You are currently browsing the category archive for the ‘pesquisa’ category.

tecnologiaUm dos mistérios frustrantes que observei na educação ambiental é que apesar de toda a pesquisa sobre a importância do meio ambiente, as tabelas, análises de campo, publicações, folders, filmes da Disney e o meu próprio jogo é muito difícil observar o que realmente importa, as pessoas começarem a agir diferente. Não é que as pessoas não prestem a atenção nas informações, não as entendam ou não concordem. Mas o que realmente importa é observar elas fazendo algo a partir das informações que receberam. E obter isso é algo muito mais difícil do que se imagina.

Como diz uma genial colega minha: os educadores tem de assumir que, no fundo, o que desejamos é mudança de comportamento sim. Não importa se o aluno chorou de emoção quando aprendeu algo, ainda que seja gratificante, o que queremos é que ele use isso na vida dele.

Mas para tanto, não basta considerar apenas a transferência de conhecimento. Se o aluno demonstra ter memorizado o conteúdo apresentado na escola através de um teste. O mundo vai além das questões de ensino e aprendizagem que ocorrem dentro das paredes da escola. É preciso considerar também as crenças do público e suas eventuais motivações. No caso da tecnologia é preciso considerar a motivação (querer usar); conhecimento (saber usar) e capacidade (poder usar), que vai envolver condições e/ou estrutura. E no aspecto motivacional entra justamente a teoria ação racional de Ajzen e Fisher (2010).

Segundo ela para conseguir esse comportamento é necessário se chegar a uma intenção comportamental, que é influenciada de três fatores:

  • motivação pessoal: a predisposição da pessoa, as crenças inicais do indivíduo, a atitude. São crenças já instaladas na pessoa que raramente são questionadas, em princípio são consideradas corretas e são a base para a formação de novas crenças. Portanto essas, são difíceis de mudar e suponho que geralmente tenta-se não entrar com conflito com elas
  • motivação social: são crenças baseadas em normas, especialmente sociais, comportamentos que são aceitos ou não dentro de um grupo. São as crenças de uma pessoa sobre o que o seu grupo acha que ele deve ou não desempenhar
  • motivação situacional: seriam crenças de controle, baseadas nas experiências passadas e nas circunstâncias do momento. Quanto mais recursos e oportunidades as pessoas pensam que bem e menos obstáculos percebem maior será sua sensação de controle para poder fazer determinado comportamento. Seria algo como: “Isso é legal, mas será que eu consigo fazer, ou será que o que eu consigo fazer faz alguma diferença?”. Percebe como isso vai influir a motivação do sujeito?

Dependendo as crenças observadas e da intensidade os indivíduos vão estar mais suscetíveis ou mais resistentes à adotar algo novo, seja um conhecimento ou um produto.

Esse também é um dos nós de quem trabalha com C&T, especialmente com o T de tecnologia: não basta pesquisar ou desenvolver. Também é preciso que essa tecnologia, produto ou conhecimento, seja efetivamente adotada pelo público-alvo, que ela passe a fazer alguma diferença. E para saber se isso realmente aconteceu é preciso ter uma mudança em um indicador observável. E nesse caso o mais provável é que esse indicador seja uma mudança de comportamento.

Assim, mesmo que você trabalhe com astrofísica, engenharia aeronáutica, rocket science ou mesmo pesquisa agropecuária, na hora de avaliar se suas tecnologias estão sendo adotadas seu objeto de análise será essa esfinge chamada comportamento humano. Um indicador de que seus planos funcionaram é se o público-alvo passou a usar a tal tecnologia ou passou a agir de forma diferente. O que requer observar se essa mudança foi causada pelo uso dessa nova tecnologia e não por qualquer outra coisa, a tal da falsa causalidade.

Foto: Photobucket.com

o-senhor-das-moscas1

Uma referência ao livro “O Senhor das moscas” que me parece estranhamente adequada ao assunto.
fonte: A Taberna

Para um interessado por educação e jogos, entender a diferença entre a competição saudável e a nociva, também conhecida como guerra é algo essencial e, ao mesmo tempo, um enigma. O que leva um ato saudável a se transformar no desejo de destruir o outro? Entender esse processo é algo importante, afinal, isso acontece com uma certa frequência, qualquer leitor de jornal e usuário de redes sociais vê isso ocorrendo todo o dia.

Para mim é difícil entender esse processo de mudança: como atividades inicialmente pacíficas descambam para a guerra e porque isso acontece com uma certa facilidade?  Se tomarmos a internet como exemplo, a maioria das argumentações tem como objetivo produzir dano ou reafirmar uma posição, somente isso. E as brigas de torcida então? Como fatos ocorridos num campo de futebol, jogado por profissionais  se tornam o catalizador de violência que envolve multidões? Em que ponto uma discordância saudável ou um simples esporte se torna uma competição tão ferrenha que pessoas praticamente entram em conflitos  tribais?

Jogos, Debates e a tal da Guerra

6e1efa9e_thumb25255b225255d

Propaganda anti-japonesa da segunda guerra mundial. Postura de primata, pele amarela, estuprador, arma mão, sorriso cruel e olhos estranhos. Uma forma de criar uma imagem desumana do inimigo.
fonte: Kid Bentinho

Para deixar as coisas mais claras é preciso diferenciar um pouco os conceitos. Eu gosto muito da definição do Rapoport em “Guerras, Jogos e Debates”.  Nos jogos um bom adversário e o respeito às regras são essenciais. Num jogo a vitória sobre um adversário fácil não tem brilho é justamente a dificuldade que torna a partida interessante, divertida e traz algum mérito. A mesma coisa acontece em debates, onde uma pessoa tenta convencer outra de sua posição. Ambas exigem astúcia, habilidade, inteligência, mas também a capacidade de entender a posição do adversário e seu pensamento. O que também levaria a ter empatia por esse e respeito à sua posição do adversário. Enquanto na guerra, o adversário é um obstáculo a ser destruído, o objetivo da guerra é causar dano, por qualquer modo possível, até a destruição do adversário. Nesse aspecto a guerra está sendo vista de seu ponto de vista essencial sem entrar no mérito das diversas variações do termo guerra. Também é preciso considerar que para se chegar à esse estado é preciso perder a empatia com o outro, desumanizar o inimigo é um dos atos padrão da propaganda de guerra.

O experimento de Sherif

Encontrei uma luz sobre o assunto em um artigo do Dr. Peter Gray  analisando um famoso experimento sobre conflitos e resolução de conflitos me ajudou a entender melhor como esse processo ocorre. Ele levantou algumas questões interessantes acerca dos aspectos saudáveis e os não tão saudáveis da competição. Uma preocupação importante para quem quer trabalhar com jogos e que já foi assunto por aqui anos atrás. E que vai ser apresentado abaixo parte tradução, parte como resenha descuidada.

O estudo foi realizado nos anos 50 em Oklahoma sendo possível por causa dos padrões de ética de pesquisa de época. Porque eu duvido que você deixaria seu filho participar desse experimento hoje em dia.  O estudo envolvia meninos de 11 e 12 anos que participariam de um acampamento de verão e seguiu três fases.

  1. dividir os garotos aleatóriamente em dois grupos distintos, dormindo em diferentes partes do campo, com atividades e músicas diferentes para que cada grupo desenvolvesse sua própria identidade de grupo.
  2. criar condições planejadas para induzir hostilidades entre os dois grupos. Os garotos não sabiam que participavam de um experimento, eles achavam que estavam participando de um acampamento normal

  3. uma vez que os grupos estivesse suficientemente hostis seria tentados vários métodos para reduzir a hostilidade.

Considerado um clássico, os resultados mostraram que a hostilidade poderia ser reduzida através do estabelecimento de objetivos comuns, desejados por ambos os grupos e que poderiam ser melhor obtidos através de cooperação. Por exemplo, os pesquisadores criaram uma falha no suprimento de água do campo. Para resolver essa crises os grupos aceitaram trabalhar em grupo e juntos exploraram a linha de água até encontrar o problema. Com essa e outras práticas as hostilidades entre os grupos foram reduzidas e no final já haviam várias amizades entre membros de grupos diferentes que surgiram de iniciativa deles.

Se o foco experimento original era pesquisar meios de reduzir a hostilidade o Dr. Gray faz uma proposta interessante ao olhar para o outro lado, os métodos utilizados para induzi-la, algo pouco discutido. Na verdade os procedimentos para isso foram razoavelmente simples. Quando os grupos foram divididos os participantes foram convidados a competir em um torneio que envolve uma série de jogos competitivos, com a equipe de adultos do campo atuando com juízes. Os vencedores recebiam prêmios e pontos eram marcados para seus grupos. E aí começam as hostilidades reais.

lordoftheflies2

Cena do filme “O Senhor das Moscas” agora o aspecto tribal ficou mais claro, não?

