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O SBT Brasília publicou uma matéria sobre o trabalho dos voluntários da Abrace (Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias), oferecendo uma perspectiva mais ampla do trabalho que é feito pela entidade que eu já citei por aqui em outras ocasiões. Com destaque para o que nos motiva e o impacto do nosso trabalho junto aos pacientes e pais. Agradeço especialmente ao SBT pelo que suponho ser o foco em interessar mais pessoas em fazer trabalho voluntário (isso vale para você, leitor). Afinal, quanto mais gente fizer, melhor será para a sociedade.

Para mim foi interessante para apresentar a pequena parte que me cabe nesse latifúndio incrivelmente produtivo chamado Abrace. E me reforçou o desejo de fazer teatro ou, pelo menos, um pequeno media training.

Estou trabalhando com eles há alguns anos e ainda me surpreendo com o profissionalismo, foco e eficiência da Abrace e a recomendo para qualquer interessado pelo voluntariado. É impressionante o que um grupo de pais de crianças portadores de doenças foi capaz de fazer. Porque ter uma estrutura eficaz te apoiando faz toda a diferença. É o que fez uma entidade assistencial fazer parte de um dos melhores hospitais que já vi na minha vida e ter orgulho das poucas horas que dedico a esse trabalho. Mesmo que eu pegue a parte divertida, ainda é um trabalho, um compromisso e também têm seus momentos pesados, mas vale a pena e meus colegas voluntários souberam descrever isso muito bem. Trabalhar para ganhar um bom salário é algo bom e necessário, mas existe um retorno em fazer algo que te dá sentido que é incomensurável.

A matéria saiu no SBT Brasília no dia 29/12/16 e está disponível 
(acessada em 18/01/17).

Agradecimentos em especial à equipe de imprensa do Hospital por me arranjar o link tão rápido.

E no dia 13/10/16 atendendo a um pedido do Hospital da Criança José de Alencar, levei o jogo de Cerrado para fazer parte de um evento com jogos de tabuleiro para os pacientes, acompanhantes, voluntários da Abrace e funcionários do Hospital.Em essência, fazemos como trabalho o que a maioria das pessoas faz como diversão, nós jogamos. E novamente tive o apoio essencial do Luis Cláudio da Orgutal que, além de ser um voluntário, faz a coisa funcionar junto comigo e a Suely, coordenadora de voluntariado do hospital. Ele trouxe e montou as mesas, sugeriu outros voluntários e trouxe a maioria dos jogos que foram empregados no dia. Além da equipe do hospital que nos ajudou e até ofereceu um lanche e uma razoável quantidade de água, que é essencial para quem mora numa cidade com pouca umidade e vai passar uma tarde inteira falando.

Como não é a primeira vez que participo tive o prazer de ver o processo “correr sobre os trilhos” sem muitos problemas. E é recompensador ver que a idéia está funcionando. Como em outras vezes os voluntários novatos se adaptaram rapidamente: chegamos, montamos as mesas, higienizamos os jogos e cada um ficou responsável por  apresentar um jogo aos visitantes, ensinar as regras e jogar com eles. Como o público do hospital é bem variado, flexibilidade e jogo de cintura são essenciais. Simplesmente não dá para planejar ou escolher quem vai ser seu parceiro. Esse é um daqueles eventos um tanto caóticos em que gerência conta mais do que planejamento meticuloso.

Para descrever a variedade: poderíamos ter a nossa frente desde uma criança de 3 anos até a sua mãe com seus 40 e poucos anos, em um certo momento poderíamos jogar com uma pessoal ou com o máximo que o jogo permitia, com alguém esperando a sua vez. Assim, o processo precisa ser simples para ser robusto o suficiente para dar conta do recado.

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A equipe

O lado bom é que iniciativa é algo que não falta entre os voluntários. Muitas vezes a criança que quer jogar está muito abaixo da faixa etária para o qual determinado jogo foi projetado. E nesse ponto é função do facilitador compensar as limitações do jogador e manter a experiência interessante para todos. É uma experiência intensa para os voluntários e mesmo para mim, que já faço isso há algum tempo, especialmente devido à disposição incansável das crianças. Pessoalmente ,achei mais intenso que no ano anterior e isso considerando que eram 9 voluntários trabalhando de forma praticamente ininterrupta. Algumas crianças jogavam, iam para suas consultas e depois voltavam com vontade de continuar.  Tanto que uma das voluntárias, que trabalha com a Ludoteca BCG e também é experiente em apresentar jogos e explicar regras para adultos considerou essa experiência muito mais complexa e exigente do que a da loja.

Em termos de tipo de jogo, esse é o reino dos jogos casuais, com regras simples e tempos de jogo curto, no máximo uns 30 minutos. As crianças ficam bem estimuladas pela variedade de jogos que nunca viram. Jenga continuou o seu sucesso, atendendo todas as idades. Loopin Chewie é algo que pode ser explicado em uns 30 segundos e como Pass the pigs está quase no limiar entre jogo e brinquedo.

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O trabalho

No meu caso fiquei com o meu jogo de Cerrado, que dessa vez atraiu as crianças mais velhas e me deu oportunidade de usar o jogo com uma complexidade maior do que geralmente uso nos sábados. Crianças dos 10 anos em diante podem entender as regras completas, ainda que o ideal sejam 12 anos. Mas, ainda assim, elas já conseguem criar estratégias variadas dentro da partida e acabam encontrando as diversas situações de aprendizagem que foram projetadas para o jogo. Tanto que uma das partidas teve um excelente controle de áreas degradadas. Do tipo que eu não via há tempos. E isso considerando que eu simplifiquei a explicação inicial das regras, já que a rotatividade de jogadores é alta em um evento como esse e uma explicação de regras muito longa pode deixá-los desmotivados. Sempre há outros jogos disponíveis e eles querem jogar todos. Como diz o Aldricht em The Complete Guide of Simulations & Serious Games  a explicação das regras é a parte mais tradicional de um jogo, em termos de ensino, mas é essencial para fazer toda a experiência funcionar.

