You are currently browsing the category archive for the ‘ciencia’ category.

aaeaaqaaaaaaaaj0aaaajgriyti3zjuwltc5ywitnge3yi04nddiltljzjy0mwmxmgrkzg

fonte: Linkedin

Graças ao avanço da tecnologia o prefixo multi tornou-se algo desejado em diversas atividades: multimídia, multidisciplinar, multitarefa. Dentre esses, o termo multitarefa significa  a habilidade de se fazer várias atividades ao mesmo tempo ou alternar entre tarefas de maneira rápida e sem dificuldade. Algo bem de acordo com as características dos computadores, tablets e cia que tanto amamos. Com eles é possível trabalhar com diferentes programas acionados ao mesmo tempo podemos pular rapidamente de uma janela (e atividade) para outra. Assim, a capacidade de ser multitarefa, também conhecida com multitasking, se você gostar de termos corporativos modernosos, passou  a ser reconhecida como uma indício de profissionalismo, agilidade mental e produtividade. O problema é que a ciência não concorda muito com a idéia ou, pelo menos, vêm descobrindo que nada vem de graça.

Essa ciência e suas descobertas desagradáveis

Além da tecnologia outra coisa que avançou muito foram as neurociências, o estudo do funcionamento do cérebro humano. Em conjunto com a psicologia estamos desenvolvendo um novo entendimento sobre a forma como nosso cérebro funciona, como otimizar seu uso e, nesse caso, como evitar algumas armadilhas.

Um estudo da Universidade de Stanford com mais de 100 pessoas observou que somos mais produtivos lidando com uma atividade por vez do que com atividades múltiplas. Alguns especialistas consideram que a perda de produtividade seria algo em torno de 40%. Enquanto outro estudo, da Universidade de Londres, observou que estudantes que fizeram múltiplas tarefas durante testes cognitivos tiveram resultados semelhantes a usuários de maconha.  Seu usarmos aquele velho indicador de inteligência chamado QI, a perda foi em torno de 15 pontos. Isso significa que homens adultos ficaram com resultados próximos aos de crianças de 8 anos de idade. Essa seria uma boa hipótese para explicar a maturidade de muitas discussões que vemos na internet atualmente. O que mais essas pessoas estariam fazendo enquanto comentavam? Imagine a qualidade das outras coisas que elas estavam fazendo? Como o trabalho.

O que realmente acontece

Para o muitos neurocientistas, a idéia de multitasking seria uma falácia. O que o cérebro faz, na verdade, é trocar de uma atividade para outra e não fazer mais de uma ao mesmo tempo e mesmo isso têm seu preço. Existem obviamente o caso de atividades físicas que temos muita prática e acabam requerendo muito pouco processamento do cérebro, elas estariam muito introjetadas e assim, acabamos “liberando espaço” para fazer outras coisas. Como conversar e caminhar por um caminho conhecido. Porém mesmos nesses casos pode ocorrer uma perda de performance. Por exemplo, andar conversando aumenta as chances da pessoa se perder ou tropeçar e as campanhas contra usar o celular e dirigir são consequência da péssima combinação entre celular (praticamente uma máquina de distração) e celular, os acidentes estão aí como prova, o risco de acidente aumenta em 4 vezes, ou 200% se preferir porcentagem.

Os danos, de curto e longo prazo

Assim, a nossa obsessao em fazer coisas ao mesmo tempo poderia estar reduzindo nossa produtividade em até 40%. O processo de fazer várias coisas ao mesmo tempo seria algo desgastante e a perda do “fio da meada” na mudança entre uma tarefa e outras aumenta a chance de erro. E ambos, o desgastes e a possibilidade de erro, provavelmente serão agravado depois de muito tempo de atividade. Assim, depois de muito tempo você não apenas vai estar mais exausto como sua chance de fazer besteira aumenta.

Ainda é cedo para dizer se o trabalho multitarefa realmente é capaz de danificar o nosso cérebro, isso vai demandar pesquisas de longo prazo, eventualmente na casa das décadas. Afinal, outra hipótese possível é que existam tipos de formação, ou má-formação, que predisponham algumas pessoas a serem multitarefa. Mas hoje em dia já é aceito que a forma como usamos nosso cérebro interfere em sua estrututra. A muito grosso modo, pode se dizer que o que fazemos muito cria mais sinapses em nosso cérebro. Sejam bons ou mais hábitos. O Neurocientista Kep Kee Loh acredita que o modo como interagimos com os dispositivos eletrônicos, como computadores, celulares etc podem estar mudando a forma como pensamos e essas mudanças estão ocorrendo no nível da estrutura do cérebro. Nesse ponto, pesquisadores da University of Sussex  compararam cérebros  através de ressonância magnética. E observaram que as pessoas que fazem ações multitarefa com muita frequência tem menos densidade cerebral em partes do cérebro responsáveis por empatia e controle emocional e cognitivo. Imagino o que o futuro dos nativos digitais pode nos reservar em algumas décadas.

Um exemplo violento

8815998_origAcho que o melhor exemplo de como o cérebro não está estruturado para tarefas múltiplas pode ser visto nas situações violentas, especialmente as de vida ou morte. A violência entre seres humanos, o combate ,cria um nível tensão que pode produzir danos severos e duradouros à mente humana. No livro On Combat observa-se que as duas guerras mundiais e a guerra da Coréia tiveram mais gente em hospitais psiquiátricos do que mortos em combate.

Nessa situação limite o cérebro entra no que os autores chamam de modo de sobrevivência. Segundo a teoria do cérebro triuno, nosso cérebro réptil  assume o controle e simplesmente passa por cima do emocional e do racional. Só a sobrevivência vai importar, seja ela obtida por fuga a todo custo ou luta impiedosa. E coordenar atividades múltiplas nessa hora é algo tão supérfluo que perder o controle da bexiga e dos intestinos  (a.k.a se borrar todo) é algo considerado perfeitamente normal dentro da situação. Se isso acontece no resto do corpo não seria estranho esperar algo diferente no cérebro.

Outro efeito que a tensão excessiva provoca é a perda de habilidades complexas. Tanto que é esperado de pilotos, especialmente os militares, a capacidade de controle emocional, mesmo em situações de tensão. Para evitar que o cérebro réptil entre em ação e transforme o manche em uma alavanca inútil e os instrumentos em relogios ininteligíveis.

O outro efeito da tensão excessiva é que as capacidades do cérebro ficam tão focadas, e limitadas, que até alterações de percepção chegam o ocorrer. Segundo os autores de On Combat policiais e soldados envolvidos em tiroteios relatam diversas alterações como exclusão auditiva, a perda da percepção de som; visão de túnel, perda da visão periférica; distorção temporal, observar as coisas ocorrendo em câmera lenta; sensações de dor reduzidas; ou mesmo aumento da percepção sonora. A hipótese em que nas situações limite o cérebro desligue certas funções que seriam não essenciais ou mesmo aumente outras para a garantir a sobrevivência naquele momento.

Um singela defesa

É claro que eventualmente precisamos fazer mais de alguma coisa ao mesmo tempo, é um fato. E várias atividades que requerem pouca atenção nossa podem ser feitas em conjunto, como ouvir música e escreve (como eu estou fazendo no momento em que escrevo), caminhar e conversar. Enfim, como observado por Paul Bloom em sua pequena defesa do trabalho multitarefa é que nem toda a atividade requer 100% de concentração. Sim, pousar um avião ou fazer cirurgia demandam toda a atenção do operador, mas isso não ocorre com todas as atividades que fazemos. E algumas são tão chatas que realmente desejamos fazer alguma outra coisa ao mesmo tempo para nos distrairmos e conseguirmos terminar aquilo, como ouvir música no trabalho.  A multitarefa nesse caso seria uma forma de tornar o momento mais suportável. 

De qualquer modo, esses achados sugerem que a sociedade construiu uma situação que não é exatamente saudável para o ser humano. Talvez mudar a estrutura social e econômica que demanda tanto trabalho multitarefa seja uma forma melhorar esse quadro. Algo semelhante ao que já foi observado com os horários das escolas. É a ciência levando a conclusão agora desagradáveis mas que podem levar a uma sensível melhora no futuro. E com os eventuais ganhos de produtividade até a economia sairia ganhando.

o-senhor-das-moscas1

Uma referência ao livro “O Senhor das moscas” que me parece estranhamente adequada ao assunto.
fonte: A Taberna

Para um interessado por educação e jogos, entender a diferença entre a competição saudável e a nociva, também conhecida como guerra é algo essencial e, ao mesmo tempo, um enigma. O que leva um ato saudável a se transformar no desejo de destruir o outro? Entender esse processo é algo importante, afinal, isso acontece com uma certa frequência, qualquer leitor de jornal e usuário de redes sociais vê isso ocorrendo todo o dia.