À medida que o torneio avançava os grupos se tornavam mais antagônicos. O fair play inicial logo começou a mudar para provocações, acusações de roubo nas partidas e roubo como retaliação. A hostilidade se espalhou pelo campo dentro e fora do torneio, e mesmo que o perfil dos garotos em ambos os grupos fosse parecido (brancos, protestantes e de classe média e eles tenham sido aleatoriamente eles passaram a ver os meninos do grupo oposto como gente muito diferente deles, essencialmente traidores sujos que mereciam uma lição. Brigas físicas ocorreram em diversas ocasiões, ataques ao alojamento do grupo adversário e alguns garotos começaram a se armar com pedras e se recusar a comer no mesmo refeitório que o outro grupo. E quando isso acontecia tensão e violência se tornavam bem prováveis, com o risco de brigas grupais no refeitório. O que começou como um torneio esportivo cada vez mais se tornava em algo parecido com duas tribos em guerra. E tudo criado por um torneio esportivo formal.

O Brincar

Agora, vamos deixar o experimento de lado e pensar com pouco sobre como garotos geralmente brincam. E onde o Dr. Gray aproveitou para diferenciar a brincadeira do esporte formal, com suas regras, prêmios e etc.

Muitas das brincadeiras de garotos envolvem batalhas, encenadas, claro. Em alguns casos essas batalhas acontecem puramente no reino da fantasia. Os meninos criam suas cenas de batalha, decidem quem vai fazer qual papel, quem é ferido, morre ou ressuscita. Algumas pessoas, que não entendem o brincar dos meninos ,confundem esse brincar com violência e tenta impedi-lo, especialmente quando a brincadeira é mais vigorosa, empolgada, ou pela maneira um tanto áspera e caótica como eles se comportam. Sim, às vezes é difícil diferenciar quando meninos estão brincando ou brigando. Mas não é necessariamente violência, é brincadeira. Deveríamos considerar esses garotos não como guerreiros, mas como pequenos atores de improviso. Eles estão usando a imaginação para criar e atuar em histórias dramáticas e emocionantes. Brincar desse modo é não competitivo e também não violento. Não há contagem de pontos, ninguém ganha ou perde, todos estão apenas atuando em seus papéis. Também não há equipes fixas em brincadeiras desse tipo. Se este tipo de brincadeira envolve exércitos de fantasia os participantes montam os exércitos de forma diferente para cada tipo de brincadeira. Brincadeiras desse tipo não criam inimigos, pelo contrário, elas cimentam amizades.

Um aspecto dessas batalhas de fantasia é a brincadeira informal, que é retirada em esportes como o futebol, basquete e cia. Aqueles que passamos a chamar de esportes, especialmente quando jogados de modo formal, com regras, campeonatos e etc. Esses esportes também podem ser vistos como batalhas de fantasia. Existem times, territórios a serem invadidos, defendidos e conquistas a serem feitas, tudo ritualizado por regras que definem o comportamento dos jogadores.  Por “brincar de forma informal” Gray considera que essas brincadeiras ou mesmo jogos informais são totalmente organizadas pelos seus participantes sem consequências fora do contexto da brincadeira. O que importa é a diversão de todos, até a organização é algo secundário. Não há troféus, prêmios, campeonatos ou placares. Os vencedores não terão fãs nem os perdedores serão depreciados. Essas brincadeiras de guerra podem ser denominadas competitivas mas na verdade seriam, quando muito, pseudo competitivas. Pode haver torcida ou mesmo um pouco de comemoração mas no final, ninguém se importa sobre quem ganhou. Os perdedores vão para casa tão felizes quanto os pretensos vencedores. Esses jogos também reforçam amizades e evitam criar inimigos.

Formal x Informal

Se os meninos do experimento tivessem participado de jogos informais, mesmo que fossem de basquete ou cabo de guerra dificilmente haveriam as hostilidades. Sem ganhos ou perdas determinados por autoridades externas os jogadores teriam se focado mais em se divertir do que vencer. Sem juízes adultos para separar vencedores de derrotados eles poderiam ter cooperado para estabelecer regras para seus jogos e julgar de forma consensual como elas funcionariam. Eles teriam que discutir e resolver suas diferenças. Roubo e provocações, se fossem longe demais destruiriam a diversão e a própria razão de ser da brincadeira. Assim, quem não estivesse se divertindo simplesmente sairia e assim o único jeito de manter a brincadeira acontecendo seria brincar de modo a garantir que o máximo de garotos se divertisse. E crianças sabem como fazer isso.

Uma experiência pessoal

Aqui, eu (o autor) atesto vi algo assim ocorrer ao observar à distância meu filho e seus colegas de escola brincando. Num certo momento meu filho ficou cansado e não conseguia mais correr atrás dos colegas. Eu já estava me preparando para entrar no meio e dar uma deixa para ele sair e descansar um pouco sem parecer que estava desistindo. Afinal eu sou um adulto competitivo, masculino, hétero, mais ou menos branco, o mal encarnado em forma de gente e no fundo não queria que meu filho desistisse de brincar. Mas, para minha surpresa, um de seus colegas simplesmente se aproximou e disse para ele: “Ok, você me pega e a gente continua”. E assim o novo pegador saiu correndo atrás dos outros e deu alguns segundos para meu filho recuperar o fôlego, sem interromper a brincadeira de todos. Eles arranjaram uma excelente solução e o objetivo deles de continuar brincando foi cumprido com muito mais fair play e eficiência que o adulto aqui, agindo no papel de lei, agente regulador ou Estado, poderia ter inventado.

Conclusão

Voltando ao Dr. Gray, ele acredita que como esses jogos informais acabam envolvendo mais cooperação, seria razoável supor que tais jogos teriam tornado os grupos mais próximos. Batalhas de fantasia e esportes informais são brincadeira pura e esse brincar cria amizades e não inimigos. Enquanto os esportes formais e seus torneios estão fora do que seria considerado brincar livre porque são controlados por entidades externas, nós adultos. E tais jogos têm consequências claras fora do contexto do jogo, o que altera totalmente a atitude dos jogadores.

Assim, os esportes formais ocupam um espaço entre a brincadeira e a realidade e, dependendo de uma vasta gama de fatores, um jogo formal se equilibra entre o real e o fantasioso. Quando esse equilíbrio se inclina demasiadamente para a realidade uma derrota torna-se uma derrota real e os derrotados passam a ver os competidores como inimigos reais. O estudo de Sherif aparentemente encontrou uma forma de transformar esportes formais em estopins para batalhas reais. Ter consciência desses gatilhos, especialmente de como evitá-los é algo importante para manter saudáveis quaisquer experiências de aprendizagem que envolvam algum tipo competição.

Bibliografia

Gray, P. (2009) A New Look at the Classic Robbers Cave Experiment: . (online) disponível em http//www.psychologytoday.com/blog/freedom-learn/200912/new-look-the-classic-robbers-cave-experiment (acesso janeiro/2017)

Rapoport, A. (1974) Fights, Games, and Debates. University of Michigan Press

gerenciamento-de-projetos
No final de 2016 foi aprovado o projeto Popularizando Conhecimentos sobre sobre os Recursos Naturais do Bioma Cerrado através do Jogo Educativo Ambiental “Desafio no Cerrado”. Encarnações anteriores desse projeto foram temas dos artigos “O fracasso também ensina” e “E a sorte está lançada, sem contar com a sorte“. Enfim, é algo que venho trabalhando há algum tempo e agora finalmente começa a vir à luz.

E ontem tive duas reuniões para apresentar o jogo. (Sim, o jogo que tanto falo que esse citado no título do projeto) inicialmente para colegas de trabalho que fazem parte do projeto e estão na parte logística e estratégica do trabalho e futuros participantes, como facilitadores do jogo nas escolas que vão fazer o operacional, o chão de fábrica do trabalho e eventuais parceiros externos que tem interesse em apoiar o projeto.

Depois de tanto tempo trabalhando com o público-alvo, adolescente, crianças e companhia foi interessante observar a reação de adultos e relembrar que o jogo é recomendado “a partir” dos 11 anos de idade e não “apenas para” 11 anos. Mas principalmente foi uma oportunidade para relembrar porque escolhi esse trabalho.

Apesar da equipe do projeto ter uma boa idéia do que era o jogo. Para eles era apenas mais uma ferramenta de aprendizagem que simula um ecossistema e tem algum potencial de aprendizagem a ser avaliado e não muito mais que isso.  Eles ainda não haviam participado da melhor forma de se conhecer um jogo, que é jogando. Nesse aspecto, um jogo pode ser uma excelente forma de se observar a riqueza de um trabalho multidisciplinar. Um dos participantes é um pesquisador e biólogo com larga experiência em botânica, especialmente sobre os recursos naturais do Cerrado. Enquanto outra, também pesquisadora, é psicóloga com experiência em métodos de coleta e avaliação de dados em treinamento, desenvolvimento e educação.

projeto_thumb

Sim, o trabalho multidisciplinar é legal, mas como descrito acima também tem seus riscos. Fonte: o blog Invisible Flame Light

As leituras que os dois fizeram da experiência de jogo eram absolutamente diferentes, complementares e ao mesmo tempo riquíssimas. Nosso biólogo falou que inicialmente era um esforço mental para ele “puxar o freio de mão” da visão de biólogo e aceitar que o jogo é uma simulação simplificada do  Cerrado que possa ser operada por estudantes de nível fundamental, o público-alvo. E segundo ele isso já é um esforço natural, mas ainda assim compensador ao ver que os conceitos básicos estavam presentes. Como a descrição dos corredores ecológicos ou o fato de que os buritis realmente aparecem em áreas com muita umidade como veredas e próximo aos rios. Por outro lado, nossa psicóloga observou que, o jogo funcionava como uma ambiente de aprendizagem onde os conceitos e informações sobre Cerrado e meio ambiente são operados. O que,do ponto de vista cognitivo, funcionada como a construção de um andaime, uma estrutura cognitiva na mente do estudante onde ele passa a organizar, assimilar e ser capaz de organizar as informações que ele têm ou vai passar a ter no futuro sobre esse tema. O que é proposta de aprendizagem através de jogos sob a visão das teorias cognitivistas de aprendizagem, (como a do Piaget). Ao mesmo tempo o jogador também aprende ao observar a experiência do outros jogadores interagir com eles e com os materiais do jogo (peças, peões e placares) que só fazem sentido dentro do contexto de jogo.

Mais tarde tive outra reunião, dessa vez com possíveis futuros participantes que vão atuar na aplicação nas escolas. E foi outra experiência, mas ainda assim muito rica. A experiência teórica deu lugar a prática com crianças e estudantes e a experiência de jogos em si, que é bem mais comum mas gerações mais novas. Eles imergiram mais na experiência de jogo e fizeram perguntas muito mais diretas e próximas das que iremos encontrar com os alunos. Eles também fizeram uma análise crítica do jogo, como o da primeira reunião, mas com uma forte preocupação em também manter a dinâmica do jogo funcionando, até porque esse é um elemento que também deve ser analisado. Como comentei com eles, e a literatura técnica concorda: Jogo educativo pode ser como comida saudável, pode até te fazer bem, mas o gosto for ruim ninguém vai querer comer. Algo que acontece com frequência em jogos educativos que têm um lindo conteúdo teórico embalado dentro de um jogo chato. Essa preocupação foi observada por eles que também sugeriram uma fase especial para explicar as regras. O que concordou e reforçou a idéia sugerida por nossa psicóloga de que precisamos fazer uma primeira partida como tutorial, um jogo curto com peças escolhidas para explicar as regras do jogo. Na fase inicial toda a concentração dos estudantes estará em entender as regras, só depois disso eles conseguem observar estratégias, funcionamento do ecossistema e etc. Não é possível conseguir um resultado total com apenas uma partida. O que observei em outra oportunidade. Enfim, é algo muito legal ver a mesma idéia ser proposta por fontes absolutamente diferentes e isso ainda bater com a sua própria experiência.

O outro aspecto muito legal é observar o efeito do jogo nos jogadores, independente do perfil e da reunião. Acredito que um jogo novo atua como um desequilíbrio cognitivo controlado, o que força a criação de estruturas cognitivas para assimilar essa novidade, algo corroborado por nossa psicóloga. E com a dimensão social e física de uma mesa de jogo de tabuleiro isso é aumentado, algo que ouvi num dos Game Jam que participei. Assim, o jogo atua como um “catalizador cognitivo”. As pessoas são obrigadas a aprender algo, testar e empregar no mesmo momento. O que desperta sua concentração, deixa elas mais falantes e animadas. Algo que, a meu ver, bate totalmente com a idéia de hard fun do Papert.

Se conseguirmos criar nos alunos o mesmo entusiamo que consegui observar na equipe significa que todo esse trabalho realmente valeu a pena.

eu-sei-que-nao-vai-dar-certo-oh-dia-oh-ceus-oh-azar-83657-1

Hardy, criação de anos 60
da Hanna-Barbera (atual Cartoon Network) e excelente descrição de pessimista
fonte: Palavras na Gaveta

Sim, aquele seu amigo com um urubu no ombro acha que ficou lindo e vamos explicar porque a ave chama essa atenção toda.  Para isso lá vamos nós com mais uma resenha descuidada, baseada em um artigo sugerido por minha amiga Bia Lins no Linkedin e de autoria de Morgan Housel, com o título original de “Why Does Pessimism Sound So Smart? Especially when things are so good.” que pode ser traduzido como”Porque o Pessimismo soa tão Esperto? Especialmente quando as coisas estão tão boas.”

Porque o cenário atual faz a alegria dos pessimistas

Primeiro é preciso entender, no geral as vida, a sociedade e tudo mais vão bem ou mal? Ainda mais considerando que o mundo ainda está se recuperando de uma grande recessão em 2008 e o Brasil ainda está lutando com a sua que começou em 2014. De fato, se observamos a avalanche de notícias ruins, verdadeiras ou falsas, que se espalham pela internet e outras mídias é difícil evitar a impressão que as coisas estão piorando.

Porém existem evidências de que, talvez estejamos na melhor época da humanidade, como observado em por Steven Pinker  em seu livro que afirma que, na verdade, a violência humana está em declínio. Sim, claro que o aquecimento global é um problema, a guerra na Síria e o número de assassinatos no Brasil continuam sendo problemas sérios e ainda serão por um bom tempo. Mas o ponto dele é que na análise fria dos números a violência está se tornando mais rara e menos aceitável a medida que o tempo passa.

A questão é que nossa percepção parece dizer que as coisas estão piorando. Tanto que as histórias sobre distopias e futuros apocalípticos já fazem tanto sucesso que estão dando dinheiro.   Hoje somos bombardeados por informação sobre todo o acidente ou incidente que acontece, seja ele provável improvável, distante ou próximo. No final todos os casos parecem próximos e prováveis e devemos nos proteger, em alguns casos até demais. Algo que o sociólogo alemão Ulrich Beck denominou “Sociedade de Risco”. Onde a instabilidade e a constante mudança, muitas delas provocada pelo ser humano,  e a falta de referências que caraterizam nossos tempos enfatizam essa sensação de perigo. As profissões para que existem hoje podem desaparecer em poucos anos. Querer ter um emprego e viver sua vida de forma segura sem muitas atribulações pode ser considerado um sinal de fraqueza para quem nasceu nas gerações mais novas e todo mundo deveria ser um líder arrojado que ri na cara do perigo. Existem milhares de opções para tudo mas só vale se for a melhor e tem de ser agora. É possível entender porque isso provoca tanta ansiedade e faz o consumo de medicamentos pular? Todo esse “estímulo” teria no deixado ainda mais ligados nessa questão de risco e até por uma questão de sobrevivência acredito que estamos mais acostumados a ver risco como algo a ser evitado do que gerenciado, o que seria a opção mais razoável.

Mas tem outro fator: o pessimismo é charmoso

Pelo menos é essa a hipótese  de Morgan (o autor) ao afirmar que o pessimismo parece esperto, especialmente quando os tempos não são tão ruins assim. Uma pesquisa da professora Teresa Amabile observou que críticos que fazem resenhas negativas são vistos como mais espertos do que aqueles que dão resenhas positivas sobre o mesmo livro. Só o pessimismo seria profundo enquanto o otimismo parece superficial.

O prêmio Nobel Daniel Kahneman considera que existe uma resposta evolutiva que nos faz reponder com mais força para a perda que para o ganho, o seu Nobel veio desse estudo. Outro detalhe interessante: ele não é um economista, mas um estudioso de comportamento (psicologia) aplicado à economia. Como disse Deirdre N McCloskey, historiador, escrevendo para o N.Y. Times: “Por razões que eu nunca entendi as pessoas gostam de ouvir que o mundo está indo para o inferno”.

5 razões para explicar o charme do urubu

Morgan, elenca algumas razões que observou para explicar porque o pessimismo ganha tanto destaque

1. O otimismo parece ignorar os riscos. Assim, à princípio, o pessimismo parece ser mais inteligente. O que seria uma visão equivocada de otimistas com noção. Muitos entendem que existe o risco real de desastres, recessões, guerras, pandemias etc. Mas se consideram otimistas porque se focam em processos mais longos, como carreiras, projetos e aceitam que eventualmente será preciso enfrentar os momentos ruins. O pessimista considera o evento ruim como o fim da história, o beco sem saída. Enquanto o otimista considera o evento ruim como parte de uma boa história. Pessoalmente acho que a diferença estaria na perspectiva de tempo, na resistência e, especialmente, resiliência do otimista.