Avaliação e o futuro.

No geral, o nosso modelo de trabalho está razoavelmente maduro, funciona bem, demanda pouco esforço para montar e desmontar e os participantes saem satisfeitos. Em termos de melhorias talvez possa incluir mais voluntários para permitir um certo grau de revezamento e centrar nos jogos de maior sucesso, com uma preferência por jogos que envolvam mais jogadores. A melhor forma de se interessar por um jogo é ver ele sendo jogado e a experiência fica bem mais interessante com várias pessoas. Talvez um meio de avaliação no futuro, mas é algo complicado já que boa parte do nosso público não sabe lidar com questionários.

E uma das minhas alegrias foi ver que esse pequeno projeto pessoal foi a semente para outras coisas legais. Como árvores e também a parceria entre a Orgutal e a Abrace, que vão levar o uso de jogos de tabuleiro e o voluntariado a um novo patamar. Não sou mais um cara sozinho com uma sacola de jogos, agora somos muitos. Como diria Sócrates em “O Banquete”: amor não é o que está em você, mas o que for além de você.

Conclusão

Foi um evento simples, mas divertido, que por algumas horas colocou os pacientes em situações variadas nas quais a doença que os levou ao hospital simplesmente não importava. Pessoalmente é uma satisfação ver algo imaginado se tornar real. Não vamos curar ninguém, mas já ficamos satisfeitos deixar uma boa lembrança.

No dia 17 de dezembro repeti minha atividade com jogos de tabuleiro na semana de Natal do Hospital da Criança de Brasília – José Alencar. Novamente, trabalhei junto com a casa de jogos Orgutal cujo apoio foi essencial para o evento acontecer.

Basicamente, fizemos o mesmo que no ano passado. Juntamos vários jogos de tabuleiro, levamos mesas e voluntários e passamos a manhã jogando e ensinando a jogar no saguão do hospital. Atendendo aos pacientes, acompanhantes (pais e parentes que cuidam das crianças) e até outros voluntários e membros do hospital.

Como no ano passado enquanto limpávamos os jogos já apareceu gente querendo jogar. Tive de separar um dos voluntários para jogar com os mais animados enquanto levantávamos o nosso “circo”. Para um evento desses funcionar  os voluntários são tão importantes quanto os jogos em si. E, nesse aspecto, é animador ver como pessoas com a atitude certa se adaptam à situação. Porque o evento acaba sendo algo um tanto caótico, como a maioria das coisas que envolvem crianças se divertindo. E como agravante são crianças, pais, outros voluntários, diferentes históricos e diferentes níveis cognitivos a serem equilibrados. E tudo isso com quase uma dezena de jogos diferentes, cada um com seu conjunto de regras, a serem lembradas e explicadas. Você explica um jogo para um grupo e logo surge outro completamente diferente ou o próprio voluntário está querendo explorar algo diferente e termina numa nova mesa. Em alguns casos os voluntários aprenderam a jogar do mesmo modo que alguém troca o pneu com o carro em movimento. Mas eles deram conta do recado, os círculos mágicos dos jogos foram mantidos e a diversão fluiu.

Como já aprendemos um pouco sobre o público no ano anterior evitamos alguns jogos e incluímos outros. A situação é propícia para os chamados “party games”, jogos mais despretensiosos em que o aprendizado de regras seja rápido e a partida não seja muito longa. O público tende a demonstrar uma interessante sanha exploratória para conhecer jogos que geralmente nunca viu antes. Dixit  continua sua carreira de sucesso no hospital. Eu já esperava que o Jenga  também seria bem aceito, mas confesso que foi até mais do que eu esperava. Durante o tempo que ficamos lá ele foi jogado praticamente o tempo todo, tanto pelas crianças quanto pelos adultos. Dentre os fatores que explicam o sucesso  desses jogos estão a facilidade de explicar as regras e o fato de que crianças e adultos ficam razoavelmente igualados neles. No caso do Jenga o jogo é tão simples que bastava observar ele sendo jogado para entender, ao mesmo tempo ele acabava sendo extremamente flexível. Um paciente podia deixar a mesa para ser atendido e isso não interferia no jogo dos outros.

Também joguei meu jogo de Cerrado. Afinal levo ele para lá desde o início do meu trabalho. E a recepção foi melhor do que eu esperava, afinal a carga de aprendizagem dele é um pouco maior que a dos outros. Tive até gente perguntando por ele e querendo saber onde poderia comprar.

Ao mesmo tempo, esses jogos comprovam a minha impressão de que a melhor propaganda para um jogo é ver ele sendo jogado. O grupo sentado, concentrado, discutindo o jogo e, em alguns momentos, tenso (no bom sentido) e feliz têm um efeito quase magnético sobre as pessoas que estão procurando algo para jogar. O inverso vale para um jogo na caixa, ainda que a curiosidade das crianças sempre abra espaço para se abrir uma caixa

O outro aspecto que interessante é que como os jogos são novos para a maioria adultos e crianças acabam razoavelmente próximos. O que torna os jogos ainda mais interessante para os pequenos. Fiquei feliz quando uma das voluntárias do hospital pediu para aparecermos mais vezes, pois aquilo era muito divertido para os adultos também. É, parece que o bom e velho flow funciona para todos.

Em termos de melhorias a se fazer, porque sempre se pode melhorar, um treinamento prévio para os voluntários seria uma boa. Mesmo que eles já conheçam vários jogos, sempre fica algum que eles não conhecem. Isso ficou comprovado por duas das voluntárias que treinei na noite anterior e que tiveram um desempenho simplesmente fantástico.  Imagino se todos forem adequadamente preparados então. E algumas explicações sobre as peculiaridades do hospital evitam gafes e deixam os voluntários mais à vontade para trabalhar. Por exemplo, dependendo de quem está jogando o voluntário precisa improvisar com as regras para adequar ao nível de dificuldade, ou mesmo recomendar um outro jogo caso ache que a experiência não será boa. Mas para isso o voluntário precisa de algum nível de domínio sobre as regras. Nesse aspecto incluir voluntários do próprio hospital e gente com esse experiência semelhante foi uma boa.

De qualquer modo o saldo continua 100% positivo. A equipe do hospital nos recebeu ainda melhor que no ano passado e nos meus dias comuns já começo a observar impactos positivos: como outros jogos na sala de voluntários e o interesse da coordenação de voluntariado em criar um projeto específico com jogos para o hospital. As hipóteses que me levaram a trabalhar lá se mostraram válidas e outras pessoas estão observando isso. Já consegui até arranjar mais uma voluntária que atua no hospital e ganhamos mais interessados em aparecer outras vezes. Ainda observei alguns que não estavam apenas se divertindo, mas estudando e observando com repetir esse trabalho. O que é tudo o que eu queria, que ele vá além de mim.

No mais, meu sinceros agradecimentos a todos que nos ajudaram: do voluntário que queimou os neurônios, de quem levou as mesas e separou jogos, quem deixou um lanchinho até os que acompanharam e divulgaram o trabalho. O hospital conseguiu nos receber de forma ainda melhor que no ano passado.

Não curamos ninguém, mas enquanto jogamos com as crianças o motivo que as trouxe lá virou um detalhe. Naqueles momentos eles eram competidores, conquistadores, criativos. Pode ser apenas um momento, mas naquele momento era algo diferente de doença que mantinha eles no hospital. Pode parecer pouco, mas já justifica todo o trabalho.

Devido à uma agenda cada vez mais restrita mudei meus dias de voluntariado para o sábado. E confesso que se eu soubesse que a mudança seria tão boa já teria feito isso a mais tempo.

Por mais que eu negasse, trabalhar depois de um dia inteiro de expediente era um esforço a mais. Mesmo que o trabalho seja simplesmente levar jogos de tabuleiro para crianças e adolescentes jogarem. E para os pacientes, jogar ou se distrair depois de um dia inteiro de tratamento também não é mole. Mas só observei isso quando começei a trabalhar nas manhãs. Os dias são bonitos, eu começo a trabalhar descansado e os pacientes estão muito mais dispostos. Tanto que o número de negativas diminuiu muito. Os pacientes estão muito mais dispostos nesse horário.

E essa mudança também teve seu preço. Logo observei que mal conseguia atender os pacientes interessados. O tempo disponível simplesmente voa. Ainda mais quando é preciso higienizar o material a cada sessão de jogo. O que deixou ainda mais patente a necessidade de mais gente fazendo esse trabalho, temos uma demanda represada para lidar.  Além da internação agora também posso atender os pacientes e acompanhantes que estão esperando atendimento, um grupo diferente do que eu geralmente atendo mas que já me rendeu boas surpresas, sem contar que o cenário do hall é ótimo.

Ao mesmo tempo é muito legal não estar totalmente sozinho, pois agora eu consigo encontrar outros voluntários, como a turma do Reiki que também trabalha por lá. E também tive o prazer de descrever meu trabalho para três interessados. Foi algo interessante observar a quantidade de conhecimento que ganhei com a experiência e ver que a ação de natal rendeu frutos. Um dos meus objetivos era justamente angariar possíveis voluntários. Como o grupo é criterioso com a entrada de voluntários eles devem passar pelo curso de formação de voluntários e entrevista no próximo semestre.

Outra mudança foi nos jogos. A variedade de crianças e adolescentes demanda jogos diferentes. Assim, comprei um pequeno dominó de figuras geométricas e cores e consegui um simpático jogo da memória com dicas de trânsito do DER-DF. O qual ficou viável para o meu uso graças à doação da Orgutal, com as cartas dentro dos sacos plásticos eu não preciso me preocupar com a higienização. Alcool 70% pode ser cruel para a durabilidade das cartinhas. Já o meu jogo de Damas sofreu um triste acidente numa noite chuvosa (não consegui resgatar a maioria das peças pretas) e ainda vou substituir, os adolescentes gostam e não é preciso enfrentar aquele momento complicado de se explicar as regras. Damas é como calça jeans, sempre funciona. Já deixei o jogo para pai e filho ficarem jogando enquanto eu ia atender outro quarto.

Mas ainda assim vou fazendo meu trabalho de formiguinha. Não vai mudar o mundo, mas se trouxer um sorriso e alguma distração para pacientes e familiares durante o meu turno eu já me dou por satisfeito.

Em 19/12/2014 participei da melhor ação com jogos do ano. Dentre as que eu montei, claro. Em conjunto com o LC da Orgutal, planejamos uma atividade com jogos de tabuleiro no fechamento da Semana de Natal do Hospital da Criança.  A atividade foi basicamente o que meus amigos fãs de jogos chamam de “jogatina”, juntamos vários jogos diferentes para que as pessoas simplesmente joguem, sem placar geral ou apostas.

A tarefa parece algo bem prosaico, mas exige um certo grau de planejamento. Nas nossas jogatinas informais sempre tem alguém que já conheça o jogo e está disposta a ensinar aos outros, ao mesmo tempo todo mundo tem interesse em aprender. No nosso caso o público-alvo eram pessoas de idades variadas, desde pacientes, crianças e adolescentes de até 18 anos, acompanhantes, geralmente os familiares dos pacientes e outros voluntários e funcionários do hospital. O que levou a pensarmos numa seleção adequada para a situação. Jogos mais casuais e despretensiosos, do tipo que mesmo crianças não teriam problemas em jogar. Mas considerando que era um hospital havia um outro complicador: deveriam ser jogos que pudessem ser higienizados antes do uso. Ficaríamos no hall do hospital, um local por onde passam diariamente centenas de pessoas.

A diferença mais legal para meus “Embalos de terça à noite” é que dessa vez eu não estava sozinho. Juntamos um pequeno, porém intrépido, grupo de voluntários que toparam passar sua tarde de sexta jogando. Vários já tinham feito trabalho voluntário,  e em comum todos tinham a disposição de trabalhar e  experiência em jogar. Um erro que eu cometi foi não fazer uma reunião de briefing adequada para preparar os voluntários, mas eles se viraram muito bem apesar disso. Após uma rápida explicação das regras de cada jogo eles foram assumindo mesas e atendendo quem chegasse para jogar. E depois disso as mesas ficaram cheias até o final.

Ao chegarmos no local começamos por higienizar as mesas e jogos. Para isso eu levei 1 litro de álcool 70% e um borrifador que me acompanha nas minhas noites de visita. Só esse trabalho nos rendeu uma “pequena multidão de pequenos curiosos” em torno das mesas perguntando o que aconteceria. Um deles reconheceu uma versão de tabuleiro de Plants vs Zombies e praticamente grudou na mesa, achei que só sairia de lá depois de jogar ou com uma espátula. O jogo fez tanto sucesso que um pai que estava esperando o filho sair do tratamento acabou se tornando voluntário e ficou na mesa para ensinar e jogar com as crianças.

Creio que chegamos a ter uns 6 ou 7 jogos acontecendo ao mesmo tempo. Alguns em grupo e outros apenas em duplas. E logo os pais que assistiam seus filhos jogarem também começaram a tomar seus lugares. No caso do jogo de Cerrado eu jogava ou acompanhava os jogadores, mas quando o processo pegou embalo eles pediam os jogos e jogavam entre si.

A mesa de Dixit foi um sucesso. O jogo é um exemplo de elegância pela simplicidade, sendo fácil de aprender e ao mesmo tempo instigante, funcionando bem com crianças e adultos. Os outros voluntários adoraram e tivemos várias rodadas.  Zoo Panic foi algo mais trabalhoso, sendo um jogo mais complexo quem trabalhou com ele adaptou as regras para as crianças e em vários momentos lidou com alguns que só queriam mesmo andar de carrinho. Glamour, da Oca Studios, fez sucesso entre as meninas, rendendo várias adaptações por parte de quem cuidou do jogo. Quoridor, funcionou muito bem, as partidas duravam em média 15 minutos e as crianças jogavam muito concentradas. Tanto que uma das voluntárias admite que levou uma surra no jogo. Eu mesmo levei uma no jogo de Damas.

No geral o processo correu livre e com um leve tom de caótico, o qual estava sendo tirado de letra pelos voluntários. Eles tomavam a iniciativa e não parecem ter tido constrangimento em lidar com as crianças. Alguns jogavam de brincadeira ou mesmo adiantavam o final do jogo quando viam que o oponente estava se desinteressando. Enquanto outros ralavam para oferecer uma competição razoável. Pacientes de 8 a 10 anos viravam competidores vorazes e alegres, enquanto cada jogo era uma incógnita para os voluntários. Em alguns casos os pais tiveram de buscar os pacientes na mesa e jogo e houve quem dissesse que estava adorando estar no hospital. E o que era para ser uma atividade que pensada para terminar por volta de 16h30 foi até o final do expediente.

Confesso que não saiu exatamente como eu havia planejado, foi melhor.

Apliquei o jogo no Jardim Botânico de Brasília. Dessa vez não havia nenhum evento em específico ocorrendo e tivemos outras opções de jogos, resultado de uma lucrativa parceria com a Orgutal.

Ao contrário dos estudantes e jovens de sempre o público dessa vez foi literalmente familiar. A maior parte do público era de famílias, grupos familiares jogando juntos e em arranjos variados: eram filhos, pais, mães, tios avós com os netos.

Como conhecer um jogo novo é uma situação de aprendizagem é possível ter uma idéia de como o aprendizado algo novo é visto por diferentes famílias. Em algumas isso é uma diversão, em outras um desconforto, sendo que temos aqueles que crescem com o desafio e os que fogem dele.

Chega a ser engraçado observar o desconforto de um adulto com a hipótese de parecer ignorante frente à uma criança. O que demonstra um pouco da diferença de atitude por idade. Apesar dos adultos em geral se sentirem desconfortáveis com a idéia de jogar com crianças, se superada essa “tensão superficial” eles podem obter um bom momento de interação com seus pequenos. De fato é algo que demanda uma certa dose de segurança pessoal.

Nesse aspecto é muito legal ver como crianças florescem quando tem a devida atenção de seus pais ou parentes. Vi uma criança de 6 anos montar jogadas interessantes e ver coisas que os adultos ao seu lado não viram enquanto jogava contra sua mãe e uma amiga. Infelizmente, isso também fica visível pelo contraste: quando você vê o discreto estrago que a ausência dos pais provoca. Isso ficou visível com outra criança que participou, 3 anos mais velha e que basicamente foi “deixada por lá”. Essa quebrava a cabeça para entender o que estava acontecendo na mesa e com uma visível baixa estima tendia a desistir perante qualquer dificuldade. Ela tenta compensar falando sobre brinquedos caros e tenho que me esforçar para não constrangê-la ainda mais quando o placar começa a se distanciar e ela vai ficando para trás. Perder é um risco aceitável para quem é seguro de si, mas uma catástrofe para quem já não tem uma boa autoestima. Assim, ele joga apenas um pouco, mas depois fica “orbitando” a mesa vendo os jogos dos outros. Convido ele para jogar novamente, mas ele não aceita. Ele ouve um pouco das explicações, mas logo se distrai, vai passear e retorna. Ele quer e não quer.

Essa é uma daquelas pequenas tragédias, insidiosa por sua sutileza. Um crime que deixa poucos rastros, mas esses terão impacto por muito tempo. Dificilmente o coitado vai perceber um dia que ele poderia ser mais se tivesse tido algum apoio decente dos pais. Muitas vezes a ausência pode ser pior que decisões ruins. Provavelmente ele vai achar que sua criação foi bem “normal”e os pais certamente nunca vão perceber o que negaram ao filho. Ao menos esse foi um dos poucos. A maioria estava junto e conseguiu se divertir junto com os filhos. Há um eco bonito quando o brilho nos olhos de uma criança que aprende algo é respondido pelo brilho nos olhos da mãe que estava lá para ver seu filho aprendendo algo.

A experiência de ter vários jogos também abriu espaço para um público mais amplo. Crianças novas tem uma divertida habilidade em criar suas próprias regras e o que era um jogo pode rapidamente virar um quebra-cabeça de acordo com a imaginação do jogador que estiver à mesa. Essa variedade se torna um desafio para o facilitador que deve ser ainda mais flexível para manter o círculo mágico do jogo funcionando. É preciso evitar a armadilha do didatismo em excesso e deixar que isso continue sendo um jogo. No final das contas ainda atendemos poucos, mas os que estavam lá tiveram uma boa experiência.

Noite não muito promissora: eu estava exausto, havia deixado meu outro jogo no trabalho, estava apenas com o jogo de damas e só notei que havia esquecido minha garrafa de alcool 70% quando cheguei no hospital. Para piorar, o álcool em espuma disponível lá não apenas limpava as peças como também detonava com elas. Ou seja,  minhas perspectivas não estavam muito animadoras naquela noite.

Ainda assim, num dos quartos conheci um daqueles garotos tão bonitos que parece parte do elenco de um comercial de margarina. Ele tem 5 anos e estava sozinho no quarto com a avó. Considerando a idade imagino que ele não vá se interessar muito por damas. Mas apesar de ser muito tímido com estranhos, segundo a avó, e nunca ter jogado damas ele aceita aprender e jogar uma partida.

Explico as regras básicas para ele e vamos jogando. A avó ao lado acompanha, cutuca, recomenda jogadas e eu diplomaticamente vou sugerindo que ela dê algum espaço para ele. Tenho certeza que ela tem a melhor das intenções mas ela cai na armadilha de uma abordagem behaviorista falha na qual apresentar o comportamento desejado é mais importante que a aprendizagem em si. Eu não quero que ele faça o que eu gostaria, quero que ele pense como um jogador de damas. Mesmo que essa noite seja apenas o início de seu aprendizado.

Nas primeiras jogadas meu oponente está totalmente travado, primero espera que a avó lhe diga o que fazer ou me olha esperando que eu lhe diga o que fazer. A avó entende o silêncio como um pedido de ajuda, enquanto eu pretendo tornar a vida do garoto um pouco mais divertida, mas não necessariamente mais fácil. Assim, para criar algum vínculo e deixá-lo mais à vontade para pensar eu me ajoelho junto ao leito da cama para ficar na mesma altura que ele e podermos nos ver olho no olho. Eu passo a falar com a voz baixa e pausada, sem medo de longos silêncios e sem cobrar que ele me responda rápido. Minhas jogadas são respondidas com o silêncio. Eu espero, tento esconder qualquer traço de impaciência e pergunto que jogada ele deseja fazer. Ele parece ter muito medo de errar, mas vai relaxando à medida que mostro para ele que esse é um ambiente em que não precisa temer o erro. Faço minhas jogadas com narração: movo meus peões e vou comentando, de forma tão despretensiosa quanto possível, quais são minhas jogadas e o que estou planejando. Adiciono um pouco de comédia tentando trazer um pouco da batalha que o jogo representa. Faço barulhos e finjo explosões quando as peças se movem ou são comidas e começo a chama-lo de “general”. É preciso ser didático sem parecer didático, o principal neste caso é o lúdico.

Nesse meio tempo a avó se afasta e avisa que vai dar uma volta. Assim eu cumpro meu objetivo secundário da noite: além de entreter as crianças dou um tempo para os acompanhantes tomarem um banho ou, pelo menos, desanuviarem um pouco.

E, de forma bem cuidadosa e algo desconfiada ele vai relaxando e colocando a mente para funcionar. Ele começa esboçar o pensamento estratégico de um jogado:, percebo que está pensando em jogadas, formulando hipóteses e tentando prever o que irei fazer, ainda que de forma bem básica, mas nada demais para uma primeira partida. Quando não tem idéia nenhuma pergunto se ele quer alguma sugestão. Faço isso tomando o cuidado de soar neutro e sempre lhe dar mais de uma opção para que, mesmo com ajuda, ele seja obrigado a tomar uma decisão. Silenciosamente ele concorda quando eu ofereço ajuda e, em alguns casos, aponta para qual peça deseja mover. Vejo um discreto sorriso na hora em que ele come as minhas peças e tenho vontade de lhe dar um beijo na testa quando vejo as mãozinhas se movendo para me apontar a peça que deseja mover. A partida parece durar horas e estou mais atento a indícios de sua aprendizagem que ao jogo em si. Mas chega a um ponto em que ele se cansa e sinto que seu interesse decai. Prefiro terminar o jogo antes do que deixar que ele jogue só porque estou esperando algo dele. O garoto realmente já tem o mais que o suficiente para lidar.

Ele me parece um tanto cansado, espero que isso seja mais consequência do esforço mental do que efeito da quimio, mas também parece estar satisfeito. Assim são os embalos de terça à noite, eventualmente tenho boas partidas mesmo nos dias mais insuspeitos.

Mais uma noite de hospital, já estou num ponto que tenho vários conhecidos, pacientes que já jogaram comigo várias vezes, mas ainda assim sempre surgem jogadores novos que rendem interessantes surpresas.

Sempre que chego gasto algum tempo na necessária limpeza das peças com alcool antes de visitar os pacientes. Como a imunidade dos pacientes é baixa esse é um procedimento obrigatório toda vez que eu entro num quarto novo. Assim, geralmente eu começo na sala de convivência da internação onde posso colocar o jogo numa passadeira larga o suficiente para passar o alcool com rapidez.

E foi lá que eu conheci o A. um sujeito simpático e curioso que estava brincando com a mãe. Percebi que ele estava me olhando e sussurando perguntou para a mãe o que eu estava fazendo. Como eles eram novos no local e a mãe certamente também não sabia o que eu fazia aproveitei para me apresentar e convida-los para jogar.

Claro que A. aceitou e chamou a mãe para continuar. Mas considerando a cara de cansaço da mãe aproveitei para dar uma deixa para ela descansar um pouco. Deixa que ela entendeu e prontamente aproveitou que A. estaria comigo para poder tomar um banho.

Crianças de 4 anos são um desafio para minha habilidade como facilitador e para o jogo também. A idade ideal fica em torno dos 11 anos e ele não tinha nem metade disso. Mas o problema pode ser compensando pelo que chamo de “calibragem de desafio” reduzindo o número de regras e peças para tornar o jogo mais simples e aumentando minha presença como facilitador para auxiliar A. na experiência de jogo. Existe um fio de navalha entre ajudar ele a jogar e jogar por ele.

Assim, estamos jogando praticamente um quebra-cabeça disforme onde ele se concentra em encaixar as formas de cerrado e eu vou pontuando características do Bioma para ele. A. se mostra curioso, mas como eu já vi esse processo é mais um diálogo que uma aula, o que significa que dou muito espaço para ele falar.

O que em alguns momentos se torna divertidíssimo. A imaginação de uma criança de 4 anos é algo cru, de uma criatividade quase selvagem, com os limites entre a fantasia e realidade bem mais suaves que na mente adulta. Em alguns momentos beira o surreal, como conversar com a delírio. Eu mostro os animais de cerrado e ele me pergunta onde estão os dinossauros e logo me conta um complexa (e maluca) história sobre dinossauros e porque ele gosta deles. E tudo isso começou com a figura de uma tamanduá. Eu descrevo um pouco do tamanduá para ele, onde adicionei uma imitação de tamanduá bandeira que vi numa peça de teatro, com direito a uma lambida virtual do tamanduá que ele achou muito engraçada. O jogo se torna praticamente secundário, uma ilustração do cerrado que estamos criando, enquanto ele vai imaginando coisas, como um batman que corre atrás do coringa. Afinal coringa é verde e eu respondo mostrando que no cerrado também existem árvores de flores roxas, como a Sucupira. Palavra que até o final do jogo ele consegue pontualmente se esquecer, tornando-se Sucu. ou Sucupi, por sinal a cor roxa é outra das cores do coringa. Confesso que agora eu consigo imaginar melhor o que as pessoas ouviam quando eu estava com meus amigos falando sobre RPG.

E assim, a noite vai, as peças vão se encaixando enquanto eu falo da chuva, das matas e da degradação dos rios, enquanto ele me responde com naves espaciais, dragões e sonhos que vão se encaixando em nosso diálogo. Jogamos até a mãe dele voltar do banho e terminarmos para ele lanchar e tomar remédios. Ele parece ter se divertido, mais com o que construiu do que o que ouviu de mim. Enquanto do meu lado eu me diverti ainda mais com o que eu ouvi dele. Voluntariado é assim, esteja preparado para o inesperado, ele pode te trazer boas surpresas mesmo num hospital.

E lá estava eu entrando no hospital para mais uma das minhas noites de jogo com os pacientes. Cortesia da Abrace. Geralmente  converso com as enfermeiras para saber se há algum quarto com restrição de acesso, vou até a sala comunitária e aproveito para ver se há pacientes na faixa de idade adequada para o meu jogo. Tudo isso antes da minha “ronda” até o final do corredor, quando vou entrar de quarto em quarto para jogar com eles.

Bem, enquanto limpava as peças já tive o meu primeiro presságio de que essa noite seria concorrida. Três garotos estavam se revezando no videogame da sala jogando Grand Theft Auto. Admito que, na comparação, minhas pobres pecinhas empalidecem contra um videogame consagrado apresentado numa tela de 40 polegadas. Mas tudo bem, há outros quartos e outros pacientes.

E a ronda começa: bebês num quarto, dorminhocos no outros e bingo! Encontro uma das minhas assíduas, um que já jogou diversas vezes, perdeu algumas, ganhou outras e raramente nega uma partida. Jogar com ela está se tornando um clássico pessoal e já posso subir um pouco o nível de dificuldade com ela. Perfeito para garantir ao menos um sucesso na noite. Ela está um tanto quieta, normalmente é mais competitiva, mas tudo bem. Vamos testar uns movimentos novos, provocar um tiquinho o gosto dela por vencer e tudo se resolve.

Porém, de repente ela se vira para a mãe e diz: Eu vou vomitar!

Eu fico surpreso. E porque cargas d´agua estou surpreso? Não estou num hotel, mas num hospital, ela é uma paciente, óbvio que coisas assim acontecem. E enquanto eu pensava no que fazer e era tomado por essa renca de pensamentos inúteis a mãe dela, muito mais útil, corria para pegar o saco de vômito que estava na cama. Infelizmente não deu tempo e a pobre senhorita “pintou” o lençol com restos do lanche e efeitos colaterais. Assim, estávamos todos nós constrangidos: a mãe porque a filha vomitou; a filha porque vomitou e eu me sentindo um completo e inútil voluntário. Ao menos chamei a enfermeira e ajudei a trocar o lençol. Tentando manter minha fleuma britânica e tornar o ambiente menos constrangedor perguntei para minha doce adversária se ela topava continuar. Oferta que ela obviamente rejeitou, nota mental: botar os bofes para fora costuma reduzir o ânimo das pessoas.

Ok, próximo quarto. Me apresento e reconheço outra jogadora de outra partida, muito promissora por sinal. Porém pela cara dela percebo que cheguei num momento não tão promissor assim. Tudo bem, próximo quarto, de novo.

E aqui encontro outro dos assíduos. Na verdade esse é o adversário mais casca grossa que eu tenho no hospital, o único que realmente me obriga a usar de tudo para ganhar e ainda assim perco de lavada dele de vez em quando. Inteligente, competitivo, adora jogar e se diverte muito fazendo isso, desafio garantido. Ops, vendo um filme? Ok, sem problemas, outras noites virão. Seu colega de quarto era um dos que estava no videogame, os peões se encolheram quando eu propus uma partida. Claro que ele não topou.

E já estava eu achando que ia voltar para casa mais cedo, derrotado por W.O quanto entro em mais um quarto.Mas uma vez faço meu pequeno número de apresentação com a certeza de que vou ser derrubado pela novela das 19h. Uma paciente olha para a outra, uma sorri e a outra parece um tanto indecisa mas concorda, Ambas topam jogar.

Jogar em três tem sido algo incomum nas últimas noites. Essa não é uma oportunidade a se ignorar e claro que eu aproveitei. Expliquei as regras com a calma e detalhamento, tanto detalhamento que elas acharam o jogo muito mais simples na hora que começaram a jogar.  E aquela foi uma das partidas que me relembrou porque eu gosto do que estou fazendo. Elas observavam a aprendiam, eu jogava, comentar, sugeria explicava. Em algum momentos eu mostrava uma jogada que fiz ou sugeria como elas poderiam ganhar mais pontos. E a todo momento aproveita para mostrar a relação entre as regras do jogo e o que realmente acontece no Cerrado. Quando a cara de chuva aparece eu descrevo a enchente e mostro quando é pago o preço do desmatamento das matas de galeria.  Nos campos úmidos e nascentes mostro o rio que se formou, vale muitos pontos, e falo sobre a importância das nascentes.

O outro ponto interessante foi observar o comportamento delas jogando, surgem diversas oportunidades de aprendizagem nesses momentos e é possível conhecer elas um pouco melhor. Uma, a jogadora das peças vermelhas,  é perfeccionista e competitiva, se indigna consigo mesma quando observa que perdeu uma oportunidade, sabe que está atrás no placar mas não desiste. A outra, com as peças brancas é quieta, um tanto indecisa, mas adotou a tática de fazer pontos ” de grão em grão” sem chamar a atenção. Eu aponto os estilos, sugiro opções: Onde podem ganhar mais pontos ou perder, sugiro riscos e possibilidades. Nunca explico a jogada toda, apenas levanto hipóteses para que elas tentem responder jogando.

Uma das minhas frustrações é que como educador eu sou um espelho, no máximo uma lente de aumento. Eu não consigo incutir aprendizagem, desejo ou prazer de aprender, mesmo com o jogo. Eu apenas aumento ou valorizo as capacidades que o aluno já tem. Por outro lado, aquele é justamente o caso que eu adoro, trabalhar os potenciais, colocar os jogadores numa situação em que eles estão no comando e o aprendizado vem com a experiência deles. Não sou eu que digo o que eles devem fazer, eles chegam as suas próprias conclusões, é aquela faísca cognitiva que eu tanto procuro.

A Rainha Vermelha tenta e reclama, nunca surgem as cartas que ela quer. Eu digo que a vida é assim, não adianta pensar só no que você gostaria é preciso se virar com o que tem. A mãe de Vermelha se interessa. concorda que a filha é perfeccionista e competitiva me pergunta o que ela poderia fazer para mudar. Um momento delicado, jogo com cuidado. Digo que ambas as características não são necessariamente defeitos. Como no caso das cartas ela deve aprender a fazer o melhor com o que tem na mão. Se bem utilizadas essas características podem ser virtudes. Brinco de Paracelso comentando que a diferença entre remédio e veneno é a dose.

A Princesa Branca é indecisa não gosta de se arriscar, é preciso incentivá-la. Como quase todo mundo ela segue o princípio da satisfaciencia.  Ela não procura a melhor alternativa, o máximo absoluto, mas sim, aquela alternativa mais satisfatória, que se mostra suficiente frente às possibilidades da situação. Mas é possível incentivá-la a procurar um pouco mais por alternativas. Digo que todas as jogadas são escolhas, tem seus ganhos e seus custos e a diferença entre eles é o que vai definir se uma jogada foi boa ou não. Novamente aponto possibilidades, eventualmente digo que ela pode ganhar pontos em sua jogada, dependendo do terreno em que se posicionar. Vermelha é esperta e entende o que estou fazendo, ela me olha com cumplicidade e não fala nada. Em alguns momentos Branca acerta e em outros não, em alguns casos eu a elogia, em outros mostro o que ela poderia ter feito. Depois dela decidir a jogada dela, claro. Um tequinho de decisões e consequências, o erro é uma fonte de aprendizagem e tento manter o foco em não discutir jogadas certas ou erradas.

E assim jogamos duas partidas, elas perguntaram onde poderiam comprar o jogo e quando eu viria de novo. Elas estão satisfeitas e eu curti o meu momento 80 nessa noite.

foto-escoteiros

Foto: Kilson Moura

Hoje joguei com o Grupo Escoteiro José de Anchieta. Eles tinham um evento, a Volta Anchieta no Parque da Cidade. O evento envolvia a passagem dos escoteiros em várias estações e numa delas eu estaria com os jogos como uma ação de educação ambiental.

Para variar o evento foi tão legal quanto cansativo. E garanto que foi extremamente cansativo. Os grupos grandes demandam mais facilitação, apertam o cronograma e limitam o potencial para reflexão, mas ainda assim tivemos resultados satisfatórios. A maioria dos grupos se envolveu na atividade e até pediram para jogar de novo. A experiência só reforçou a idéia de regras diferentes de acordo com o público, objetivo desejado e/ou situação. Nesse caso foi um grupo de mais de 100 escoteiros jogando.  E mesmo as adversidades são interessantes por definirem opções melhores para o emprego de jogos.

Dentre as primeiras conclusões

  1. Jogos demandam tempo. Não é apenas tempo para aprender as regras, mas também para montar jogadas, entender as possibilidades, os outros jogadores e montar uma estratégia. Mesmo num jogo simples essas atividades demandam concentração e uma certa maturação do pensamento em cima do jogo e isso não vem rápido, na verdade cada um tem seu ritmo para isso e essa diferença de ritmo demanda ainda mais tempo.  Análises de impacto futuro certamente vão ter de observar isso. O que bate muito com a idéia de aprendizagem pela experiência.
  2. A explicação das regras é um momento importante. Como diria Aldricht, o “lado raso da piscina” a fase inicial do jogo que é a apresentação das regras é uma fase simples e instrucional, mas nem assim ela é fácil. Muitos jogadores não conseguem absorver tanta informação de uma vez ou precisam de outros recursos, como um contexto para a explicação fazer sentido ou exemplo de jogadas para contextualizar a aprendizagem e aplicar o que aprendeu no jogo de forma satisfatória. Obter isso é essencial para a qualidade do jogo que virá depois. Uma opçào interessante é uma primeira jogada de teste, como as sequências tutoriais que alguns videogames empregam hoje em dia. É eficaz, demanda ainda mais do facilitador no início mas facilita consideravelmente o trabalho depois.
  3. Competição tem um efeito regulador. Os chefes escoteiros estavam muito preocupados em reforçar o aspecto colaborativo do jogo e pediram que os grupos, as patrulhas jogassem juntos e o resultado de todos o jogadores fosse somado como um resultado de grupo. Isso trouxe um efeito inusitado, alguns começaram a abandonar ou “esquecer” regras inconvenientes, como as que tiravam pontos, e tratar o jogo como uma montagem de quebra-cabeças.  Era muito mais frequente ver peças montadas erradas nesses grupos que nos outros. Minha teoria é que quando o aspecto competitivo do jogo é individual todos os jogadores acabam mantendo um policiamento mais rígido das regras justamente porque estão competindo e isso acaba se refletindo numa melhor qualidade da experiência de jogo em si. O que bate com a idéia do Rapoport (1974) sobre a cooperação que existe mesmo nas atividades competitivas. Um jogo é uma competição com regras enquanto uma guerra seria a competição sem qualquer limite. O Keegan inclusive diz que foi justamente essa noção de guerra sem limites que levou a humanidade à beira da extinção com o risco de guerra nuclear .
  4. Iniciativa faz toda a diferença. Nesse aspecto jogos me lembram muito o ensino a distância (EaD). O estudante/jogador está num papel ativo, o que significa que a aprendizagem depende muito mais dele do que de qualquer outra pessoa. Devido a quantidade de participantes, não sei quantos foram mas  sei que foram muitos, a qualidade da explicação de regras começou a deteriorar. Ainda assim certos grupos conseguiram superar a desorientação inicial de jogar algo desconhecido enquanto outros estacionaram no início. Geralmente os grupos mais desagregados me pareceram ter esse problema. Ao mesmo tempo um dos pontos que fez a atividade funcionar bem foi a capacidade de iniciativa dos outros chefes escoteiros que muitas vezes com o mínimo de preparação atuaram como facilitadores.

A experiência foi legal por me mostrar claramente as vantagens, limitações e necessidades da aplicação de jogos educativos em grupos grandes. Diversos aspectos logísticos podem melhorar muito a experiência.  Os escoteiros são um grupo especialmente interessante por serem sensíveis a questão ambiental e também porque é um grupo onde disciplina ainda é considerada um valor. Isso facilitou muito as coisas, especialmente num grupo grande.

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