Para mim é difícil entender esse processo de mudança: como atividades inicialmente pacíficas descambam para a guerra e porque isso acontece com uma certa facilidade?  Se tomarmos a internet como exemplo, a maioria das argumentações tem como objetivo produzir dano ou reafirmar uma posição, somente isso. E as brigas de torcida então? Como fatos ocorridos num campo de futebol, jogado por profissionais  se tornam o catalizador de violência que envolve multidões? Em que ponto uma discordância saudável ou um simples esporte se torna uma competição tão ferrenha que pessoas praticamente entram em conflitos  tribais?

Jogos, Debates e a tal da Guerra

6e1efa9e_thumb25255b225255d

Propaganda anti-japonesa da segunda guerra mundial. Postura de primata, pele amarela, estuprador, arma mão, sorriso cruel e olhos estranhos. Uma forma de criar uma imagem desumana do inimigo.
fonte: Kid Bentinho

Para deixar as coisas mais claras é preciso diferenciar um pouco os conceitos. Eu gosto muito da definição do Rapoport em “Guerras, Jogos e Debates”.  Nos jogos um bom adversário e o respeito às regras são essenciais. Num jogo a vitória sobre um adversário fácil não tem brilho é justamente a dificuldade que torna a partida interessante, divertida e traz algum mérito. A mesma coisa acontece em debates, onde uma pessoa tenta convencer outra de sua posição. Ambas exigem astúcia, habilidade, inteligência, mas também a capacidade de entender a posição do adversário e seu pensamento. O que também levaria a ter empatia por esse e respeito à sua posição do adversário. Enquanto na guerra, o adversário é um obstáculo a ser destruído, o objetivo da guerra é causar dano, por qualquer modo possível, até a destruição do adversário. Nesse aspecto a guerra está sendo vista de seu ponto de vista essencial sem entrar no mérito das diversas variações do termo guerra. Também é preciso considerar que para se chegar à esse estado é preciso perder a empatia com o outro, desumanizar o inimigo é um dos atos padrão da propaganda de guerra.

O experimento de Sherif

Encontrei uma luz sobre o assunto em um artigo do Dr. Peter Gray  analisando um famoso experimento sobre conflitos e resolução de conflitos me ajudou a entender melhor como esse processo ocorre. Ele levantou algumas questões interessantes acerca dos aspectos saudáveis e os não tão saudáveis da competição. Uma preocupação importante para quem quer trabalhar com jogos e que já foi assunto por aqui anos atrás. E que vai ser apresentado abaixo parte tradução, parte como resenha descuidada.

O estudo foi realizado nos anos 50 em Oklahoma sendo possível por causa dos padrões de ética de pesquisa de época. Porque eu duvido que você deixaria seu filho participar desse experimento hoje em dia.  O estudo envolvia meninos de 11 e 12 anos que participariam de um acampamento de verão e seguiu três fases.

  1. dividir os garotos aleatóriamente em dois grupos distintos, dormindo em diferentes partes do campo, com atividades e músicas diferentes para que cada grupo desenvolvesse sua própria identidade de grupo.
  2. criar condições planejadas para induzir hostilidades entre os dois grupos. Os garotos não sabiam que participavam de um experimento, eles achavam que estavam participando de um acampamento normal

  3. uma vez que os grupos estivesse suficientemente hostis seria tentados vários métodos para reduzir a hostilidade.

Considerado um clássico, os resultados mostraram que a hostilidade poderia ser reduzida através do estabelecimento de objetivos comuns, desejados por ambos os grupos e que poderiam ser melhor obtidos através de cooperação. Por exemplo, os pesquisadores criaram uma falha no suprimento de água do campo. Para resolver essa crises os grupos aceitaram trabalhar em grupo e juntos exploraram a linha de água até encontrar o problema. Com essa e outras práticas as hostilidades entre os grupos foram reduzidas e no final já haviam várias amizades entre membros de grupos diferentes que surgiram de iniciativa deles.

Se o foco experimento original era pesquisar meios de reduzir a hostilidade o Dr. Gray faz uma proposta interessante ao olhar para o outro lado, os métodos utilizados para induzi-la, algo pouco discutido. Na verdade os procedimentos para isso foram razoavelmente simples. Quando os grupos foram divididos os participantes foram convidados a competir em um torneio que envolve uma série de jogos competitivos, com a equipe de adultos do campo atuando com juízes. Os vencedores recebiam prêmios e pontos eram marcados para seus grupos. E aí começam as hostilidades reais.

lordoftheflies2

Cena do filme “O Senhor das Moscas” agora o aspecto tribal ficou mais claro, não?

À medida que o torneio avançava os grupos se tornavam mais antagônicos. O fair play inicial logo começou a mudar para provocações, acusações de roubo nas partidas e roubo como retaliação. A hostilidade se espalhou pelo campo dentro e fora do torneio, e mesmo que o perfil dos garotos em ambos os grupos fosse parecido (brancos, protestantes e de classe média e eles tenham sido aleatoriamente eles passaram a ver os meninos do grupo oposto como gente muito diferente deles, essencialmente traidores sujos que mereciam uma lição. Brigas físicas ocorreram em diversas ocasiões, ataques ao alojamento do grupo adversário e alguns garotos começaram a se armar com pedras e se recusar a comer no mesmo refeitório que o outro grupo. E quando isso acontecia tensão e violência se tornavam bem prováveis, com o risco de brigas grupais no refeitório. O que começou como um torneio esportivo cada vez mais se tornava em algo parecido com duas tribos em guerra. E tudo criado por um torneio esportivo formal.

O Brincar

Agora, vamos deixar o experimento de lado e pensar com pouco sobre como garotos geralmente brincam. E onde o Dr. Gray aproveitou para diferenciar a brincadeira do esporte formal, com suas regras, prêmios e etc.

Muitas das brincadeiras de garotos envolvem batalhas, encenadas, claro. Em alguns casos essas batalhas acontecem puramente no reino da fantasia. Os meninos criam suas cenas de batalha, decidem quem vai fazer qual papel, quem é ferido, morre ou ressuscita. Algumas pessoas, que não entendem o brincar dos meninos ,confundem esse brincar com violência e tenta impedi-lo, especialmente quando a brincadeira é mais vigorosa, empolgada, ou pela maneira um tanto áspera e caótica como eles se comportam. Sim, às vezes é difícil diferenciar quando meninos estão brincando ou brigando. Mas não é necessariamente violência, é brincadeira. Deveríamos considerar esses garotos não como guerreiros, mas como pequenos atores de improviso. Eles estão usando a imaginação para criar e atuar em histórias dramáticas e emocionantes. Brincar desse modo é não competitivo e também não violento. Não há contagem de pontos, ninguém ganha ou perde, todos estão apenas atuando em seus papéis. Também não há equipes fixas em brincadeiras desse tipo. Se este tipo de brincadeira envolve exércitos de fantasia os participantes montam os exércitos de forma diferente para cada tipo de brincadeira. Brincadeiras desse tipo não criam inimigos, pelo contrário, elas cimentam amizades.

Um aspecto dessas batalhas de fantasia é a brincadeira informal, que é retirada em esportes como o futebol, basquete e cia. Aqueles que passamos a chamar de esportes, especialmente quando jogados de modo formal, com regras, campeonatos e etc. Esses esportes também podem ser vistos como batalhas de fantasia. Existem times, territórios a serem invadidos, defendidos e conquistas a serem feitas, tudo ritualizado por regras que definem o comportamento dos jogadores.  Por “brincar de forma informal” Gray considera que essas brincadeiras ou mesmo jogos informais são totalmente organizadas pelos seus participantes sem consequências fora do contexto da brincadeira. O que importa é a diversão de todos, até a organização é algo secundário. Não há troféus, prêmios, campeonatos ou placares. Os vencedores não terão fãs nem os perdedores serão depreciados. Essas brincadeiras de guerra podem ser denominadas competitivas mas na verdade seriam, quando muito, pseudo competitivas. Pode haver torcida ou mesmo um pouco de comemoração mas no final, ninguém se importa sobre quem ganhou. Os perdedores vão para casa tão felizes quanto os pretensos vencedores. Esses jogos também reforçam amizades e evitam criar inimigos.

Formal x Informal

Se os meninos do experimento tivessem participado de jogos informais, mesmo que fossem de basquete ou cabo de guerra dificilmente haveriam as hostilidades. Sem ganhos ou perdas determinados por autoridades externas os jogadores teriam se focado mais em se divertir do que vencer. Sem juízes adultos para separar vencedores de derrotados eles poderiam ter cooperado para estabelecer regras para seus jogos e julgar de forma consensual como elas funcionariam. Eles teriam que discutir e resolver suas diferenças. Roubo e provocações, se fossem longe demais destruiriam a diversão e a própria razão de ser da brincadeira. Assim, quem não estivesse se divertindo simplesmente sairia e assim o único jeito de manter a brincadeira acontecendo seria brincar de modo a garantir que o máximo de garotos se divertisse. E crianças sabem como fazer isso.

Uma experiência pessoal

Aqui, eu (o autor) atesto vi algo assim ocorrer ao observar à distância meu filho e seus colegas de escola brincando. Num certo momento meu filho ficou cansado e não conseguia mais correr atrás dos colegas. Eu já estava me preparando para entrar no meio e dar uma deixa para ele sair e descansar um pouco sem parecer que estava desistindo. Afinal eu sou um adulto competitivo, masculino, hétero, mais ou menos branco, o mal encarnado em forma de gente e no fundo não queria que meu filho desistisse de brincar. Mas, para minha surpresa, um de seus colegas simplesmente se aproximou e disse para ele: “Ok, você me pega e a gente continua”. E assim o novo pegador saiu correndo atrás dos outros e deu alguns segundos para meu filho recuperar o fôlego, sem interromper a brincadeira de todos. Eles arranjaram uma excelente solução e o objetivo deles de continuar brincando foi cumprido com muito mais fair play e eficiência que o adulto aqui, agindo no papel de lei, agente regulador ou Estado, poderia ter inventado.

Conclusão

Voltando ao Dr. Gray, ele acredita que como esses jogos informais acabam envolvendo mais cooperação, seria razoável supor que tais jogos teriam tornado os grupos mais próximos. Batalhas de fantasia e esportes informais são brincadeira pura e esse brincar cria amizades e não inimigos. Enquanto os esportes formais e seus torneios estão fora do que seria considerado brincar livre porque são controlados por entidades externas, nós adultos. E tais jogos têm consequências claras fora do contexto do jogo, o que altera totalmente a atitude dos jogadores.

Assim, os esportes formais ocupam um espaço entre a brincadeira e a realidade e, dependendo de uma vasta gama de fatores, um jogo formal se equilibra entre o real e o fantasioso. Quando esse equilíbrio se inclina demasiadamente para a realidade uma derrota torna-se uma derrota real e os derrotados passam a ver os competidores como inimigos reais. O estudo de Sherif aparentemente encontrou uma forma de transformar esportes formais em estopins para batalhas reais. Ter consciência desses gatilhos, especialmente de como evitá-los é algo importante para manter saudáveis quaisquer experiências de aprendizagem que envolvam algum tipo competição.

Bibliografia

Gray, P. (2009) A New Look at the Classic Robbers Cave Experiment: . (online) disponível em http//www.psychologytoday.com/blog/freedom-learn/200912/new-look-the-classic-robbers-cave-experiment (acesso janeiro/2017)

Rapoport, A. (1974) Fights, Games, and Debates. University of Michigan Press

eu-sei-que-nao-vai-dar-certo-oh-dia-oh-ceus-oh-azar-83657-1

Hardy, criação de anos 60
da Hanna-Barbera (atual Cartoon Network) e excelente descrição de pessimista
fonte: Palavras na Gaveta

Sim, aquele seu amigo com um urubu no ombro acha que ficou lindo e vamos explicar porque a ave chama essa atenção toda.  Para isso lá vamos nós com mais uma resenha descuidada, baseada em um artigo sugerido por minha amiga Bia Lins no Linkedin e de autoria de Morgan Housel, com o título original de “Why Does Pessimism Sound So Smart? Especially when things are so good.” que pode ser traduzido como”Porque o Pessimismo soa tão Esperto? Especialmente quando as coisas estão tão boas.”

Porque o cenário atual faz a alegria dos pessimistas

Primeiro é preciso entender, no geral as vida, a sociedade e tudo mais vão bem ou mal? Ainda mais considerando que o mundo ainda está se recuperando de uma grande recessão em 2008 e o Brasil ainda está lutando com a sua que começou em 2014. De fato, se observamos a avalanche de notícias ruins, verdadeiras ou falsas, que se espalham pela internet e outras mídias é difícil evitar a impressão que as coisas estão piorando.

Porém existem evidências de que, talvez estejamos na melhor época da humanidade, como observado em por Steven Pinker  em seu livro que afirma que, na verdade, a violência humana está em declínio. Sim, claro que o aquecimento global é um problema, a guerra na Síria e o número de assassinatos no Brasil continuam sendo problemas sérios e ainda serão por um bom tempo. Mas o ponto dele é que na análise fria dos números a violência está se tornando mais rara e menos aceitável a medida que o tempo passa.

A questão é que nossa percepção parece dizer que as coisas estão piorando. Tanto que as histórias sobre distopias e futuros apocalípticos já fazem tanto sucesso que estão dando dinheiro.   Hoje somos bombardeados por informação sobre todo o acidente ou incidente que acontece, seja ele provável improvável, distante ou próximo. No final todos os casos parecem próximos e prováveis e devemos nos proteger, em alguns casos até demais. Algo que o sociólogo alemão Ulrich Beck denominou “Sociedade de Risco”. Onde a instabilidade e a constante mudança, muitas delas provocada pelo ser humano,  e a falta de referências que caraterizam nossos tempos enfatizam essa sensação de perigo. As profissões para que existem hoje podem desaparecer em poucos anos. Querer ter um emprego e viver sua vida de forma segura sem muitas atribulações pode ser considerado um sinal de fraqueza para quem nasceu nas gerações mais novas e todo mundo deveria ser um líder arrojado que ri na cara do perigo. Existem milhares de opções para tudo mas só vale se for a melhor e tem de ser agora. É possível entender porque isso provoca tanta ansiedade e faz o consumo de medicamentos pular? Todo esse “estímulo” teria no deixado ainda mais ligados nessa questão de risco e até por uma questão de sobrevivência acredito que estamos mais acostumados a ver risco como algo a ser evitado do que gerenciado, o que seria a opção mais razoável.

Mas tem outro fator: o pessimismo é charmoso

Pelo menos é essa a hipótese  de Morgan (o autor) ao afirmar que o pessimismo parece esperto, especialmente quando os tempos não são tão ruins assim. Uma pesquisa da professora Teresa Amabile observou que críticos que fazem resenhas negativas são vistos como mais espertos do que aqueles que dão resenhas positivas sobre o mesmo livro. Só o pessimismo seria profundo enquanto o otimismo parece superficial.

O prêmio Nobel Daniel Kahneman considera que existe uma resposta evolutiva que nos faz reponder com mais força para a perda que para o ganho, o seu Nobel veio desse estudo. Outro detalhe interessante: ele não é um economista, mas um estudioso de comportamento (psicologia) aplicado à economia. Como disse Deirdre N McCloskey, historiador, escrevendo para o N.Y. Times: “Por razões que eu nunca entendi as pessoas gostam de ouvir que o mundo está indo para o inferno”.

5 razões para explicar o charme do urubu

Morgan, elenca algumas razões que observou para explicar porque o pessimismo ganha tanto destaque

1. O otimismo parece ignorar os riscos. Assim, à princípio, o pessimismo parece ser mais inteligente. O que seria uma visão equivocada de otimistas com noção. Muitos entendem que existe o risco real de desastres, recessões, guerras, pandemias etc. Mas se consideram otimistas porque se focam em processos mais longos, como carreiras, projetos e aceitam que eventualmente será preciso enfrentar os momentos ruins. O pessimista considera o evento ruim como o fim da história, o beco sem saída. Enquanto o otimista considera o evento ruim como parte de uma boa história. Pessoalmente acho que a diferença estaria na perspectiva de tempo, na resistência e, especialmente, resiliência do otimista.

2. O pessimismo mostra que nem tudo está indo na direção certa, o que ajuda a racionalizar as próprias limitações. A miséria adora companhia. Observar que coisas fora do seu controle podem ser a causa dos seus problemas e não as suas próprias decisões é um sentimento reconfortante pois alivia a sensação de responsabilidade. Assim, sutilmente o consideramos atraente. É comum naqueles pessimistas reclamões que sempre têm uma queixa a relatar e deve fazer o maior sucesso nessas igrejas que adoram culpar o diabo por tudo.

Nesse aspecto, acredito que a questão também se liga um pouco ao tema da inveja. O que me lembrou uma fala do Leandro Karnal em um Café Filosófico: Para observar quem são seus verdadeiros amigos ele sugere um “teste Heidggeriano”ótimo: Diga que está tudo bem e você está numa ótima fase e observe a reação dos outros, as sutis. Se a miséria e os problemas despertam a solidariedade e o desejo de ajudar é um tanto lógico esperar que o sucesso eventualmente desperte o efeito contrário. O que levaria a alguns possíveis avisos pessimistas de seus amigos

Por outro lado uma certa dose de pessimismo também pode ser uma fonte de reflexão para a melhoria pessoal o que se conecta com o argumento número 3, o que não é necessariamente ruim. Na verdade essa não é uma discussão de valor (pessimismo ruim x otimismo bom).

