados apenas com a alteração de regras, um trabalho mais estrutural seria necessário. O resultado foi ter de abandonar a versão dois e partir para o protótipo 3. E tudo isso sendo feitohá apenas um dia da nova rodada de testes.

O resultado foi que a sessão de hoje começou com tudo para dar errado. Requerendo pequenos ajustes, como receber os participantes e convidá-los à uma alegre e rápida sessão de terapia ocupacional para cortar as peças recém impressas e outros detalhes como foram acontecendo ao longo do processo. Mas graças ao imenso apoio, e paciência, de meus colegas conseguimos começar sem maiores problemas. Fiz uma rápida apresentação do jogo focando principalmente nas mudanças de regras e história que fiz com base nas conversas com os participantes e uma descrição de como seria esta reunião.  Um dos efeitos que inferi foi que a curva de aprendizado do jogo está mais suave. A necessidade de moderação foi menor e os jogadores começaram a se regular mais rapidamente, é impressionante observar como eles se envolvem rápido.

Baseado em minha conversa com o Martin dessa vez me preocupei menos com a questão de  organizar a pesquisa ou tratar a parte da mesa redonda como uma entrevista em grupo. Dessa forma as coisas seguiram de forma mais fluída e fiz um senhor esforço para evitar sugestões “táticas”: Como responder perguntas do tipo “qual é a melhor jogada?”. Se por um lado eu não preciso agir tanto, do outro o pequeno grau de controle que o pesquisador têm sobre o processo beira o assustador. E como eu consigo enganar bem, ouvi até elogios à minha disposição em receber sugestões e críticas de forma aberta. Mas de fato faço isso porque preciso mesmo deles tranquilos justamente para oferecer tanto feedback quando possível, por esse comentário posso entender que estou atuando bem. E para mostrar que compensou o resultado foi uma experiência rica, me pergunto se eles percebem o quando estão se engajando no processo.

Observando o jogo e a discussão depois vi o aprendizado ocorrer seguindo aquele modelo “nuclear” de aprendizado reflexivo. Eles aprendem de fontes variadas, como a própria experiência,  experiência alheia, informações do meio etc. A beleza da coisa está em ver como o aprendizado ocorre de forma indomável, não-lienar e imprevisível, há “zonas” de probabilidade, mas apenas isso.  O que reforça minha impressão de que jogos funcionam mais como ambientes de aprendizagem do que necessariamente ferramentas de aprendizagem. O jogo cria condições que incentivam o aprendizado, fazendo com que eles usem sua cognição para jogar, mas o quê, quanto e como eles estão aprendendo não são coisas sobre as quais eu possa falar no momento.

Uma das coisas que preciso tomar cuidado é a empolgação, vejo os participantes cairem na mesma tentação que me assola de vez em quando. Querer que o jogo cresça demais e leve complexidade a níveis inviáveis, é a ganância de ensinar que pode acometer esses jogos. Outro ponto que me preocupa é o desejo retórico, a vontade de enfatizar certos pontos para se alinhar às nossas crenças e visões, um aspecto doutrinário que o Martin e a Zhen haviam comentado e com o qual vou ter de aprender a lidar.

Enfim, mais um passo mas ainda há uma renca de outros à espera, outra sessão com o pessoal da educação ambiental me espera. Além de um simpático natal escrevendo e degravando dados.

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