2. O pessimismo mostra que nem tudo está indo na direção certa, o que ajuda a racionalizar as próprias limitações. A miséria adora companhia. Observar que coisas fora do seu controle podem ser a causa dos seus problemas e não as suas próprias decisões é um sentimento reconfortante pois alivia a sensação de responsabilidade. Assim, sutilmente o consideramos atraente. É comum naqueles pessimistas reclamões que sempre têm uma queixa a relatar e deve fazer o maior sucesso nessas igrejas que adoram culpar o diabo por tudo.

Nesse aspecto, acredito que a questão também se liga um pouco ao tema da inveja. O que me lembrou uma fala do Leandro Karnal em um Café Filosófico: Para observar quem são seus verdadeiros amigos ele sugere um “teste Heidggeriano”ótimo: Diga que está tudo bem e você está numa ótima fase e observe a reação dos outros, as sutis. Se a miséria e os problemas despertam a solidariedade e o desejo de ajudar é um tanto lógico esperar que o sucesso eventualmente desperte o efeito contrário. O que levaria a alguns possíveis avisos pessimistas de seus amigos

Por outro lado uma certa dose de pessimismo também pode ser uma fonte de reflexão para a melhoria pessoal o que se conecta com o argumento número 3, o que não é necessariamente ruim. Na verdade essa não é uma discussão de valor (pessimismo ruim x otimismo bom).

307

Autor: Carlos Ruas

3. Pessimismo requer ação enquanto o otimismo significa deixar as coisas como estão. O pessimismo ganha a nossa atenção porque geralmente envolve a tomada de ação. Enquanto o otimismo é mais “de boas” sobre manter o curso, como observado pelo foco de longo prazo do otimista descrito antes. E manter as coisas como estão é algo muito mais fácil de ser ignorado. Em termos de ganhar nossa atenção nada têm tanto apelo como um problema que deve ser resolvido. Mas, por segurança,  é preciso lembrar  que o otimismo pode ser uma desculpa para a preguiça ou auto indulgência.

4. O otimismo soa como conversa de enganador, enquanto o pessimismo soa como alguém tentando te ajudar. O que de vez em quanto acontece mesmo. Acredito que os estelionátrios são pessoas otimistas em sua capacidade de convencer suas vítimas que vão ter altos ganhos com pouco esforço, além de mestres em despertar o otimismo da vítima. Por outro lado Morgan considera o otimismo o padrão correto e observa que o pessimismo pode ser um argumento tão bom quanto qualquer outro, especialmente em torno de assuntos emocionais como dinheiro e política. O medo também vende que é uma beleza.

5. Pessimistas extrapolam tendências presentes sem considerar como os mercados se adaptam. O que é importante porque visões pessimistas frequentemente começam com um fundamento em análises racionais. Assim, o aviso parece ser tão racional quanto assustador.

Aqui precisamos entender que nosso autor é da área de economia e mercado. Tanto que em seus exemplo ele mostra uma declaração de um ambientalista, feita em 2008. Que considerava que em 2030 a China precisaria de 90 milhões de barris de petróleo por dia e, na época, a produção mundial total era de 85 milhões com poucas mudanças. E ele estava certo, o mundo ficaria sem petróleo naquele cenário. Porém, não é assim que os mercados funcionam. A falta fez o preço subir o que incentivou o desenvolvimento de novas técnicas de perfuração, como demonstrado pela descoberta do pré-sal e o expertise brasileiro em coleta de petróleo em mares profundos, e agora temos petróleo sem muito problema. Na verdade, o problema dos últimos anos foi que temos petróleo até demais e o preço despencou. O Rio de Janeiro que o diga.

Outro exemplo é a velha previsão de Malthus sobre o crescimento da população e a produção de alimentos, uma previsão que teve suas pernas quebradas com a revolução verde na agropecuária. Na qual o Brasil faz uma honrosa participação, especialmente através da Embrapa. Essa falha em considerar a capacidade de adaptação é uma causa comum para o fim da maioria das previsões pessimistas.

Conclusão

Ainda assim o autor deixa claro que é preciso ouvir os pessimistas. Como elencado no item 3, eles mostram onde é preciso agir e avisam sobre as pedras no caminho à frente. Até para voltarmos a ter razões para sermos otimistas. Nesse caso a questão não é o pessimista ser charmoso, é ele estar certo ou não.Não ignore os pessimistas, apenas não se deixe levar por eles e, de forma saudável, desconfie de suas agendas. Afinal, como sugerido no livro O Otimista Racional mesmo que os indícios específicos possam ser ruins, talvez o quadro geral seja melhor do que aparenta.

Uma controvérsia que rendeu muito pano pra manga na eleição para prefeito em 2016 foi a questão da redução de velocidade nas marginais de São Paulo como forma de melhorar o trânsito. A medida, já adotada pelo então prefeito Haddad, tornou-se uma promessa de campanha para Dória, que acenava com a revogação da redução de velocidade.

Como percebemos o trânsito

Para a maioria dos motoristas a redução de velocidade para 50km/h foi vista como um insulto. Como se o trânsito normal já não fosse ruim o suficiente. Ainda por cima o número de radares aumentou em 405%, uma combinação que levou o número de multas para a estratosfera e o humor dos motoristas para o centro o centro da terra. A medida foi tão impopular que a OAB acionou a justiça contra o prefeito, que já havia arranjado um boa briga ao tirar espaço dos carros para ciclovias. O argumento seguia a lógica abaixo.

selo-persona-jose-fonseca-marginais

fonte: G1

Uma teoria discorda do senso comum

Porém, vários estudos observam uma realidade que não bate com essa idéia que, diga-se de passagem, parecia bem verossímil. A idéia de que a redução de velocidade máxima na verdade melhora a fluidez do trânsito fazendo com que os veículos andem mais rápido. Primeiramente é preciso mudar o foco da velocidade máxima para a velocidade que realmente vai fazer diferença, a média. No caso de São Paulo essa velocidade é de horríveis 6,9 km/h no final da tarde e comparando com os anos anteriores, a tendência é de queda. Pelo que entendi a idéia é que o que provoca a redução de velocidade em vias rápidas é que existem uma preferência maior por essas vias, são mais rápidas, e a diferença de velocidade entre diversos veículos somada à uma eventual inaptidão de alguns motoristas criaria gargalos de trânsito que logo se tornam engarrafamentos e acabam reduzindo a velocidade média para todo mundo. Em outro estudo a mudança de velocidade simplesmente não faz diferença na capacidade da via, não prejudicando o trânsito, mas reduzindo a gravidade de acidentes.

E isso sem contar que velocidade menores reduzem a gravidade de acidentes e que velocidades mais baixas também reduzem a probabilidade de acidentes ocorrerem, o tempo de reação dos motoristas aumenta. Qualquer um que já andou em vias expressas e muito cheias sabe que é razoavelmente fácil ocorrer um engavetamento envolvendo vários veículos e atrapalhando a vida de todo mundo.

Ainda assim, é difícil para o cidadão comum aceitar que um ganho sutil como o aumento de velocidade média ou um provável como a redução de acidentes (todo mundo acha que nunca vai sofrer um acidente) vale a pena. O ganho aparenta como algo abstrato frente ao incômodo real provocado pelo engarrafamento nosso de cada dia. Tanto que o novo prefeito de São Paulo, parece ter perdido seu ardor em alterar as regras.

A simulação

Pessoalmente, o argumento final foi ver uma simulação de trânsito interativa desenvolvida por esses alemães e seu cientificismo maravilhoso. É possível se alterar diversas variáveis, como o número de caminhões ou a quantidade de veículos. Apesar de não ser escrita em português, os controles são razoavelmente intuitivos e fica fácil de entender o funcionamento permitindo entender que o trânsito é resultado de uma complexa equação que têm diversas variáveis, como o número de veículos, o tipo, o desenho da pista, a velocidade máxima, a média e outros fatores. É uma forma simples de descrever um sistema complexo e nos mostra como respostas simples e senso comum podem limitar nossa percepção. Tudo bem que, como mostra Cathy O’Neal, a ciência não é neutra e a matemática também não, mas ainda é um ponto válido para começar uma reflexão.

Um paralelo com o passado

De qualquer modo a controvérsia era esperada e a resistência algo previsível, quando os primeiros radares surgiram também se iniciou a  Campanha Paz no Trânsito, envolvendo o GDF (o governo Cristovam Buarque), imprensa e sociedade, que implementou algumas políticas consideradas controversas na época:

  • com os radares, chamados de “pardais” pelos candangos, veio o controle de velocidade;
  • o respeito à faixa de pedestres, com preferência para os pedestres;
  • capacetes obrigatórios para motociclistas
  • o uso obrigatório do cinto de segurança e etc.
radar

Uns dizem que a indútria de multas é mito, outros que existe mesmo. Fonte: FlatOut.