307

Autor: Carlos Ruas

3. Pessimismo requer ação enquanto o otimismo significa deixar as coisas como estão. O pessimismo ganha a nossa atenção porque geralmente envolve a tomada de ação. Enquanto o otimismo é mais “de boas” sobre manter o curso, como observado pelo foco de longo prazo do otimista descrito antes. E manter as coisas como estão é algo muito mais fácil de ser ignorado. Em termos de ganhar nossa atenção nada têm tanto apelo como um problema que deve ser resolvido. Mas, por segurança,  é preciso lembrar  que o otimismo pode ser uma desculpa para a preguiça ou auto indulgência.

4. O otimismo soa como conversa de enganador, enquanto o pessimismo soa como alguém tentando te ajudar. O que de vez em quanto acontece mesmo. Acredito que os estelionátrios são pessoas otimistas em sua capacidade de convencer suas vítimas que vão ter altos ganhos com pouco esforço, além de mestres em despertar o otimismo da vítima. Por outro lado Morgan considera o otimismo o padrão correto e observa que o pessimismo pode ser um argumento tão bom quanto qualquer outro, especialmente em torno de assuntos emocionais como dinheiro e política. O medo também vende que é uma beleza.

5. Pessimistas extrapolam tendências presentes sem considerar como os mercados se adaptam. O que é importante porque visões pessimistas frequentemente começam com um fundamento em análises racionais. Assim, o aviso parece ser tão racional quanto assustador.

Aqui precisamos entender que nosso autor é da área de economia e mercado. Tanto que em seus exemplo ele mostra uma declaração de um ambientalista, feita em 2008. Que considerava que em 2030 a China precisaria de 90 milhões de barris de petróleo por dia e, na época, a produção mundial total era de 85 milhões com poucas mudanças. E ele estava certo, o mundo ficaria sem petróleo naquele cenário. Porém, não é assim que os mercados funcionam. A falta fez o preço subir o que incentivou o desenvolvimento de novas técnicas de perfuração, como demonstrado pela descoberta do pré-sal e o expertise brasileiro em coleta de petróleo em mares profundos, e agora temos petróleo sem muito problema. Na verdade, o problema dos últimos anos foi que temos petróleo até demais e o preço despencou. O Rio de Janeiro que o diga.

Outro exemplo é a velha previsão de Malthus sobre o crescimento da população e a produção de alimentos, uma previsão que teve suas pernas quebradas com a revolução verde na agropecuária. Na qual o Brasil faz uma honrosa participação, especialmente através da Embrapa. Essa falha em considerar a capacidade de adaptação é uma causa comum para o fim da maioria das previsões pessimistas.

Conclusão

Ainda assim o autor deixa claro que é preciso ouvir os pessimistas. Como elencado no item 3, eles mostram onde é preciso agir e avisam sobre as pedras no caminho à frente. Até para voltarmos a ter razões para sermos otimistas. Nesse caso a questão não é o pessimista ser charmoso, é ele estar certo ou não.Não ignore os pessimistas, apenas não se deixe levar por eles e, de forma saudável, desconfie de suas agendas. Afinal, como sugerido no livro O Otimista Racional mesmo que os indícios específicos possam ser ruins, talvez o quadro geral seja melhor do que aparenta.

Uma controvérsia que rendeu muito pano pra manga na eleição para prefeito em 2016 foi a questão da redução de velocidade nas marginais de São Paulo como forma de melhorar o trânsito. A medida, já adotada pelo então prefeito Haddad, tornou-se uma promessa de campanha para Dória, que acenava com a revogação da redução de velocidade.

Como percebemos o trânsito

Para a maioria dos motoristas a redução de velocidade para 50km/h foi vista como um insulto. Como se o trânsito normal já não fosse ruim o suficiente. Ainda por cima o número de radares aumentou em 405%, uma combinação que levou o número de multas para a estratosfera e o humor dos motoristas para o centro o centro da terra. A medida foi tão impopular que a OAB acionou a justiça contra o prefeito, que já havia arranjado um boa briga ao tirar espaço dos carros para ciclovias. O argumento seguia a lógica abaixo.

selo-persona-jose-fonseca-marginais

fonte: G1

Uma teoria discorda do senso comum

Porém, vários estudos observam uma realidade que não bate com essa idéia que, diga-se de passagem, parecia bem verossímil. A idéia de que a redução de velocidade máxima na verdade melhora a fluidez do trânsito fazendo com que os veículos andem mais rápido. Primeiramente é preciso mudar o foco da velocidade máxima para a velocidade que realmente vai fazer diferença, a média. No caso de São Paulo essa velocidade é de horríveis 6,9 km/h no final da tarde e comparando com os anos anteriores, a tendência é de queda. Pelo que entendi a idéia é que o que provoca a redução de velocidade em vias rápidas é que existem uma preferência maior por essas vias, são mais rápidas, e a diferença de velocidade entre diversos veículos somada à uma eventual inaptidão de alguns motoristas criaria gargalos de trânsito que logo se tornam engarrafamentos e acabam reduzindo a velocidade média para todo mundo. Em outro estudo a mudança de velocidade simplesmente não faz diferença na capacidade da via, não prejudicando o trânsito, mas reduzindo a gravidade de acidentes.

E isso sem contar que velocidade menores reduzem a gravidade de acidentes e que velocidades mais baixas também reduzem a probabilidade de acidentes ocorrerem, o tempo de reação dos motoristas aumenta. Qualquer um que já andou em vias expressas e muito cheias sabe que é razoavelmente fácil ocorrer um engavetamento envolvendo vários veículos e atrapalhando a vida de todo mundo.

Ainda assim, é difícil para o cidadão comum aceitar que um ganho sutil como o aumento de velocidade média ou um provável como a redução de acidentes (todo mundo acha que nunca vai sofrer um acidente) vale a pena. O ganho aparenta como algo abstrato frente ao incômodo real provocado pelo engarrafamento nosso de cada dia. Tanto que o novo prefeito de São Paulo, parece ter perdido seu ardor em alterar as regras.

A simulação

Pessoalmente, o argumento final foi ver uma simulação de trânsito interativa desenvolvida por esses alemães e seu cientificismo maravilhoso. É possível se alterar diversas variáveis, como o número de caminhões ou a quantidade de veículos. Apesar de não ser escrita em português, os controles são razoavelmente intuitivos e fica fácil de entender o funcionamento permitindo entender que o trânsito é resultado de uma complexa equação que têm diversas variáveis, como o número de veículos, o tipo, o desenho da pista, a velocidade máxima, a média e outros fatores. É uma forma simples de descrever um sistema complexo e nos mostra como respostas simples e senso comum podem limitar nossa percepção. Tudo bem que, como mostra Cathy O’Neal, a ciência não é neutra e a matemática também não, mas ainda é um ponto válido para começar uma reflexão.

Um paralelo com o passado

De qualquer modo a controvérsia era esperada e a resistência algo previsível, quando os primeiros radares surgiram também se iniciou a  Campanha Paz no Trânsito, envolvendo o GDF (o governo Cristovam Buarque), imprensa e sociedade, que implementou algumas políticas consideradas controversas na época:

  • com os radares, chamados de “pardais” pelos candangos, veio o controle de velocidade;
  • o respeito à faixa de pedestres, com preferência para os pedestres;
  • capacetes obrigatórios para motociclistas
  • o uso obrigatório do cinto de segurança e etc.
radar

Uns dizem que a indútria de multas é mito, outros que existe mesmo. Fonte: FlatOut.

No início, esse tsunami de mudanças foi considerado impensável para uma cidade onde todo mundo considerava 60km/h uma velocidade perfeitamente razoável, para o estacionamento. Muitos achavam que as leis não pegariam. Me lembro de gente indignada com a idéia de parar numa faixa para que pedestres atravessassem a rua em vários momentos eu fui um desses. Mas com disposição do governador e da polícia em multar uns bons milhares de motoristas por dia a população começou a ver vantagens e a aceitar melhor as mudanças. Apesar dos resmungos eventuais contra a indústria de multas que, em alguns casos acredito que exista mesmo, a cidade teve um trânsito um pouco mais civilizado e uma sensível redução no número de mortes por acidente. O que foi providencial  se considerarmos o grande aumento no número de carros e motoristas que veio com a primeira década do século XXI. De certa forma as leis mais rígidas tornaram o trânsito do Distrito Federal um pouco mais civilizado quando comparado com o de outras capitais brasileiras. E permitiu uma aplicação mais tranquilas em casos posteriores, como a implementação da lei seca para motoristas, que também reduziu o número de mortes no trânsito. O resultado de determinação das autoridades que foi assumido pelas sociedade como vantajoso com o passar do tempo. Nem sempre fazer o certo é vai ter fazer ser popular.

Conclusão

Mudanças em políticas públicas invariavelmente vão desagradar alguém e, em alguns casos, por “alguém” entenda muita gente. Ainda assim, como diria Milton Friedman, políticas públicas devem ser julgadas por seus resultados e não por suas intenções e em certos casos é preciso observar se os resultados compensa. Talvez a redução de velocidade máxima não seja isso tudo o que especialistas e alemães sugerem, mas é preciso dar tempo para que os resultados apareçam. O desagrado de hoje pode resultar em um mundo menos perigoso amanhã.

Sleeping Student

fonte: sites.psu.edu/siowfa15

Um consenso que beira o clichê é que a educação brasileira é muito ruim e precisa ser mudada. Nesse aspecto, 2016 foi uma no pródigo idéias, como a proposta de reforma do ensino médio comentada por aqui em outro artigo.  Para resumir a minha opinião as medidas são ousadas e não vi muito esforço para explicá-las de forma mais embasada.

Por outro lado, existem diversas medidas simples, com diversas evidências favoráveis que poderiam melhorar o rendimento de nossos estudantes. Uma delas está ligada ao horário das aulas e, principalmente, ao sono.

Se no caso das crianças acordar cedo é comum e elas sejam mais ativas no período da manhã. Segundo Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono, a situação muda quando chega a adolescência devido a uma necessidade de sono diferente, tanto que ele recomenda que o ensino médio seja vespertino. Assim, mesmo no Brasil os estudantes não estão dormindo o suficiente. Com a devida ressalva que o objetivo deste artigo não é criticar quem acorda cedo, mas mostrar que o que funcionada em determinada fase da vida pode não funcionar em todas. A grande questão não é que horas as pessoas acordam, mas o quanto elas dormiram.

Dormimos pouco e mal

Pesquisas dos últimos anos vêm observando que os adolescentes tem um ritmo de sono diferente dos adultos e o problema é que as escolas, planejadas por adultos, seguem o ritmo de sono dos adultos e não de seus alunos adolescentes. Usando dados do Departamento de Educação Americano, o Centro de Controle de Doenças fez um estudo grande, envolvendo mais de 30.000 estudantes, onde observaram que a maioria das escolas começava antes de 8h da manhã. Sendo que a Associação Americana de Pediatria não recomenda que os estudos comecem antes de 8h30 para garantir que os alunos tenham dormido o suficiente. Sob esse estado privação ou, déficit de sono praticamente constante, considera-se que os estudantes tem mais chance de:

  • ter sobrepeso;
  • fazer menos atividade física;
  • sofrer depressão e/ou ansiedade;
  • ter resultado acadêmico inferior (perceba que só esse sintoma já deveria ser razão para a escola começar mais tarde);
  • sem contar o riscos de ferimentos, que aumenta em pessoas sob privação de sono.

Segundo o estudo do CDC, os estudantes adolescentes precisam de algo em torno de 8h30 até 9h30 de sono diário para evitar esses sintomas. Talvez alguém se pergunte por que eles simplesmente não dormem mais cedo. Mas o problema é também está se observando que adolescentes realmente tem problemas para dormir cedo, com o agravante do uso constante de celulares e videogames à noite.

Segundo Wei Shin-Lai da Universidade Estadual da Pensilvânia os estudantes simplesmente não dormem o suficiente e sugere que aproximadamente 15 a 25% dos estudantes entre 15 e 25 anos são definidos pelos estudiosos do sono como “corujas”, vivendo em ciclos de 26 horas em vez das usuais 24 de todo mundo. Assim, uma “coruja” que acorda as 8 horas provavelmente vai dormir por volta das 2h da madrugada em vez de meia-noite.

A quantidade ideal de sono vai mudar de acordo com a pessoa, mudando de acordo com a idade e também com o sexo. Lai afirma que mulheres que já tiveram seu estirão de crescimento dentro os 10 ou 12 anos estarão bem com algo por volta de 7 ou 8h de sono. Enquanto homens, que costumam a ter um estirão de crescimento por volta dos 16  ou 17 anos vão precisar de algo em torno de 9 horas de sono.  E o tempo para se recuperar de uma noite sem dormir para estudar seja algo em torno de 3 dias. Pensando assim, talvez os adolescentes não sejam tão vagabundos quanto se gosta de acusar.

Imagino que alguém (caso o leitor seja esse alguém) deve estar se lembrando que acordava lá pelas 5 da manhã, ralava na escola, no trabalho ou em ambos e hoje em dia têm seu emprego e sua vida. Para esse alguém eu pergunto: E se esse sofrimento de acordar cedo, na verdade, tenha piorado sua desempenho de forma que hoje você é menos do que poderia ter sido? A idéia pode soar deprimente mas entender isso é importante para garantir um futuro melhor para as próximas gerações.

Para ilustrar como isso é algo comum, nos EUA, quase 40% dos estudantes adolescentes do sexo masculino declaram dormir menos de 7 horas por noite. Se jogarmos a situação para o caso brasileiro a situação provavelmente seria ainda pior, porque a maioria das escolas começa às 7h e os estudantes certamente devem acordar ainda mais cedo, devido ao tempo perdido no trânsito.

Um mapa das melhores horas para estudo

Como comentado no blog Psicóloga+Doutoranda que me inspirou para esse texto, estudar já é um processo muito exigente em termos de concentração e energia, imagine o prejuízo resultante de fazer isso sem ter dormido o suficiente. Através da infografia abaixo ela demonstra a importância do sono e os mecanismos biológicos que vão impactar na aprendizagem.

2014-06-11-23-46-08

Conclusão: estudantes deveriam dormir mais e ir para a escola um pouco mais tarde

Enfim, novamente acredito que temos um caso de pesquisas chatas e seus resultados que contrariam o senso comum. Pessoalmente soa um tanto insano e assustador pensar que mantemos gente para fazer uma atividade complexa e importante para a sociedade sob condições desfavoráveis simplesmente porque “sempre foi assim”. Na verdade, esse padrão “8h ás 18h” de todo mundo acordando no mesmo horário produzindo do mesmo jeito vem sendo cada vez mais questionado. Relembrando, não é apenas sobre que horas você acorda, a verdadeira questão é se dormiu o suficiente.

Uma mudança nos horários dos estudantes talvez não interesse nem aos pais ou escolas devido ao impacto inicial na logística. Mas creio que seria um excelente ponto para experimentos e comparações para conferir se a hipótese de mudança no horário dos estudantes pode trazer uma melhoria significativa no desempenho. No final das contas é um cálculo de custo x benefício que pode significar uma melhora significativa no desempenho e na qualidade de vida de nossos estudantes.

Anos atrás conheci a idéia de alfabetização ou escolarização precoce. Em princípio ,a idéia me parecia genial. Quem não lembra que Mozart começou a tocar aos 4 anos e se tornou o gênio que conhecemos? Uma criança que começou a escrever com 3 anos já teria quase 10 anos de experiência em leitura e escrita no sétimo ano. O que me parece ser algo vantajoso para uma futura carreira profissional. Se extrapolarmos a idéia para a matemática e outros tópicos a coisa parece ficar ainda melhor. Tanto que várias escolas adotaram a idéia de alfabetização precoce e alguns professores relatam até pressão dos pais para começar o ensino formal seus filhos tão logo quanto possível.

Porém é preciso entender que tudo tem seu custo e crianças são diferentes de adultos. Uma coisa que mudou e continua avançando são os estudos sobre como aprendemos e, especialmente, como as crianças aprendem. E isso não ocorre só através de pedagogos mas de forma multidisciplinar, envolvendo diversas neurociências. Se alguém fizer uma rápida pesquisa sobre alfabetização precoce vai descobrir que a maioria dos textos encontrados consideram a proposta controversa, nas notícias comuns, ou ruim nos textos de especialistas como Rosely Saião e outros.

Para deixar claro que não estou me referindo apenas à leitura e escrita, podemos considerar também o ensino de matemática. Vamos considerar a alfabetização precoce dentro de algo como o ensino de habilidades acadêmicas (leitura, escrita, tabuada etc.), desde o período pré-escolar, que seria antes do ensino fundamental no Brasil, começando aos 6 anos de idade.

school_its_way_more_boring_than_when_you_were_there

O dr. Peter Gray fez um levantamento de estudos sobre o assunto no exterior e os resultados não foram animadores. Os resultados observados têm sido consistentes, mesmo se comparando diferentes estudos. Segundo ele, se há uma coisa que o treinamento dessas habilidades acadêmicas na infância certamente produz é dano ao cognitivo, emocional e até mesmo acadêmico no longo prazo. Vários estudos controlados [2]comparam os efeitos da educação acadêmica precoce; com abordagens mais lúdicas, centradas nas brincadeiras infantis. A educação acadêmica precoce até oferece ganhos iniciais, mas eles desaparecem com o passar do tempo e, em alguns casos, podem até ser revertidos. Porém o pior é que esse modelo pode produzir danos de longo prazo, resultando em pessoas pouca habilidades social e baixa resiliência emocional, além dessa vantagem acadêmica possivelmente sumir com o tempo. Como eu disse antes, nada vêm de graça, nem mesmo em termos de aprendizagem.

Alguns estudos

Essa parte é uma tradução descuidada do artigo do Dr. Peter Gray. Nos anos 70 [2] o governo alemão fez estudos em larga escala analisando 100 jardins de infância (kindergarten). Na época o governo estava fazendo uma mudança gradual para incluir o ensino de habilidades acadêmicas desde os primeiros anos.  O estudo era essencialmente uma comparação entre dois tipos de instituição: as que incentivam as crianças a aprender de forma lúdica, centradas no brincar; em comparação com as que focam na instrução direta e acadêmica. O problema é que apesar dos ganhos iniciais do treinamento precoce com o tempo a performance desses estudantes começou a ficar pior comparada com a dos que tiveram espaço para brincar. Os resultados foram  convincentes o suficiente para que os alemães desistissem de estratégia inicial, optando por manter os jardins de infância centrados no livre brincar.

Nos Estados Unidos ocorreram estudos parecidos, com resultados semelhantes. Um estudo dirigido por Rebecca Marcon [3] focado principalmente em crianças negras de famílias pobres consideraram uma amostra de 343 estudantes. Os que estudavam em pré-escolas centradas no aspecto acadêmico também mostraram avanços iniciais, mas ao final do quarto ano essas vantagens desapareceram se comparadas ao alunos que brincaram mais, nas verdade, esses últimos já estavam apresentando notas até melhores. No caso o estudo não avaliou desenvolvimento social ou emocional, apenas o acadêmico.

Weikart [4] em 1967 fez um experimento bem controlado com 68 estudantes pobres de Michigan, que foram divididos em 3 grupos, de acordo com o tipo de pré-escola ou creche: tradicional, baseada no livre brincar; avançada, que era parecida com a tradicional mas com mais interferência de adultos; instrução direta, similar ao nosso treinamento acadêmico precoce (trabalhando com exercícios escritos e testes). A divisão foi feita de forma semi aleatória de forma a deixar os 3 grupos tão equilibrados quanto o possível. Além das experiências na escola as famílias foram visitadas a cada duas semanas, com o intuito de instruir os pais em como ajudar seus filhos. Essas visitas eram focadas nos mesmos métodos usados em sala de aula. E os resultados foram similares aos de outros estudos. Com a diferença que nesse caso os estudantes também foram avaliados aos 15 anos de idade e novamente aos 23. Nas avaliações posteriores não haviam diferenças acadêmicas relevantes entre os diferentes grupos, porém foram observadas diferenças em outros quesitos: No grupo dos estudantes que participaram da instrução direta foram observados o dobro de atos de má conduta (suponho que vandalismo, brigas ou crimes muito leves), se comparado com os outros dois grupos. E aos 23 anos as diferenças foram ainda mais dramáticas, o grupo da instrução direta apresentou mais casos de conflito com outras pessoas, evidências de problemas emocionais e 39% mais de casos de prisão se comparados com uma média de 13,5% nos outros dois grupos.

Minha opinião e outras mais

É importante entender que esses resultados não podem ser tomados ao pé da letra. O que se observou foi que crianças com educação rígida desde cedo tem uma maior tendência a ter problemas com habilidades socioemocionais no futuro o que não significa que vão ser sempre gênios intragáveis e infelizes. Sempre vai haver o filho-do-amigo-da-vizinha que passou por tudo isso e é ótima pessoa hoje em dia . De fato, existem muitas outras variáveis além da escola a serem consideradas, como situação dos pais, questões pré-natais. Afinal, quando a escola formal começa pode já ser tarde demais.  E por isso as amostragens amplas e aleatórias tornam esses estudos mais consistentes. Estudantes afetados por essas variáveis têm a mesma chance de estar em qualquer um dos grupos. O que os estudos mostraram foi um padrão difícil de ser observável e não uma lei inevitável. E é justamente para isso que existe a ciência, para mostrar aquela verdade que está além das nossas percepções e experiências.

O que temos é um típico caso de resultados contraintuitivos. Os resultados mostraram algo diferente do que se esperava. Eu, pelo menos, achava que uma educação forte e controlada desde o início faria bem e fiquei chocado em ver o contrário. Uma das grandes dificuldades da educação, especialmente a pré-escolar, é que seus impactos só vão ficar aparentes muito depois. O que tende a estar além da percepção dos pais na hora de definir a educação dos filhos. Imagine como os pais do grupo de instrução direta se sentiram ao ver os resultados do estudo aos 23 anos. Lembre-se que também foram os resultados da educação que eles escolheram.

Por outro lado, a Dra. Cristina Cupertino observa que é até possível que alguns alunos possam acelerar seus estudos, mas eles são mais exceção do que regra. Algo como meros 2% do total dos estudantes (sim, são raros) e, ainda assim, uma série de condições deve ser observada: especialmente para garantir se eles estão felizes com a aceleração dos estudos e estão se desenvolvendo bem em outras esferas além da acadêmica. Se considerarmos a tendência natural de qualquer pai em achar que seu filho é a última bolacha do pacote  está nesses 2% é importante que essa avaliação seja feita por um profissional.

Mas, apesar das evidências em contrário, escolas oferecem esse ensino precoce ou são pressionadas pelos pais. Está na moda. O professor Luiz Carlos Freitas da  Unicamp é categórico ao dizer que a alfabetização precoce é um crime. Lembremos que o aprendizado da criança é diferente do adulto e tem características específicas.

A principal questão é se os custos compensam os ganhos. Eu acredito que não. Acho que estudar não é realmente algo fácil, muitas vezes é um esforço mesmo e que as crianças terão uma vida pela frente de educação constante. Não sou contra escola exigente ou mesmo competitiva, acho as olimpíadas escolares um incentivo genial, por exemplo. Mas cada coisa a seu tempo, deixemos que eles tenham infância primeiro. No longo prazo, até a vida acadêmica e profissional serão melhores.

Referências:

[1] Nancy Carlsson-Paige, Geralyn Bywater McLaughlin, & Joan Wolfsheimer Almon. (2015).  Reading Instruction in Kindergarten: Little to Gain and Much to Lose.  Published online by the Alliance for Childhood.http://www.allianceforchildhood.org/sites/allianceforchildhood.org/files…

[2]  Linda Darling-Hammond and J. Snyder. 1992. “Curriculum Studies and the Traditions of Inquiry: The Scientific Tradition.” Edited by Philip W Jackson. Handbook of Research on Curriculum. MacMillan. pp. 41-78.

[3] R. A. Marcon,  2002. “Moving up the grades: Relationship between preschool model and later school success.” Early Childhood Research & Practice 4(1).http://ecrp.uiuc.edu/v4n1/marcon.html.

[4] Larry J. Schweinhart and D. P. Weikart. 1997. “The High/Scope Pre- school Curriculum Comparison Study through age 23.” Early Childhood Research Quarterly 12. pp. 117-143.

foto: salon.com

 

doctor-who-tardis-metallic-poster

fonte: Allposters.com

Doctor Who é uma série de TV inglesa que em 2016 chegou aos 53 anos, com interrupções, que não a impediram de se tornar uma grande influência na produção de ficção científica e TV. Até porque temos gerações que passaram sua infância assistindo Doctor Who que já estão no mercado, especialmente no Reino Unido. Dentre seus roteiristas, o que ajuda a explicar o sucesso da série, temos alguns autores como: Douglas Adams, de O guia do mochileiro das galáxias; Eoin Colfer de Artemis Fowl; e Neil Gaiman, de Lugar Nenhum e Sandman.

A série conta a história de um viajante misterioso, e um tanto amalucado, que se apresenta apenas como “O Doutor”. O nome da série vem justamente da estranheza das pessoas com isso perguntando “Doutor Quem?” (Doctor Who?) após ele se apresentar. Além se parecer ser um cientista completo, o Doutor comanda uma nave chama TARDIS, sigla de Time and Relative Dimensions in Space”, ou se preferir em em português, “Tempo e Dimensões Relativas no Espaço” que viaja pelo tempo e espaço e, devido a um pequeno defeito, está eternamente disfarçada de cabine telefônica de polícia dos anos 60 o que a tornou um ícone da série. Por uma coincidência similar à dos filmes de invasão alienígena que faz com que a imensa maioria das naves desça nos Estados Unidos o Doutor parece ter uma especial predileção pelo Reino Unido. E nesses 50 anos a série já apresentou diversos detalhes interessantes.

Originalmente, era uma série de TV voltada para um público familiar e com uma proposta educativa. Sobre um viajante do tempo com sua neta Susan explorando tempo e espaço, aprendendo sobre história quando viajava para o passado e sobre ciências quanto ia para o futuro. Tanto que, além da neta, os primeiros companheiros de viagem foram dois professores que seguiram Susan, então aluna deles. E sim, o Doutor nunca viaja sozinho, geralmente estando acompanhado por uma ou mais pessoas que atuam como companheiros, auxiliares e até mesmo reféns, dos inimigos do Doutor a função deles é dar uma dimensão humana à série a colocar pessoas comuns como participantes da trama. Em termos de gênero. Em termos de gênero, digamos que as histórias orbitem entre a ficção científica com algumas doses de terror infanto-juvenil.

E dos vestígios de DNA educacional  vem alguns dos pontos que mais gosto na série, como o encantamento pela descoberta, pelo interesse do Doutor em mostrar o que nunca antes foi visto. Apesar de que a parte ciências “de verdade”já ter sido substituída por muita ficção, acho que ficou algo da atitude esperada do cientista, sem o rigor metodológico. Geralmente o Doutor adora mostrar algo novo para seus companheiros e muitas tramas da série buscam descobrir um mistério ou entender algo novo, mesmo que esse novo seja um tanto aterrador. O Doutor, pode ser corajoso, mas certamente não é um guerreiro: na única luta de espadas que vi em toda a série a performance dele não foi lá grande coisa. Ele não usa armas e seu instrumento de trabalho é uma tal da chave de fenda sônica que é basicamente um faz-tudo tecnológico. Em boa parte dos episódios que vi o grito de guerra do Doutor seria algo como “Corram!” enquanto sei-lá-o-quê avança para cima do grupo.

Essas não são histórias resolvidas na base da porrada, os conflitos são muito mais questões de ter percepção para se entender o que está acontecendo, mesmo que seja uma armadilha, e criatividade para descobrir uma solução. Às vezes é necessário prender ou mesmo destruir, mas isso não é algo a ser comemorado, mas necessário.  O que me parece bem de acordo com um povo que já sobreviveu à duas guerras mundiais em suas portas. O doutor também não é um cientista que caiba no estereótipo do rato de laboratório, mas alguém que vai ao campo, um cara de pesquisa aplicada e que desenvolve tecnologias ou simplesmente descobre como algo funciona. Ele praticamente faz o ciclo de C&T, indo da pesquisa de algo até a viabilizar tecnologia necessária para esse algo funcionar. Pessoalmente adoraria ver um estudo de longo prazo para observar se assistir Doctor Who ajudou a formar adultos com mente mais aberta, curiosos e criativos. O que é só uma hipótese minha, claro. Eu não encontrei nada sobre isso, mas parece ser algo razoavelmente aceito que a série se tornou um exemplo de transmídia.

131120144723_doctor_who_224x280_bbc

Dave Tennant, meu Doutor preferido. fonte: BBC

Inclusive, o aspecto criativo fica bem visível na produção. Como era uma série de TV de anos 60 não haviam os grandes recursos de hollywood nem a computação gráfica de hoje em dia. Assim, as limitações e problemas de produção foram compensados com muita criatividade e provavelmente uma boa dose de improviso bem feito. Por exemplo, quando o primeiro ator da série começou a ter problemas de saúde inventaram a capacidade de regeneração do Doutor, que o fazia voltar com um novo corpo e uma nova personalidade, permitindo a renovação do personagem e liberdade de criação e interpretação para autores e atores. Assim, já temos 12 encarnações diferentes do Doutor ou facetas de uma personalidade complexa. Como o 1o. já foi definido por seus sucessores como “aquele rabugento”, o excêntrico 4o. Doutor ou o intenso 10o.. Até mesmo a TARDIS já apresentou diversas variações. O que também é um risco e um mérito da equipe da BBC, que dança sobre um fio de navalha entre atualizar a série sem descaracterizá-la e/ou manter a tradição sem engessar tudo. Mas também é o tipo de detalhe que explica muito da longevidade da série.

Eu, por exemplo, conheci o personagem em sua décima versão, quando era interpretado por David Tennant quando visitava a loja Forbidden Planet de Southampton  e foi assim que se tornou minha referência para a personagem. Tanto que o Doutor parece ter um certo gosto por encarar a diversidade. Para quem quiser ter uma boa idéia da variedade de doutores e suas aventuras recomendo Os 12 Doutores da Rocco.

Enfim, dentre os muitos detalhes gosto muito dos valores da história: de mostrar como o universo pode ser um lugar interessante, que aprender e descobrir pode ser um prazer e como a diferença que nos torna únicos. Se tantas histórias exaltam a guerra, em Doctor Who o herói é um explorador estranho, inteligente, com apenas uma razoável noção do que está fazendo, mas tão divertido quanto inspirador. E, claro, para lá de nerd, mas no melhor sentido que o termo possa ter.

2001-a-space-odyssey-dave

Tempos atrás comentei sobre o desalentador panorama do conhecimento em ciências na América Latina. Por outro lado, participando de um evento sobre divulgação de ciência, descobri existem várias iniciativas pontuais lutando no dia-a-dia para reduzir esse problema.

Dentro da imprensa nacional costumo encontrar bons exemplos no o Globo Rural: no dia 29/11/2015 foi apresentada uma excelente matéria sobre a Agricultura de Baixo Carbono um assunto complexo de forma simplesmente magistral. Como diz o meu chefe o Globo Rural costuma a seguir uma linha de “contar histórias”, para conseguir manter o interesse do público e a mesmo tempo apresentar informações que estão fora do senso comum. Assim, primeiro foi apresentado um cidadão comum em um almoço de família discutindo sobre o aquecimento global e a importância da agricultura de baixo carbono. A função desse pedaço foi mostrar que o assunto também é de afeta o cotidiano e interessa a pessoas comuns e não apenas para o governo e cientistas. Depois o espectador é levado ao laboratório onde os cientistas falam de seu trabalho e as descobertas mais recentes sobre o assunto. Todo o trabalho é apoiado por infografias, gráficos e informações cuidadosamente sintetizadas para manter o interesse do expectador e introduzi-lo a um assunto pouco usual. Esse fio condutor me lembra muito a proposta do Fernando Meirelles que comentei tempos atrás.

Inclusive aqui é preciso observar que a internet teve um impacto fantástico na divulgação científica, justamente por cortar intermediários entre os cientistas e o público. Abrindo espaço para alguns cientistas talentosos alcançar um público interessado e, de certa forma, qualificar esse público. E a blogosfera, da qual eu faço parte, oferece constelações de bons trabalhos que pontuam essa noite escura que é a  divulgação de  ciência. Como o trabalho do Projeto de Divulgação de Ciência da FAPEMIG ou o Engenheiro de Materiais com o expressivo subtítulo “Por um mundo onde as pessoas saibam o que fazemos”. E muitas dessas iniciativas que começaram como blogs, cresceram, tornaram-se sites ou colunas de jornal. Um exemplo é o site A Neurocientista de Plantão, de Suzana Herculano-Houzel, que além de trabalhar com divulgação científica desde 1999, mostrando o lado “cerebral” do nosso dia a dia, também aborda questões relacionadas à comunidade científica brasileira. Além do site ela percebeu a importância de trabalhar em conjunto com as grandes mídias, uma forma de não se tornar apenas mais uma voz pregando no deserto, como eu me sinto nesse blog de vez em quando. Assim, ela também já escreveu vários artigos na mídia que podem ser encontrados em seu site.

Porém alguns desses sites têm alto número de acessos, mesmo não estando vinculados a um grande meio de comunicação ou instituição científica. Algumas dessas iniciativa tem até mais impacto que os grande veículos. O site I Fucking Love Science é essencialmente um clipping de notícias de ciências tem muito mais curtidas no facebook (24 milhões) que o poderoso e tradicional  New York Times (pouco menos de 11 milhões).

Outro exemplo é o Cientista que virou mãe, de Ligia Moreiras Sena que já se expandiu para um coletivo. Seu site é uma interessante combinação entre o rigor científico de alguém que começou nas ciências naturais e foi acrescentando um olhar típico das ciências humanas, como resultado da maternidade e o um doutorado em Saúde Coletiva. E como ciência é mais um método e uma atitude crítica do que um acumulado de títulos não posso me esquecer do NerdPai, também relacionado à blogosfera materno/paterna. Apesar de não ser um blog especializado em ciência ele têm seus bons momentos na área.

Além do vídeo, que tem lá suas demandas de produção, outra mídia que vêm supreendendo pela diversidade é a dos podcasts. Uma opção adequada para quem não tem tempo ou disposição para ler textos longos, como os Dragões de Garagem ou o Braincast.

E outro trabalho que não deve ser ignorado é o presencial, feito nas feiras de ciência. Como demonstrado pela Engenheira da USP Dra. Roseli de Deus Lopes, que ainda será tema para outra resenha descuidada.

Por outro lado também existem problemas: internet não tem controle de qualidade. Assim temos pseudo-ciência e curandeirismos de todo o tipo compartilhando o palco virtual com pesquisa séria. O movimento anti-vacina e todas as teorias de conspiração estão aí para mostrar isso.

Essa é uma lista longe de ser exaustiva, digamos que a constelação de divulgadores de ciência aumenta a cada dia e pode se tornar uma galáxia. A importância desses “lobos solitários” vêm se tornando cada vez maior à medida que o público se fragmenta devido a grande oferta de informação da internet, que propicia espaço muito maior do que o que poderia ser oferecido pelos jornais, TV e outras mídias mais centralizadas. Um dos problemas dos grandes veículos é que neles ciência é apenas mais um assunto concorrendo por espaço com outras pautas. Ao mesmo tempo os assuntos científicos podem ser extremamente especializados o que pode ser difícil para ser apreendido  por um jornalista comum. Até hoje ainda sinto um pouco de vergonha alheia quando lembro de uma âncora de telejornal toda feliz anunciando a descoberta da “partícula de Deus”, o Bóson de Higgs, como se o apelido fosse mais importante que a descoberta em si. Se nos jornais e TV o espaço para a pauta ciência é limitado, diminuto e sem intermediários, na internet é possível ver o assunto feito diretamente da fonte.

Ainda assim, existe muito a ser feito. No geral, me parece que ainda existe mais talentos individuais em divulgação que incentivo à formação de bons divulgadores em ciência, algo que pode estar mudando justamente devido à contribuição desses lobos solitários.

Em um post distante chamado O Fracasso também ensina falei das minhas desventuras em uma malfadada proposta de projeto, que após muito trabalho não foi aceita. Digamos que ela não era ruim, mas também não foi boa o suficiente.

Mas o mundo gira e as chamadas de projeto também. Surgiu uma chamada de projeto para financiamento externo no qual a minha idéia poderia se adequar. Já escaldado das experiências anteriores trabalhei junto com uma pessoa mais experiente e nos dipusemos a redigir uma nova proposta.

Como esperado essa também não era fácil e primeiro teríamos de superar a “tensão superficial” que significa apresentar a proposta em plenária no auditório, para depois enviar para um comitê técnico e só então enviar a proposta para o orgão devido. E apenas após essa via crucis podemos botar o projeto para andar. Parece chato e burocrático, sim. Mas também significa que estamos sendo cuidadosos com o uso do dinheiro alheio.

E novamente foram muitas tardes de trabalho. Apesar de muito do material anterior ter sido aproveitado, houve muita coisa a ser corrigida e reforçada. A primeira coisa a ser feita foi rever aquele contundente relatório do examinador e responder a todas as perguntas, dentro do texto. Elas tinham respostas, mas algumas delas também levaram à novas perguntas, algumas das quais apenas poderemos responder apenas quando o trabalho de pesquisa real começar a ser feito.

As pessoas adoram falar de ciência mas é algo muito mais citado do que realmente entendido ou praticado. E uma de suas várias peculiaridades que precisamos observar é que a ciência é concorrencial. Seu trabalho é questionado diversas vezes e de formas variadas para se saber se é realmente consistente. Assim, não é um meio famoso por ser exatamente amigável ou piedoso. E isso não é necessariamente um defeito, é mais uma característica. Melhora quando a coisa fica no impessoal.

Assim, boa parte do nosso trabalho foi no sentido de deixar a proposta mais clara e, especialmente, mais consistente. Elaboramos hipóteses, levantamos literatura técnica correlata, definimos melhor o que estávamos estudando e desejávamos obter e especialmente definimos quais as nossa possíveis dificuldades. Assumindo que alguns fatores imprevisto poderiam surgir afinal como disse o astrofísico Neil Degrasse Tyson “In science, when human behavior enters the equation, things go nonlinear. That’s why Physics is easy and Sociology is hard.“(Em ciência, quando o comportamento humano entra na equação as coisas ficam não lineares. É por isso que física é fácil e sociologia é difícil). E isso foi o que mais observamos durante nossas conversas para escrever o projeto.

E ainda havia uma plenária para apresentar. Com umas boas dezenas de pesquisadores e analistas. Alguns provavelmente um tanto desconfiados da validade da proposta, do tema e mesmo da nossa capacidade de construir algo útil a partir daquilo tudo. Nossa palavra-chave era consistência. Mostra que aquele era um projeto pequeno, mas com objetivos e metas claras a serem cumpridas e resultados sólidos e possivelmente inéditos a serem obtidos num campo que, cada vez mais, estamos considerando que é pouco estudado.

Para nosso alívio a apresentação foi ótima, fomos questionados diversas vezes. Mas, como comentei antes, nesse meio o problema não é você ser bombardeado por perguntas: é falhar em responder alguma delas. E conseguimos não deixar nenhum pergunta sem resposta. Para minha supresa tivemos até alguns momentos de apoio.

Assim, alguns dias após a plenária o comitê técnico aprovou a proposta que foi enviada à sua devida autarquia. Após muitas, mas muitas revisões, para aproveitar o clichê, a sorte está lançada. Estamos concorrendo com alguns milhares de projetos, mas ao menos temos uma proposta imensamente melhor que a primeira.

E também está sendo um aprendizado sobre metodologia científica e de gestão de projeto. Todo mundo têm seu modo de aprendizagem preferido: alguns gostam de livros, outros de se enterrar na internet, tem quem adore um bom professor em sala de aula. Mas no meu caso eu aprendo muito sentado, trabalhando e conversando de forma quase despretensiosa. Aquela conversa que parece conversa de boteco, sem muita direção.  Algo pouco linear mas cheio de conteúdo. E nesse aspecto tenho a sorte de estar trabalhando com um pesquisador tão experiente quanto mente aberta. Um guia que está me ensinando a ir além das idéias inusitadas e boas intenções. Estou aprendendo muito sobre como desenvolver um trabalho com mais consistência e profundidade.

Enfim, sei lá se vai dar certo, mas as coisas estão promissoras. Meus planos voltaram a andar.

Na verdade, a frase completa foi Atenção cientistas: Ninguém liga pro seu sapo! e foi uma provocação, no sentido de um convite à reflexão, feita aos participantes do VIII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação.  Não vi a palestra, mas suponho que descreve bem os problemas enfrentados pela divulgação científica e uma proposta de solução.

Divulgar ciência não é algo trivial. E no caso das questões ambientais a ponte a ser construída entre os cientistas e o público é maior ainda. O artigo Mind the Gap de Kolmuss e Agyeman  aborda justamente o abismo que existe entre as pessoas terem informações sobre os danos ambientais e assumirem posturas pró-meio ambiente. No estudo eles falam dos diversos fatores que influenciam o comportamento pro ou anti meio ambiente. Educação ambiental é um exemplo claro de como disponibilizar informação não necessariamente resulta em mudança de atitude ou mesmo a adoção de um comportamento desejado, o que é descrito por Kolmuss e Agyeman como o modelo linear. E, com base nisso, creio que dá para fazer um paralelo entre esse artigo e o que nosso simpático cineasta quis dizer.

A maioria das pessoas gosta de se dizer racional, mas a mensagem que as alcança é emocional. O sapo da história tem que ter algo a ver com a vida da pessoa ou algum fator de identificação precisa ser criado. As pessoas não se interessam dados, mas por histórias. E para quem acha que isso é um problema criado pela frágil educação brasileira lembro que os EUA, a primeira economia do mundo tem problemas parecidos ou piores, como, por exemplo, a ofensiva dos defensores do criacionismo e o ativismo contra vacinas;

Assim, existe um impasse: a ciência mostra como o universo é imenso complexo e variado enquanto a maioria das pessoas gosta de simplificações e notícias que mostrem o que elas querem ouvir. E a função da ciência é encontrar respostas, não necessariamente as que gostamos de ouvir. De qualquer forma, esperar que as escolas simplesmente funcionem e torcer para que a próxima geração seja banhada por novos conhecimentos e magicamente se tornar mais amigável à ciência pode soar cômodo, mas é uma solução muito preguiçosa e chinfrim. É preciso lidar com os recursos que temos para atingir o público que temos. Afora diagnóstico para definir melhores soluções, reclamar do público é simplesmente inútil.

É verdade que temos muitos problemas a resolver, como o baixo conhecimento da sociedade sobre o assunto na América Latina que é uma mostra que nossos esforços para fomentar e incentivar o interesse na ciência precisam melhorar muito. Mas em vez de reclamar é preciso procurar soluções.

Foi algo que observei no meu trabalho e acredito que até a literatura técnica concorda com o Meirelles, é preciso tornar as informações mais palatáveis para o público. E criar histórias é um bom caminho. Algo que a publicidade e seu irmão mais novo, o marketing fazem bem. E os profissionais dessas áreas não ficam reclamando do público, eles simplesmente tentam entender o que funciona com esse público e aplicam isso. Pessoalmente achei o artigo estimulante por ser algo que já venho tentando aplicar em meus trabalhos, como o Macaúba Amiga, onde o conteúdo técnico corre ao longo de uma narrativa. Saber que se está no caminho certo por fontes inusitadas é sempre bom.

No final das contas mesmo que alguém não goste do Meirelles o importante é pensar se ele está certo. Eu acredito que sim e a idéia dele vale para a ciência em geral e não apenas a área ambiental.

%d blogueiros gostam disto: