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Uma referência ao livro “O Senhor das moscas” que me parece estranhamente adequada ao assunto.
fonte: A Taberna

Para um interessado por educação e jogos, entender a diferença entre a competição saudável e a nociva, também conhecida como guerra é algo essencial e, ao mesmo tempo, um enigma. O que leva um ato saudável a se transformar no desejo de destruir o outro? Entender esse processo é algo importante, afinal, isso acontece com uma certa frequência, qualquer leitor de jornal e usuário de redes sociais vê isso ocorrendo todo o dia.

Para mim é difícil entender esse processo de mudança: como atividades inicialmente pacíficas descambam para a guerra e porque isso acontece com uma certa facilidade?  Se tomarmos a internet como exemplo, a maioria das argumentações tem como objetivo produzir dano ou reafirmar uma posição, somente isso. E as brigas de torcida então? Como fatos ocorridos num campo de futebol, jogado por profissionais  se tornam o catalizador de violência que envolve multidões? Em que ponto uma discordância saudável ou um simples esporte se torna uma competição tão ferrenha que pessoas praticamente entram em conflitos  tribais?

Jogos, Debates e a tal da Guerra

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Propaganda anti-japonesa da segunda guerra mundial. Postura de primata, pele amarela, estuprador, arma mão, sorriso cruel e olhos estranhos. Uma forma de criar uma imagem desumana do inimigo.
fonte: Kid Bentinho

Para deixar as coisas mais claras é preciso diferenciar um pouco os conceitos. Eu gosto muito da definição do Rapoport em “Guerras, Jogos e Debates”.  Nos jogos um bom adversário e o respeito às regras são essenciais. Num jogo a vitória sobre um adversário fácil não tem brilho é justamente a dificuldade que torna a partida interessante, divertida e traz algum mérito. A mesma coisa acontece em debates, onde uma pessoa tenta convencer outra de sua posição. Ambas exigem astúcia, habilidade, inteligência, mas também a capacidade de entender a posição do adversário e seu pensamento. O que também levaria a ter empatia por esse e respeito à sua posição do adversário. Enquanto na guerra, o adversário é um obstáculo a ser destruído, o objetivo da guerra é causar dano, por qualquer modo possível, até a destruição do adversário. Nesse aspecto a guerra está sendo vista de seu ponto de vista essencial sem entrar no mérito das diversas variações do termo guerra. Também é preciso considerar que para se chegar à esse estado é preciso perder a empatia com o outro, desumanizar o inimigo é um dos atos padrão da propaganda de guerra.

O experimento de Sherif

Encontrei uma luz sobre o assunto em um artigo do Dr. Peter Gray  analisando um famoso experimento sobre conflitos e resolução de conflitos me ajudou a entender melhor como esse processo ocorre. Ele levantou algumas questões interessantes acerca dos aspectos saudáveis e os não tão saudáveis da competição. Uma preocupação importante para quem quer trabalhar com jogos e que já foi assunto por aqui anos atrás. E que vai ser apresentado abaixo parte tradução, parte como resenha descuidada.

O estudo foi realizado nos anos 50 em Oklahoma sendo possível por causa dos padrões de ética de pesquisa de época. Porque eu duvido que você deixaria seu filho participar desse experimento hoje em dia.  O estudo envolvia meninos de 11 e 12 anos que participariam de um acampamento de verão e seguiu três fases.

  1. dividir os garotos aleatóriamente em dois grupos distintos, dormindo em diferentes partes do campo, com atividades e músicas diferentes para que cada grupo desenvolvesse sua própria identidade de grupo.
  2. criar condições planejadas para induzir hostilidades entre os dois grupos. Os garotos não sabiam que participavam de um experimento, eles achavam que estavam participando de um acampamento normal

  3. uma vez que os grupos estivesse suficientemente hostis seria tentados vários métodos para reduzir a hostilidade.

Considerado um clássico, os resultados mostraram que a hostilidade poderia ser reduzida através do estabelecimento de objetivos comuns, desejados por ambos os grupos e que poderiam ser melhor obtidos através de cooperação. Por exemplo, os pesquisadores criaram uma falha no suprimento de água do campo. Para resolver essa crises os grupos aceitaram trabalhar em grupo e juntos exploraram a linha de água até encontrar o problema. Com essa e outras práticas as hostilidades entre os grupos foram reduzidas e no final já haviam várias amizades entre membros de grupos diferentes que surgiram de iniciativa deles.

Se o foco experimento original era pesquisar meios de reduzir a hostilidade o Dr. Gray faz uma proposta interessante ao olhar para o outro lado, os métodos utilizados para induzi-la, algo pouco discutido. Na verdade os procedimentos para isso foram razoavelmente simples. Quando os grupos foram divididos os participantes foram convidados a competir em um torneio que envolve uma série de jogos competitivos, com a equipe de adultos do campo atuando com juízes. Os vencedores recebiam prêmios e pontos eram marcados para seus grupos. E aí começam as hostilidades reais.

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Cena do filme “O Senhor das Moscas” agora o aspecto tribal ficou mais claro, não?

À medida que o torneio avançava os grupos se tornavam mais antagônicos. O fair play inicial logo começou a mudar para provocações, acusações de roubo nas partidas e roubo como retaliação. A hostilidade se espalhou pelo campo dentro e fora do torneio, e mesmo que o perfil dos garotos em ambos os grupos fosse parecido (brancos, protestantes e de classe média e eles tenham sido aleatoriamente eles passaram a ver os meninos do grupo oposto como gente muito diferente deles, essencialmente traidores sujos que mereciam uma lição. Brigas físicas ocorreram em diversas ocasiões, ataques ao alojamento do grupo adversário e alguns garotos começaram a se armar com pedras e se recusar a comer no mesmo refeitório que o outro grupo. E quando isso acontecia tensão e violência se tornavam bem prováveis, com o risco de brigas grupais no refeitório. O que começou como um torneio esportivo cada vez mais se tornava em algo parecido com duas tribos em guerra. E tudo criado por um torneio esportivo formal.

O Brincar

Agora, vamos deixar o experimento de lado e pensar com pouco sobre como garotos geralmente brincam. E onde o Dr. Gray aproveitou para diferenciar a brincadeira do esporte formal, com suas regras, prêmios e etc.

Muitas das brincadeiras de garotos envolvem batalhas, encenadas, claro. Em alguns casos essas batalhas acontecem puramente no reino da fantasia. Os meninos criam suas cenas de batalha, decidem quem vai fazer qual papel, quem é ferido, morre ou ressuscita. Algumas pessoas, que não entendem o brincar dos meninos ,confundem esse brincar com violência e tenta impedi-lo, especialmente quando a brincadeira é mais vigorosa, empolgada, ou pela maneira um tanto áspera e caótica como eles se comportam. Sim, às vezes é difícil diferenciar quando meninos estão brincando ou brigando. Mas não é necessariamente violência, é brincadeira. Deveríamos considerar esses garotos não como guerreiros, mas como pequenos atores de improviso. Eles estão usando a imaginação para criar e atuar em histórias dramáticas e emocionantes. Brincar desse modo é não competitivo e também não violento. Não há contagem de pontos, ninguém ganha ou perde, todos estão apenas atuando em seus papéis. Também não há equipes fixas em brincadeiras desse tipo. Se este tipo de brincadeira envolve exércitos de fantasia os participantes montam os exércitos de forma diferente para cada tipo de brincadeira. Brincadeiras desse tipo não criam inimigos, pelo contrário, elas cimentam amizades.

Um aspecto dessas batalhas de fantasia é a brincadeira informal, que é retirada em esportes como o futebol, basquete e cia. Aqueles que passamos a chamar de esportes, especialmente quando jogados de modo formal, com regras, campeonatos e etc. Esses esportes também podem ser vistos como batalhas de fantasia. Existem times, territórios a serem invadidos, defendidos e conquistas a serem feitas, tudo ritualizado por regras que definem o comportamento dos jogadores.  Por “brincar de forma informal” Gray considera que essas brincadeiras ou mesmo jogos informais são totalmente organizadas pelos seus participantes sem consequências fora do contexto da brincadeira. O que importa é a diversão de todos, até a organização é algo secundário. Não há troféus, prêmios, campeonatos ou placares. Os vencedores não terão fãs nem os perdedores serão depreciados. Essas brincadeiras de guerra podem ser denominadas competitivas mas na verdade seriam, quando muito, pseudo competitivas. Pode haver torcida ou mesmo um pouco de comemoração mas no final, ninguém se importa sobre quem ganhou. Os perdedores vão para casa tão felizes quanto os pretensos vencedores. Esses jogos também reforçam amizades e evitam criar inimigos.

Formal x Informal

Se os meninos do experimento tivessem participado de jogos informais, mesmo que fossem de basquete ou cabo de guerra dificilmente haveriam as hostilidades. Sem ganhos ou perdas determinados por autoridades externas os jogadores teriam se focado mais em se divertir do que vencer. Sem juízes adultos para separar vencedores de derrotados eles poderiam ter cooperado para estabelecer regras para seus jogos e julgar de forma consensual como elas funcionariam. Eles teriam que discutir e resolver suas diferenças. Roubo e provocações, se fossem longe demais destruiriam a diversão e a própria razão de ser da brincadeira. Assim, quem não estivesse se divertindo simplesmente sairia e assim o único jeito de manter a brincadeira acontecendo seria brincar de modo a garantir que o máximo de garotos se divertisse. E crianças sabem como fazer isso.

Uma experiência pessoal

Aqui, eu (o autor) atesto vi algo assim ocorrer ao observar à distância meu filho e seus colegas de escola brincando. Num certo momento meu filho ficou cansado e não conseguia mais correr atrás dos colegas. Eu já estava me preparando para entrar no meio e dar uma deixa para ele sair e descansar um pouco sem parecer que estava desistindo. Afinal eu sou um adulto competitivo, masculino, hétero, mais ou menos branco, o mal encarnado em forma de gente e no fundo não queria que meu filho desistisse de brincar. Mas, para minha surpresa, um de seus colegas simplesmente se aproximou e disse para ele: “Ok, você me pega e a gente continua”. E assim o novo pegador saiu correndo atrás dos outros e deu alguns segundos para meu filho recuperar o fôlego, sem interromper a brincadeira de todos. Eles arranjaram uma excelente solução e o objetivo deles de continuar brincando foi cumprido com muito mais fair play e eficiência que o adulto aqui, agindo no papel de lei, agente regulador ou Estado, poderia ter inventado.

Conclusão

Voltando ao Dr. Gray, ele acredita que como esses jogos informais acabam envolvendo mais cooperação, seria razoável supor que tais jogos teriam tornado os grupos mais próximos. Batalhas de fantasia e esportes informais são brincadeira pura e esse brincar cria amizades e não inimigos. Enquanto os esportes formais e seus torneios estão fora do que seria considerado brincar livre porque são controlados por entidades externas, nós adultos. E tais jogos têm consequências claras fora do contexto do jogo, o que altera totalmente a atitude dos jogadores.

Assim, os esportes formais ocupam um espaço entre a brincadeira e a realidade e, dependendo de uma vasta gama de fatores, um jogo formal se equilibra entre o real e o fantasioso. Quando esse equilíbrio se inclina demasiadamente para a realidade uma derrota torna-se uma derrota real e os derrotados passam a ver os competidores como inimigos reais. O estudo de Sherif aparentemente encontrou uma forma de transformar esportes formais em estopins para batalhas reais. Ter consciência desses gatilhos, especialmente de como evitá-los é algo importante para manter saudáveis quaisquer experiências de aprendizagem que envolvam algum tipo competição.

Bibliografia

Gray, P. (2009) A New Look at the Classic Robbers Cave Experiment: . (online) disponível em http//www.psychologytoday.com/blog/freedom-learn/200912/new-look-the-classic-robbers-cave-experiment (acesso janeiro/2017)

Rapoport, A. (1974) Fights, Games, and Debates. University of Michigan Press

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fonte: VisitBritain/Britain on View | Getty Images

Recentemente li no Linkedin uma matéria sobre a abertura de uma escola para clientes de altíssima renda que vai ser aberta em São Paulo. A escola é americana e vai para o Brasil depois do sucesso da Graded School em São Paulo. Para ilustrar os custos de uma escola desse tipo: a taxa de matrícula de é 40 mil reais e as mensalidades podem ser de até 8 mil reais. Sorry periferia. O foco da matéria não foi educação, mas o mercado de luxo. Então, o foco foi maior nas instalações, matérias oferecidas e objetivos. Não seria justo exigir muita coisa em termos de pedagogia.

Por um lado, acredito que as pessoas que podem bancar esse custo devem ter direito a escolher a escola que preferirem, diversidade de opções não é necessariamente um problema. E a existência de escolas de elite não é exatamente novidade, ainda mais num país desigual como o Brasil. Na verdade, há quem considere nossas universidade públicas e gratuitas bem elitistas, como esse artigo e esse outro. Mas esse já é assunto para outro tópico.

As armadilhas

Por outro lado, além do artigo sobre as caras instalações da escola, com direito à lagosta no almoço,  alguns bons comentários deram o que pensar. Um dos raros casos em que valeu a pena ler a parte de comentários, parabéns ao Linkedin. O primeiro foi esse do José Finocchio Jr que levanta uma questão pertinente.

“Visitei uma escola de elite em moema, não tinha um único estudante negro. UM. eu disse UM. Não sou comunista muito pelo contrário, mas esse isolacionismo nunca, nem por sonho formará lideres do mundo. Vai formar sim crianças mimadas que vivem numa bolha. Graças a Deus ainda não inventaram inteligência comprada, e o menino pobre …paupérrimo super inteligente detona todas essas crianças mimadas. Não existe maior estimulante intelectual que a dificuldade. (…)”

O fenômeno da ausência de negros que ele observou não é algo incomum e uma possibilidade provável no caso dessa nova escola em São Paulo ou qualquer outra de alta renda ou mesmo de classe média. Eu mesmo tenho uma conhecida que tirou os filhos de uma escola particular porque eles eram os dois únicos alunos negros da escola, o que rendeu os problemas esperados. O que não é nada mais que um reflexo do nosso triste quadro de desigualdade e mostra como a classe social não necessariamente os protege do racismo. Talvez até os deixe ainda mais expostos, por serem poucos em determinado ambiente ou por eventualmente aparentarem estar “fora de seu devido lugar” na visão de algum racista de plantão.

O que também mostra um outro risco desse “efeito bolha”. Além do racismo observado por Finnochio há o isolamento em um ambiente uniforme, com pouca diversidade e que pode eventualmente limitar as percepções de mundo dos estudantes. Fazendo com que eles achem que “todo mundo é como a gente”. Assim a escola se tornaria uma “enlatadora de crianças” de classe mundial que vai entregar alunos com ótimas notas no PISA, toneladas de conteúdo na cabeça mas eventualmente com pouca autonomia, criatividade e bagagem emocional e/ou cultural. Coisas que também são trazidas como consequência de lidar com as diferenças e geralmente obtida fora de ambientes assépticos e 100% seguros.

Nesse aspecto mesmo as caras faculdades de elite do mundo, como Havard ou Oxford, também são mares de diversidade, com gente de todo o mundo e bolsas para manter pessoas não tão abastadas, mas provavelmente muito inteligentes, que possam contribuir com a universidade e o ambiente acadêmico. É preciso lembrar que aprendizagem está mais ligada a interação com outros seres humanos do que com as instalações da escola ou o equipamento utilizado em sala de aula. A criatividade frequentemente vêm com o contato com diferentes visões de mundo. O que explica muito certas metrópoles cosmopolitas como Nova York, Londres ou Tóquio caraterizadas por sua diversidade.

As soluções

Por outro lado, apesar de considerar o efeito bolha um risco real. Também li um belíssimo contraponto em outro comentário, de Marcia Catherine Wright, sobre a formação dela numa escola Britânica  e como a instituição evitou esse “isolamento de casta” entre seus alunos de forma magistral.

“Sou estrangeira e por isso estudei na Escola Britânica não mencionada no artigo talvez porque hoje em dia a mensalidade para os adolescentes gira em torno de RS$18mil/mês. Naquela época não seguíamos a grade brasileira porque o objetivo era oferecer a mesma formação que era oferecida na Europa a quem estava no Brasil. Alem de filhos de diplomatas, haviam filhos de expatriados e bolsas pra gringinhos cujos pais não podiam pagar. Afinal era uma extensão da cultura da comunidade o que incluiria a 1a igreja protestante, a Anglicana, casa de repouso pros gringos idosos, etc. Ser sócio-responsável e abraçar causas passando o dia com outras crianças atendidas por projetos sociais era prática comum e regular pra não criar uma geração alienada mesmo que num país onde do lado de fora da escola, amigos não faziam isso. Muitos de meus colegas, como eu, até hoje são voluntários regulares e é com alívio que não mais somos criticados por sermos diferentes e nos misturarmos naturalmente com “subordinados”, “gentalha” e outros termos que ouvíamos dos brasileiros que quando não racistas (tínhamos africanos, orientais etc na classe) discriminam outros seres humanos por sua condição sócio-econômica, optam pelo assistencialismo sem envolvimento psico-emocional (doações em dinheiro, roupas, brinquedos, etc) ao invés de compartilhar conhecimento e afeto e transformar vidas, como hoje vemos virou “chic” abrir ou fazer parte de Ongs. Por mim, pouco importa em qual berço o voluntário nasceu(porque isso tb é discriminação), sendo relevante o fato de ao invés de reclamar, coloque o coletivo acima de ideologias e interesses pessoais e priorize seu tempo para compartilhar valor com quer “menos favorecido” trabalhando pro bono, moldando a sociedade desejada por todos. Isso se aprende em casa e se reforça na escola, ainda pequeno mas requer não “propostas” e sim que seja um valor cultural , uma prática considerada natural. Aqui quando o gringo faz isso porque tá na veia dele – permanentemente ou periodicamente enquanto em casa come lagosta (e isso é assunto privado, outra coisa que se respeita)- é chamado de “louco” só porque o faz com amor.”

Conclusão

Sim, o risco da bolha existe e acho que parte da classe média e alta no Brasil sofre disso. Mas, como demonstrado pela Márcia, isso está longe de ser inevitável. Como observado na Escola Britânica, não foi apenas uma questão de fazer obras assistenciais, mas promover um ambiente diverso e criar vínculos entre os alunos e as pessoas atendidas pela escola através do trabalho. Nem toda a criança rica precisa se tornar mimada. Na verdade seu desenvolvimento vai refletir muito mais os valores da escola e da família dos estudantes do que seu nível sócio-econômico. E espero que essa nova escola, a Avenues, seja capaz de produzir os líderes mais humanos e capazes que o país e o mundo precisam.

P.S.

Para quem pensa no status de ter os filhos em uma escola de ricos aproveito para lembrar um detalhe interessante: Nos países que permitem o ensino em casa alguns desses bilionários estão trocando as escolas por tutores. A criança terá 100%  de atenção do tutor, e a logística de deslocamento é reduzida, especialmente porque filhos de ricos são alvos de sequestro e eles gastam uma nota em segurança.  Porém, mesmo as empresas de tutoria, que devem ser muuito mais caras, não recomendam o uso de tutores por tempo integral por muito tempo. Justamente porque os alunos perdem em desenvolvimento de certas habilidades sociais ao conviverem a variedade de colegas oferecida por uma escola. Então, menos preocupação com exclusividade e mais foco no resultado.

Para variar, temos uma renca de matérias sobre a situação da Educação no país ao sair o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2016 e a proposta de mudança do Ensino Médio numa mesma semana. Para entender o que é o Ideb eu recomendo esse artigo.  Esse índice é considerado tão importante porque define muito de nosso futuro: bons alunos na educação básica significam bons universitários e bons profissionais nas décadas à frente. É uma solução demorada, mas é sustentada. O que pode ser observando neste ótimo artigo que descreve como os investimentos nos primeiros anos de vida fazem toda a diferença para indivíduos e sociedade. Ao mesmo tempo, os problemas de formação nessa fase certamente vão impactar até na vida adulta.

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Escola, esse local emocionante – autor: Bill Waterson

A metade cheia (ou não tão vazia) do copo

Apesar da maioria considerar os dados desanimadores é possível ver um detalhado contraponto à essa tendência no blog  Avaliação Educacional, a.k.a. Blog do Freitas  que levantou alguns dados interessantes para colocar em perspectiva a situação do nosso sistema de ensino. Ele mostra que, apesar de estar abaixo da meta, a situação pode não ser tão ruim assim. Dentre as razões do autor vou ressaltar:

  1. O Brasil vem melhorando seu desempenho sistemática e consistentemente no ensino fundamental desde 2003. Isso é muito importante, pois trata-se da base da formação. Como podemos ter um ensino médio avançado, sem uma educação fundamental que dê base? O Brasil é o país que mais cresceu nos últimos anos no ensino de matemática, segundo a OCDE.
  2. Neste mesmo ensino fundamental, nas séries iniciais, cerca de 70% das escolas melhoraram seu desempenho na atual edição do Ideb, quando comparamos com o Ideb anterior de 2013, onde houve 58% de melhora: um aumento de 12% em escolas que melhoraram.
  3. Ainda neste mesmo ensino fundamental das séries iniciais, o próprio Ideb das escolas públicas em média aumentou. E no ensino fundamental das séries finais também. Não há queda no Ideb do ensino fundamental das escolas públicas.
  4. Embora o ensino fundamental e o médio sejam uma responsabilidade dos Estados e não apenas do governo federal, dos 27 estados brasileiros, 20 melhoraram o Ideb do ensino médio em relação a 2013.
  5. O Ideb de 2015 é igual ou maior do que o Ideb de 2013 em todos os níveis de ensino  das escolas públicas (fundamental e médio).
  6. No ensino médio, apesar de cairmos em matemática de 270 pontos em 2013 para 267 em 2015 aumentamos a média em português de 264 pontos para 267. Pode-se dizer que este é o único dado desabonador: a redução da média em matemática no ensino médio. Mas ele não anula os outros.

Na minha opinião o item 4, não é exatamente positivo, afinal a idéia é que todas as escolas melhorem, inclusive as particulares. Mas, a luz desses argumentos do Freitas, podemos até considerar que a educação brasileira, por pior que esteja, está melhorando. Ok, mas ficam várias perguntas, como:

  • Está  ocorrendo na velocidade desejada?
  • Essa melhoria é sustentável?
  • Estamos na direção certa?

A metade complicada

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fonte: Apostila do Prof. Yoshida

As respostas as perguntas anteriores são complicadas porque os estudos nessa área são difíceis. Estamos falando de milhões de alunos com milhares de variáveis afetando seu desempenho e, em muitos casos, leva um bom tempo para se avaliar os impactos. Avaliações na forma de testes padronizados como ENEM, PISA etc. são importantes ferramentas de pesquisa e comparação mas, são instrumentos limitados e podem não detectar várias coisas importantes que estão acontecendo nas escolas. Basear as políticas públicas com zelo excessivo nesse tipo instrumento, ignorando suas limitações é algo temerário (os trocadilhos ficam por conta do leitor).

Em outro texto comentei sobre casos documentados de idéias que pareciam boas no início e se mostraram ruins no longo prazo. Só essa possibilidade já é um tremendo complicador. Mesmo que novas políticas sejam implementadas corretamente, o que, por si só, é um trabalho longe do trivial, os indícios de seu impacto não são fáceis de se observar e mensurar. Nesse ponto, o Blog do Freitas faz um saudável contraponto com seu ceticismo em relação à provas ao observar que existem uma série de fatores que não são captáveis por provas. Entrando um pouco no aspecto pesquisa, acredito que a pesquisa quantitativa, como a que é feita por testes padronizados é ótima para mensurar, observar algo que o pesquisador já acreditava existir de antemão. Já a pesquisa qualitativa, aquela que você faz através de entrevistas, filmagens, questões discursivas, redações e etc. é exploratória. Ela serve para você descobrir coisas que não o pesquisador não necessariamente sabia que estavam acontecendo. Em suma, são métodos complementares.

Portanto, acredito que políticas públicas de educação não devem se basear apenas em resultados imediatos de avaliação sob o risco de se perder algo importante e não aparente que pode fazer toda a diferença no objetivo principal da educação: formar cidadão melhores. Educação é um meio e não um fim em si mesmo. E temos o péssimo hábito de passar a considerar testes padronizados como um fim em si mesmo. Qualquer um que já viu um cursinho para vestibular, ENEM, concurso ou o-teste-da-vez pode observar isso.

Sim, os resultados das escolas do Ceará (melhores notas do Ideb) são lindos, mas sem pesquisas aprofundadas, e demoradas, não saberemos exatamente o que provocou esses resultados. E, principalmente, precisamos saber se é realmente possível replicar o trabalho deles em outros lugares. Apesar das pessoas acharem que a escola é uma indústria, ela não é. O que aconteceu em um ambiente escolar não necessariamente pode ser replicado em outro. A nota do Ideb é só um indicador, não descreve tudo que está acontecendo. Há muitos fatores internos e externos que impactam o desempenho escolar e, em alguns casos, mais até que a própria escola.

O navio

O sistema educacional de um país continental é algo como um transatlântico. Um mudança de rota exige o movimento de mecanismos imensos, a logística dessa máquina é complicada e tudo tem que ser bem planejado. Enfim, algo desse tamanho não manobra rápido e rotas mal calculadas podem ser desastrosas. Nesse aspecto, o que acho assustador é que o governo está me lembrando o capitão Schettino e nossa educação o Costa Concórdia.

Em 2016 o governo entrou com uma medida provisória propondo mudanças importante no ensino médio. O próprio Freitas concorda que o modelo atual não é exatamente uma maravilha. É fato que mudanças são necessárias, como observado aqui . Eu mesmo simpatizo com a idéia de se diferenciar as matérias de acordo com os interesses pessoais ou vocação do aluno. Ao contrário de algumas críticas histéricas (redes sociais são ótimas para propagar histeria) que dizem que certas matérias vão acabar. Elas só vão deixar de ser obrigatórias, o que pode até melhorar a qualidades das turmas, quem estiver lá por escolha e não obrigação. Porém, mesmo que isso funcione em outros países, alguém já testou isso por aqui? Pelo menos alguém já estudou para ver o que os envolvidos (professores, pais e estudantes) pensam da idéia? Sobre a consulta aos alunos o Porvir apresentou uma ótima idéia e também uma bela infografia.

Outro ponto, como dizem os americanos*: Amadores discutem táticas, mas profissionais estudam logística. Mesmo que as mudanças propostas pelo MEC sejam simplesmente geniais ficam várias pontas soltas a serem amarradas mais à frente, a lista abaixo está longe de ser completa:

  • Como será a transição para esse novo modelo?
  • Existem salas e materiais suficientes? Caso negativo, como serão feitos e como serão implantados?
  • Como ficarão os professores e suas carreiras? Haverá demissões? Contratações?
  • Como serão treinados os professores para essa nova realidade? Especialmente os que já estão trabalhando
  • Como os conteúdos serão organizados por escola? Vão existir escolas para quem tem preferência por exatas e outra para humanas ou fica todo mundo junto?
  • As demandas do mercado de trabalho nos últimos anos apontam para profissionais capazes de trabalhar em grupo e com diferentes profissões. Como isso será trabalhado nas escolas?
  • Como vão ficar os assuntos transdisciplinares, como educação ambiental?
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Eu aposto que todo mundo achou que colocar o Titanic em velocidade máxima era uma excelente idéia. Antes dele bater, claro.

Ao mesmo tempo eu não vi soluções para alguns problemas de longa data:

Para adicionar mais pimenta na reflexão, o Porvir (via Mercado Popular) propôs algumas idéia simples que teriam grande impacto.

Eu torço para que tudo isso e muito mais já tenha sido cogitado e planejado, mas é difícil não ser cético com uma mudança tão súbita. Enfim, essas preocupações são essenciais. Afinal, ainda que o sistema atual seja ruim, nada é tão ruim que não possa piorar e, como agravante, eventuais erros nessas reformas vão ter impactos imensos e prolongados.

*”Amateurs talk about tactics, but professionals study logistics.” frase dita em 1980 pelo General Robert H. Barrow, então comandante do USMC.

Atualização

Wagner Victer, secretário de educação do Rio de Janeiro em 2016, escreveu um artigo sobre os impactos da MP. Onde ele descreve de forma excelente alguns dos complexos desafios logísticos que serão trazidos pela MP do ensino médio e os novos custos consequentes à essa mudança de rota. Ilustrando muito bem a complexidade da mudança de rota no “navio” citado acima.

Anos atrás conheci a idéia de alfabetização ou escolarização precoce. Em princípio ,a idéia me parecia genial. Quem não lembra que Mozart começou a tocar aos 4 anos e se tornou o gênio que conhecemos? Uma criança que começou a escrever com 3 anos já teria quase 10 anos de experiência em leitura e escrita no sétimo ano. O que me parece ser algo vantajoso para uma futura carreira profissional. Se extrapolarmos a idéia para a matemática e outros tópicos a coisa parece ficar ainda melhor. Tanto que várias escolas adotaram a idéia de alfabetização precoce e alguns professores relatam até pressão dos pais para começar o ensino formal seus filhos tão logo quanto possível.

Porém é preciso entender que tudo tem seu custo e crianças são diferentes de adultos. Uma coisa que mudou e continua avançando são os estudos sobre como aprendemos e, especialmente, como as crianças aprendem. E isso não ocorre só através de pedagogos mas de forma multidisciplinar, envolvendo diversas neurociências. Se alguém fizer uma rápida pesquisa sobre alfabetização precoce vai descobrir que a maioria dos textos encontrados consideram a proposta controversa, nas notícias comuns, ou ruim nos textos de especialistas como Rosely Saião e outros.

Para deixar claro que não estou me referindo apenas à leitura e escrita, podemos considerar também o ensino de matemática. Vamos considerar a alfabetização precoce dentro de algo como o ensino de habilidades acadêmicas (leitura, escrita, tabuada etc.), desde o período pré-escolar, que seria antes do ensino fundamental no Brasil, começando aos 6 anos de idade.

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O dr. Peter Gray fez um levantamento de estudos sobre o assunto no exterior e os resultados não foram animadores. Os resultados observados têm sido consistentes, mesmo se comparando diferentes estudos. Segundo ele, se há uma coisa que o treinamento dessas habilidades acadêmicas na infância certamente produz é dano ao cognitivo, emocional e até mesmo acadêmico no longo prazo. Vários estudos controlados [2]comparam os efeitos da educação acadêmica precoce; com abordagens mais lúdicas, centradas nas brincadeiras infantis. A educação acadêmica precoce até oferece ganhos iniciais, mas eles desaparecem com o passar do tempo e, em alguns casos, podem até ser revertidos. Porém o pior é que esse modelo pode produzir danos de longo prazo, resultando em pessoas pouca habilidades social e baixa resiliência emocional, além dessa vantagem acadêmica possivelmente sumir com o tempo. Como eu disse antes, nada vêm de graça, nem mesmo em termos de aprendizagem.

Alguns estudos

Essa parte é uma tradução descuidada do artigo do Dr. Peter Gray. Nos anos 70 [2] o governo alemão fez estudos em larga escala analisando 100 jardins de infância (kindergarten). Na época o governo estava fazendo uma mudança gradual para incluir o ensino de habilidades acadêmicas desde os primeiros anos.  O estudo era essencialmente uma comparação entre dois tipos de instituição: as que incentivam as crianças a aprender de forma lúdica, centradas no brincar; em comparação com as que focam na instrução direta e acadêmica. O problema é que apesar dos ganhos iniciais do treinamento precoce com o tempo a performance desses estudantes começou a ficar pior comparada com a dos que tiveram espaço para brincar. Os resultados foram  convincentes o suficiente para que os alemães desistissem de estratégia inicial, optando por manter os jardins de infância centrados no livre brincar.

Nos Estados Unidos ocorreram estudos parecidos, com resultados semelhantes. Um estudo dirigido por Rebecca Marcon [3] focado principalmente em crianças negras de famílias pobres consideraram uma amostra de 343 estudantes. Os que estudavam em pré-escolas centradas no aspecto acadêmico também mostraram avanços iniciais, mas ao final do quarto ano essas vantagens desapareceram se comparadas ao alunos que brincaram mais, nas verdade, esses últimos já estavam apresentando notas até melhores. No caso o estudo não avaliou desenvolvimento social ou emocional, apenas o acadêmico.

Weikart [4] em 1967 fez um experimento bem controlado com 68 estudantes pobres de Michigan, que foram divididos em 3 grupos, de acordo com o tipo de pré-escola ou creche: tradicional, baseada no livre brincar; avançada, que era parecida com a tradicional mas com mais interferência de adultos; instrução direta, similar ao nosso treinamento acadêmico precoce (trabalhando com exercícios escritos e testes). A divisão foi feita de forma semi aleatória de forma a deixar os 3 grupos tão equilibrados quanto o possível. Além das experiências na escola as famílias foram visitadas a cada duas semanas, com o intuito de instruir os pais em como ajudar seus filhos. Essas visitas eram focadas nos mesmos métodos usados em sala de aula. E os resultados foram similares aos de outros estudos. Com a diferença que nesse caso os estudantes também foram avaliados aos 15 anos de idade e novamente aos 23. Nas avaliações posteriores não haviam diferenças acadêmicas relevantes entre os diferentes grupos, porém foram observadas diferenças em outros quesitos: No grupo dos estudantes que participaram da instrução direta foram observados o dobro de atos de má conduta (suponho que vandalismo, brigas ou crimes muito leves), se comparado com os outros dois grupos. E aos 23 anos as diferenças foram ainda mais dramáticas, o grupo da instrução direta apresentou mais casos de conflito com outras pessoas, evidências de problemas emocionais e 39% mais de casos de prisão se comparados com uma média de 13,5% nos outros dois grupos.

Minha opinião e outras mais

É importante entender que esses resultados não podem ser tomados ao pé da letra. O que se observou foi que crianças com educação rígida desde cedo tem uma maior tendência a ter problemas com habilidades socioemocionais no futuro o que não significa que vão ser sempre gênios intragáveis e infelizes. Sempre vai haver o filho-do-amigo-da-vizinha que passou por tudo isso e é ótima pessoa hoje em dia . De fato, existem muitas outras variáveis além da escola a serem consideradas, como situação dos pais, questões pré-natais. Afinal, quando a escola formal começa pode já ser tarde demais.  E por isso as amostragens amplas e aleatórias tornam esses estudos mais consistentes. Estudantes afetados por essas variáveis têm a mesma chance de estar em qualquer um dos grupos. O que os estudos mostraram foi um padrão difícil de ser observável e não uma lei inevitável. E é justamente para isso que existe a ciência, para mostrar aquela verdade que está além das nossas percepções e experiências.

O que temos é um típico caso de resultados contraintuitivos. Os resultados mostraram algo diferente do que se esperava. Eu, pelo menos, achava que uma educação forte e controlada desde o início faria bem e fiquei chocado em ver o contrário. Uma das grandes dificuldades da educação, especialmente a pré-escolar, é que seus impactos só vão ficar aparentes muito depois. O que tende a estar além da percepção dos pais na hora de definir a educação dos filhos. Imagine como os pais do grupo de instrução direta se sentiram ao ver os resultados do estudo aos 23 anos. Lembre-se que também foram os resultados da educação que eles escolheram.

Por outro lado, a Dra. Cristina Cupertino observa que é até possível que alguns alunos possam acelerar seus estudos, mas eles são mais exceção do que regra. Algo como meros 2% do total dos estudantes (sim, são raros) e, ainda assim, uma série de condições deve ser observada: especialmente para garantir se eles estão felizes com a aceleração dos estudos e estão se desenvolvendo bem em outras esferas além da acadêmica. Se considerarmos a tendência natural de qualquer pai em achar que seu filho é a última bolacha do pacote  está nesses 2% é importante que essa avaliação seja feita por um profissional.

Mas, apesar das evidências em contrário, escolas oferecem esse ensino precoce ou são pressionadas pelos pais. Está na moda. O professor Luiz Carlos Freitas da  Unicamp é categórico ao dizer que a alfabetização precoce é um crime. Lembremos que o aprendizado da criança é diferente do adulto e tem características específicas.

A principal questão é se os custos compensam os ganhos. Eu acredito que não. Acho que estudar não é realmente algo fácil, muitas vezes é um esforço mesmo e que as crianças terão uma vida pela frente de educação constante. Não sou contra escola exigente ou mesmo competitiva, acho as olimpíadas escolares um incentivo genial, por exemplo. Mas cada coisa a seu tempo, deixemos que eles tenham infância primeiro. No longo prazo, até a vida acadêmica e profissional serão melhores.

Referências:

[1] Nancy Carlsson-Paige, Geralyn Bywater McLaughlin, & Joan Wolfsheimer Almon. (2015).  Reading Instruction in Kindergarten: Little to Gain and Much to Lose.  Published online by the Alliance for Childhood.http://www.allianceforchildhood.org/sites/allianceforchildhood.org/files…

[2]  Linda Darling-Hammond and J. Snyder. 1992. “Curriculum Studies and the Traditions of Inquiry: The Scientific Tradition.” Edited by Philip W Jackson. Handbook of Research on Curriculum. MacMillan. pp. 41-78.

[3] R. A. Marcon,  2002. “Moving up the grades: Relationship between preschool model and later school success.” Early Childhood Research & Practice 4(1).http://ecrp.uiuc.edu/v4n1/marcon.html.

[4] Larry J. Schweinhart and D. P. Weikart. 1997. “The High/Scope Pre- school Curriculum Comparison Study through age 23.” Early Childhood Research Quarterly 12. pp. 117-143.

foto: salon.com

 

It may sounds a bit outdated. However, I consider this interview a good way to see a technology based on practitioner’s perspective. Professor Mattar is a researcher of technology applied to education with a long experience about Multi-user Virtual Environment (MUVE). His thoughts shows a positive attitude toward technology and education balanced with a critical view about the topic.

second-life1

  1. How do you define MUVE for learning purposes?

Digital natives live in to multi-users environments, so using MUVE’s for learning means connecting with them and occupying their habitats.

  1. What´s your experience with second life as user and teacher?

I started using Second Life in 2007 and immediately saw a strong potential for educational use. I took a graduate course at Boise University as a student in 2007 and offered 3 versions of an online course in Distance Education in 2007 and 2008. I took as a student several quick courses, collaborated as a teacher in several courses, and was member of the organization committe of the 2 versions of Virtual Worlds Best Practices in Education (2009 and 2010), besides using Second Life in other meetings.

  1. What’s context in which you use the second life for teaching?

Answered above.

  1. Why use second life as learning environment? 

I gave a long answer to that question on:

Second Life is not a learning environment… but why not?

  1. Which learning theories do you think underpin it use?

This is also answered in that post, as on My Theory of Learning (theories discussed there are very well supported by Second Life):

  1. In your view, which are the affordances, risks or limits to use SL?

Besides what was already said in the previous posts, Second Life offers a terrific combination of tools: text, voice, images, videos etc. A 3D virtual world engages users in a very different way than traditional virtual environments like Moodle, Blackboard etc. I really do not see problems on the use of the tool for education, not even lack of control, discussed by many authors. If you think of a constructivist learning theory, there is no need for more control than what is offered by Second Life. But, actually, more than Second Life, what really counts is a 3D online virtual world.

  1. How your students respond to this innovation?

All the students I taught in Second Life were really excited by the pedagogical potential of the tool, learned a lot during the courses and were intensely engaged in the learning process.

  1. Some experts consider SL not developed as a learning environment, this is one of reason to do not have assessment tools. So, How do you evaluate your students? Do you see specific assessment options in SL?

I have somehow answered that on one of the previous posts. If you take constructivism as your learning theory, you will assess your students through construction of objects, for example, and Second Life is perfect for that purpose, as it is for simulation and performance assessments. But if you want more traditional assessment tools, you can use tests in world, you can use essays delivered through notecards, you can work with portfolios etc. And, if you are not satisfied, you can use Sloodle (moodle + SL) to have more control over your students.

  1. Do you have suggestions for future teachers? What kind of internal or external elements do you think are crucial and determinant to warrant effectiveness?

There is a learning curve to learn how to use the tool, so first you should learn the basics: camera control, sound, basic building etc.

Second, you should take some of the free courses offered inworld, to check how people already teach in Second Life.

There is a lot of bibliography available on teaching in virtual worlds, so read and watch videos.

After that, go for it: test it with your students, offer free courses to learn how to teach in a 3D virtual world.

  1. How SL could be improved to make it more effective?

To be more effective in education, Second Life could include a forum option inworld and simplify video watching.

  1. How do you see the future of MUVE´s for learning purposes?

I see MUVE’s, together with games, augmented reality, and mobile learning as the key elements in the near future of education.

Na verdade, a frase completa foi Atenção cientistas: Ninguém liga pro seu sapo! e foi uma provocação, no sentido de um convite à reflexão, feita aos participantes do VIII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação.  Não vi a palestra, mas suponho que descreve bem os problemas enfrentados pela divulgação científica e uma proposta de solução.

Divulgar ciência não é algo trivial. E no caso das questões ambientais a ponte a ser construída entre os cientistas e o público é maior ainda. O artigo Mind the Gap de Kolmuss e Agyeman  aborda justamente o abismo que existe entre as pessoas terem informações sobre os danos ambientais e assumirem posturas pró-meio ambiente. No estudo eles falam dos diversos fatores que influenciam o comportamento pro ou anti meio ambiente. Educação ambiental é um exemplo claro de como disponibilizar informação não necessariamente resulta em mudança de atitude ou mesmo a adoção de um comportamento desejado, o que é descrito por Kolmuss e Agyeman como o modelo linear. E, com base nisso, creio que dá para fazer um paralelo entre esse artigo e o que nosso simpático cineasta quis dizer.

A maioria das pessoas gosta de se dizer racional, mas a mensagem que as alcança é emocional. O sapo da história tem que ter algo a ver com a vida da pessoa ou algum fator de identificação precisa ser criado. As pessoas não se interessam dados, mas por histórias. E para quem acha que isso é um problema criado pela frágil educação brasileira lembro que os EUA, a primeira economia do mundo tem problemas parecidos ou piores, como, por exemplo, a ofensiva dos defensores do criacionismo e o ativismo contra vacinas;

Assim, existe um impasse: a ciência mostra como o universo é imenso complexo e variado enquanto a maioria das pessoas gosta de simplificações e notícias que mostrem o que elas querem ouvir. E a função da ciência é encontrar respostas, não necessariamente as que gostamos de ouvir. De qualquer forma, esperar que as escolas simplesmente funcionem e torcer para que a próxima geração seja banhada por novos conhecimentos e magicamente se tornar mais amigável à ciência pode soar cômodo, mas é uma solução muito preguiçosa e chinfrim. É preciso lidar com os recursos que temos para atingir o público que temos. Afora diagnóstico para definir melhores soluções, reclamar do público é simplesmente inútil.

É verdade que temos muitos problemas a resolver, como o baixo conhecimento da sociedade sobre o assunto na América Latina que é uma mostra que nossos esforços para fomentar e incentivar o interesse na ciência precisam melhorar muito. Mas em vez de reclamar é preciso procurar soluções.

Foi algo que observei no meu trabalho e acredito que até a literatura técnica concorda com o Meirelles, é preciso tornar as informações mais palatáveis para o público. E criar histórias é um bom caminho. Algo que a publicidade e seu irmão mais novo, o marketing fazem bem. E os profissionais dessas áreas não ficam reclamando do público, eles simplesmente tentam entender o que funciona com esse público e aplicam isso. Pessoalmente achei o artigo estimulante por ser algo que já venho tentando aplicar em meus trabalhos, como o Macaúba Amiga, onde o conteúdo técnico corre ao longo de uma narrativa. Saber que se está no caminho certo por fontes inusitadas é sempre bom.

No final das contas mesmo que alguém não goste do Meirelles o importante é pensar se ele está certo. Eu acredito que sim e a idéia dele vale para a ciência em geral e não apenas a área ambiental.

foto de Flora Alves

fonte: SGConsult

Durante o 25º Encontrarh, o encontro de recursos humanos do planalto central, assisti a palestra Gamification e engajamento. Como ferramentas inovadoras contribuem com os líderes na superação de desafios de Flora Alves. Gamificação pode ser entendido como o uso de elementos de jogos em situações fora do universo dos jogos, como treinamento e gestão de pessoas, como no caso deste simpático evento.

Um aspecto interessante é que a própria palestra foi um exemplo de gamificação. Em vários momentos Flora estimulou a participação da platéia inclusive com pequenos prêmios. Alguns considerariam isso um pequeno clichê comportamental, o velho sistema de prêmio para estimular comportamento. Mas se é clichê ou não o que importa é que funcionou e despertou interesse, meu e do resto da platéia. O que é um mérito para uma palestra depois do almoço num dia muito quente.

Sobre o conteúdo, o uso de jogos não é algo novo. Em sua crítica Gamification is Bullshit, uma crítica contundente ao assunto, o Bogost diz que há muito tempo as corporações vem tentado capturar o mágico aspecto motivador dos jogos e a bola da vez seria a gamificação. Apesar de ser um entusiasta de jogos como ferramentas educacionais, admito minha dose de ceticismo em relação ao assunto. Principalmente porque o mesmo problema já ocorreu com jogos educativos, como os jogos educativos chatos que eu já vi e por ver críticas sobre o uso de jogos na literatura técnica de educação mais de uma vez.2015-10-14 15.09.53

Assim, minhas dúvidas se avolumavam com o decorrer da palestra. Acredito que um dos motivos para jogos serem tão interessantes e motivadores é por serem atividades voluntárias. Então como fazer eles funcionarem num ambiente em que estamos por obrigação, como o trabalho? Também me lembrei das críticas do Mattar sobre os problemas do design instrucional e os comentários do Buckingham em Beyond Technology sobre certos jogos educativos serem apenas conteúdo educacional embalado como jogo. Se a gamificação promete tanto, como fazer para que os jogos sejam realmente interessantes e as pessoas gostem de jogar? Ainda mais num ambiente tão “obrigatório” como o trabalho. Será que a gamificação de um treinamento pode fazer com que os estudantes realmente se engajem na aprendizagem?

E ao longo da palestra a maioria das minhas questões foi sendo derrubada. A maioria delas com o uso da palavras “design instrucional”. Pelo que entendi dos casos de gamificação apresentados por Flora, o “pulo do gato” para que tudo funcionasse foi um claro entendimento do que são os jogos e suas possibilidades. E esse entendimento era convergentes com os elementos formais de jogos descritos por Fullerton (2008), o círculo mágico de Huizinga e, por fim, a idéia de Flow do fantástico e impronunciável Csikszentmihalyi. Nesse ponto, a palestrante vai além do que eu eseprava e descreve essa motivação interna, esse significado, como o primeiro passo para o que ele descreve como Flow (fluxo) um estado comumente encontrado em artistas ou qualquer um quando muito concentrado em seu trabalho. É um estado em que o desafio de produzir está em equilíbro com a nossa habilidade de forma que conseguimos aprender a medida que o desafio se torna maior. Nesse estado perdemos a noção de tempo e praticamente a noção de ego de tão absorvidos que estamos e apesar de ser uma sensação desafiadora e produtiva ele a define como algo muito prazeiroso é algo como aquele momento em que nos sentimos realmente vivos. Ela é diferente do simples lazer como televisão porque é um estado altamente ativo. E basicamente um jogo, seja ele educativo ou não, quando bem projetado consegue induzir o jogador a uma boa experiência de Flow. O que eu também já havia lido em Prensky, Adricht e cia. O que me sugere que o trabalho dela está bem ancorado na literatura técnica.

A meu ver, os casos de sucesso de Flora se devem a esse entendimento claro do que são jogos, em suas vantagens e limitações, e especialmente a um poderoso domínio de design instrucional e sua aplicação cuidadosa em cada caso para evitar aquelas armadilhas comuns observada na literatura sobre os jogos educativos. De fato, muitas vezes os fracassos em jogos educativos são resultado de definições de público-alvo ruins, objetivos vagos ou uma interpretação superficial de gamificação.

Como ela mesmo comentou comigo ao final da palestra, às vezes a ferramenta necessária para o cumprimento dos objetivos de aprendizagem com determinado público não é nem um jogo, pode ser algo muito mais simples. E o responsável pelo treinamento deve ter consciência disso. E esse é um fator que pode tornar a gamificação mais do que apenas o modismo  da vez na administração de RH.

Respondendo ao Bogost, pode ser bobagem? Talvez. Mas se for bem desenvolvida e aplicada não será. Porém, alcançar esse resultado  não é algo trivial nem deve ser tentado por amadores ou diletantes no assunto.

Essa é a segunda vez nos últimos tempos que vejo o uso de gamificação ser demonstrado por pessoas que alinham a paixão pelo assunto com o rigor metodológico. Acho que a educação pública e especialmente a academia devia olhar com mais atenção ao que está sendo feito no meio corporativo. Como demonstrado nesta palestra, os resultados são muito promissores.

foto 3

Antes de mais nada um aviso: não sou técnico na área agropecuária (agronomia, zootecnia etc.), minhas opiniões são meramente pessoais e não refletem a opinião ou posicionamento da Embrapa.

Semana passada eu participei do Congresso Mundial de ILPF que ocorreu em Brasília na semana passada. Foi interessante por ver aquele pedaço do Brasil que raramente aparece nos noticiários. Até porque o assunto certamente seria considerado técnico demais para a maioria dos editores. As técnicas de integração do qual o ILPF faz parte são consideradas importantes no Brasil porque podem reduzir a produção de gás carbônico na produção agropecuária, um dos gases do efeito estufa, aquecimento global e cia; recuperar áreas de pastagem degradada, incapazes de alimentar o gado, de uma forma produtiva e por intensificar o uso da terra de uma forma sustentável. O que significa reduzir em muito, se não totalmente, a necessidade de se abrir novas áreas para a produção de alimentos.

A maioria das palestras foi muito técnicas mas alguns aspectos interessantes já entraram na minha alçada: Como uma palestra sobre o uso de Integração na França com uma descrição interessante do processo de apresentação das técnicas aos produtores. Que envolveu algo que achei muito próximo da pesquisa-ação que empreguei no meu projeto de jogo. Outra foi uma sobre capacitação nas Universidades. Essa começou com uma interessante análise das dificuldades que a própria estrutura universitária oferece, com sua especialização excessiva enquanto a Integração parece exigir um razoável nível de flexibilidade, transdisciplinariedade e certamente é mais complexa que a produção tradicional. O que, a meu ver, foi confirmado em diversos relatos de produtores que acompanhei durante o evento. Um dos produtores falou que o problema da capacitação é generalizado, indo das brigas entre gerentes ao pessoal de campo que tem problemas com tarefas fora de sua especialidade. O que me pareceu mais patente é que a integração vai demandar um profissonais mais flexíveis e capacitados que o sistema atualmente requer. Altos índices de rotatividade no emprego não serão bons para os fazendeiros e entre os funcionários quem ficar certamente  vai receber mais. O que é interessante para mim, pois significa que serão precisas abordagens inovadoras e materiais didáticos diferentes, para conseguir capacitar os produtores, em todos os níveis.

foto 1 (2)E dentro do evento ainda ocorreu um dia de campo. No caso de uma empresa de pesquisa agropecuária isso significa um dia em que as descobertas e experimentos sobre determinado assunto são apresentadas, geralmente no local onde os experimentos são feitos. O que no nosso caso significa, no campo. E dessa vez eu não estava aplicando nada, apenas assistindo e ajudando.

E assim, às 7 da manhã estava eu junto a algumas dezenas de vans esperando todo mundo chegar para ir até as áreas de experimentos em ILPF. Recomendo a todo o designer de vez em quando sair da frente do computador e ver como a identidade visual da sua empresa e o material que criamos é usado em condições reais. É gratificante ver as coisas funcionando e didático descobrir as que não funcionam.

Como todo o evento complexo é algo tenso, são centenas de pessoas separadas em grupos que vão ver diferentes apresentações em locais diferentes de forma simultânea e tudo isso num ambiente muito distante do controle oferecido pelas salas de reunião com ar-condicionado. O trânsito, o clima, a fauna, tudo se torna variável a ser considerada. Um tronco no meio do caminho que caiu durante a noite pode zonear todo o seu planejamento . Na prática o evento é quase um grande carrossel onde um grupo visita uma estação, onde assiste uma apresentação, comenta e pergunta e depois vai para outra estação e assim por diante até visitar todas. Imagine isso com vários grupos  assistindo e se movimentando ao mesmo tempo em áreas como plantação, pasto e floresta. Somando a isso o fato que tudo tem de ser levado para lá, energia, água, banheiros, transporte…. A logística pode ser um pesadelo, mas se bem executada o efeito é fantástico.

O outro aspecto interessante é a troca de experiências. Para os pesquisadores, mesmo os experientes, eventos como esse são um desafio. Como dizia um grande professor meu, a ciência é concorrencial. Ela evolui porque as pessoas estão sempre testando as afirmações apresentadas para ver se o pesquisador realmente sabe do que está falando. E além dos outros pesquisadores também temos os produtores, gente com experiência real que não se impressiona com firulas acadêmicas e também tem muito conhecimento sobre o assunto. E como todo o bom desafio isso parece ser muito estimulante para os pesquisadores. E um bom experimento mostra o que dá certo e o que dá errado. Como disse um dos pesquisadores, a empresa erra, ou para ser mais específico testa e erra, justamente para que o produtor não tenha que errar. Como dito por outro pesquisador, não é apenas descobrir como um processo funciona, mas ajudar o produtor a tomar decisões de forma mais fundamentada. E esse é um dos aspectos mais interessantes de se estar numa empresa de pequisa e não numa universidade. A conexão com o mundo lá fora é muito mais forte. A pesquisa está longe de ser um fim em si mesmo, não basta uma descoberta, ela deve se tornar uma inovação, uma tecnologia, ela tem de chegar ao mercado e ao cidadão comum. E um produtor pode ser tão detalhista e exigente quanto outro pesquisador. Inclusive alguns dos que mais questionam são justamente colegas de empresa, o que só reforça esse saudável aspecto concorrencial da ciência.

Foram quatro dias longos, com um muuito cansativo, mas valeu a pena. Fiz contatos interessantes que vão render boas conversas via mail e certamente alguns projetos futuros.

Semanas atrás participei do curso Pensar Infográfico. A infografia pode ser entendida como a combinação de imagem, texto, números e gráficos de forma a sintetizar e descrever produtos ou processos complexos. E, considerando como estamos nos tornando cada vez mais visuais que textuais, ao mesmo tempo que temos vários processos complexos para descrever, entender infografias torna-se uma habilidade útil não apenas para designers, mas para pessoas em geral.

No caso é importante assinalar que o objetivo do curso não era fazer infografias, mas entender as características e a lógica de produção das infografias. Como o próprio nome diz a idéia era “pensar infograficamente”.

Assim, após a definição do conceito de infografia e apresentação de sua ” anatomia” os professores entraram na questão histórica. As origens dos infográficos. Apesar do termo ser recente foram mostrados diversos exemplos históricos, como os diagramas de Da Vinci e outros menos conhecidos mas ainda assim importantes. Como dito por um dos professores as crises e guerras sempre incentivaram a inventividade humana e como eventos complexos eles precisavam ser explicados.

Alguns exemplos, tão legais que eu não posso deixar de citar: O trabalho de John Snow, um médico inglês (YOU know nothing) que antes do desenvolvimento da teoria microbiana conseguiu entender o como o cólera se espalhava em Londres. Ele não só se contrapôs a teoria miasmática em voga na época como também, sem saber da existência do vibrião da cólera observou a casualidade entre a qualidade da água e o número de doenças. Um trabalho que hoje conhecemos como epidemiologia. E onde entram os infográficos? No fato que ele demonstrou seus dados para as autoridades britânicas através de uma interessante combinacão entre mapas e tabelas de doentes. Um uso inovador para a georeferência, muito antes do GPS.

O mapa original mostrando a concentração de casos de cólera nas ruas de Londres

Florence Nightingale, além de alma caridosa e pioneira da enfermagem também foi inovadora no uso de gráficos. Fez uma série de correlações entre o número de feridos e mortos na Guerra da Criméia e as condições de higiene dos hospitais. Para ilustrar seus dados ela produziu uma série de gráficos inovadores para mostrar que o número de mortes devido a fatores de higiene (evitáveis) era maior que o número de mortes em combate.

O gráfico de fatalidade de Nightingale

Outro trabalho fantástico foi o de Charles Joseph Minard, um engenheiro civil francês que fez um infográfico sobre a campanha de napoleão na rússia. Apesar da frieza e precisão dos números seu infográfico é uma poderosa descrição das imensas perdas enfrentadas pelo exército francês. O que demonstra, para mim e meus contemporâneos, que não somos a última coca-cola do deserto só porque temos smartphones.

O Gráfico de MInardi, saindo de Paris até Moscou e voltando a Paris. Repare a diferença entre quantos saíram e quantos voltaram.

Todos são exemplos claros do poder da retórica visual da infografia. E, como bem demonstrado depois pelos professores, como isso pode ser trabalhado ou mesmo exagerado para se atender a objetivos específicos. Bogost teria adorado a aula, nas verdade ele fala um pouco do assunto em Persuasive Games.

Depois disso, os professores mostraram seu processo de produção através de trabalhos publicados. Além de acadêmicos eles são profissionais atuando no mercado o que é algo raro e um dos pontos fortes do curso, o rigor acadêmico alinhado à experiência profissional. Foi possível ter uma idéia clara dos objetivos, problemas comuns e o modo de pensar das pessoas que produzem infografias. Nesse aspecto reside também um dos complicadores: infografias são um trabalho multidisciplinar, o resultado do diálogo entre quem produz a informação e quem desenha o infográfico. Algo que funciona numa lógica diferente do modelo de caixinhas corporativas em formato de linha de montagem que costumamos a ver nas empresas. É preciso um arranjo produtivo um pouco mais refinado e menos hierárquico.

Ao final tivemos um exercício de produção onde fomos divididos em grupos e esboçamos um infográfico a partir das mesmas informações. Foi legal observar a diversidade de resultados e os padrões de semelhança.

Mais que um curso sobre como fazer a idéia era mostrar justamente esse modo de pensar e nos oferecer um necessário “letramento” visual para entender e, posteriormente, criticar e produzir infografias. Bem mais do que eu esperava para um curso de um dia.

635653Estou lendo o Método Soma, de Carlos Albuquerque. O método é uma ferramenta educacional cuja sigla significa: S de sistêmico, O de objetivos claramente definidos, M, monitoramento  e A de avaliação. O que me parece algo bem convergente com a proposta de método lógico que estudei ano passado.

Apesar da experiência e conhecimento do autor o texto não cai na armadilha do prolixo que é tão comum em textos acadêmicos. Na apresentação o autor seus objetivos ressaltando seu aspecto instrumental para municiar educadores no papel de capacitar as pessoas do campo. Para tanto o autor sugere que se observem vários aspectos além do técnico, como o social. O que me parece de acordo com a idéia das diversas esferas da sustentabilidade: social, ambiental e econômica.

Na sua contextualização, onde descreve as mudanças que estão ocorrendo no mundo, o autor descreve a importância da agricultura para a economia brasileira. Porém apesar dessa importância ele não deixa de mostrar que vivemos em uma sociedade distorcida, desigual e que os pequenos agricultores formam um dos grupos mais afetados por essa estrutra socioeconomica disfuncional. Ao mesmo tempo muitas mudanças ocorreram nessa sociedade que começou históricamente agrária e se tornou urbana. A produção agrícola que era tradicional está se tornando cada vez mais científica e tecnológica. Devido a complexidade dessa contextualização o autor criou um quadro comparando as mudanças de paradigmas e as tendências e necessidades que essas mudanças acarretam.

Em seguida temos uma análise do perfil dos agricultores, onde o autor se mostra claras as dificuldades que qualquer um que deseje trabalhar na área de TT e TD&E terá que enfrentar, especialmente para quem está acostumado com o ambiente urbano. O autor também elenca algumas características necessárias, como a paciência e fé no potencial humano especialmente se considerarmos a dificuldade em colher resultados concretos no curto prazo. As notas e boletins de escola fazem pouco sentido nesse ambiente, portanto é preciso criar indicadores específicos para cada caso, com foco nos resultados e não apenas na atividade de capacitação. Também é possível observar as fragilidades conceituais, metodológicas e estruturais da prática atual que devem ser corrigidas:

  • a avaliação da capacitação em si é essencial, especialmente para observar eventuais gargalos na didática e metodologia dos próprios educadores;
  • a frequente ausência de análise das necessidades de aprendizagem e características do público-alvo;
  • a falta de monitoramento do impacto do processo educacional; precariedade geral do ensino rural etc.

As críticas aos aspectos metodológicos convergem com o que é proposto em outras abordagens como modelo lógico, design instrucional e teorias de aprendizagem. Considero um bom sinal ver o eco de outras áreas de conhecimento.

Por outro lado o autor também observa alguns tímidos avanços, como a flexibilização do currículo do MEC, que abre espaço para se trazer a realidade do agricultor para a sala de aula; e o uso de meios de comunicação de massa, como TV, sessões rurais nos jornais impressos e o interesse de instituições públicas e privadas em produzir material didático sobre assuntos relacionados ao campo e, especialmente, o crescente interesse de uma parcela dos próprios agricultores em auto capacitação.

Nas característica da educação de adultos eu gostei da importância que o autor dá ao uso de métodos de ensino variados, especialmente os que privilegiam a interação, como aqueles em que é possível se discutir e executar algo. Como apresentado, os alunos retêm apenas 10% do conteúdo lido, por outro lado, são capazes de reter até 90% do que foi discutido e praticado. Acho que isso é especialmente importante por mostrar o espaço que existe para as técnicas de aprendizagem interativas e como as abordagens centradas na simples transferência de conhecimento são limitadas. Muito do que o autor fala está 100% dentro do que se espera para a educação do século XXI.

Outro aspecto abordado foi o da resistência do público alvo, devido ao fato de estarem longe da escola há muito tempo, ou mesmo por terem uma lembrança ruim da escola, as técnicas de apredizagem tradicionais de sala de aula podem ser especialmente problemáticas nesse contexto. Nesse aspecto é preciso concordar que especialmente os pequenos agricultores são ao mesmo tempo a parcela mais carente de capacitação e também a mais resistente justamente por não estar preparados para lidar a competição existente no setor agrícola.

Em Processo de aprendizagem o autor observa aprendizagem do ponto de vista behaviorista da mudança de comportamento. Porém o autor evitar cair na armadilha de uma abordagem behaviorista restrita em excesso, observando principalmente os aspectos instrumentais para a aprendizagem que essa abordagem oferece. Aspectos como experiência anterior e afetividade também devem ser considerados. O aprendizado não é frio, estático ou linear, mas multidimensional, envolvendo diversos aspectos da inteligência e experiência anterior, moldado pelas necessidades e percepções dos alunos, o que toca na especial importância da motivação. Inclusive observando que o erro pode ser uma rica fonte de aprendizagem.

Assim, detalhando mais a sigla, SOMA pode ser entendido como:

  • Sistêmico: O que importa são os resultados, o sistema é orientado por eles
  • Objetivos: definidos de forma clara e mensurável
  • Monitoramento: deve ser constante para avaliar a evolução das pessoas em capacitação de forma a ajustar o sistema para cumprir os resultados esperados
  • Avaliação, os trabalho executados são constantemente avaliados e o aperfeiçoamento do sistema é feito ao longo do processo (confesso que não entendi bem a diferença entre monitoramento e avaliação).

Em diagnóstico, o autor critica os diagnósticos exaustivos por serem longos e retirarem o produtor rural de seu local de trabalho. O que certamente vai tornar o público resistente. Em contrapartida ele recomenda especial foco no nível de conhecimento específico sobre os temas da capacitação. Assim o diagnóstico seria algo mais gradual, começando com um diagnóstico preliminar e sucinto sobre os aspectos que podem ser resolvidos por meio de capacitação. Um opção seria se basear mais em testes piloto de curso do que em questionários. Isso significa admitir que serão necessários pelos menos 3 testes até o curso estar razoavelmente validado. Nesse ponto os objetivos claros e mensuráveis serão essenciais para validar o curso. O conteúdo é estabelecido em função desses objetivos, a taxonomia de Bloom pode ser bem útil nesse aspecto.

Ainda que o planejamento e execução dos cursos estejam centrados no instrutor é preciso considerar a participação dos alunos. Eles devem ser estimulados a contribuir com sua experiência e a fazerem um feedback construtivo para a qualidade do curso, mesmo que isso signifique mudanças nas técnicas de ensino e conteúdo. Afinal, comunicação é uma via de mão dupla. Se os alunos perceberem que são realmente agentes ativos no curso ficaram mais motivados e oferecerão insights mais significativos, terão melhor participação e melhor aprendizagem.

O autor é favorável ao desenvolvimento de indicadores para medir os resultados do curso, mais como uma forma de tornar o desenvolvimento da capacitação mais objetivo. No entanto, considerando que o objeto da ação de capacitação são as pessoas é preciso aceitar a individualidade e o fato de que as reações e tempos de resposta dos alunos pode se desdobrar de forma inesperada. O que denota a necessidade de humildade e diplomacia da parte de quem planeja e implementa a intervenção.

Nos capítulos seguintes o autor explica melhor seu método e apresenta cases de uso.

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