No início, esse tsunami de mudanças foi considerado impensável para uma cidade onde todo mundo considerava 60km/h uma velocidade perfeitamente razoável, para o estacionamento. Muitos achavam que as leis não pegariam. Me lembro de gente indignada com a idéia de parar numa faixa para que pedestres atravessassem a rua em vários momentos eu fui um desses. Mas com disposição do governador e da polícia em multar uns bons milhares de motoristas por dia a população começou a ver vantagens e a aceitar melhor as mudanças. Apesar dos resmungos eventuais contra a indústria de multas que, em alguns casos acredito que exista mesmo, a cidade teve um trânsito um pouco mais civilizado e uma sensível redução no número de mortes por acidente. O que foi providencial  se considerarmos o grande aumento no número de carros e motoristas que veio com a primeira década do século XXI. De certa forma as leis mais rígidas tornaram o trânsito do Distrito Federal um pouco mais civilizado quando comparado com o de outras capitais brasileiras. E permitiu uma aplicação mais tranquilas em casos posteriores, como a implementação da lei seca para motoristas, que também reduziu o número de mortes no trânsito. O resultado de determinação das autoridades que foi assumido pelas sociedade como vantajoso com o passar do tempo. Nem sempre fazer o certo é vai ter fazer ser popular.

Conclusão

Mudanças em políticas públicas invariavelmente vão desagradar alguém e, em alguns casos, por “alguém” entenda muita gente. Ainda assim, como diria Milton Friedman, políticas públicas devem ser julgadas por seus resultados e não por suas intenções e em certos casos é preciso observar se os resultados compensa. Talvez a redução de velocidade máxima não seja isso tudo o que especialistas e alemães sugerem, mas é preciso dar tempo para que os resultados apareçam. O desagrado de hoje pode resultar em um mundo menos perigoso amanhã.

Sleeping Student

fonte: sites.psu.edu/siowfa15

Um consenso que beira o clichê é que a educação brasileira é muito ruim e precisa ser mudada. Nesse aspecto, 2016 foi uma no pródigo idéias, como a proposta de reforma do ensino médio comentada por aqui em outro artigo.  Para resumir a minha opinião as medidas são ousadas e não vi muito esforço para explicá-las de forma mais embasada.

Por outro lado, existem diversas medidas simples, com diversas evidências favoráveis que poderiam melhorar o rendimento de nossos estudantes. Uma delas está ligada ao horário das aulas e, principalmente, ao sono.

Se no caso das crianças acordar cedo é comum e elas sejam mais ativas no período da manhã. Segundo Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono, a situação muda quando chega a adolescência devido a uma necessidade de sono diferente, tanto que ele recomenda que o ensino médio seja vespertino. Assim, mesmo no Brasil os estudantes não estão dormindo o suficiente. Com a devida ressalva que o objetivo deste artigo não é criticar quem acorda cedo, mas mostrar que o que funcionada em determinada fase da vida pode não funcionar em todas. A grande questão não é que horas as pessoas acordam, mas o quanto elas dormiram.

Dormimos pouco e mal

Pesquisas dos últimos anos vêm observando que os adolescentes tem um ritmo de sono diferente dos adultos e o problema é que as escolas, planejadas por adultos, seguem o ritmo de sono dos adultos e não de seus alunos adolescentes. Usando dados do Departamento de Educação Americano, o Centro de Controle de Doenças fez um estudo grande, envolvendo mais de 30.000 estudantes, onde observaram que a maioria das escolas começava antes de 8h da manhã. Sendo que a Associação Americana de Pediatria não recomenda que os estudos comecem antes de 8h30 para garantir que os alunos tenham dormido o suficiente. Sob esse estado privação ou, déficit de sono praticamente constante, considera-se que os estudantes tem mais chance de:

  • ter sobrepeso;
  • fazer menos atividade física;
  • sofrer depressão e/ou ansiedade;
  • ter resultado acadêmico inferior (perceba que só esse sintoma já deveria ser razão para a escola começar mais tarde);
  • sem contar o riscos de ferimentos, que aumenta em pessoas sob privação de sono.

Segundo o estudo do CDC, os estudantes adolescentes precisam de algo em torno de 8h30 até 9h30 de sono diário para evitar esses sintomas. Talvez alguém se pergunte por que eles simplesmente não dormem mais cedo. Mas o problema é também está se observando que adolescentes realmente tem problemas para dormir cedo, com o agravante do uso constante de celulares e videogames à noite.

Segundo Wei Shin-Lai da Universidade Estadual da Pensilvânia os estudantes simplesmente não dormem o suficiente e sugere que aproximadamente 15 a 25% dos estudantes entre 15 e 25 anos são definidos pelos estudiosos do sono como “corujas”, vivendo em ciclos de 26 horas em vez das usuais 24 de todo mundo. Assim, uma “coruja” que acorda as 8 horas provavelmente vai dormir por volta das 2h da madrugada em vez de meia-noite.

A quantidade ideal de sono vai mudar de acordo com a pessoa, mudando de acordo com a idade e também com o sexo. Lai afirma que mulheres que já tiveram seu estirão de crescimento dentro os 10 ou 12 anos estarão bem com algo por volta de 7 ou 8h de sono. Enquanto homens, que costumam a ter um estirão de crescimento por volta dos 16  ou 17 anos vão precisar de algo em torno de 9 horas de sono.  E o tempo para se recuperar de uma noite sem dormir para estudar seja algo em torno de 3 dias. Pensando assim, talvez os adolescentes não sejam tão vagabundos quanto se gosta de acusar.

Imagino que alguém (caso o leitor seja esse alguém) deve estar se lembrando que acordava lá pelas 5 da manhã, ralava na escola, no trabalho ou em ambos e hoje em dia têm seu emprego e sua vida. Para esse alguém eu pergunto: E se esse sofrimento de acordar cedo, na verdade, tenha piorado sua desempenho de forma que hoje você é menos do que poderia ter sido? A idéia pode soar deprimente mas entender isso é importante para garantir um futuro melhor para as próximas gerações.

Para ilustrar como isso é algo comum, nos EUA, quase 40% dos estudantes adolescentes do sexo masculino declaram dormir menos de 7 horas por noite. Se jogarmos a situação para o caso brasileiro a situação provavelmente seria ainda pior, porque a maioria das escolas começa às 7h e os estudantes certamente devem acordar ainda mais cedo, devido ao tempo perdido no trânsito.

Um mapa das melhores horas para estudo

Como comentado no blog Psicóloga+Doutoranda que me inspirou para esse texto, estudar já é um processo muito exigente em termos de concentração e energia, imagine o prejuízo resultante de fazer isso sem ter dormido o suficiente. Através da infografia abaixo ela demonstra a importância do sono e os mecanismos biológicos que vão impactar na aprendizagem.

2014-06-11-23-46-08

Conclusão: estudantes deveriam dormir mais e ir para a escola um pouco mais tarde

Enfim, novamente acredito que temos um caso de pesquisas chatas e seus resultados que contrariam o senso comum. Pessoalmente soa um tanto insano e assustador pensar que mantemos gente para fazer uma atividade complexa e importante para a sociedade sob condições desfavoráveis simplesmente porque “sempre foi assim”. Na verdade, esse padrão “8h ás 18h” de todo mundo acordando no mesmo horário produzindo do mesmo jeito vem sendo cada vez mais questionado. Relembrando, não é apenas sobre que horas você acorda, a verdadeira questão é se dormiu o suficiente.

Uma mudança nos horários dos estudantes talvez não interesse nem aos pais ou escolas devido ao impacto inicial na logística. Mas creio que seria um excelente ponto para experimentos e comparações para conferir se a hipótese de mudança no horário dos estudantes pode trazer uma melhoria significativa no desempenho. No final das contas é um cálculo de custo x benefício que pode significar uma melhora significativa no desempenho e na qualidade de vida de nossos estudantes.

Na parte 1 dessa tradução o Dr. Peter Gray na Psychology Today definiu os que seriam as brincadeiras arriscadas, mostrou suas raízes evolutivas e sua função na formação das crianças. Enquanto nesse tópico serão abordados os efeitos da privação do brincar. No final, meus dois centavos de comentário e as referências bibliográficas do autor.


As consequências negativas da privação do brincar em nossa cultura atual

Com base em tais pesquisas  Sandseter[1] escreveu um artigo na revista Evolutionary Psychology no qual afirma que “Estaremos observando um aumento em neuroticismo ou psicopatologias na sociedade se crianças forem limitadas em tomar parte de brincadeiras arriscadas adequadas à suas idades.”

147531-150087Ela escreveu como se fosse uma previsão para o futuro, mas eu revisei os dados para o livro Free to Learn e em outros lugares [5], indicando que esse futuro está ocorrendo e já ocorre há algum tempo.

Rapidamente, as evidências dizem que nos últimos 60 anos estamos observando em nossa cultura um contínuo, gradual, mas dramático declínio nas oportunidades das crianças de brincarem livremente, sem controle adulto. Especialmente em suas oportunidades de brincar de modos arriscados. Durante esses mesmos 60 anos observamos também um contínuo, gradual e dramático aumento em todos os tipos de desordens mentais na infância, especialmente desordens emocionais.

Olhando para as seis categorias de brincadeiras arriscadas, nos anos 50 até mesmo as brincadeiras das crianças mais novas regularmente caíam nessas categorias e adultos esperavam e permitiam tais brincadeiras (mesmo que não estivessem sempre contentes sobre isso. Atualmente pais que permitam tais brincadeiras provavelmente seriam acusados de negligência, pelos vizinhos e, porque não, até mesmo de autoridades.

Abaixo, como uma digressão nostálgica assumida, estão alguns exemplos das minhas próprias brincadeiras, como uma criança nos anos 50:

  • Com 5 anos, eu fazia passeios de bicicleta com meu amigo de 6 anos por toda a vila onde eu vivia e na região em volta. Nossos pais nos davam alguns limites, como a hora de voltar para casa, mas eles não restringiam o alcance de nossos passeios. E, claro, não tínhamos telefones celulares naquele época, não havia como contatar ninguém se nós nos perdêssemos ou nos machucássemos.
  • A partir dos 6 anos eu, e a maioria dos garotos que eu conhecia, tinha um canivete. E nós usávamos não apenas para talhar, mas também em jogos que envolviam arremesso de facas, nunca um contra outro.
  • Com a idade de 8 eu me lembro de meus amigos e eu passando os feriados e horários do lanche lutando na neve ou na grama em um barranco perto da escola. Nós tivemos torneios que organizávamos entre nós. Professores ou outros adultos não se incomodavam com nossas lutas e, se eles o fizeram, nunca interferiram.
  • Quando eu tinha 10 e 11 eu e meus amigos passávamos os dia andando de skate ou esqui sobre um lago de 5 milhas que ficava perto de nossa vila no norte de Minnesota. Nós levávamos fósforos e eventualmente parávamos nas ilhas para fazer fogueiras e nos aquecer, já que fingíamos ser corajosos exploradores.
  • Quando eu tinha 10 e 11 também era permitido que eu operasse a grande e perigosa prensa que ficava na copiadora onde meus parentes trabalhavam. De fato, frequentemente eu passava minhas quintas-feiras (5a. e 6a. série) fora da escola imprimindo o jornal semanal da cidade. Os professores e o diretor nunca reclamaram, ao menos eu nunca soube. Eu sabia que eles sabiam que eu estava aprendendo lições mais valiosas na copiadora do que eu teria na escola.

Tais brincadeiras não eram incomuns nos anos 50. Meus pais podem ter sido um pouco mais tolerantes e confiantes do que a maioria dos outros parentes, mas não muito. Quanto dessa tolerância seria aceitável para a maioria dos pais e outros adultos hoje em dia. Um índice do quanto nós mudamos. Em uma pesquisa recente com quase mil pais no Reino Unido, 43% acreditavam que crianças abaixo da idade de 14 anos não deveriam ser aceitas para ficar na rua sem supervisão e metade dos que acreditavam nisso achavam que as crianças não deveriam ter tal liberdade pelo menos até os 16 anos![6]. Meu palepite é que aproximadamente o mesmo seria observado numa pesquisa nos Estados Unidos. Aventuras que eram consideradas normais por crianças de 6 anos de idade agora não são aceitas nem mesmo por adolescentes.

Como eu disse, no mesmo período que tivemos esse dramático declínio na liberdade de brincar das crianças e, especialmente, a liberdade delas em correr riscos, nos temos observado um aumento semelhante em todos os tipos de desordens mentais infantis. A melhor evidência disso vem da análise de escores em questionários de avaliação clínica  nos grupos representativos de crianças e jovens adultos ao longo de décadas. [5] Tais análises revelam que hoje em dia 5 a 8 vezes mais jovens adultos sofrem de significativos níveis de ansiedade e depressão clínica. Ao mesmo tempo que se reduz a liberdade das crianças em correr riscos de forma contínua e gradual, também tem ocorrido da mesma fora um aumento de psicopatologias infantis.

Essa história tem sido irônica e trágica. Nós privamos crianças de brincadeiras livres e arriscadas para protegê-las do perigo, mas no processo estamos fazendo com que elas tenham problemas mentais. Crianças são naturalmente preparadas para ensinar a si mesmas resiliência emocional brincando de modos arriscados e emocionantes. No longo prazo nós arriscamos muito mais impedindo tais brincadeiras do que permitindo elas. E nós as privamos de diversão.

Brincar, para ser seguro, deve ser livre, não coagido, gerenciado ou forçado por adultos

Crianças são altamente motivadas a brincar de modos arriscados, mas elas também são muito boas em saber suas próprias capacidades e evitar riscos que elas não estão prontas para assumir, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Nossas crianças sabem muito melhor que nós o que elas estão capacitadas a enfrentar. Quando adultos pressionam ou encorajam crianças a assumir riscos que elas não estão preparadas para encarar o resultado pode ser trauma e não emoção. Existem grandes diferenças entre crianças, mesmo entre crianças que são similares em idade, tamanho e força. O que é emocionante para uma é traumática para outra. Quando professores de educação física demandam que todas as crianças em uma turma escalem uma corda ou poste até o teto, algumas crianças, para as quais o desafio é grande demais, passam por trauma e vergonha. Em vez de ajudarem elas a aprenderem a subir ou conhecerem as alturas a experiência as afasta para sempre de tais aventuras. Crianças sabem como se dosar com o nível correto de medo para elas. E para obter essa capacidade elas devem ser responsáveis por suas próprias brincadeiras. Eu observo que uma porcentagem relativamente pequena de crianças tendem o superestimar suas capacidade em repetidamente se machucam brincando. Essas crianças precisam de ajuda para aprender limites.

Um fato irônico é que essas crianças muito mais provavelmente vão se ferir em esportes dirigidos por adultos do que em suas brincadeiras escolhidas livremente. Isso ocorre porque o encorajamento dos adultos e a natureza competitiva dos esportes leva as crianças a assumirem riscos, tanto de se ferirem quanto de ferirem outros, que elas normalmente não escolheriam em brincadeiras livres. Isso ocorre porque em tais esportes elas são encorajadas a se especializar e, consequentemente, usar de forma excessiva certos músculos e articulações. De acordo com os últimos dados do Centro de doenças americano, mais de 3.5 milhões de crianças por ano abaixo da idade de 14 anos recebem tratamento médico por ferimentos de esporte. Isso é algo próximo de 1 em cada 7 envolvida em esportes infantis. Medicina esportiva para crianças tornou-se um grande negócio graças a adultos que encorajam jovens esportistas a se engajar tão duramente e com tanta frequência que elas exageram. Encorajando jovens zagueiros a atacar tão forte que eles tem concussões, encorajando jovens nadadores a treinar tão forte que eles danificam seus ombros até o ponto de precisarem de cirurgia. Crianças brincando por diversão raramente se especializam, eles gostam de variedade nas brincadeiras e eles param quando alguém se machuca ou mudam seu modo de brincar. E como é tudo diversão eles tomam cuidado para não machucar seus colegas. Adultos que estão envolvidos na idéia de ganhar e esperam conseguir bolsas trabalham contra os modos naturais de se evitar ferimentos.[7]

Assim, nós privamos as crianças de seus próprios e emocionantes modos de brincar, escolhidos por elas mesmas, acreditando que são perigosos. Quanto, na verdade, eles não são tão perigosos e os ganhos compensam os riscos. E quando nós encorajamos crianças a se especializarem em esportes competitivos os riscos de ferimentos são bem maiores. É hora de reexaminarmos nossas prioridades.

Quais são suas experiências e observações sobre brincadeiras infantis arriscadas? Como você brincavam quando era crianças? Como suas crianças brincam? Você permite que suas crianças brinquem livremente do modo que Sandseter descreveu e, caso positivo, como você lida com a pressão social sobre isso? Esse espaço (Nota do tradutor: o fórum do texto original, que não irá fazer parte dessa tradução) é um fórum de discussão e suas histórias, comentários e questões serão tratadas com respeito por mim e outros leitores.

Para conhecer muito mais sobre a necessidade dos jovens de brincar livremente leia  Free to Learn do mesmo autor.


Os dois centavos de opinião do tradutor

Acho muito interessante ver como essas idéias concordam com certas teorias pedagógicas como a Montessoriana ou a Waldorf. Elementos como liberdade e o contato com a natureza são típicos dessas linhas.

Pessoalmente, acredito que muito desse impedimento ao brincar vem da ansiedade dos próprios pais. Nossa percepção de risco mudou devido ao avanço dos recursos de comunicação e dos próprios métodos de pesquisa. Hoje em dia ficamos sabendo de crianças doentes na Índia como de tiroteios em massa em escolas americanas. Já pensou como deve ser assustador deixar seu filho numa escola americana hoje em dia? Você sendo lembrado que é raro, mas que existe o risco de um maluco aparecer atirando em todo mundo? Somos bombardeados com informações sobre quantas crianças morrem por ano brincando e mesmo que a probabilidade seja ínfima o sensacionalismo da mídia cria a  percepção de que os riscos são muito maiores do que realmente assim. Hoje em dia tudo é quantificado, até mesmo as taxas de mortalidade infantil. A mensuração de risco constante, demonstrada por estatísticas como “x crianças morrem por ano brincando com Y” leva a uma percepção exagerada de que o risco é algo a ser evitado a qualquer custo.  Dessa forma o conceito de risco aceitável mudou muito, como demonstrado no texto. Ao mesmo tempo a maioria das pessoas vive em grandes cidades em vez de pequenas vilas como a que o sr. Gray teve sua infância. E a vida nas grandes cidades também está sendo considerado um fator que provoca stress e eventualmente mais risco de problemas mentais. E nas grandes cidades essa sensação de risco parece ser ainda maior. Imaginemos então no caso brasileiro com os índices de violência daqui.

Ainda assim, acredito que estamos perdendo essa noção, a do risco aceitável.  Capacetes e cintos reflexivos são legais? Sim. Impedir que seu filho ande de bicicleta? Não. É preciso dosar e o maior mérito do artigo é mostrar que a idéia de segurança a qualquer custo está sendo paga com o desenvolvimento emocional das crianças.

Referências

[1] Sandseter, E. (2011). Children’s risky play from an evolutionary perspective. Evolutionary Psychology, 9, 257-284.

[2] Spinke, M., Newberry, R., & Bekoff, M. (2001). Mammalian play: Training for the unexpected. The Quarterly Review of Biology, 76, 141-168.

[3] e.g. Pellis,S., & Pellis, V. (2011).  Rough and tumble play: Training and using the social brain.  In A. D. Pelligrini (Ed.), The Oxford handbook of the development of play, 245-259. Oxford University Press.

[4] LaFreniere, P. (2011). Evolutionary functions of social play: Life histories, sexdifferences, and emotion regulation.  American Journal of Play, 3, 464-488.

[5] Gray, P. (2011). The decline of play and the rise of psychopathology in childhood and adolescence. American Journal of Play, 3, 443–463.

[6] Referenced in Burssoni, M., Olsen, L., Pike, I., & Sleet, D. (2012).  Risky play and children’s safety: Balancing priorities for optimal development.  International Journal of Environmental Research and Public Health, 9, 3134-3148.

[7]  Um excelente livro sobre o dano que adultos causam em crianças com o esporte infantil é Until It Hurts de Mark Hyman


 

147531-150084Parte tradução, parte resenha descuidada do artigo Risky Play: Why Children Love It and Need It, do Ph.D Peter Gray. Para deixar mais palatável vou dividir em duas partes. Na primeira abordando as características das brincadeiras arriscadas e sua importância e na segunda discutindo o impacto da privação do brincar nas crianças de hoje. Acredito que o relato se refere principalmente à sociedade americana, ele é professor em Boston, mas acredito que seja válido para crianças de classe média do mundo ocidental como um todo, incluindo o Brasil. E sim, já fiquei fã do sujeito.


Medo, poderíamos pensar, é um experiência negativa que deve ser evitada a todo o custo. No entanto, como todo mundo que já teve ou já foi uma criança sabe, elas adoram brincar de maneiras arriscadas. Maneiras que combinam a alegria da liberdade com a medida correta de medo para produzir a divertida mistura conhecida como “emoção”.

Seis categorias de brincadeiras arriscadas:

Ellen Sandseter, uma professora da Queen Maud University de Trondheim, Noruega identificou seis categorias de riscos que parecem atrair as crianças em suas brincadeiras.

  1. Grandes alturas: crianças escalam árvores e outras estruturas até alturas assustadoras, das quais elas ganham uma visão privilegiada do mundo e devido à emocionante sensação de “Eu consegui!”
  2. Velocidade: crianças se balançam em cordas, cipós, balanços; deslizam em esquis, skates ou escorregadores; descem rios; pilotam bicicletas, skates e outros dispositivos rápidos o suficiente para produzir a emoção de quase perder o controle.
  3. Ferramentas perigosas: dependendo da cultura crianças brincam com armas, arcos, flechas, equipamentos de fazenda (onde brincadeira e trabalho se combinam) ou outras ferramentas conhecidas por serem potencialmente perigosas. Existe, claro, grande satisfação em ser confiado a usar tais ferramentas mas também grande emoção em controlar  esses objetos, especialmente sabendo que erros podem machucar.
  4. Elementos perigosos: crianças adoram brincar com fogo, próximo ou dentro de profundos corpos d’agua como rios ou piscinas, mesmo que eles ofereçam algum perigo.
  5. Agitação e dureza: crianças de todos os lugares adoram brincadeiras de perseguição e luta e frequentemente preferem estar na situação mais vulnerável, seja como o perseguido ou como aquele que está por baixo numa luta. Posições com mais chance de se machucar ou que demandem mais habilidade para superar.
  6. Desaparecer, se perder: crianças pequenas gostam de brincar de pique-esconde e passar pelo emocionante, e assustadora, experiência da separação temporária de seus companheiros. Crianças mais velhas ainda gostam de se aventurar em áreas externas, sem a presença de adultos, explorando territórios que lhes são novos e cheios de perigos imaginários, como o risco de se perderem.

O valor evolutivo da brincadeira arriscada:

Outras espécies de mamíferos também gostam de brincadeiras arriscadas. Filhotes de cabritos monteses brincam ao longo de encostas e pulam de forma desajeitada que torna a aterrissagem mais difícil. Jovens macacos gostam de pular de galho em galho, longe o suficiente para desafiar suas habilidades e fazendo isso de alturas que vão machucar, no caso de uma queda. Jovens chimpanzés gostam de pular de galhos altos agarrando os galhos mais baixos apenas quando já estão perto de atingir o chão.  Enfim, mamíferos de várias espécies, não apenas a nossa, passam boa parte de seu tempo perseguindo um ao outro e brincando de luta e eles também parecem preferir as posições mais vulneráveis.

De uma perspectiva evolutiva a questão mais óbvia sobre brincadeira arriscada é: Por que isso existe? Ela pode causar ferimentos (apesar de que ferimentos sérios são raros) e até mesmo morte (ainda que muito raramente). Então porque a seleção natural não acabou com isso? O fato que não acabou evidencia que os benefícios devem superar os riscos. E quais são os benefícios? Estudos de laboratório com animais nos dão algumas pistas.

Pesquisadores desenvolveram modos de privar jovens ratos de brincadeiras durante um fase crítica de seus desenvolvimento, sem privá-los de outras experiências. Ratos que cresceram desse modo se tornaram emocionalmente aleijados. Quando colocados em um novo ambiente eles reagiram com medo exagerado e falharam em se adaptar e explorar o novo ambiente da forma que um rato normal faria. Eles podiam alternar entre congelar de medo ou passar para a agressão inapropriada e inefetiva. Em experimentos anteriores, achados similares foram observados em macacos jovens privados do brincar (ainda que os controles nesses experimentos não eram tão eficazes quando nos experimentos com ratos).

Tais achados contribuíram para se entender melhor o aspecto da regulação emocional na teoria do brincar. Segundo as pesquisas uma das maiorias funções do brincar é ensinar jovens mamíferos como regular o medo e a raiva. Em brincadeiras arriscadas, jovens aplicam a si mesmos doses controladas de medo e praticam autocontrole e comportamento adaptativo enquanto experimentam medo. Eles aprendem que eles podem gerenciar seus medos, superá-los e sobreviver. Em brincadeiras duras e agitadas eles também experimentam a raiva, afinal uma criança podem acidentalmente machucar a outra. Mas ao continuar brincando eles aprendem a superar aquela raiva. Se eles se descontrolam a brincadeira acaba. Dessa forma, de acordo com a teoria de regulação emocional brincar é, entre outras coisas, o modo como jovens mamíferos aprendem a controlar seu medo e sua raiva de forma que eles possam enfrentar perigos reais e interagir próximo a outros, sem sucumbir às suas emoções negativas.

Referências bibligráficas serão apresentadas na parte 2

2001-a-space-odyssey-dave

Tempos atrás comentei sobre o desalentador panorama do conhecimento em ciências na América Latina. Por outro lado, participando de um evento sobre divulgação de ciência, descobri existem várias iniciativas pontuais lutando no dia-a-dia para reduzir esse problema.

Dentro da imprensa nacional costumo encontrar bons exemplos no o Globo Rural: no dia 29/11/2015 foi apresentada uma excelente matéria sobre a Agricultura de Baixo Carbono um assunto complexo de forma simplesmente magistral. Como diz o meu chefe o Globo Rural costuma a seguir uma linha de “contar histórias”, para conseguir manter o interesse do público e a mesmo tempo apresentar informações que estão fora do senso comum. Assim, primeiro foi apresentado um cidadão comum em um almoço de família discutindo sobre o aquecimento global e a importância da agricultura de baixo carbono. A função desse pedaço foi mostrar que o assunto também é de afeta o cotidiano e interessa a pessoas comuns e não apenas para o governo e cientistas. Depois o espectador é levado ao laboratório onde os cientistas falam de seu trabalho e as descobertas mais recentes sobre o assunto. Todo o trabalho é apoiado por infografias, gráficos e informações cuidadosamente sintetizadas para manter o interesse do expectador e introduzi-lo a um assunto pouco usual. Esse fio condutor me lembra muito a proposta do Fernando Meirelles que comentei tempos atrás.

Inclusive aqui é preciso observar que a internet teve um impacto fantástico na divulgação científica, justamente por cortar intermediários entre os cientistas e o público. Abrindo espaço para alguns cientistas talentosos alcançar um público interessado e, de certa forma, qualificar esse público. E a blogosfera, da qual eu faço parte, oferece constelações de bons trabalhos que pontuam essa noite escura que é a  divulgação de  ciência. Como o trabalho do Projeto de Divulgação de Ciência da FAPEMIG ou o Engenheiro de Materiais com o expressivo subtítulo “Por um mundo onde as pessoas saibam o que fazemos”. E muitas dessas iniciativas que começaram como blogs, cresceram, tornaram-se sites ou colunas de jornal. Um exemplo é o site A Neurocientista de Plantão, de Suzana Herculano-Houzel, que além de trabalhar com divulgação científica desde 1999, mostrando o lado “cerebral” do nosso dia a dia, também aborda questões relacionadas à comunidade científica brasileira. Além do site ela percebeu a importância de trabalhar em conjunto com as grandes mídias, uma forma de não se tornar apenas mais uma voz pregando no deserto, como eu me sinto nesse blog de vez em quando. Assim, ela também já escreveu vários artigos na mídia que podem ser encontrados em seu site.

Porém alguns desses sites têm alto número de acessos, mesmo não estando vinculados a um grande meio de comunicação ou instituição científica. Algumas dessas iniciativa tem até mais impacto que os grande veículos. O site I Fucking Love Science é essencialmente um clipping de notícias de ciências tem muito mais curtidas no facebook (24 milhões) que o poderoso e tradicional  New York Times (pouco menos de 11 milhões).

Outro exemplo é o Cientista que virou mãe, de Ligia Moreiras Sena que já se expandiu para um coletivo. Seu site é uma interessante combinação entre o rigor científico de alguém que começou nas ciências naturais e foi acrescentando um olhar típico das ciências humanas, como resultado da maternidade e o um doutorado em Saúde Coletiva. E como ciência é mais um método e uma atitude crítica do que um acumulado de títulos não posso me esquecer do NerdPai, também relacionado à blogosfera materno/paterna. Apesar de não ser um blog especializado em ciência ele têm seus bons momentos na área.

Além do vídeo, que tem lá suas demandas de produção, outra mídia que vêm supreendendo pela diversidade é a dos podcasts. Uma opção adequada para quem não tem tempo ou disposição para ler textos longos, como os Dragões de Garagem ou o Braincast.

E outro trabalho que não deve ser ignorado é o presencial, feito nas feiras de ciência. Como demonstrado pela Engenheira da USP Dra. Roseli de Deus Lopes, que ainda será tema para outra resenha descuidada.

Por outro lado também existem problemas: internet não tem controle de qualidade. Assim temos pseudo-ciência e curandeirismos de todo o tipo compartilhando o palco virtual com pesquisa séria. O movimento anti-vacina e todas as teorias de conspiração estão aí para mostrar isso.

Essa é uma lista longe de ser exaustiva, digamos que a constelação de divulgadores de ciência aumenta a cada dia e pode se tornar uma galáxia. A importância desses “lobos solitários” vêm se tornando cada vez maior à medida que o público se fragmenta devido a grande oferta de informação da internet, que propicia espaço muito maior do que o que poderia ser oferecido pelos jornais, TV e outras mídias mais centralizadas. Um dos problemas dos grandes veículos é que neles ciência é apenas mais um assunto concorrendo por espaço com outras pautas. Ao mesmo tempo os assuntos científicos podem ser extremamente especializados o que pode ser difícil para ser apreendido  por um jornalista comum. Até hoje ainda sinto um pouco de vergonha alheia quando lembro de uma âncora de telejornal toda feliz anunciando a descoberta da “partícula de Deus”, o Bóson de Higgs, como se o apelido fosse mais importante que a descoberta em si. Se nos jornais e TV o espaço para a pauta ciência é limitado, diminuto e sem intermediários, na internet é possível ver o assunto feito diretamente da fonte.

Ainda assim, existe muito a ser feito. No geral, me parece que ainda existe mais talentos individuais em divulgação que incentivo à formação de bons divulgadores em ciência, algo que pode estar mudando justamente devido à contribuição desses lobos solitários.

spotlightDepois de um sofrido tempo de cinema assistindo O Regresso, a atuação de DiCaprio foi ótima mas podiam cortar uns 40 minutos de filme, assistir Spotlight foi uma deliciosa compensação.

O filme conta sobre o trabalho de um grupo de jornalistas americanos investigando casos de pedofilia na igreja católica em Boston/EUA no início dos anos 2000. É uma história contada de forma sóbria, sem pausas dramáticas, cenas épicas ou efeitos especiais.Mas mesmo sem esses penduricalhos continua sendo uma boa história. Contada com um cuidado e sutileza que dão um ar comum, quase cotidiano à personagens. O que aumenta a identificação com eles ao mesmo tempo que evita cair na armadilha de tornar a história algo banal.

Até então existiam relatos e denúncias isoladas sobre casos de pedofilia, o que é descrito no início do filme. Porém, o diferencial da equipe de jornalistas investigativos do Spotlight foi justamente uma investigação aprofundada e cuidadosa do assunto, mostrando existia uma política sistemática para abafar os casos sendo orquestrada pela instituição igreja. É um trabalho praticamente científico em esmiuçar as entranhas de uma burocracia institucional complexa concebida para disfarçar um problema terrível.

Nesse aspecto, o filme é praticamente uma aula e um tributo ao jornalismo investigativo, mostrando que o trabalho real não tem o glamour dos filmes de espionagem, mas muitas vezes vai envolver o esforço de procurar gente que não quer conversar, portas na cara e muita leitura em listas chatas e documentos velhos.  O que mostra a genialidade dos bons profissionais de jornalismo em encontrar e esculpir uma história surpreendente e que, ao mesmo tempo, seja palatável para o público. Mostra a pressão feita por grupos que podem estar honestamente, ou nem tanto, defendendo o que acreditam e como descobrir verdades desagradáveis é algo pesado até mesmo para aqueles que procurando elas.

Como designer gráfico não poderia deixar de abrir um parêntese para falar do cartaz, que segue um estilo tão sóbrio e bem feito quanto o resto do filme. Onde o preto e branco clean destaca ainda mais o vermelho pulsante do título apresentado numa dura fonte sem serifa. perfeitamente equilibrado com um subtítulo para atrair a atenção e um discreto gancho para o método de investigação que permeia a história. Uma homenagem clean ao jornalismo impresso.

Outro ponto interessante são os contrastes. Como as igrejas de Boston que parecem onipresentes castelos de pedra sobre as pequenas pessoas vivendo suas vidas abaixo delas. Um dos meus contrastes preferidos é de dois advogados. Um bem-apessoado, elegante e temoroso em enfrentar a elite da qual faz parte e o outro: ranzinza, amarfanhado, estrangeiro e determinado a lutar pelo que acredita ser o certo. As paletas de cores de cada cenário são interessantíssimas, reforçando ou reduzindo cada personagem de acordo com o cenário. Outro é o evidente contraste (e desconforto) do editor nos domínios do cardeal, que parece realmente um estranho no ninho. Elementos que são muito melhor descritos pelos meus colegas do Razão de Aspecto.

599593

Nos protagonistas, antagonistas e vítimas é possível sentir algo muito humano, em suas qualidades e defeitos, inclusive dos jornalistas que não são heróis incontestáveis. É possível perceber essa humanidade, esse algo cotidiano e ao mesmo tempo único em vários deles: seja no jornalista passional que questiona suas próprias convicções, no editor contido e quase tímido, na vítima com a dor represada por anos que finalmente pode ter voz ou no cardeal que é um político acima de tudo.

Enfim, recomendo o filme. Não é um assunto agradável, mas é um exemplo de como é necessário trazer as coisas à luz, especialmente essas desagradáveis. Mesmo que ainda não se consiga a reparação me parece ter sido um alívio para o sofrimento das vítimas.

PS: para quem eventualmente for fã do gênero investigativo: o Omelete fez uma relação com 13 grandes filmes sobre investigações jornalísticas.

 

%d blogueiros gostam disto: