You are currently browsing the tag archive for the ‘comportamento’ tag.

aaeaaqaaaaaaaaj0aaaajgriyti3zjuwltc5ywitnge3yi04nddiltljzjy0mwmxmgrkzg

fonte: Linkedin

Graças ao avanço da tecnologia o prefixo multi tornou-se algo desejado em diversas atividades: multimídia, multidisciplinar, multitarefa. Dentre esses, o termo multitarefa significa  a habilidade de se fazer várias atividades ao mesmo tempo ou alternar entre tarefas de maneira rápida e sem dificuldade. Algo bem de acordo com as características dos computadores, tablets e cia que tanto amamos. Com eles é possível trabalhar com diferentes programas acionados ao mesmo tempo podemos pular rapidamente de uma janela (e atividade) para outra. Assim, a capacidade de ser multitarefa, também conhecida com multitasking, se você gostar de termos corporativos modernosos, passou  a ser reconhecida como uma indício de profissionalismo, agilidade mental e produtividade. O problema é que a ciência não concorda muito com a idéia ou, pelo menos, vêm descobrindo que nada vem de graça.

Essa ciência e suas descobertas desagradáveis

Além da tecnologia outra coisa que avançou muito foram as neurociências, o estudo do funcionamento do cérebro humano. Em conjunto com a psicologia estamos desenvolvendo um novo entendimento sobre a forma como nosso cérebro funciona, como otimizar seu uso e, nesse caso, como evitar algumas armadilhas.

Um estudo da Universidade de Stanford com mais de 100 pessoas observou que somos mais produtivos lidando com uma atividade por vez do que com atividades múltiplas. Alguns especialistas consideram que a perda de produtividade seria algo em torno de 40%. Enquanto outro estudo, da Universidade de Londres, observou que estudantes que fizeram múltiplas tarefas durante testes cognitivos tiveram resultados semelhantes a usuários de maconha.  Seu usarmos aquele velho indicador de inteligência chamado QI, a perda foi em torno de 15 pontos. Isso significa que homens adultos ficaram com resultados próximos aos de crianças de 8 anos de idade. Essa seria uma boa hipótese para explicar a maturidade de muitas discussões que vemos na internet atualmente. O que mais essas pessoas estariam fazendo enquanto comentavam? Imagine a qualidade das outras coisas que elas estavam fazendo? Como o trabalho.

O que realmente acontece

Para o muitos neurocientistas, a idéia de multitasking seria uma falácia. O que o cérebro faz, na verdade, é trocar de uma atividade para outra e não fazer mais de uma ao mesmo tempo e mesmo isso têm seu preço. Existem obviamente o caso de atividades físicas que temos muita prática e acabam requerendo muito pouco processamento do cérebro, elas estariam muito introjetadas e assim, acabamos “liberando espaço” para fazer outras coisas. Como conversar e caminhar por um caminho conhecido. Porém mesmos nesses casos pode ocorrer uma perda de performance. Por exemplo, andar conversando aumenta as chances da pessoa se perder ou tropeçar e as campanhas contra usar o celular e dirigir são consequência da péssima combinação entre celular (praticamente uma máquina de distração) e celular, os acidentes estão aí como prova, o risco de acidente aumenta em 4 vezes, ou 200% se preferir porcentagem.

Os danos, de curto e longo prazo

Assim, a nossa obsessao em fazer coisas ao mesmo tempo poderia estar reduzindo nossa produtividade em até 40%. O processo de fazer várias coisas ao mesmo tempo seria algo desgastante e a perda do “fio da meada” na mudança entre uma tarefa e outras aumenta a chance de erro. E ambos, o desgastes e a possibilidade de erro, provavelmente serão agravado depois de muito tempo de atividade. Assim, depois de muito tempo você não apenas vai estar mais exausto como sua chance de fazer besteira aumenta.

Ainda é cedo para dizer se o trabalho multitarefa realmente é capaz de danificar o nosso cérebro, isso vai demandar pesquisas de longo prazo, eventualmente na casa das décadas. Afinal, outra hipótese possível é que existam tipos de formação, ou má-formação, que predisponham algumas pessoas a serem multitarefa. Mas hoje em dia já é aceito que a forma como usamos nosso cérebro interfere em sua estrututra. A muito grosso modo, pode se dizer que o que fazemos muito cria mais sinapses em nosso cérebro. Sejam bons ou mais hábitos. O Neurocientista Kep Kee Loh acredita que o modo como interagimos com os dispositivos eletrônicos, como computadores, celulares etc podem estar mudando a forma como pensamos e essas mudanças estão ocorrendo no nível da estrutura do cérebro. Nesse ponto, pesquisadores da University of Sussex  compararam cérebros  através de ressonância magnética. E observaram que as pessoas que fazem ações multitarefa com muita frequência tem menos densidade cerebral em partes do cérebro responsáveis por empatia e controle emocional e cognitivo. Imagino o que o futuro dos nativos digitais pode nos reservar em algumas décadas.

Um exemplo violento

8815998_origAcho que o melhor exemplo de como o cérebro não está estruturado para tarefas múltiplas pode ser visto nas situações violentas, especialmente as de vida ou morte. A violência entre seres humanos, o combate ,cria um nível tensão que pode produzir danos severos e duradouros à mente humana. No livro On Combat observa-se que as duas guerras mundiais e a guerra da Coréia tiveram mais gente em hospitais psiquiátricos do que mortos em combate.

Nessa situação limite o cérebro entra no que os autores chamam de modo de sobrevivência. Segundo a teoria do cérebro triuno, nosso cérebro réptil  assume o controle e simplesmente passa por cima do emocional e do racional. Só a sobrevivência vai importar, seja ela obtida por fuga a todo custo ou luta impiedosa. E coordenar atividades múltiplas nessa hora é algo tão supérfluo que perder o controle da bexiga e dos intestinos  (a.k.a se borrar todo) é algo considerado perfeitamente normal dentro da situação. Se isso acontece no resto do corpo não seria estranho esperar algo diferente no cérebro.

Outro efeito que a tensão excessiva provoca é a perda de habilidades complexas. Tanto que é esperado de pilotos, especialmente os militares, a capacidade de controle emocional, mesmo em situações de tensão. Para evitar que o cérebro réptil entre em ação e transforme o manche em uma alavanca inútil e os instrumentos em relogios ininteligíveis.

O outro efeito da tensão excessiva é que as capacidades do cérebro ficam tão focadas, e limitadas, que até alterações de percepção chegam o ocorrer. Segundo os autores de On Combat policiais e soldados envolvidos em tiroteios relatam diversas alterações como exclusão auditiva, a perda da percepção de som; visão de túnel, perda da visão periférica; distorção temporal, observar as coisas ocorrendo em câmera lenta; sensações de dor reduzidas; ou mesmo aumento da percepção sonora. A hipótese em que nas situações limite o cérebro desligue certas funções que seriam não essenciais ou mesmo aumente outras para a garantir a sobrevivência naquele momento.

Um singela defesa

É claro que eventualmente precisamos fazer mais de alguma coisa ao mesmo tempo, é um fato. E várias atividades que requerem pouca atenção nossa podem ser feitas em conjunto, como ouvir música e escreve (como eu estou fazendo no momento em que escrevo), caminhar e conversar. Enfim, como observado por Paul Bloom em sua pequena defesa do trabalho multitarefa é que nem toda a atividade requer 100% de concentração. Sim, pousar um avião ou fazer cirurgia demandam toda a atenção do operador, mas isso não ocorre com todas as atividades que fazemos. E algumas são tão chatas que realmente desejamos fazer alguma outra coisa ao mesmo tempo para nos distrairmos e conseguirmos terminar aquilo, como ouvir música no trabalho.  A multitarefa nesse caso seria uma forma de tornar o momento mais suportável. 

De qualquer modo, esses achados sugerem que a sociedade construiu uma situação que não é exatamente saudável para o ser humano. Talvez mudar a estrutura social e econômica que demanda tanto trabalho multitarefa seja uma forma melhorar esse quadro. Algo semelhante ao que já foi observado com os horários das escolas. É a ciência levando a conclusão agora desagradáveis mas que podem levar a uma sensível melhora no futuro. E com os eventuais ganhos de produtividade até a economia sairia ganhando.

Detalhe da caixa do jogo

Imagens: Galapagos Jogos

Dixit é um jogo de cartas, tabuleiro e também passatempo divertido, recomendado a partir de 8 anos de idade. Como já havia feito antes, eu resolvi ensina-lo para o infante. O que também foi um desafio já que ele continua bem fora da faixa de idade recomendada, por volta de uns 4 anos a menos. Mas para quem conseguiu algum sucesso com o King Of Tokyo, um jogo com mecânica mais simples prometia ser um passeio. Só que logo eu descobri estar redondamente enganado, de uma forma que apenas as teorias de aprendizagem poderiam explicar.

O jogo

Essencialmente, esse é um jogo de imaginação onde um jogador assume o papel de contador de histórias e os outros devem descobrir qual a sua carta. Foi desenvolvido por Jean-Louis Roubira, com belíssimas artes de Marie Cardouat e editado no Brasil pela Galápagos Jogos. Segundo a Ludoteca BCG, o jogo envolve regras de narração de histórias, votação e algumas ações simultâneas. O aprendizado das regras, como divisão das cartas, ordem de jogadas e contagem de pontos é razoavelmente simples. O que deixa a curva de aprendizagem do jogo curta e o torna um excelente jogo de entrada: uma opção para não nerds gente que não costuma a jogar jogos de tabuleiro. Essa parte foi razoavelmente fácil.

content_jogo-de-tabuleiro-dixit-cartas

84 cartas e lindas ilustrações.

O objetivo principal do jogador é descobrir qual é a carta do narrador, que vai ser misturada às cartas dos outros jogadores. Enquanto o objetivo do narrador é escolher uma opção que não seja fácil demais para que todos votem sua carta, nem difícil demais para que ninguém a encontre. Esse “equilíbrio” parece ser algo simples, mas a experiência mostra que não é necessariamente fácil.

Como observado pelo Eduardo, comentando sobre a experiência de jogar o Dixit, quem está jogando influi muito na experiência de jogo. Quanto mais experiência em comum você tenha com os outros jogadores mais referências você terá para entender as escolhas dos outros jogadores e formular estratégias. Sendo esse um dos pontos que torna a experiência divertida. Porém,  devido à idade do infante, é óbvio que ele é seria pessoa com menos vocabulário e referências da partida, algo que com certeza atrapalha, mas que poderia ser equilibrado com as escolhas dos outros jogadores (eu e a mãe, no caso).

Gosto muito do jogo, das minhas ressalvas deixo apenas o placar. Considero ele bonito mas pouco prático, a idéia de fazer um caminho pode criar confusões na contagem de pontos, especialmente em caso de empate. O que é agravado pelos peões em forma de coelho que podem cair com uma certa facilidade.

A experiência

Ainda assim, porca começou a torcer o rabo devido à algumas sutilezas que fazem a diferença durante a partida. Na hora da votação é preciso que todos os jogadores votem sua escolha de forma simultânea. Afinal, a escolha de um jogador pode influir na de outro. Assim, todos votarem ao mesmo tempo mantém o jogo equilibrado. Porém, frequentemente o infante se empolgava e já dizia sua escolha assim que as cartas eram expostas. O que prejudicava ele e influía na decisão de todos os outros.

O outro ponto é que ele parecia não conseguir ir além do óbvio. Até acho que ele entendeu como que era preciso fazer uma combinação de palavra e carta equilibrada para que nem todo mundo descobrisse. Mas acho que ele não sabia como fazer isso.  mas tenho outras hipóteses para explicar o que acontecia.

As Teorias de Piaget

A explicação para seu desempenho também pode ser encontrada nos famosos estágios de desenvolvimento cognitivo de Piaget. Como está entre os 2 e 7  anos nosso herói está na chamada fase pré-operatória: ele já consegue se comunicar bem, mas seu raciocínio ainda é muito ligado à intuição e baseado no que ele consegue perceber do ambiente. Essa fase é muito caracterizada pelo egocentrismo e a consequente dificuldade de entender que existem outros aspectos da realidade diferentes dos dele e além do que é imediatamente percebido. O ponto onde entra a tal da abstração. O que, no caso do jogo, seria imaginar qual carta o narrador teria escolhido ou mesmo perceber que os outros jogadores saberem da escolha dele influi na jogada dos outros.

Como observado por Anaí Peña (Slide 29), quando começa a sair do egocentrismo a criança passa a entender que outros podem ter perspectivas diferentes e, consequentemente, desenvolve uma estrutura cognitiva para lidar com isso, uma série de regras complexas para entender o que está acontecendo. E algumas dessas regras serão desenvolvidas mais tarde, no estágio operatório-concreto que só começa em torno dos 7 anos. O que ajuda a explicar porque Dixit é recomendado apenas depois dos 8. Ainda que uma criança mais nova entenda as regras básicas de escolher cartas, propor uma frase e votar. Enquanto outras “sutilezas cognitivas” podem simplesmente estão além do seu estágio de desenvolvimento. Ainda assim, as fases de Piaget não são compartimentos estanques, eles variam e acordo com a pessoa, estímulos e outras variáveis.

Assim, apesar das regras aparentemente mais simples, a partida não foi divertido quanto a experiência com King of Tokyo, que ele ainda adora jogar e ganha de vez em quando. No caso do Dixit, ele obviamente percebia que faltava algo para melhorar seu desempenho mas não sabia dizer exatamente o quê era. Talvez seja uma questão da adequar o nível de dificuldade escolhendo palavras mais simples ou mesmo tentar mais algumas vezes para observar se ele consegue avançar. Talvez seja simplesmente uma questão de melhorar minha habilidade ao apresentar o jogo compensando o que ele ainda não entendeu para que tenha uma experiência satisfatória e continue interessado. Isso funcionou da outra vez.

Conclusões

Ainda assim, recomendo o jogo. É o típico party game, jogo para festa, uma oportunidade excelente para estreitar laços, o que o torna interessante para famílias e grupos de amigos. E como um jogo de entrada, quando se quer apresentar jogos de tabuleiro sem deixar as pessoas horrorizadas e entendiadas com uma longa explicação de regras. Eu adoraria testá-lo em evento de integração de empresas e testar suas expansões.

De qualquer modo, o que se aprende é mais importante do que o que se ensina. Existem momentos certos para se aprender e é preciso respeitar o ritmo de aprendizagem de cada um. Queimar etapas ou apertar o passo mais que o devido traz mais estrago do que ganhos, como já observado em experiências anteriores. Mas descobri um outro jogo bem mais adequado para idade dele que ainda vai ser tópico para outra experiência.

 

o-senhor-das-moscas1

Uma referência ao livro “O Senhor das moscas” que me parece estranhamente adequada ao assunto.
fonte: A Taberna

Para um interessado por educação e jogos, entender a diferença entre a competição saudável e a nociva, também conhecida como guerra é algo essencial e, ao mesmo tempo, um enigma. O que leva um ato saudável a se transformar no desejo de destruir o outro? Entender esse processo é algo importante, afinal, isso acontece com uma certa frequência, qualquer leitor de jornal e usuário de redes sociais vê isso ocorrendo todo o dia.

Para mim é difícil entender esse processo de mudança: como atividades inicialmente pacíficas descambam para a guerra e porque isso acontece com uma certa facilidade?  Se tomarmos a internet como exemplo, a maioria das argumentações tem como objetivo produzir dano ou reafirmar uma posição, somente isso. E as brigas de torcida então? Como fatos ocorridos num campo de futebol, jogado por profissionais  se tornam o catalizador de violência que envolve multidões? Em que ponto uma discordância saudável ou um simples esporte se torna uma competição tão ferrenha que pessoas praticamente entram em conflitos  tribais?

Jogos, Debates e a tal da Guerra

6e1efa9e_thumb25255b225255d

Propaganda anti-japonesa da segunda guerra mundial. Postura de primata, pele amarela, estuprador, arma mão, sorriso cruel e olhos estranhos. Uma forma de criar uma imagem desumana do inimigo.
fonte: Kid Bentinho

Para deixar as coisas mais claras é preciso diferenciar um pouco os conceitos. Eu gosto muito da definição do Rapoport em “Guerras, Jogos e Debates”.  Nos jogos um bom adversário e o respeito às regras são essenciais. Num jogo a vitória sobre um adversário fácil não tem brilho é justamente a dificuldade que torna a partida interessante, divertida e traz algum mérito. A mesma coisa acontece em debates, onde uma pessoa tenta convencer outra de sua posição. Ambas exigem astúcia, habilidade, inteligência, mas também a capacidade de entender a posição do adversário e seu pensamento. O que também levaria a ter empatia por esse e respeito à sua posição do adversário. Enquanto na guerra, o adversário é um obstáculo a ser destruído, o objetivo da guerra é causar dano, por qualquer modo possível, até a destruição do adversário. Nesse aspecto a guerra está sendo vista de seu ponto de vista essencial sem entrar no mérito das diversas variações do termo guerra. Também é preciso considerar que para se chegar à esse estado é preciso perder a empatia com o outro, desumanizar o inimigo é um dos atos padrão da propaganda de guerra.

O experimento de Sherif

Encontrei uma luz sobre o assunto em um artigo do Dr. Peter Gray  analisando um famoso experimento sobre conflitos e resolução de conflitos me ajudou a entender melhor como esse processo ocorre. Ele levantou algumas questões interessantes acerca dos aspectos saudáveis e os não tão saudáveis da competição. Uma preocupação importante para quem quer trabalhar com jogos e que já foi assunto por aqui anos atrás. E que vai ser apresentado abaixo parte tradução, parte como resenha descuidada.

O estudo foi realizado nos anos 50 em Oklahoma sendo possível por causa dos padrões de ética de pesquisa de época. Porque eu duvido que você deixaria seu filho participar desse experimento hoje em dia.  O estudo envolvia meninos de 11 e 12 anos que participariam de um acampamento de verão e seguiu três fases.

  1. dividir os garotos aleatóriamente em dois grupos distintos, dormindo em diferentes partes do campo, com atividades e músicas diferentes para que cada grupo desenvolvesse sua própria identidade de grupo.
  2. criar condições planejadas para induzir hostilidades entre os dois grupos. Os garotos não sabiam que participavam de um experimento, eles achavam que estavam participando de um acampamento normal

  3. uma vez que os grupos estivesse suficientemente hostis seria tentados vários métodos para reduzir a hostilidade.

Considerado um clássico, os resultados mostraram que a hostilidade poderia ser reduzida através do estabelecimento de objetivos comuns, desejados por ambos os grupos e que poderiam ser melhor obtidos através de cooperação. Por exemplo, os pesquisadores criaram uma falha no suprimento de água do campo. Para resolver essa crises os grupos aceitaram trabalhar em grupo e juntos exploraram a linha de água até encontrar o problema. Com essa e outras práticas as hostilidades entre os grupos foram reduzidas e no final já haviam várias amizades entre membros de grupos diferentes que surgiram de iniciativa deles.

Se o foco experimento original era pesquisar meios de reduzir a hostilidade o Dr. Gray faz uma proposta interessante ao olhar para o outro lado, os métodos utilizados para induzi-la, algo pouco discutido. Na verdade os procedimentos para isso foram razoavelmente simples. Quando os grupos foram divididos os participantes foram convidados a competir em um torneio que envolve uma série de jogos competitivos, com a equipe de adultos do campo atuando com juízes. Os vencedores recebiam prêmios e pontos eram marcados para seus grupos. E aí começam as hostilidades reais.

lordoftheflies2

Cena do filme “O Senhor das Moscas” agora o aspecto tribal ficou mais claro, não?

À medida que o torneio avançava os grupos se tornavam mais antagônicos. O fair play inicial logo começou a mudar para provocações, acusações de roubo nas partidas e roubo como retaliação. A hostilidade se espalhou pelo campo dentro e fora do torneio, e mesmo que o perfil dos garotos em ambos os grupos fosse parecido (brancos, protestantes e de classe média e eles tenham sido aleatoriamente eles passaram a ver os meninos do grupo oposto como gente muito diferente deles, essencialmente traidores sujos que mereciam uma lição. Brigas físicas ocorreram em diversas ocasiões, ataques ao alojamento do grupo adversário e alguns garotos começaram a se armar com pedras e se recusar a comer no mesmo refeitório que o outro grupo. E quando isso acontecia tensão e violência se tornavam bem prováveis, com o risco de brigas grupais no refeitório. O que começou como um torneio esportivo cada vez mais se tornava em algo parecido com duas tribos em guerra. E tudo criado por um torneio esportivo formal.

O Brincar

Agora, vamos deixar o experimento de lado e pensar com pouco sobre como garotos geralmente brincam. E onde o Dr. Gray aproveitou para diferenciar a brincadeira do esporte formal, com suas regras, prêmios e etc.

Muitas das brincadeiras de garotos envolvem batalhas, encenadas, claro. Em alguns casos essas batalhas acontecem puramente no reino da fantasia. Os meninos criam suas cenas de batalha, decidem quem vai fazer qual papel, quem é ferido, morre ou ressuscita. Algumas pessoas, que não entendem o brincar dos meninos ,confundem esse brincar com violência e tenta impedi-lo, especialmente quando a brincadeira é mais vigorosa, empolgada, ou pela maneira um tanto áspera e caótica como eles se comportam. Sim, às vezes é difícil diferenciar quando meninos estão brincando ou brigando. Mas não é necessariamente violência, é brincadeira. Deveríamos considerar esses garotos não como guerreiros, mas como pequenos atores de improviso. Eles estão usando a imaginação para criar e atuar em histórias dramáticas e emocionantes. Brincar desse modo é não competitivo e também não violento. Não há contagem de pontos, ninguém ganha ou perde, todos estão apenas atuando em seus papéis. Também não há equipes fixas em brincadeiras desse tipo. Se este tipo de brincadeira envolve exércitos de fantasia os participantes montam os exércitos de forma diferente para cada tipo de brincadeira. Brincadeiras desse tipo não criam inimigos, pelo contrário, elas cimentam amizades.

Um aspecto dessas batalhas de fantasia é a brincadeira informal, que é retirada em esportes como o futebol, basquete e cia. Aqueles que passamos a chamar de esportes, especialmente quando jogados de modo formal, com regras, campeonatos e etc. Esses esportes também podem ser vistos como batalhas de fantasia. Existem times, territórios a serem invadidos, defendidos e conquistas a serem feitas, tudo ritualizado por regras que definem o comportamento dos jogadores.  Por “brincar de forma informal” Gray considera que essas brincadeiras ou mesmo jogos informais são totalmente organizadas pelos seus participantes sem consequências fora do contexto da brincadeira. O que importa é a diversão de todos, até a organização é algo secundário. Não há troféus, prêmios, campeonatos ou placares. Os vencedores não terão fãs nem os perdedores serão depreciados. Essas brincadeiras de guerra podem ser denominadas competitivas mas na verdade seriam, quando muito, pseudo competitivas. Pode haver torcida ou mesmo um pouco de comemoração mas no final, ninguém se importa sobre quem ganhou. Os perdedores vão para casa tão felizes quanto os pretensos vencedores. Esses jogos também reforçam amizades e evitam criar inimigos.

Formal x Informal

Se os meninos do experimento tivessem participado de jogos informais, mesmo que fossem de basquete ou cabo de guerra dificilmente haveriam as hostilidades. Sem ganhos ou perdas determinados por autoridades externas os jogadores teriam se focado mais em se divertir do que vencer. Sem juízes adultos para separar vencedores de derrotados eles poderiam ter cooperado para estabelecer regras para seus jogos e julgar de forma consensual como elas funcionariam. Eles teriam que discutir e resolver suas diferenças. Roubo e provocações, se fossem longe demais destruiriam a diversão e a própria razão de ser da brincadeira. Assim, quem não estivesse se divertindo simplesmente sairia e assim o único jeito de manter a brincadeira acontecendo seria brincar de modo a garantir que o máximo de garotos se divertisse. E crianças sabem como fazer isso.

Uma experiência pessoal

Aqui, eu (o autor) atesto vi algo assim ocorrer ao observar à distância meu filho e seus colegas de escola brincando. Num certo momento meu filho ficou cansado e não conseguia mais correr atrás dos colegas. Eu já estava me preparando para entrar no meio e dar uma deixa para ele sair e descansar um pouco sem parecer que estava desistindo. Afinal eu sou um adulto competitivo, masculino, hétero, mais ou menos branco, o mal encarnado em forma de gente e no fundo não queria que meu filho desistisse de brincar. Mas, para minha surpresa, um de seus colegas simplesmente se aproximou e disse para ele: “Ok, você me pega e a gente continua”. E assim o novo pegador saiu correndo atrás dos outros e deu alguns segundos para meu filho recuperar o fôlego, sem interromper a brincadeira de todos. Eles arranjaram uma excelente solução e o objetivo deles de continuar brincando foi cumprido com muito mais fair play e eficiência que o adulto aqui, agindo no papel de lei, agente regulador ou Estado, poderia ter inventado.

Conclusão

Voltando ao Dr. Gray, ele acredita que como esses jogos informais acabam envolvendo mais cooperação, seria razoável supor que tais jogos teriam tornado os grupos mais próximos. Batalhas de fantasia e esportes informais são brincadeira pura e esse brincar cria amizades e não inimigos. Enquanto os esportes formais e seus torneios estão fora do que seria considerado brincar livre porque são controlados por entidades externas, nós adultos. E tais jogos têm consequências claras fora do contexto do jogo, o que altera totalmente a atitude dos jogadores.

Assim, os esportes formais ocupam um espaço entre a brincadeira e a realidade e, dependendo de uma vasta gama de fatores, um jogo formal se equilibra entre o real e o fantasioso. Quando esse equilíbrio se inclina demasiadamente para a realidade uma derrota torna-se uma derrota real e os derrotados passam a ver os competidores como inimigos reais. O estudo de Sherif aparentemente encontrou uma forma de transformar esportes formais em estopins para batalhas reais. Ter consciência desses gatilhos, especialmente de como evitá-los é algo importante para manter saudáveis quaisquer experiências de aprendizagem que envolvam algum tipo competição.

Bibliografia

Gray, P. (2009) A New Look at the Classic Robbers Cave Experiment: . (online) disponível em http//www.psychologytoday.com/blog/freedom-learn/200912/new-look-the-classic-robbers-cave-experiment (acesso janeiro/2017)

Rapoport, A. (1974) Fights, Games, and Debates. University of Michigan Press

gerenciamento-de-projetos
No final de 2016 foi aprovado o projeto Popularizando Conhecimentos sobre sobre os Recursos Naturais do Bioma Cerrado através do Jogo Educativo Ambiental “Desafio no Cerrado”. Encarnações anteriores desse projeto foram temas dos artigos “O fracasso também ensina” e “E a sorte está lançada, sem contar com a sorte“. Enfim, é algo que venho trabalhando há algum tempo e agora finalmente começa a vir à luz.

E ontem tive duas reuniões para apresentar o jogo. (Sim, o jogo que tanto falo que esse citado no título do projeto) inicialmente para colegas de trabalho que fazem parte do projeto e estão na parte logística e estratégica do trabalho e futuros participantes, como facilitadores do jogo nas escolas que vão fazer o operacional, o chão de fábrica do trabalho e eventuais parceiros externos que tem interesse em apoiar o projeto.

Depois de tanto tempo trabalhando com o público-alvo, adolescente, crianças e companhia foi interessante observar a reação de adultos e relembrar que o jogo é recomendado “a partir” dos 11 anos de idade e não “apenas para” 11 anos. Mas principalmente foi uma oportunidade para relembrar porque escolhi esse trabalho.

Apesar da equipe do projeto ter uma boa idéia do que era o jogo. Para eles era apenas mais uma ferramenta de aprendizagem que simula um ecossistema e tem algum potencial de aprendizagem a ser avaliado e não muito mais que isso.  Eles ainda não haviam participado da melhor forma de se conhecer um jogo, que é jogando. Nesse aspecto, um jogo pode ser uma excelente forma de se observar a riqueza de um trabalho multidisciplinar. Um dos participantes é um pesquisador e biólogo com larga experiência em botânica, especialmente sobre os recursos naturais do Cerrado. Enquanto outra, também pesquisadora, é psicóloga com experiência em métodos de coleta e avaliação de dados em treinamento, desenvolvimento e educação.

projeto_thumb

Sim, o trabalho multidisciplinar é legal, mas como descrito acima também tem seus riscos. Fonte: o blog Invisible Flame Light

As leituras que os dois fizeram da experiência de jogo eram absolutamente diferentes, complementares e ao mesmo tempo riquíssimas. Nosso biólogo falou que inicialmente era um esforço mental para ele “puxar o freio de mão” da visão de biólogo e aceitar que o jogo é uma simulação simplificada do  Cerrado que possa ser operada por estudantes de nível fundamental, o público-alvo. E segundo ele isso já é um esforço natural, mas ainda assim compensador ao ver que os conceitos básicos estavam presentes. Como a descrição dos corredores ecológicos ou o fato de que os buritis realmente aparecem em áreas com muita umidade como veredas e próximo aos rios. Por outro lado, nossa psicóloga observou que, o jogo funcionava como uma ambiente de aprendizagem onde os conceitos e informações sobre Cerrado e meio ambiente são operados. O que,do ponto de vista cognitivo, funcionada como a construção de um andaime, uma estrutura cognitiva na mente do estudante onde ele passa a organizar, assimilar e ser capaz de organizar as informações que ele têm ou vai passar a ter no futuro sobre esse tema. O que é proposta de aprendizagem através de jogos sob a visão das teorias cognitivistas de aprendizagem, (como a do Piaget). Ao mesmo tempo o jogador também aprende ao observar a experiência do outros jogadores interagir com eles e com os materiais do jogo (peças, peões e placares) que só fazem sentido dentro do contexto de jogo.

Mais tarde tive outra reunião, dessa vez com possíveis futuros participantes que vão atuar na aplicação nas escolas. E foi outra experiência, mas ainda assim muito rica. A experiência teórica deu lugar a prática com crianças e estudantes e a experiência de jogos em si, que é bem mais comum mas gerações mais novas. Eles imergiram mais na experiência de jogo e fizeram perguntas muito mais diretas e próximas das que iremos encontrar com os alunos. Eles também fizeram uma análise crítica do jogo, como o da primeira reunião, mas com uma forte preocupação em também manter a dinâmica do jogo funcionando, até porque esse é um elemento que também deve ser analisado. Como comentei com eles, e a literatura técnica concorda: Jogo educativo pode ser como comida saudável, pode até te fazer bem, mas o gosto for ruim ninguém vai querer comer. Algo que acontece com frequência em jogos educativos que têm um lindo conteúdo teórico embalado dentro de um jogo chato. Essa preocupação foi observada por eles que também sugeriram uma fase especial para explicar as regras. O que concordou e reforçou a idéia sugerida por nossa psicóloga de que precisamos fazer uma primeira partida como tutorial, um jogo curto com peças escolhidas para explicar as regras do jogo. Na fase inicial toda a concentração dos estudantes estará em entender as regras, só depois disso eles conseguem observar estratégias, funcionamento do ecossistema e etc. Não é possível conseguir um resultado total com apenas uma partida. O que observei em outra oportunidade. Enfim, é algo muito legal ver a mesma idéia ser proposta por fontes absolutamente diferentes e isso ainda bater com a sua própria experiência.

O outro aspecto muito legal é observar o efeito do jogo nos jogadores, independente do perfil e da reunião. Acredito que um jogo novo atua como um desequilíbrio cognitivo controlado, o que força a criação de estruturas cognitivas para assimilar essa novidade, algo corroborado por nossa psicóloga. E com a dimensão social e física de uma mesa de jogo de tabuleiro isso é aumentado, algo que ouvi num dos Game Jam que participei. Assim, o jogo atua como um “catalizador cognitivo”. As pessoas são obrigadas a aprender algo, testar e empregar no mesmo momento. O que desperta sua concentração, deixa elas mais falantes e animadas. Algo que, a meu ver, bate totalmente com a idéia de hard fun do Papert.

Se conseguirmos criar nos alunos o mesmo entusiamo que consegui observar na equipe significa que todo esse trabalho realmente valeu a pena.

eu-sei-que-nao-vai-dar-certo-oh-dia-oh-ceus-oh-azar-83657-1

Hardy, criação de anos 60
da Hanna-Barbera (atual Cartoon Network) e excelente descrição de pessimista
fonte: Palavras na Gaveta

Sim, aquele seu amigo com um urubu no ombro acha que ficou lindo e vamos explicar porque a ave chama essa atenção toda.  Para isso lá vamos nós com mais uma resenha descuidada, baseada em um artigo sugerido por minha amiga Bia Lins no Linkedin e de autoria de Morgan Housel, com o título original de “Why Does Pessimism Sound So Smart? Especially when things are so good.” que pode ser traduzido como”Porque o Pessimismo soa tão Esperto? Especialmente quando as coisas estão tão boas.”

Porque o cenário atual faz a alegria dos pessimistas

Primeiro é preciso entender, no geral as vida, a sociedade e tudo mais vão bem ou mal? Ainda mais considerando que o mundo ainda está se recuperando de uma grande recessão em 2008 e o Brasil ainda está lutando com a sua que começou em 2014. De fato, se observamos a avalanche de notícias ruins, verdadeiras ou falsas, que se espalham pela internet e outras mídias é difícil evitar a impressão que as coisas estão piorando.

Porém existem evidências de que, talvez estejamos na melhor época da humanidade, como observado em por Steven Pinker  em seu livro que afirma que, na verdade, a violência humana está em declínio. Sim, claro que o aquecimento global é um problema, a guerra na Síria e o número de assassinatos no Brasil continuam sendo problemas sérios e ainda serão por um bom tempo. Mas o ponto dele é que na análise fria dos números a violência está se tornando mais rara e menos aceitável a medida que o tempo passa.

A questão é que nossa percepção parece dizer que as coisas estão piorando. Tanto que as histórias sobre distopias e futuros apocalípticos já fazem tanto sucesso que estão dando dinheiro.   Hoje somos bombardeados por informação sobre todo o acidente ou incidente que acontece, seja ele provável improvável, distante ou próximo. No final todos os casos parecem próximos e prováveis e devemos nos proteger, em alguns casos até demais. Algo que o sociólogo alemão Ulrich Beck denominou “Sociedade de Risco”. Onde a instabilidade e a constante mudança, muitas delas provocada pelo ser humano,  e a falta de referências que caraterizam nossos tempos enfatizam essa sensação de perigo. As profissões para que existem hoje podem desaparecer em poucos anos. Querer ter um emprego e viver sua vida de forma segura sem muitas atribulações pode ser considerado um sinal de fraqueza para quem nasceu nas gerações mais novas e todo mundo deveria ser um líder arrojado que ri na cara do perigo. Existem milhares de opções para tudo mas só vale se for a melhor e tem de ser agora. É possível entender porque isso provoca tanta ansiedade e faz o consumo de medicamentos pular? Todo esse “estímulo” teria no deixado ainda mais ligados nessa questão de risco e até por uma questão de sobrevivência acredito que estamos mais acostumados a ver risco como algo a ser evitado do que gerenciado, o que seria a opção mais razoável.

Mas tem outro fator: o pessimismo é charmoso

Pelo menos é essa a hipótese  de Morgan (o autor) ao afirmar que o pessimismo parece esperto, especialmente quando os tempos não são tão ruins assim. Uma pesquisa da professora Teresa Amabile observou que críticos que fazem resenhas negativas são vistos como mais espertos do que aqueles que dão resenhas positivas sobre o mesmo livro. Só o pessimismo seria profundo enquanto o otimismo parece superficial.

O prêmio Nobel Daniel Kahneman considera que existe uma resposta evolutiva que nos faz reponder com mais força para a perda que para o ganho, o seu Nobel veio desse estudo. Outro detalhe interessante: ele não é um economista, mas um estudioso de comportamento (psicologia) aplicado à economia. Como disse Deirdre N McCloskey, historiador, escrevendo para o N.Y. Times: “Por razões que eu nunca entendi as pessoas gostam de ouvir que o mundo está indo para o inferno”.

5 razões para explicar o charme do urubu

Morgan, elenca algumas razões que observou para explicar porque o pessimismo ganha tanto destaque

1. O otimismo parece ignorar os riscos. Assim, à princípio, o pessimismo parece ser mais inteligente. O que seria uma visão equivocada de otimistas com noção. Muitos entendem que existe o risco real de desastres, recessões, guerras, pandemias etc. Mas se consideram otimistas porque se focam em processos mais longos, como carreiras, projetos e aceitam que eventualmente será preciso enfrentar os momentos ruins. O pessimista considera o evento ruim como o fim da história, o beco sem saída. Enquanto o otimista considera o evento ruim como parte de uma boa história. Pessoalmente acho que a diferença estaria na perspectiva de tempo, na resistência e, especialmente, resiliência do otimista.

2. O pessimismo mostra que nem tudo está indo na direção certa, o que ajuda a racionalizar as próprias limitações. A miséria adora companhia. Observar que coisas fora do seu controle podem ser a causa dos seus problemas e não as suas próprias decisões é um sentimento reconfortante pois alivia a sensação de responsabilidade. Assim, sutilmente o consideramos atraente. É comum naqueles pessimistas reclamões que sempre têm uma queixa a relatar e deve fazer o maior sucesso nessas igrejas que adoram culpar o diabo por tudo.

Nesse aspecto, acredito que a questão também se liga um pouco ao tema da inveja. O que me lembrou uma fala do Leandro Karnal em um Café Filosófico: Para observar quem são seus verdadeiros amigos ele sugere um “teste Heidggeriano”ótimo: Diga que está tudo bem e você está numa ótima fase e observe a reação dos outros, as sutis. Se a miséria e os problemas despertam a solidariedade e o desejo de ajudar é um tanto lógico esperar que o sucesso eventualmente desperte o efeito contrário. O que levaria a alguns possíveis avisos pessimistas de seus amigos

Por outro lado uma certa dose de pessimismo também pode ser uma fonte de reflexão para a melhoria pessoal o que se conecta com o argumento número 3, o que não é necessariamente ruim. Na verdade essa não é uma discussão de valor (pessimismo ruim x otimismo bom).

307

Autor: Carlos Ruas

3. Pessimismo requer ação enquanto o otimismo significa deixar as coisas como estão. O pessimismo ganha a nossa atenção porque geralmente envolve a tomada de ação. Enquanto o otimismo é mais “de boas” sobre manter o curso, como observado pelo foco de longo prazo do otimista descrito antes. E manter as coisas como estão é algo muito mais fácil de ser ignorado. Em termos de ganhar nossa atenção nada têm tanto apelo como um problema que deve ser resolvido. Mas, por segurança,  é preciso lembrar  que o otimismo pode ser uma desculpa para a preguiça ou auto indulgência.

4. O otimismo soa como conversa de enganador, enquanto o pessimismo soa como alguém tentando te ajudar. O que de vez em quanto acontece mesmo. Acredito que os estelionátrios são pessoas otimistas em sua capacidade de convencer suas vítimas que vão ter altos ganhos com pouco esforço, além de mestres em despertar o otimismo da vítima. Por outro lado Morgan considera o otimismo o padrão correto e observa que o pessimismo pode ser um argumento tão bom quanto qualquer outro, especialmente em torno de assuntos emocionais como dinheiro e política. O medo também vende que é uma beleza.

5. Pessimistas extrapolam tendências presentes sem considerar como os mercados se adaptam. O que é importante porque visões pessimistas frequentemente começam com um fundamento em análises racionais. Assim, o aviso parece ser tão racional quanto assustador.

Aqui precisamos entender que nosso autor é da área de economia e mercado. Tanto que em seus exemplo ele mostra uma declaração de um ambientalista, feita em 2008. Que considerava que em 2030 a China precisaria de 90 milhões de barris de petróleo por dia e, na época, a produção mundial total era de 85 milhões com poucas mudanças. E ele estava certo, o mundo ficaria sem petróleo naquele cenário. Porém, não é assim que os mercados funcionam. A falta fez o preço subir o que incentivou o desenvolvimento de novas técnicas de perfuração, como demonstrado pela descoberta do pré-sal e o expertise brasileiro em coleta de petróleo em mares profundos, e agora temos petróleo sem muito problema. Na verdade, o problema dos últimos anos foi que temos petróleo até demais e o preço despencou. O Rio de Janeiro que o diga.

Outro exemplo é a velha previsão de Malthus sobre o crescimento da população e a produção de alimentos, uma previsão que teve suas pernas quebradas com a revolução verde na agropecuária. Na qual o Brasil faz uma honrosa participação, especialmente através da Embrapa. Essa falha em considerar a capacidade de adaptação é uma causa comum para o fim da maioria das previsões pessimistas.

Conclusão

Ainda assim o autor deixa claro que é preciso ouvir os pessimistas. Como elencado no item 3, eles mostram onde é preciso agir e avisam sobre as pedras no caminho à frente. Até para voltarmos a ter razões para sermos otimistas. Nesse caso a questão não é o pessimista ser charmoso, é ele estar certo ou não.Não ignore os pessimistas, apenas não se deixe levar por eles e, de forma saudável, desconfie de suas agendas. Afinal, como sugerido no livro O Otimista Racional mesmo que os indícios específicos possam ser ruins, talvez o quadro geral seja melhor do que aparenta.

%d blogueiros gostam disto: