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Uma referência ao livro “O Senhor das moscas” que me parece estranhamente adequada ao assunto.
fonte: A Taberna

Para um interessado por educação e jogos, entender a diferença entre a competição saudável e a nociva, também conhecida como guerra é algo essencial e, ao mesmo tempo, um enigma. O que leva um ato saudável a se transformar no desejo de destruir o outro? Entender esse processo é algo importante, afinal, isso acontece com uma certa frequência, qualquer leitor de jornal e usuário de redes sociais vê isso ocorrendo todo o dia.

Para mim é difícil entender esse processo de mudança: como atividades inicialmente pacíficas descambam para a guerra e porque isso acontece com uma certa facilidade?  Se tomarmos a internet como exemplo, a maioria das argumentações tem como objetivo produzir dano ou reafirmar uma posição, somente isso. E as brigas de torcida então? Como fatos ocorridos num campo de futebol, jogado por profissionais  se tornam o catalizador de violência que envolve multidões? Em que ponto uma discordância saudável ou um simples esporte se torna uma competição tão ferrenha que pessoas praticamente entram em conflitos  tribais?

Jogos, Debates e a tal da Guerra

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Propaganda anti-japonesa da segunda guerra mundial. Postura de primata, pele amarela, estuprador, arma mão, sorriso cruel e olhos estranhos. Uma forma de criar uma imagem desumana do inimigo.
fonte: Kid Bentinho

Para deixar as coisas mais claras é preciso diferenciar um pouco os conceitos. Eu gosto muito da definição do Rapoport em “Guerras, Jogos e Debates”.  Nos jogos um bom adversário e o respeito às regras são essenciais. Num jogo a vitória sobre um adversário fácil não tem brilho é justamente a dificuldade que torna a partida interessante, divertida e traz algum mérito. A mesma coisa acontece em debates, onde uma pessoa tenta convencer outra de sua posição. Ambas exigem astúcia, habilidade, inteligência, mas também a capacidade de entender a posição do adversário e seu pensamento. O que também levaria a ter empatia por esse e respeito à sua posição do adversário. Enquanto na guerra, o adversário é um obstáculo a ser destruído, o objetivo da guerra é causar dano, por qualquer modo possível, até a destruição do adversário. Nesse aspecto a guerra está sendo vista de seu ponto de vista essencial sem entrar no mérito das diversas variações do termo guerra. Também é preciso considerar que para se chegar à esse estado é preciso perder a empatia com o outro, desumanizar o inimigo é um dos atos padrão da propaganda de guerra.

O experimento de Sherif

Encontrei uma luz sobre o assunto em um artigo do Dr. Peter Gray  analisando um famoso experimento sobre conflitos e resolução de conflitos me ajudou a entender melhor como esse processo ocorre. Ele levantou algumas questões interessantes acerca dos aspectos saudáveis e os não tão saudáveis da competição. Uma preocupação importante para quem quer trabalhar com jogos e que já foi assunto por aqui anos atrás. E que vai ser apresentado abaixo parte tradução, parte como resenha descuidada.

O estudo foi realizado nos anos 50 em Oklahoma sendo possível por causa dos padrões de ética de pesquisa de época. Porque eu duvido que você deixaria seu filho participar desse experimento hoje em dia.  O estudo envolvia meninos de 11 e 12 anos que participariam de um acampamento de verão e seguiu três fases.

  1. dividir os garotos aleatóriamente em dois grupos distintos, dormindo em diferentes partes do campo, com atividades e músicas diferentes para que cada grupo desenvolvesse sua própria identidade de grupo.
  2. criar condições planejadas para induzir hostilidades entre os dois grupos. Os garotos não sabiam que participavam de um experimento, eles achavam que estavam participando de um acampamento normal

  3. uma vez que os grupos estivesse suficientemente hostis seria tentados vários métodos para reduzir a hostilidade.

Considerado um clássico, os resultados mostraram que a hostilidade poderia ser reduzida através do estabelecimento de objetivos comuns, desejados por ambos os grupos e que poderiam ser melhor obtidos através de cooperação. Por exemplo, os pesquisadores criaram uma falha no suprimento de água do campo. Para resolver essa crises os grupos aceitaram trabalhar em grupo e juntos exploraram a linha de água até encontrar o problema. Com essa e outras práticas as hostilidades entre os grupos foram reduzidas e no final já haviam várias amizades entre membros de grupos diferentes que surgiram de iniciativa deles.

Se o foco experimento original era pesquisar meios de reduzir a hostilidade o Dr. Gray faz uma proposta interessante ao olhar para o outro lado, os métodos utilizados para induzi-la, algo pouco discutido. Na verdade os procedimentos para isso foram razoavelmente simples. Quando os grupos foram divididos os participantes foram convidados a competir em um torneio que envolve uma série de jogos competitivos, com a equipe de adultos do campo atuando com juízes. Os vencedores recebiam prêmios e pontos eram marcados para seus grupos. E aí começam as hostilidades reais.

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Cena do filme “O Senhor das Moscas” agora o aspecto tribal ficou mais claro, não?

À medida que o torneio avançava os grupos se tornavam mais antagônicos. O fair play inicial logo começou a mudar para provocações, acusações de roubo nas partidas e roubo como retaliação. A hostilidade se espalhou pelo campo dentro e fora do torneio, e mesmo que o perfil dos garotos em ambos os grupos fosse parecido (brancos, protestantes e de classe média e eles tenham sido aleatoriamente eles passaram a ver os meninos do grupo oposto como gente muito diferente deles, essencialmente traidores sujos que mereciam uma lição. Brigas físicas ocorreram em diversas ocasiões, ataques ao alojamento do grupo adversário e alguns garotos começaram a se armar com pedras e se recusar a comer no mesmo refeitório que o outro grupo. E quando isso acontecia tensão e violência se tornavam bem prováveis, com o risco de brigas grupais no refeitório. O que começou como um torneio esportivo cada vez mais se tornava em algo parecido com duas tribos em guerra. E tudo criado por um torneio esportivo formal.

O Brincar

Agora, vamos deixar o experimento de lado e pensar com pouco sobre como garotos geralmente brincam. E onde o Dr. Gray aproveitou para diferenciar a brincadeira do esporte formal, com suas regras, prêmios e etc.

Muitas das brincadeiras de garotos envolvem batalhas, encenadas, claro. Em alguns casos essas batalhas acontecem puramente no reino da fantasia. Os meninos criam suas cenas de batalha, decidem quem vai fazer qual papel, quem é ferido, morre ou ressuscita. Algumas pessoas, que não entendem o brincar dos meninos ,confundem esse brincar com violência e tenta impedi-lo, especialmente quando a brincadeira é mais vigorosa, empolgada, ou pela maneira um tanto áspera e caótica como eles se comportam. Sim, às vezes é difícil diferenciar quando meninos estão brincando ou brigando. Mas não é necessariamente violência, é brincadeira. Deveríamos considerar esses garotos não como guerreiros, mas como pequenos atores de improviso. Eles estão usando a imaginação para criar e atuar em histórias dramáticas e emocionantes. Brincar desse modo é não competitivo e também não violento. Não há contagem de pontos, ninguém ganha ou perde, todos estão apenas atuando em seus papéis. Também não há equipes fixas em brincadeiras desse tipo. Se este tipo de brincadeira envolve exércitos de fantasia os participantes montam os exércitos de forma diferente para cada tipo de brincadeira. Brincadeiras desse tipo não criam inimigos, pelo contrário, elas cimentam amizades.

Um aspecto dessas batalhas de fantasia é a brincadeira informal, que é retirada em esportes como o futebol, basquete e cia. Aqueles que passamos a chamar de esportes, especialmente quando jogados de modo formal, com regras, campeonatos e etc. Esses esportes também podem ser vistos como batalhas de fantasia. Existem times, territórios a serem invadidos, defendidos e conquistas a serem feitas, tudo ritualizado por regras que definem o comportamento dos jogadores.  Por “brincar de forma informal” Gray considera que essas brincadeiras ou mesmo jogos informais são totalmente organizadas pelos seus participantes sem consequências fora do contexto da brincadeira. O que importa é a diversão de todos, até a organização é algo secundário. Não há troféus, prêmios, campeonatos ou placares. Os vencedores não terão fãs nem os perdedores serão depreciados. Essas brincadeiras de guerra podem ser denominadas competitivas mas na verdade seriam, quando muito, pseudo competitivas. Pode haver torcida ou mesmo um pouco de comemoração mas no final, ninguém se importa sobre quem ganhou. Os perdedores vão para casa tão felizes quanto os pretensos vencedores. Esses jogos também reforçam amizades e evitam criar inimigos.

Formal x Informal

Se os meninos do experimento tivessem participado de jogos informais, mesmo que fossem de basquete ou cabo de guerra dificilmente haveriam as hostilidades. Sem ganhos ou perdas determinados por autoridades externas os jogadores teriam se focado mais em se divertir do que vencer. Sem juízes adultos para separar vencedores de derrotados eles poderiam ter cooperado para estabelecer regras para seus jogos e julgar de forma consensual como elas funcionariam. Eles teriam que discutir e resolver suas diferenças. Roubo e provocações, se fossem longe demais destruiriam a diversão e a própria razão de ser da brincadeira. Assim, quem não estivesse se divertindo simplesmente sairia e assim o único jeito de manter a brincadeira acontecendo seria brincar de modo a garantir que o máximo de garotos se divertisse. E crianças sabem como fazer isso.

Uma experiência pessoal

Aqui, eu (o autor) atesto vi algo assim ocorrer ao observar à distância meu filho e seus colegas de escola brincando. Num certo momento meu filho ficou cansado e não conseguia mais correr atrás dos colegas. Eu já estava me preparando para entrar no meio e dar uma deixa para ele sair e descansar um pouco sem parecer que estava desistindo. Afinal eu sou um adulto competitivo, masculino, hétero, mais ou menos branco, o mal encarnado em forma de gente e no fundo não queria que meu filho desistisse de brincar. Mas, para minha surpresa, um de seus colegas simplesmente se aproximou e disse para ele: “Ok, você me pega e a gente continua”. E assim o novo pegador saiu correndo atrás dos outros e deu alguns segundos para meu filho recuperar o fôlego, sem interromper a brincadeira de todos. Eles arranjaram uma excelente solução e o objetivo deles de continuar brincando foi cumprido com muito mais fair play e eficiência que o adulto aqui, agindo no papel de lei, agente regulador ou Estado, poderia ter inventado.

Conclusão

Voltando ao Dr. Gray, ele acredita que como esses jogos informais acabam envolvendo mais cooperação, seria razoável supor que tais jogos teriam tornado os grupos mais próximos. Batalhas de fantasia e esportes informais são brincadeira pura e esse brincar cria amizades e não inimigos. Enquanto os esportes formais e seus torneios estão fora do que seria considerado brincar livre porque são controlados por entidades externas, nós adultos. E tais jogos têm consequências claras fora do contexto do jogo, o que altera totalmente a atitude dos jogadores.

Assim, os esportes formais ocupam um espaço entre a brincadeira e a realidade e, dependendo de uma vasta gama de fatores, um jogo formal se equilibra entre o real e o fantasioso. Quando esse equilíbrio se inclina demasiadamente para a realidade uma derrota torna-se uma derrota real e os derrotados passam a ver os competidores como inimigos reais. O estudo de Sherif aparentemente encontrou uma forma de transformar esportes formais em estopins para batalhas reais. Ter consciência desses gatilhos, especialmente de como evitá-los é algo importante para manter saudáveis quaisquer experiências de aprendizagem que envolvam algum tipo competição.

Bibliografia

Gray, P. (2009) A New Look at the Classic Robbers Cave Experiment: . (online) disponível em http//www.psychologytoday.com/blog/freedom-learn/200912/new-look-the-classic-robbers-cave-experiment (acesso janeiro/2017)

Rapoport, A. (1974) Fights, Games, and Debates. University of Michigan Press

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fonte: VisitBritain/Britain on View | Getty Images

Recentemente li no Linkedin uma matéria sobre a abertura de uma escola para clientes de altíssima renda que vai ser aberta em São Paulo. A escola é americana e vai para o Brasil depois do sucesso da Graded School em São Paulo. Para ilustrar os custos de uma escola desse tipo: a taxa de matrícula de é 40 mil reais e as mensalidades podem ser de até 8 mil reais. Sorry periferia. O foco da matéria não foi educação, mas o mercado de luxo. Então, o foco foi maior nas instalações, matérias oferecidas e objetivos. Não seria justo exigir muita coisa em termos de pedagogia.

Por um lado, acredito que as pessoas que podem bancar esse custo devem ter direito a escolher a escola que preferirem, diversidade de opções não é necessariamente um problema. E a existência de escolas de elite não é exatamente novidade, ainda mais num país desigual como o Brasil. Na verdade, há quem considere nossas universidade públicas e gratuitas bem elitistas, como esse artigo e esse outro. Mas esse já é assunto para outro tópico.

As armadilhas

Por outro lado, além do artigo sobre as caras instalações da escola, com direito à lagosta no almoço,  alguns bons comentários deram o que pensar. Um dos raros casos em que valeu a pena ler a parte de comentários, parabéns ao Linkedin. O primeiro foi esse do José Finocchio Jr que levanta uma questão pertinente.

“Visitei uma escola de elite em moema, não tinha um único estudante negro. UM. eu disse UM. Não sou comunista muito pelo contrário, mas esse isolacionismo nunca, nem por sonho formará lideres do mundo. Vai formar sim crianças mimadas que vivem numa bolha. Graças a Deus ainda não inventaram inteligência comprada, e o menino pobre …paupérrimo super inteligente detona todas essas crianças mimadas. Não existe maior estimulante intelectual que a dificuldade. (…)”

O fenômeno da ausência de negros que ele observou não é algo incomum e uma possibilidade provável no caso dessa nova escola em São Paulo ou qualquer outra de alta renda ou mesmo de classe média. Eu mesmo tenho uma conhecida que tirou os filhos de uma escola particular porque eles eram os dois únicos alunos negros da escola, o que rendeu os problemas esperados. O que não é nada mais que um reflexo do nosso triste quadro de desigualdade e mostra como a classe social não necessariamente os protege do racismo. Talvez até os deixe ainda mais expostos, por serem poucos em determinado ambiente ou por eventualmente aparentarem estar “fora de seu devido lugar” na visão de algum racista de plantão.

O que também mostra um outro risco desse “efeito bolha”. Além do racismo observado por Finnochio há o isolamento em um ambiente uniforme, com pouca diversidade e que pode eventualmente limitar as percepções de mundo dos estudantes. Fazendo com que eles achem que “todo mundo é como a gente”. Assim a escola se tornaria uma “enlatadora de crianças” de classe mundial que vai entregar alunos com ótimas notas no PISA, toneladas de conteúdo na cabeça mas eventualmente com pouca autonomia, criatividade e bagagem emocional e/ou cultural. Coisas que também são trazidas como consequência de lidar com as diferenças e geralmente obtida fora de ambientes assépticos e 100% seguros.

Nesse aspecto mesmo as caras faculdades de elite do mundo, como Havard ou Oxford, também são mares de diversidade, com gente de todo o mundo e bolsas para manter pessoas não tão abastadas, mas provavelmente muito inteligentes, que possam contribuir com a universidade e o ambiente acadêmico. É preciso lembrar que aprendizagem está mais ligada a interação com outros seres humanos do que com as instalações da escola ou o equipamento utilizado em sala de aula. A criatividade frequentemente vêm com o contato com diferentes visões de mundo. O que explica muito certas metrópoles cosmopolitas como Nova York, Londres ou Tóquio caraterizadas por sua diversidade.

As soluções

Por outro lado, apesar de considerar o efeito bolha um risco real. Também li um belíssimo contraponto em outro comentário, de Marcia Catherine Wright, sobre a formação dela numa escola Britânica  e como a instituição evitou esse “isolamento de casta” entre seus alunos de forma magistral.

“Sou estrangeira e por isso estudei na Escola Britânica não mencionada no artigo talvez porque hoje em dia a mensalidade para os adolescentes gira em torno de RS$18mil/mês. Naquela época não seguíamos a grade brasileira porque o objetivo era oferecer a mesma formação que era oferecida na Europa a quem estava no Brasil. Alem de filhos de diplomatas, haviam filhos de expatriados e bolsas pra gringinhos cujos pais não podiam pagar. Afinal era uma extensão da cultura da comunidade o que incluiria a 1a igreja protestante, a Anglicana, casa de repouso pros gringos idosos, etc. Ser sócio-responsável e abraçar causas passando o dia com outras crianças atendidas por projetos sociais era prática comum e regular pra não criar uma geração alienada mesmo que num país onde do lado de fora da escola, amigos não faziam isso. Muitos de meus colegas, como eu, até hoje são voluntários regulares e é com alívio que não mais somos criticados por sermos diferentes e nos misturarmos naturalmente com “subordinados”, “gentalha” e outros termos que ouvíamos dos brasileiros que quando não racistas (tínhamos africanos, orientais etc na classe) discriminam outros seres humanos por sua condição sócio-econômica, optam pelo assistencialismo sem envolvimento psico-emocional (doações em dinheiro, roupas, brinquedos, etc) ao invés de compartilhar conhecimento e afeto e transformar vidas, como hoje vemos virou “chic” abrir ou fazer parte de Ongs. Por mim, pouco importa em qual berço o voluntário nasceu(porque isso tb é discriminação), sendo relevante o fato de ao invés de reclamar, coloque o coletivo acima de ideologias e interesses pessoais e priorize seu tempo para compartilhar valor com quer “menos favorecido” trabalhando pro bono, moldando a sociedade desejada por todos. Isso se aprende em casa e se reforça na escola, ainda pequeno mas requer não “propostas” e sim que seja um valor cultural , uma prática considerada natural. Aqui quando o gringo faz isso porque tá na veia dele – permanentemente ou periodicamente enquanto em casa come lagosta (e isso é assunto privado, outra coisa que se respeita)- é chamado de “louco” só porque o faz com amor.”

Conclusão

Sim, o risco da bolha existe e acho que parte da classe média e alta no Brasil sofre disso. Mas, como demonstrado pela Márcia, isso está longe de ser inevitável. Como observado na Escola Britânica, não foi apenas uma questão de fazer obras assistenciais, mas promover um ambiente diverso e criar vínculos entre os alunos e as pessoas atendidas pela escola através do trabalho. Nem toda a criança rica precisa se tornar mimada. Na verdade seu desenvolvimento vai refletir muito mais os valores da escola e da família dos estudantes do que seu nível sócio-econômico. E espero que essa nova escola, a Avenues, seja capaz de produzir os líderes mais humanos e capazes que o país e o mundo precisam.

P.S.

Para quem pensa no status de ter os filhos em uma escola de ricos aproveito para lembrar um detalhe interessante: Nos países que permitem o ensino em casa alguns desses bilionários estão trocando as escolas por tutores. A criança terá 100%  de atenção do tutor, e a logística de deslocamento é reduzida, especialmente porque filhos de ricos são alvos de sequestro e eles gastam uma nota em segurança.  Porém, mesmo as empresas de tutoria, que devem ser muuito mais caras, não recomendam o uso de tutores por tempo integral por muito tempo. Justamente porque os alunos perdem em desenvolvimento de certas habilidades sociais ao conviverem a variedade de colegas oferecida por uma escola. Então, menos preocupação com exclusividade e mais foco no resultado.

Anos atrás conheci a idéia de alfabetização ou escolarização precoce. Em princípio ,a idéia me parecia genial. Quem não lembra que Mozart começou a tocar aos 4 anos e se tornou o gênio que conhecemos? Uma criança que começou a escrever com 3 anos já teria quase 10 anos de experiência em leitura e escrita no sétimo ano. O que me parece ser algo vantajoso para uma futura carreira profissional. Se extrapolarmos a idéia para a matemática e outros tópicos a coisa parece ficar ainda melhor. Tanto que várias escolas adotaram a idéia de alfabetização precoce e alguns professores relatam até pressão dos pais para começar o ensino formal seus filhos tão logo quanto possível.

Porém é preciso entender que tudo tem seu custo e crianças são diferentes de adultos. Uma coisa que mudou e continua avançando são os estudos sobre como aprendemos e, especialmente, como as crianças aprendem. E isso não ocorre só através de pedagogos mas de forma multidisciplinar, envolvendo diversas neurociências. Se alguém fizer uma rápida pesquisa sobre alfabetização precoce vai descobrir que a maioria dos textos encontrados consideram a proposta controversa, nas notícias comuns, ou ruim nos textos de especialistas como Rosely Saião e outros.

Para deixar claro que não estou me referindo apenas à leitura e escrita, podemos considerar também o ensino de matemática. Vamos considerar a alfabetização precoce dentro de algo como o ensino de habilidades acadêmicas (leitura, escrita, tabuada etc.), desde o período pré-escolar, que seria antes do ensino fundamental no Brasil, começando aos 6 anos de idade.

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O dr. Peter Gray fez um levantamento de estudos sobre o assunto no exterior e os resultados não foram animadores. Os resultados observados têm sido consistentes, mesmo se comparando diferentes estudos. Segundo ele, se há uma coisa que o treinamento dessas habilidades acadêmicas na infância certamente produz é dano ao cognitivo, emocional e até mesmo acadêmico no longo prazo. Vários estudos controlados [2]comparam os efeitos da educação acadêmica precoce; com abordagens mais lúdicas, centradas nas brincadeiras infantis. A educação acadêmica precoce até oferece ganhos iniciais, mas eles desaparecem com o passar do tempo e, em alguns casos, podem até ser revertidos. Porém o pior é que esse modelo pode produzir danos de longo prazo, resultando em pessoas pouca habilidades social e baixa resiliência emocional, além dessa vantagem acadêmica possivelmente sumir com o tempo. Como eu disse antes, nada vêm de graça, nem mesmo em termos de aprendizagem.

Alguns estudos

Essa parte é uma tradução descuidada do artigo do Dr. Peter Gray. Nos anos 70 [2] o governo alemão fez estudos em larga escala analisando 100 jardins de infância (kindergarten). Na época o governo estava fazendo uma mudança gradual para incluir o ensino de habilidades acadêmicas desde os primeiros anos.  O estudo era essencialmente uma comparação entre dois tipos de instituição: as que incentivam as crianças a aprender de forma lúdica, centradas no brincar; em comparação com as que focam na instrução direta e acadêmica. O problema é que apesar dos ganhos iniciais do treinamento precoce com o tempo a performance desses estudantes começou a ficar pior comparada com a dos que tiveram espaço para brincar. Os resultados foram  convincentes o suficiente para que os alemães desistissem de estratégia inicial, optando por manter os jardins de infância centrados no livre brincar.

Nos Estados Unidos ocorreram estudos parecidos, com resultados semelhantes. Um estudo dirigido por Rebecca Marcon [3] focado principalmente em crianças negras de famílias pobres consideraram uma amostra de 343 estudantes. Os que estudavam em pré-escolas centradas no aspecto acadêmico também mostraram avanços iniciais, mas ao final do quarto ano essas vantagens desapareceram se comparadas ao alunos que brincaram mais, nas verdade, esses últimos já estavam apresentando notas até melhores. No caso o estudo não avaliou desenvolvimento social ou emocional, apenas o acadêmico.

Weikart [4] em 1967 fez um experimento bem controlado com 68 estudantes pobres de Michigan, que foram divididos em 3 grupos, de acordo com o tipo de pré-escola ou creche: tradicional, baseada no livre brincar; avançada, que era parecida com a tradicional mas com mais interferência de adultos; instrução direta, similar ao nosso treinamento acadêmico precoce (trabalhando com exercícios escritos e testes). A divisão foi feita de forma semi aleatória de forma a deixar os 3 grupos tão equilibrados quanto o possível. Além das experiências na escola as famílias foram visitadas a cada duas semanas, com o intuito de instruir os pais em como ajudar seus filhos. Essas visitas eram focadas nos mesmos métodos usados em sala de aula. E os resultados foram similares aos de outros estudos. Com a diferença que nesse caso os estudantes também foram avaliados aos 15 anos de idade e novamente aos 23. Nas avaliações posteriores não haviam diferenças acadêmicas relevantes entre os diferentes grupos, porém foram observadas diferenças em outros quesitos: No grupo dos estudantes que participaram da instrução direta foram observados o dobro de atos de má conduta (suponho que vandalismo, brigas ou crimes muito leves), se comparado com os outros dois grupos. E aos 23 anos as diferenças foram ainda mais dramáticas, o grupo da instrução direta apresentou mais casos de conflito com outras pessoas, evidências de problemas emocionais e 39% mais de casos de prisão se comparados com uma média de 13,5% nos outros dois grupos.

Minha opinião e outras mais

É importante entender que esses resultados não podem ser tomados ao pé da letra. O que se observou foi que crianças com educação rígida desde cedo tem uma maior tendência a ter problemas com habilidades socioemocionais no futuro o que não significa que vão ser sempre gênios intragáveis e infelizes. Sempre vai haver o filho-do-amigo-da-vizinha que passou por tudo isso e é ótima pessoa hoje em dia . De fato, existem muitas outras variáveis além da escola a serem consideradas, como situação dos pais, questões pré-natais. Afinal, quando a escola formal começa pode já ser tarde demais.  E por isso as amostragens amplas e aleatórias tornam esses estudos mais consistentes. Estudantes afetados por essas variáveis têm a mesma chance de estar em qualquer um dos grupos. O que os estudos mostraram foi um padrão difícil de ser observável e não uma lei inevitável. E é justamente para isso que existe a ciência, para mostrar aquela verdade que está além das nossas percepções e experiências.

O que temos é um típico caso de resultados contraintuitivos. Os resultados mostraram algo diferente do que se esperava. Eu, pelo menos, achava que uma educação forte e controlada desde o início faria bem e fiquei chocado em ver o contrário. Uma das grandes dificuldades da educação, especialmente a pré-escolar, é que seus impactos só vão ficar aparentes muito depois. O que tende a estar além da percepção dos pais na hora de definir a educação dos filhos. Imagine como os pais do grupo de instrução direta se sentiram ao ver os resultados do estudo aos 23 anos. Lembre-se que também foram os resultados da educação que eles escolheram.

Por outro lado, a Dra. Cristina Cupertino observa que é até possível que alguns alunos possam acelerar seus estudos, mas eles são mais exceção do que regra. Algo como meros 2% do total dos estudantes (sim, são raros) e, ainda assim, uma série de condições deve ser observada: especialmente para garantir se eles estão felizes com a aceleração dos estudos e estão se desenvolvendo bem em outras esferas além da acadêmica. Se considerarmos a tendência natural de qualquer pai em achar que seu filho é a última bolacha do pacote  está nesses 2% é importante que essa avaliação seja feita por um profissional.

Mas, apesar das evidências em contrário, escolas oferecem esse ensino precoce ou são pressionadas pelos pais. Está na moda. O professor Luiz Carlos Freitas da  Unicamp é categórico ao dizer que a alfabetização precoce é um crime. Lembremos que o aprendizado da criança é diferente do adulto e tem características específicas.

A principal questão é se os custos compensam os ganhos. Eu acredito que não. Acho que estudar não é realmente algo fácil, muitas vezes é um esforço mesmo e que as crianças terão uma vida pela frente de educação constante. Não sou contra escola exigente ou mesmo competitiva, acho as olimpíadas escolares um incentivo genial, por exemplo. Mas cada coisa a seu tempo, deixemos que eles tenham infância primeiro. No longo prazo, até a vida acadêmica e profissional serão melhores.

Referências:

[1] Nancy Carlsson-Paige, Geralyn Bywater McLaughlin, & Joan Wolfsheimer Almon. (2015).  Reading Instruction in Kindergarten: Little to Gain and Much to Lose.  Published online by the Alliance for Childhood.http://www.allianceforchildhood.org/sites/allianceforchildhood.org/files…

[2]  Linda Darling-Hammond and J. Snyder. 1992. “Curriculum Studies and the Traditions of Inquiry: The Scientific Tradition.” Edited by Philip W Jackson. Handbook of Research on Curriculum. MacMillan. pp. 41-78.

[3] R. A. Marcon,  2002. “Moving up the grades: Relationship between preschool model and later school success.” Early Childhood Research & Practice 4(1).http://ecrp.uiuc.edu/v4n1/marcon.html.

[4] Larry J. Schweinhart and D. P. Weikart. 1997. “The High/Scope Pre- school Curriculum Comparison Study through age 23.” Early Childhood Research Quarterly 12. pp. 117-143.

foto: salon.com

 

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fonte: Allposters.com

Doctor Who é uma série de TV inglesa que em 2016 chegou aos 53 anos, com interrupções, que não a impediram de se tornar uma grande influência na produção de ficção científica e TV. Até porque temos gerações que passaram sua infância assistindo Doctor Who que já estão no mercado, especialmente no Reino Unido. Dentre seus roteiristas, o que ajuda a explicar o sucesso da série, temos alguns autores como: Douglas Adams, de O guia do mochileiro das galáxias; Eoin Colfer de Artemis Fowl; e Neil Gaiman, de Lugar Nenhum e Sandman.

A série conta a história de um viajante misterioso, e um tanto amalucado, que se apresenta apenas como “O Doutor”. O nome da série vem justamente da estranheza das pessoas com isso perguntando “Doutor Quem?” (Doctor Who?) após ele se apresentar. Além se parecer ser um cientista completo, o Doutor comanda uma nave chama TARDIS, sigla de Time and Relative Dimensions in Space”, ou se preferir em em português, “Tempo e Dimensões Relativas no Espaço” que viaja pelo tempo e espaço e, devido a um pequeno defeito, está eternamente disfarçada de cabine telefônica de polícia dos anos 60 o que a tornou um ícone da série. Por uma coincidência similar à dos filmes de invasão alienígena que faz com que a imensa maioria das naves desça nos Estados Unidos o Doutor parece ter uma especial predileção pelo Reino Unido. E nesses 50 anos a série já apresentou diversos detalhes interessantes.

Originalmente, era uma série de TV voltada para um público familiar e com uma proposta educativa. Sobre um viajante do tempo com sua neta Susan explorando tempo e espaço, aprendendo sobre história quando viajava para o passado e sobre ciências quanto ia para o futuro. Tanto que, além da neta, os primeiros companheiros de viagem foram dois professores que seguiram Susan, então aluna deles. E sim, o Doutor nunca viaja sozinho, geralmente estando acompanhado por uma ou mais pessoas que atuam como companheiros, auxiliares e até mesmo reféns, dos inimigos do Doutor a função deles é dar uma dimensão humana à série a colocar pessoas comuns como participantes da trama. Em termos de gênero. Em termos de gênero, digamos que as histórias orbitem entre a ficção científica com algumas doses de terror infanto-juvenil.

E dos vestígios de DNA educacional  vem alguns dos pontos que mais gosto na série, como o encantamento pela descoberta, pelo interesse do Doutor em mostrar o que nunca antes foi visto. Apesar de que a parte ciências “de verdade”já ter sido substituída por muita ficção, acho que ficou algo da atitude esperada do cientista, sem o rigor metodológico. Geralmente o Doutor adora mostrar algo novo para seus companheiros e muitas tramas da série buscam descobrir um mistério ou entender algo novo, mesmo que esse novo seja um tanto aterrador. O Doutor, pode ser corajoso, mas certamente não é um guerreiro: na única luta de espadas que vi em toda a série a performance dele não foi lá grande coisa. Ele não usa armas e seu instrumento de trabalho é uma tal da chave de fenda sônica que é basicamente um faz-tudo tecnológico. Em boa parte dos episódios que vi o grito de guerra do Doutor seria algo como “Corram!” enquanto sei-lá-o-quê avança para cima do grupo.

Essas não são histórias resolvidas na base da porrada, os conflitos são muito mais questões de ter percepção para se entender o que está acontecendo, mesmo que seja uma armadilha, e criatividade para descobrir uma solução. Às vezes é necessário prender ou mesmo destruir, mas isso não é algo a ser comemorado, mas necessário.  O que me parece bem de acordo com um povo que já sobreviveu à duas guerras mundiais em suas portas. O doutor também não é um cientista que caiba no estereótipo do rato de laboratório, mas alguém que vai ao campo, um cara de pesquisa aplicada e que desenvolve tecnologias ou simplesmente descobre como algo funciona. Ele praticamente faz o ciclo de C&T, indo da pesquisa de algo até a viabilizar tecnologia necessária para esse algo funcionar. Pessoalmente adoraria ver um estudo de longo prazo para observar se assistir Doctor Who ajudou a formar adultos com mente mais aberta, curiosos e criativos. O que é só uma hipótese minha, claro. Eu não encontrei nada sobre isso, mas parece ser algo razoavelmente aceito que a série se tornou um exemplo de transmídia.

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Dave Tennant, meu Doutor preferido. fonte: BBC

Inclusive, o aspecto criativo fica bem visível na produção. Como era uma série de TV de anos 60 não haviam os grandes recursos de hollywood nem a computação gráfica de hoje em dia. Assim, as limitações e problemas de produção foram compensados com muita criatividade e provavelmente uma boa dose de improviso bem feito. Por exemplo, quando o primeiro ator da série começou a ter problemas de saúde inventaram a capacidade de regeneração do Doutor, que o fazia voltar com um novo corpo e uma nova personalidade, permitindo a renovação do personagem e liberdade de criação e interpretação para autores e atores. Assim, já temos 12 encarnações diferentes do Doutor ou facetas de uma personalidade complexa. Como o 1o. já foi definido por seus sucessores como “aquele rabugento”, o excêntrico 4o. Doutor ou o intenso 10o.. Até mesmo a TARDIS já apresentou diversas variações. O que também é um risco e um mérito da equipe da BBC, que dança sobre um fio de navalha entre atualizar a série sem descaracterizá-la e/ou manter a tradição sem engessar tudo. Mas também é o tipo de detalhe que explica muito da longevidade da série.

Eu, por exemplo, conheci o personagem em sua décima versão, quando era interpretado por David Tennant quando visitava a loja Forbidden Planet de Southampton  e foi assim que se tornou minha referência para a personagem. Tanto que o Doutor parece ter um certo gosto por encarar a diversidade. Para quem quiser ter uma boa idéia da variedade de doutores e suas aventuras recomendo Os 12 Doutores da Rocco.

Enfim, dentre os muitos detalhes gosto muito dos valores da história: de mostrar como o universo pode ser um lugar interessante, que aprender e descobrir pode ser um prazer e como a diferença que nos torna únicos. Se tantas histórias exaltam a guerra, em Doctor Who o herói é um explorador estranho, inteligente, com apenas uma razoável noção do que está fazendo, mas tão divertido quanto inspirador. E, claro, para lá de nerd, mas no melhor sentido que o termo possa ter.

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Tempos atrás comentei sobre o desalentador panorama do conhecimento em ciências na América Latina. Por outro lado, participando de um evento sobre divulgação de ciência, descobri existem várias iniciativas pontuais lutando no dia-a-dia para reduzir esse problema.

Dentro da imprensa nacional costumo encontrar bons exemplos no o Globo Rural: no dia 29/11/2015 foi apresentada uma excelente matéria sobre a Agricultura de Baixo Carbono um assunto complexo de forma simplesmente magistral. Como diz o meu chefe o Globo Rural costuma a seguir uma linha de “contar histórias”, para conseguir manter o interesse do público e a mesmo tempo apresentar informações que estão fora do senso comum. Assim, primeiro foi apresentado um cidadão comum em um almoço de família discutindo sobre o aquecimento global e a importância da agricultura de baixo carbono. A função desse pedaço foi mostrar que o assunto também é de afeta o cotidiano e interessa a pessoas comuns e não apenas para o governo e cientistas. Depois o espectador é levado ao laboratório onde os cientistas falam de seu trabalho e as descobertas mais recentes sobre o assunto. Todo o trabalho é apoiado por infografias, gráficos e informações cuidadosamente sintetizadas para manter o interesse do expectador e introduzi-lo a um assunto pouco usual. Esse fio condutor me lembra muito a proposta do Fernando Meirelles que comentei tempos atrás.

Inclusive aqui é preciso observar que a internet teve um impacto fantástico na divulgação científica, justamente por cortar intermediários entre os cientistas e o público. Abrindo espaço para alguns cientistas talentosos alcançar um público interessado e, de certa forma, qualificar esse público. E a blogosfera, da qual eu faço parte, oferece constelações de bons trabalhos que pontuam essa noite escura que é a  divulgação de  ciência. Como o trabalho do Projeto de Divulgação de Ciência da FAPEMIG ou o Engenheiro de Materiais com o expressivo subtítulo “Por um mundo onde as pessoas saibam o que fazemos”. E muitas dessas iniciativas que começaram como blogs, cresceram, tornaram-se sites ou colunas de jornal. Um exemplo é o site A Neurocientista de Plantão, de Suzana Herculano-Houzel, que além de trabalhar com divulgação científica desde 1999, mostrando o lado “cerebral” do nosso dia a dia, também aborda questões relacionadas à comunidade científica brasileira. Além do site ela percebeu a importância de trabalhar em conjunto com as grandes mídias, uma forma de não se tornar apenas mais uma voz pregando no deserto, como eu me sinto nesse blog de vez em quando. Assim, ela também já escreveu vários artigos na mídia que podem ser encontrados em seu site.

Porém alguns desses sites têm alto número de acessos, mesmo não estando vinculados a um grande meio de comunicação ou instituição científica. Algumas dessas iniciativa tem até mais impacto que os grande veículos. O site I Fucking Love Science é essencialmente um clipping de notícias de ciências tem muito mais curtidas no facebook (24 milhões) que o poderoso e tradicional  New York Times (pouco menos de 11 milhões).

Outro exemplo é o Cientista que virou mãe, de Ligia Moreiras Sena que já se expandiu para um coletivo. Seu site é uma interessante combinação entre o rigor científico de alguém que começou nas ciências naturais e foi acrescentando um olhar típico das ciências humanas, como resultado da maternidade e o um doutorado em Saúde Coletiva. E como ciência é mais um método e uma atitude crítica do que um acumulado de títulos não posso me esquecer do NerdPai, também relacionado à blogosfera materno/paterna. Apesar de não ser um blog especializado em ciência ele têm seus bons momentos na área.

Além do vídeo, que tem lá suas demandas de produção, outra mídia que vêm supreendendo pela diversidade é a dos podcasts. Uma opção adequada para quem não tem tempo ou disposição para ler textos longos, como os Dragões de Garagem ou o Braincast.

E outro trabalho que não deve ser ignorado é o presencial, feito nas feiras de ciência. Como demonstrado pela Engenheira da USP Dra. Roseli de Deus Lopes, que ainda será tema para outra resenha descuidada.

Por outro lado também existem problemas: internet não tem controle de qualidade. Assim temos pseudo-ciência e curandeirismos de todo o tipo compartilhando o palco virtual com pesquisa séria. O movimento anti-vacina e todas as teorias de conspiração estão aí para mostrar isso.

Essa é uma lista longe de ser exaustiva, digamos que a constelação de divulgadores de ciência aumenta a cada dia e pode se tornar uma galáxia. A importância desses “lobos solitários” vêm se tornando cada vez maior à medida que o público se fragmenta devido a grande oferta de informação da internet, que propicia espaço muito maior do que o que poderia ser oferecido pelos jornais, TV e outras mídias mais centralizadas. Um dos problemas dos grandes veículos é que neles ciência é apenas mais um assunto concorrendo por espaço com outras pautas. Ao mesmo tempo os assuntos científicos podem ser extremamente especializados o que pode ser difícil para ser apreendido  por um jornalista comum. Até hoje ainda sinto um pouco de vergonha alheia quando lembro de uma âncora de telejornal toda feliz anunciando a descoberta da “partícula de Deus”, o Bóson de Higgs, como se o apelido fosse mais importante que a descoberta em si. Se nos jornais e TV o espaço para a pauta ciência é limitado, diminuto e sem intermediários, na internet é possível ver o assunto feito diretamente da fonte.

Ainda assim, existe muito a ser feito. No geral, me parece que ainda existe mais talentos individuais em divulgação que incentivo à formação de bons divulgadores em ciência, algo que pode estar mudando justamente devido à contribuição desses lobos solitários.

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Black Stories é um jogo de cartas traduzido e distribuído no Brasil pela Galápagos Jogos que conheci graças ao BoardGame em Casa. Criado pelo designer de jogos Holger Bösch, que se define um fã de histórias de terror e, nesse caso, um contador de histórias. Essencialmente, é um jogo de mistério que deve ser resolvido pela habilidade dos jogadores em fazer as perguntas certas para resolver casos que são histórias de suspense ou terror.

Em contraste com os jogos de tabuleiros complexos, caros e detalhados. Black Stories chega a ser minimalista em sua simplicidade. Até as ilustrações das cartas não tem mais que três cores, considerando o branco do papel. O jogo sequer chega a ter um placar, que não chega a fazer falta. Ainda assim, vários dos elementos formais dos jogos estão lá: existe um objetivo claro, descobrir o mistério; regras, isso deve ser feito através de perguntas; procedimentos, descobrir apenas através de respostas como “sim” e “não”; competição, entre quem deve descobrir o mistério e quem conta a história; consequências, o caminho para se chegar ao resultado esperado é imprevisível e em vários momentos parece bem improvável. O jogo cai perfeitamente bem como um party game, um jogo para ser jogado com várias pessoas em festas e de forma despretensiosa. O tempo de aprendizagem é baixíssimo e em grupo acaba sendo um jogo muito envolvente. Além de que mais gente significa mais insights e mais chances de descoberta. Joguei num final de churrasco e ele harmoniza bem o dueto carne e cerveja, os outros participantes gostaram tanto que me perguntaram onde comprei. Como limitação é um jogo de baixa rejogabilidade, algo característico de jogos de mistério. Afinal, depois de resolvido fica até meio óbvio. O que por outro lado é compensado pelo fato de já existirem duas expansões do jogo, adicionando novos casos.

Em termos de aprendizagem, o jogo é um exercício de pensamento não linear e para os adultos que vivem em seu mundinho corporativo-profissional como eu é uma forma de “acordar” a mente embotada por procedimentos operacionais padrão para o questionamento e para a busca de possibilidades “fora da caixa”. Até o momento, dos mistérios que já descobrimos nada foi dentro das possibilidades mais prováveis. O que acaba sendo um exercício de criatividade e determinação. Porque ao mesmo tempo a experiência também ajuda a se acostumar com a idéia de desorientação, passa-se boa parte do tempo com uma vaga noção se está perto ou não de resolver um mistério, uma habilidade útil para gerência, eu suponho. Creio que existe algum prazer cerebral muito básico de fechar as lacunas, organizar um padrão que parece, à princípio, totalmente desorganizado e fazer com que ele faça sentido. Mais que uma atividade competitiva esse jogo é uma forma de contar histórias.

Acabamos adaptando o jogo para crianças fazendo uma versão para o meu filho. No caso algo bem mais leve e casual que as histórias de terror de original, onde ele deve descobrir quem foi o vilão de desenho animado que roubou o banco ou que dinossauro passou pela floresta. Obviamente o nível de dificuldade é menor, mas a diversão é similar, tanto que virou uma opção comum para longos trajetos de carro em família.

Esse texto é uma tradução do artigo Ten Things Everyone Should Know About Babies: Ignorance about babies is undermining society  da PhD Darcia Narvaez publicado no site da revista Psycology Today.

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Você já reparou em todos os bebês estressados atualmente? Talvez apenas um em cada 30 que vejo tem olhos brilhantes, algo que eu tomo como um sinal de felicidade. O que houve? Talvez, uma das razões seja a ignorância sobre os bebês e suas necessidades. Aqui estão 10 coisas para saber.

1. Os bebês são mamíferos sociais com as necessidades de mamíferos sociais.

Mamíferos sociais surgiram há mais de 30 milhões de anos atrás com intensos cuidados parentais (um “ninho” ou “nicho” de desenvolvimento). Esta é uma das muitas características extra-genéticas, que evoluíram além dos genes. Este período de desenvolvimento combina com o cronograma de maturação humano e, portanto, é necessário para que um indivíduo se desenvolva da melhor forma possível. Dentre o que pode ser considerado entre práticas  intensivas dos pais com recém-nascidos que sejam adequadas para o desenvolvimento do cérebro e do corpo temos:

  • anos da amamentação,
  • toque quase constante,
  • presença física dos cuidadores,
  • resposta às necessidades,
  • atividades livres com companhias variadas e
  • experiências calmantes.

Cada uma dessas práticas tem efeitos significativos sobre a saúde física.

2. Bebês humanos nascem “semiprontos” e exigem um útero externo.

Os seres humanos nascem forma precoce em comparação com outros animais: 9 meses mais cedo do que o devido em termos de mobilidade e 18 mesesantes  em termos de desenvolvimento ósseo e capacidades de alimentação. Bebês a termo têm 25% do volume do cérebro adulto e e a maior parte do crescimento ocorre nos primeiros 5 anos. Assim, esse nicho de desenvolvimento humano evoluiu para que o cuidado necessário seja ainda mais intenso quando comparado outros mamíferos sociais justamente por causa do subdesenvolvimento de nossos recém-nascidos, que dura em torno de 3 a 5 anos. Os seres humanos também adicionaram à lista de cuidados esperados a necessidade um grupo de apoio social positivo para a mãe e o bebê. (Na verdade, o desenvolvimento do cérebro humano dura até a terceira década de vida, o que sugere que o apoio social e orientação devem continuar por muito tempo.)

3. Se os adultos atrapalharem essa fase inicial vão surgir os problemas de longo prazo.

Cada uma das práticas mencionadas acima tem efeitos a longo prazo não só sobre a saúde física, mas também sobre a saúde social do indivíduo. Por exemplo, os bebês que sejam angustiados de forma regular ou intensiva (por não receberem o cuidado que precisam) tem seus sistemas de auto-regulação afetados. Este é um conhecimento comum em outras culturas e foi assim em nosso passado. Em espanhol, um termo usado para os adolescentes e adultos que se comportam mal é malcriado (misraised em inglês).

4. Bebês se desenvolvem sob amor carinhoso.

Quando os bebês recebem apenas alimentos, mudanças de fraldas e pouco mais que isso, eles morrem. Se eles recebem atenção parcial e permanecerem vivos, ainda não é o suficiente, eles não vão atingir o seu pleno potencial. Urie Bronfenbrenner, que enfatizou os vários sistemas de apoio para promover o desenvolvimento ideal, disse que os bebês crescem melhor quando pelo menos uma pessoa é louca por eles. Outros notaram que as crianças crescem melhor com três cuidadores afetuosos e consistentes. Na verdade, os bebês esperam mais do que apenas a mãe e o pai para o cuidado amoroso. Os bebês estão prontos para fazer parte de uma comunidade, o que inclui a mãe por perto.

5. O hemisfério direito do cérebro dos bebês está se desenvolvendo rapidamente nos três primeiros anos.

O hemisfério direito se desenvolve em resposta à experiência social cara-a-cara, com longos contatos visuais. Ele controla vários sistemas de auto-regulação. Se os bebês são colocados na frente de telas, ignorados ou isolados, eles estarão perdendo experiências críticas.

6. Os bebés espera para brincar e se movimentar.

Bebés esperam estar nos braços ou sobre o corpo do cuidador a maior parte do tempo. Contato com a pele-a-pele é uma influência calmante. Depois de aprender isso, um dos meus alunos, quando em uma reunião de família, pegou um bebê chorando e levou-o até o pescoço, o que o acalmou. Bebês esperam companhia e não isolamento ou intrusão. Eles esperam estar no meio de uma comunidade, estão prontos para brincar a partir do nascimento. Brincar é o principal método para a aprendizagem de auto-controle e habilidades sociais. Companheirismo, cuidados, amizade, responsabilidade mútua, construção lúdica e social e a prática da inteligência . Os bebês e cuidadores compartilham estados intersubjetivos, reforçando as capacidades da criança para as “danças” interpessoais que completam a vida social.

7. Os bebês têm sistemas de alerta internos.

Se os bebês não estão recebendo o que precisa, eles farão com que você perceba isso. E isso é bom, pois a maioria das culturas sabe há muito tempo que se deve responder à careta ou gesto de um bebê e não esperar até que ocorra o choro. Os bebés têm dificuldade em parar de chorar depois que começam. O melhor conselho para cuidados com o bebê é acompanhar com sensibilidade o bebê, não os conselhos dos especialistas.

8. Bebês bloqueiam as suas experiências em partes da memória que estarão inacessíveis pelo consciente, mas o impacto delas será evidente no comportamento e atitudes futuras.

Bebês podem ser terrivelmente estressados pela negligência em necessidades listadas acima. Eles não vão esquecer. Sua confiança nos outros, sua saúde e bem estar social serão minados levando a uma moralidade auto-centrada que pode trazer muita destruição ao mundo.

9. Cultura não apaga necessidades que os bebês evoluíram para ter.

Os bebês não podem refrear as suas necessidades de mamíferos. No entanto, algumas culturas defendem que se deve violar as necessidades evolutivas deles. Como se elas não tivessem importância, apesar dos protestos do bebê. Violações diárias incluem o isolamento para ele dormir só, deixar chorando, fórmula infantil, ou vídeos para bebê e flashcards. * Quando as violações ocorrem regularmente, em momentos críticos ou são intensas elas minam o desenvolvimento ideal. Estas violações são codificadas no corpo do bebê e o desenvolvimento de sistemas é prejudicado (por exemplo, a imunidade, neurotransmissores, sistema endócrino). Surpreendentemente, alguns psicólogos do desenvolvimento acham válido a violar essas necessidades ** para que a criança se encaixe na cultura vigente.

A racionalização da “cultura sobre a biologia” reflete uma falta de compreensão não só da natureza do ser humano mas de seu desenvolvimento ideal. Isto ocorreu em laboratórios com outros animais cujas naturezas foram mal interpretadas. Por exemplo, Harry Harlow, conhecido por seus experimentos com macacos e “amor de mãe”, a princípio, não sabia que estava criando macacos anormais quando isolou-os em gaiolas. Da mesma forma, pelo menos, uma das estirpes de ratos agressivos utilizados em estudos de laboratório atuamente foi criada quando os cientistas isolaram a prole após o nascimento e, mais uma vez, não se percebeu a anormalidade de isolamento. Nota-se como os pressupostos culturais dos cientistas criaram os animais anormais. Então é importante considerar os nossos pressupostos culturais quando pensarmos na cuidado com bebês.

O ponto de vista da cultura-sobre-biologia pode estar fazendo a mesma coisa com os seres humanos. Por não entender os bebês e suas necessidades, estamos criando espécimes humanos atípicos. Nós só podemos saber se este é o caso à luz do conhecimento sobre os seres humanos que se desenvolvem em condições evoluídas (o “ninho de desenvolvimento”, descrito no ponto 1. : normalmente, pequeno bandos de caçadores-coletores. Eles são mais sábios, mais perceptivo e virtuosos do que nós, humanos, nos EUA de hoje (ver nota abaixo).

Assim, o ponto final:

10. Experiências que constantemente violam a evolução minam a natureza humana.

Ao criarmos crianças como espécie atípicos vamos acabar com as pessoas cuja saúde e sociabilidade estão comprometidas (que podemos ver em todo o EUA hoje, com epidemias de depressão , ansiedade, alta de suicídio e as taxas de uso de drogas ***). Tais criaturas mal-criadas podem fazer tudo certo em testes de desempenho ou medidas de QI, mas eles também podem ser répteis perigosos, que acreditam que mundo gira em torno deles. Um monte de répteis inteligentes (“cobras de ternos”) em Wall Street e em outros lugares já está colocando o país no chão.

Para evitar isso seguem alguns conselhos:

  1. Informar as pessoas sobre as necessidades dos bebês.
  2. Estar ciente das necessidades dos bebês ao seu redor e interagir com sensibilidade
    com os bebês que encontrar.
  3. Ser sensível às necessidades dos seus bebês.Isso também irá exigir muitos mais apoios institucionais e sociais para famílias com crianças, incluindo extensa licença-maternidade, que outras nações desenvolvidas fornecer. É uma batalha difícil agora, mas a sensibilização é o primeiro passo.
  4. Ler e aprender com os livros que transmitem os princípios da prestação de cuidados,
    como as seguintes:

    • The Science of Parenting
    • Attached at the Heart
    • The Attachment Parenting Book
    • The Other Baby Book
    • Peaceful Parent, Happy Kids
    • Sleeping with Your Baby
    • The Science of Mother-Baby Sleep
    • Gratuito e online: Caring and Connected Parenting

* Note-se que, por vezes, as violações (por exemplo, fórmula, isolamento) são necessários em situações de emergência que são questões de vida e morte. Observe também: De certa forma, a cultura dos EUA força os pais para estas violações, porque não há apoio da família ou da comunidade para ajudar a suprir todas as muitas necessidades de um bebê.

** Claro que os pais não acham que seja uma violação, porque eles não têm o conjunto de necessidades que os mamíferos realmente precisam.

*** Nos EUA, praticamente todo mundo com menos de 50 tem inúmeras desvantagens de saúde em comparação com os cidadãos de 16 outras nações desenvolvidas (National Research Council, 2013).

NOTA: É claro que as comunidades humanas não são perfeitas, mas quando você atende as crianças em as suas necessidades básicas, eles são menos agressivas e auto-centradas. Eles são menos preocupados com o que querem, porque eles conseguiram tudo o que queriam, quando eles precisavam, no início da vida. O ninho de desenvolvimento do bebê descrito anteriormente resulta em um corpo saudável, inteligente, em um cérebro funcionando bem, com alta inteligência emocional e autocontrole. Essas crianças serão socialmente mais qualificadas e empáticas para com os outros. Tudo isso faz com que conviver com os outros seja muito mais fácil.

Referências
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NOTA em premissas básicas: Quando escrevo sobre paternidade, eu assumo a importância do nicho de desenvolvimento evoluiu (EDN) para levantar os bebês humanos (que inicialmente surgiram mais de 30 milhões de anos atrás, com o surgimento dos mamíferos sociais e foi ligeiramente alterado entre humanos grupos com base em pesquisa antropológica).
A EDN é a base que eu uso para determinar o que promove a saúde humana ideal, bem-estar e da moralidade compassivo. O nicho inclui pelo menos o seguinte: a amamentação iniciou-infantil por vários anos, toque quase constante, capacidade de resposta às necessidades para a criança não ficar angustiado, companheirismo brincalhão, vários cuidadores adultos, o apoio social positivo, eo parto natural.

Todas essas características estão ligadas à saúde em estudos de mamíferos e humanos (ver Narvaez, Panksepp, Schore & Gleason, 2013, para uma revisão). Assim, afasta-se a linha de base EDN são arriscadas. Meus comentários e mensagens originam-se destas premissas básicas.

Voltando a velha polêmica sobre a influência dos jogos violentos, surgiu um artigo interessante do Dartmouth College. O artigo sugere que adolescentes que jogam jogos adultos que glorificam o risco e comportamento anti-social tendem a se envolver em outros comportamentos além da agressividade, como uso de alcool, fumo, delinquência e sexo de risco. Tais jogos, especialmente aqueles como o Grand Theft Auto ou ManHunt, afetariam a visão que os adolescentes tem de si mesmos.

Supondo que os avatares que criamos em jogos tem muito mais envolvimento nosso do que outros tipos de personagem, a idéia me parece fazer sentido. O modelo escolhido afetaria as atitudes e valores, incentivando os jogadores a serem mais rebeldes e buscarem emoção.

Gostei especialmente da frase de Kurt Vonnegut “Nós somos o que fingimos ser, assim devemos ser especialmente cuidadosos sobre o que fingimos ser”. O que para mim bate com o discurso inserido em um jogo e o seu potencial retórico. Assim como o cinema ou a literatura jogos estão surgindo com suas próprias concepções de “herói” com a diferença  que nos jogos o grau de imersão é bem maior, afinal o jogador realmente se torna o personagem.

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O que me leva a pensar se os modelos de “herói” seriam uma forma eficaz de influenciar atitudes e, em última instância, o comportamento. Nesse aspecto outro texto interessante sugere 6 motivos pelos quais o desenho Meninas Superpoderosas poderiam ter substituído sua aula de estudos de gênero. Mostrando várias situaçòes em que o desenho quebrou paradigmas de gênero, especialmente os relacionados ao feminino. Possivelmente de uma forma mais suave e eficaz que o pessoal de estudos de gênero conseguiria imaginar. Mas isso é algo a ser confirmado, seria um tema de pesquisa interessante. O que ressalta a importância de observarmos os diversos discursos que estão contidos em desenhos, livros ou jogos. Sendo que esse último campo já observado com especial atenção pelo Ian Bogost.

E voltando à relação entre comportamento de risco e jogos, obviamente essa tendência também é muito agravada pela conduta de certos pais. Um artigo de um vendedor descreveu bem seu incômodo em vender jogos a crianças que estavam abaixo da idade adequada para um determinado jogo, sob a benção omissa de pais incompetentes.

Li uma pesquisa que me levou a mais uma das dezenas de reflexões que pais devem fazer de vez em quando. Uma pesquisa citada no NYTimes relata alguns fatos interessantes sobre a adolescência. Muitos dos pré-adolescentes que eram populares, a “galera bacana” aos 12 ou 13 anos que fazia coisas diferentes, andava com gente mais velha e era motivo de admiração e inveja de outros jovens acaba se perdendo nos anos seguintes. Sim, isso bate fundo naqueles que conseguem se imaginar em naqueles filmes americanos sobre escola.

Segundo a pesquisa muitos dos chamam a atenção conseguem isso justamente porque se esforçam para chamar a atenção. Eles se arriscam, parecem mais maduros que a média mas sua popularidade simplesmente desaba enquanto os anos passam. Muitos acabam caindo no alcoolismo, vicio em drogas, crimes etc. Em vários casos seu rápido crescimento estaciona depois de algum tempo.

O Sr. Brown da Universidade de Winsconsin-Madison descreve isso como um comportamento “Pseudomaduro”, uma explicação mais aprofundada do conceito pode ser encontrada aqui. Uma das hipóteses é que na busca de status social esses adolescentes perdem uma parte crítica do processo de amadurecimento. E essa conta acaba sendo cobrada no futuro. Imagino que isso descreve bem porque tantas crianças celebridades simplesmente caem na decadência ou se tornam adultos problemáticos com o passar dos anos.

A busca e manutenção de status social seria um fardo pesado para o qual eles simplesmente não estão emocionalmente capacitados para lidar. Além de ser um objetivo de vida tão desumano quanto idiota, mas essa é outra história e algo mais complexo que não vem ao caso. Assim, muitos acabam gravitando em torno de alguém mais velho. E que adolescente gosta de andar com alguém 3 ou 4 anos mais novo, justamente os mais problemáticos. O que cria um círculo vicioso.

Obviamente o estudo não é determinístico, nem todo o adolescente popular vai se tornar um perdedor nos anos seguintes, mas esse pode ser um sinal de alerta importante a ser considerado. É importante que pais não tentem queimar etapas com os filhos ou incentivar eles a assumir uma maturidade de fachada onde roupas de adulto importam mais que tomada de decisões, solução de problemas e noção de consequência. Mais vale uma criança com fantasia de batman que sabe o que é fracasso do que um minime de descolado que está sendo amamentado com leite moça até os 12 anos de idade.

Durante o período das férias li na Revista XXI da Embrapa uma entrevista com Luisa Massarani. Em 2014 ela assumiu a direção da Red-POP ( Red de Popularización de La Ciencia y la Tecnología en America Latina y Caribe).

A entrevista já estava bem legal quando ela foi questionada sobre a tendência dos museus se tornarem mais interativos. Se com a interatividade não existe o risco das crianças perceberem o museu como uma diversão, um momento de lazer. Eu até achei a pergunta pertinente, afinal eu mesmo tenho minhas ressalvas ao edutainment. Que é muito usado em museus e mostras científicas para crianças.

Porém a resposta foi ainda melhor, essencialmente foi algo como: “E daí? Isso é grave?”. Na resposta ela demonstrou perceber que o aprendizado não ocorre de forma linear e mostrou seu conhecimento da literatura técnica sobre aprendizagem que ressalta a importância da brincadeira dentro do processo de aprendizagem. Eu também gostei porque a resposta dela, para mim, resgatou um dos pontos importantes do pensamento científico. Ciência não é título, livro, cargo ou salamaleque retórico, mas sim um método e uma atitude questionadora em relação ao que está à nossa volta. Repare que questionar é diferente de negar. Em suma, divulgação da ciência seria algo mais simples que juntar quantidades quilométricas de informação, também seria algo mais efetivo. Me baseando em Luísa Massarani a divulgação de ciência seria algo como um minhocário. Nosso trabalho não é ensinar, não no sentido tradicional de dizer paraos estudantes o que é certo, mas de colocar minhocas na cabeça deles em número suficiente para que pensem por si mesmos. É um trabalho lento mas essencial.

E nesse aspecto ainda há muito a ser feito. Ela falou sobre a questão de como a grande mídia divulga a ciência e observou como há mais destaque para pesquisas no exterior do que brasileiras. Creio que isso acontece também porque vários jornais preferem reproduzir o conteúdo de agências estrangeiras a garimpar material nacional.

Outro que eu acredito que exista é que os jornais acabam por reproduzir um entendimento superficial que o senso comum tem sobra a ciência. Evitando mostrar as limitaçòes que são inerentes a qualquer pesquisa. Como as variáveis, as margens de erro e outras possibilidades apresentadas. Como ela comentou: a ciência não é estática não é um pacote fechado, alguns entendem a controvérsia ou a existência de diferentes correntes dentro do comunidade científica como uma fraqueza. Quando a realidade é o contrário. A controvérsia é um elemento essencial no processo de construção do conhecimento científico. Como já vi em algumas apresentaçòes de trabalho na Embrapa a pesquisa é feita em grande parte na base da martelada, e por seus pares.

Se você comparar as conclusões finais de um trabalho científico com o título de uma matéria de jornal as diferenças são surpreendentes. Geralmente uma boa pesquisa termina com algo como: “Com base nos dados x observados e considerando as condições y estabelecidas é possivel supor que, nesse caso, A possa ser relacionado a B. Porém mais estudos são necessários para confirmar essa correlação ou se ela ocorre em outras situações. Já matérias de jornal começam com algo como: Cientistas comprovam em definitivo: A provoca B.

O que só mostra como é necessária a divulgação da ciência, para todos os públicos. Espero que sejamos cada vez mais eficientes nesse longo trabalho de construir minhocários e colocar as pessoas para pensar.

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