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Encontrei um artigo do blog The Stick Chick que descreve bem os prazeres a agruras de praticar artes marciais na meia idade, com algumas dicas úteis. Não em termos técnicos, mas especialmente sobre como deve ser a atitude de quem está começando. E Jackie Bradbury, a autora, pode falar com propriedade do assunto já que começou a treinar aos 39 anos, é faixa preta de segundo grau e professora de Arnis Moderno no Texas. As 5 primeiras dicas são dela e a última é minha,  as imagens são do artigo dela.

1. Saiba lidar com os desafios físicos

Geralmente cursos de artes marciais são planejadas considerando adolescentes ou adultos jovens (vinte e poucos anos), especialmente a parte de capacidade física.


Provavelmente você vai sentir que não pode, ou não deve, reduzir a carga. Como, por exemplo, fazer menos repetições por exercício. Afinal, ninguém quer parecer incapaz ou menos esforçados que os mais novos.


Porém, a verdade é: você já não é mais um jovem e se exigir como se ainda fosse um aumenta o risco de ferimentos desnecessariamente (como agravante veja a dica 2). E a atividade escolhida já tem suas chances de ferimento o suficiente para você não precisar forçar a barra.


Flexibilidade é um bom exemplo. Têm gente que nasceu flexível e consegue colocar a cabeça no teto sem problemas. Porém para a maioria dos mortais isso é algo que leva tempo para ser desenvolvido e é rapidamente perdido quando se o aluno parar. Portanto não se pode pegar o coleguinha de 20 anos que pratica desde os 6 anos de idade como termo de comparação justo.


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2. Demora mais para se curar

Em qualquer atividade física existe o risco de lesões. Porém, quando você fica mais velho, aquelas pequenas coisas que antes seriam resolvidas com um pouco de gelo e uma noite de descanso passam a demandar um tempo bem maior para serem curadas. Assim, o hematoma ou dolorido que some após dois dias num adolescente pode durar mais de uma semana em um quarentão.


3. Aceite gente (bem) mais jovem te ensinando

Isso é algo que algumas pessoas podem considerar incomum ou mesmo incômodo: ter pessoas bem mais jovens em posição de autoridade. A solução: supere, aceite e acostume-se. Se a academia é boa o instrutor-com-idade-para-ser-seu-filho tem uns bons anos de experiência no assunto em questão e têm competência para te corrigir e instruir.


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Peito no chão e paga 20!

Eventualmente ele pode ser muito experiente tecnicamente mas nem tanto como instrutor. Didática é algo que melhora com a experiência. Nesse caso, seja um bom aluno, aceite seu instrutor (com a mesma deferência que teria por um instrutor mais velho) e trabalhe com ele  para entender os exercícios e as posições corretamente. Isso vai ajudar ele a entender suas necessidades e melhorar sua didática, ensinar é uma via de mão dupla. Existe uma diferença clara entre o questionamento produtivo e não confiar na competência do instrutor. Portanto, não seja um velho mala e trabalhe de forma construtiva. A outra vantagem é que isso também diminui o risco de ferimentos causados por exercícios feitos de forma errada.  Em determinadas posições uma diferença de alguns milímetros ou graus é o que separa um exercício saudável de algo que vai causar dano cedo ou tarde.


4. Você não está liberado da necessidade de praticar

Na verdade, muito pelo contrário. Acredito que gente mais velha precisa praticar ainda mais para acompanhar os mais novos. Como disse James Garr, um comentarista, é preciso aceitar seus diferenças. Além da vantagem física, gente mais nova costuma a aprender mais rápido. Assim, é preciso aceitar que alguém mais velho vai ter de se esforçar mais.  Encare como uma maratona e não 100 metros rasos, os resultados podem demorar mais um pouco comparando com os alunos mais novos, mas eles virão e valem a pena.


O que é agravado pela falta de tempo da vida adulta. Filhos, trabalho e outros compromissos já deixam a vida cheia o suficiente. Ainda assim, é importante arranjar algum tempo, por menor que seja para praticar um pouco, mesmo que sejam apenas movimentos básicos. E, por mais tentador que seja, falte apenas quando necessário. Tudo bem que você não vai perder nada que não possa ser reposto em outro aula, mas é uma oportunidade de prática a menos numa agenda que já é naturalmente apertada. Lembre-se que correr uma maratona é mais uma questão de ritmo e constância do que de velocidade.


Nesse aspecto volto a um outro conselho da Jackie. Não deixe de treinar se você se machucar levemente, mesmo que seja para pegar leve. Afinal, se a cura total leva mais tempo, continuar treinando vai fazer com que não se perca o ritmo.


5. Não se preocupe com o que os outros vão pensar

Nesse aspecto a Jackie comenta sobre as próprias dúvidas. Como é ser a pessoa mais velha numa classe de gente bem mais nova. O que outras pessoas pensariam do seu hobby? Achariam esquisito uma adulta ganhando hematomas como diversão, a essa altura do campeonato?


Creio que essas dúvidas dela já ficaram para trás. Como ela mesmo diz jornada essa jornada é pessoal e cada um têm sua trajetória. Se você descobriu artes marciais só após os 40 é assim que vai ser. Mesmo que você seja uma minoria na academia, muita gente também começou tarde e não se arrependeu. Você pode ser incomum, mas não é estranho e não está sozinho. Convenhamos, o que importa a opinião dos outros? Vai te fazer bem, te deixar mais saudável e é divertido. Isso já é motivo o suficiente.


Pessoalmente, eu creio que tive sorte nesse ponto. Não sou o cara mais velho da minha turma, mas estou longe de ser o mais novo. Meu Guro na Magka-Isa tem mais de 65 anos e trata todo mundo igual, independente da idade.  Eu já treinei, lutei, ganhei, perdi, aprendi e ensinei várias pessoas por lá, seja de gente nova demais para tirar carteira ou de gente bem mais velha. Por exemplo, aprendi muito com uma simpática senhora de 61 anos, dona de uma segurança inspiradora. Tanto no que estava disposta a fazer quanto no que não estava. De vez em quando treino com um senhor de uns 69 anos e se eu estiver com 80% da disposição e força dele quando chegar a essa idade já vou estar para lá de satisfeito.


+1. Os incomodados que se retirem

Essa é minha dica e considero até uma vantagem em não ser mais tão jovem: a de não sentir necessidade de me testar ou provar algo para alguém. Se você se sentir incomodado com algo ou que a experiência de treinar não está sendo boa, a melhor solução pode ser procurar outro lugar. Sinta-se livre para usar essa opção.


A melhor arte marcial é aquela que funciona para você. Até distância da academia e horário de aula são fatores a serem considerados. Ainda mais com o tempo apertado da vida adulta.



A solução é muito pessoal e vai envolver, entre outras, variáveis como: o professor, a turma e o estilo que se adequar melhor às suas necessidades e limitações. Bruce Lee em seu Tao do Jeet Kune Do dizia que é o estilo que deve ser adaptado ao corpo e não o contrário. O que é especialmente interessante quando nossa capacidade física está começando a diminuir como efeito da idade. E em termos de lidar com limitações, certas artes, como o Arnis Kali, podem apresentar casos inspiradores.


Portanto, se a primeira opção não for a melhor não há nenhum problema em se tentar de novo. Inclusive, é comum que as pessoas pratiquem várias artes diferentes ao longo da vida.

Apesar de acreditar nas diversas vantagens da aprendizagem através de jogos, eu tinha sérias dúvidas sobre quando e como uma criança deve começar a jogar. Como observei no caso do Tokyo e do Dixit, ensinar jogos para crianças não é algo trivial. Em alguns momentos é difícil para os adultos abrir mão de toda sua capacidade para entender como o mundo é visto e entendido pelas crianças. É importante entender que elas não são adultos em miniatura:  a capacidade de concentração deles é diferente e a própria noção de tempo e espaço muda. Um ano para uma pessoa de 40 anos não é nada, mas equivale a um quarto da vida de uma criança de 4 anos. É verdade que o trabalho voluntário foi um excelente laboratório, ainda mais considerando que o que eu faço é jogar com crianças, mas algumas das melhores idéias mesmo vieram da experiência de amigos.

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A Lilian de Paula foi uma das minhas primeiras guias nesse campo e foi quem me sugeriu o King of Tokyo como um jogo de entrada, com resultados para lá de divertidos. Além de recomendar o Ave Cesar e Camel Up.  O Gustavo Miranda afirmou que os filhos dele também adoram o Tokyo.

Rinaldi Maya começou a tentar quando seu filho estava com 4 anos com um jogo de pescaria, aquele das varas, também usou jogo da memória (com cartas) e o tradicional dominó. Nesses casos sem focar em estratégia só ensinando as regras, a mecânica dos jogos. Com 5 anos ele também apresentou os jogos Uno,  Entrelaçados, que foi o que melhor funcionou em termos de competitividade e Halli Galli. Também foi nessa idade que ele apresentou o King of Tokyo para o seu filho. Agora que ele está com 6 anos os conceitos e a leitura se solidificaram e ele não apenas adora jogar como sempre está animado com novas experiências. Segundo o Rinaldi, nas primeiras partidas ele ignorou as habilidades e foi para a brincadeira dos monstros que querem dominar a cidade. Em outras palavras, ele concentrou o foco na história. A mecânica dos dados e as regras de quem afeta quem em combate foi tranquila, mas ele sempre agiu um pouco como coach explicando a mecânica e como isso refletia na fantasia. Depois das 3 ou 4 primeiras partidas ele incluiu as habilidades mas sempre explicando o que como funcionavam as cartas que estavam em cima da pilha assim que essas entravam no jogo. Com o tempo seu filho já foi escolhendo as preferidas e hoje a intervenção é quase zero sendo que ele já compreende os textos, no máximo explicando algo quando ocorre alguma confuso, geralmente nas regras das habilidades especiais. Ainda assim, ele manteve seu papel de coach, dando dicas de quando era útil ou não empregar alguma carta. Ticket to Ride ele também consegue jogar, mas com uma estratégia bem direta.

Pessoalmente, eu achei a estratégia do Rinaldi semelhante à minha, com resultados similares. Eu confesso que não havia me dado conta do papel coaching que acabamos atuando durante os primeiros jogos, mas concordo com ele que faz toda a diferença. É um trabalho discreto que têm um papel fundamental no início e depois vai se reduzindo, algo a ser praticando por quem deseja ensinar qualquer jogador.

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Rinaldi pretende adicionar a extensão Power Up pois seu filho fica curioso com a caixinha. E depois que expliquei que adiciona poderes exclusivos de cada monstro ele ficou mais interessado ainda. Outro jogo que, segundo ele, foi bem fácil, foi o Exploding Kittens. Nas primeiras vezes a estratégia não foi muito compreendida, mas na quarta ou quinta tentativa ele já começou a conseguir jogar sozinho.

Já o Marcello Larcher pode não ter filhos, mas um interesse especial em apresentar novos mundos para crianças e algum expertise no assunto com a experiência do D30. Ele considera o jogo Floresta Encantada, da Grow, excelente para ensinar estratégia para crianças e afirma que o melhor jogo de tabuleiro para crianças seria o Haba (se for editado para o Brasil mudem esse nome pelamordedeus)

content_dob001_3d-box_400pxUmas das minhas aquisições recentes me foi apresentada pelo Fábio Lopes do Carcassone Pub. O simples e simpático Dobble, um jogo que demanda concentração, percepção e rapidez de raciocínio que ainda tem o mérito de igualar crianças e adultos.  Apesar da recomendação para  6 anos, uma criança de 5 se adaptou sem problemas e pretendo testar com crianças ainda mais novas para ver o que acontece. Eu também adoraria testar seu impacto como um exercício de concentração.

No mais, as experiências são muito promissoras e meus amigos observaram isso por experiência própria. Os jogos são uma experiência de aprendizagem para Vygotsky nenhum botar defeito. O jogo de tabuleiro é um ambiente social de aprendizagem onde uma criança pode aprender de fontes variadas. E uma tremenda oportunidade para expandir os limites mentais das crianças. Por exemplo, meu amigo João Paulo, professor de física, ficou impressionado em observar um certo infante conseguindo fazer operações matemáticas básicas, como soma e subtração, durante uma partida de King of Tokyo. O que está de acordo com a ideia de zona proximal de aprendizagem.

Imagens dos jogos: Galapagos Jogos

tecnologiaUm dos mistérios frustrantes que observei na educação ambiental é que apesar de toda a pesquisa sobre a importância do meio ambiente, as tabelas, análises de campo, publicações, folders, filmes da Disney e o meu próprio jogo é muito difícil observar o que realmente importa, as pessoas começarem a agir diferente. Não é que as pessoas não prestem a atenção nas informações, não as entendam ou não concordem. Mas o que realmente importa é observar elas fazendo algo a partir das informações que receberam. E obter isso é algo muito mais difícil do que se imagina.

Como diz uma genial colega minha: os educadores tem de assumir que, no fundo, o que desejamos é mudança de comportamento sim. Não importa se o aluno chorou de emoção quando aprendeu algo, ainda que seja gratificante, o que queremos é que ele use isso na vida dele.

Mas para tanto, não basta considerar apenas a transferência de conhecimento. Se o aluno demonstra ter memorizado o conteúdo apresentado na escola através de um teste. O mundo vai além das questões de ensino e aprendizagem que ocorrem dentro das paredes da escola. É preciso considerar também as crenças do público e suas eventuais motivações. No caso da tecnologia é preciso considerar a motivação (querer usar); conhecimento (saber usar) e capacidade (poder usar), que vai envolver condições e/ou estrutura. E no aspecto motivacional entra justamente a teoria ação racional de Ajzen e Fisher (2010).

Segundo ela para conseguir esse comportamento é necessário se chegar a uma intenção comportamental, que é influenciada de três fatores:

  • motivação pessoal: a predisposição da pessoa, as crenças inicais do indivíduo, a atitude. São crenças já instaladas na pessoa que raramente são questionadas, em princípio são consideradas corretas e são a base para a formação de novas crenças. Portanto essas, são difíceis de mudar e suponho que geralmente tenta-se não entrar com conflito com elas
  • motivação social: são crenças baseadas em normas, especialmente sociais, comportamentos que são aceitos ou não dentro de um grupo. São as crenças de uma pessoa sobre o que o seu grupo acha que ele deve ou não desempenhar
  • motivação situacional: seriam crenças de controle, baseadas nas experiências passadas e nas circunstâncias do momento. Quanto mais recursos e oportunidades as pessoas pensam que bem e menos obstáculos percebem maior será sua sensação de controle para poder fazer determinado comportamento. Seria algo como: “Isso é legal, mas será que eu consigo fazer, ou será que o que eu consigo fazer faz alguma diferença?”. Percebe como isso vai influir a motivação do sujeito?

Dependendo as crenças observadas e da intensidade os indivíduos vão estar mais suscetíveis ou mais resistentes à adotar algo novo, seja um conhecimento ou um produto.

Esse também é um dos nós de quem trabalha com C&T, especialmente com o T de tecnologia: não basta pesquisar ou desenvolver. Também é preciso que essa tecnologia, produto ou conhecimento, seja efetivamente adotada pelo público-alvo, que ela passe a fazer alguma diferença. E para saber se isso realmente aconteceu é preciso ter uma mudança em um indicador observável. E nesse caso o mais provável é que esse indicador seja uma mudança de comportamento.

Assim, mesmo que você trabalhe com astrofísica, engenharia aeronáutica, rocket science ou mesmo pesquisa agropecuária, na hora de avaliar se suas tecnologias estão sendo adotadas seu objeto de análise será essa esfinge chamada comportamento humano. Um indicador de que seus planos funcionaram é se o público-alvo passou a usar a tal tecnologia ou passou a agir de forma diferente. O que requer observar se essa mudança foi causada pelo uso dessa nova tecnologia e não por qualquer outra coisa, a tal da falsa causalidade.

Foto: Photobucket.com

Detalhe da caixa do jogo

Imagens: Galapagos Jogos

Dixit é um jogo de cartas, tabuleiro e também passatempo divertido, recomendado a partir de 8 anos de idade. Como já havia feito antes, eu resolvi ensina-lo para o infante. O que também foi um desafio já que ele continua bem fora da faixa de idade recomendada, por volta de uns 4 anos a menos. Mas para quem conseguiu algum sucesso com o King Of Tokyo, um jogo com mecânica mais simples prometia ser um passeio. Só que logo eu descobri estar redondamente enganado, de uma forma que apenas as teorias de aprendizagem poderiam explicar.

O jogo

Essencialmente, esse é um jogo de imaginação onde um jogador assume o papel de contador de histórias e os outros devem descobrir qual a sua carta. Foi desenvolvido por Jean-Louis Roubira, com belíssimas artes de Marie Cardouat e editado no Brasil pela Galápagos Jogos. Segundo a Ludoteca BCG, o jogo envolve regras de narração de histórias, votação e algumas ações simultâneas. O aprendizado das regras, como divisão das cartas, ordem de jogadas e contagem de pontos é razoavelmente simples. O que deixa a curva de aprendizagem do jogo curta e o torna um excelente jogo de entrada: uma opção para não nerds gente que não costuma a jogar jogos de tabuleiro. Essa parte foi razoavelmente fácil.

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84 cartas e lindas ilustrações.

O objetivo principal do jogador é descobrir qual é a carta do narrador, que vai ser misturada às cartas dos outros jogadores. Enquanto o objetivo do narrador é escolher uma opção que não seja fácil demais para que todos votem sua carta, nem difícil demais para que ninguém a encontre. Esse “equilíbrio” parece ser algo simples, mas a experiência mostra que não é necessariamente fácil.

Como observado pelo Eduardo, comentando sobre a experiência de jogar o Dixit, quem está jogando influi muito na experiência de jogo. Quanto mais experiência em comum você tenha com os outros jogadores mais referências você terá para entender as escolhas dos outros jogadores e formular estratégias. Sendo esse um dos pontos que torna a experiência divertida. Porém,  devido à idade do infante, é óbvio que ele é seria pessoa com menos vocabulário e referências da partida, algo que com certeza atrapalha, mas que poderia ser equilibrado com as escolhas dos outros jogadores (eu e a mãe, no caso).

Gosto muito do jogo, das minhas ressalvas deixo apenas o placar. Considero ele bonito mas pouco prático, a idéia de fazer um caminho pode criar confusões na contagem de pontos, especialmente em caso de empate. O que é agravado pelos peões em forma de coelho que podem cair com uma certa facilidade.

A experiência

Ainda assim, porca começou a torcer o rabo devido à algumas sutilezas que fazem a diferença durante a partida. Na hora da votação é preciso que todos os jogadores votem sua escolha de forma simultânea. Afinal, a escolha de um jogador pode influir na de outro. Assim, todos votarem ao mesmo tempo mantém o jogo equilibrado. Porém, frequentemente o infante se empolgava e já dizia sua escolha assim que as cartas eram expostas. O que prejudicava ele e influía na decisão de todos os outros.

O outro ponto é que ele parecia não conseguir ir além do óbvio. Até acho que ele entendeu como que era preciso fazer uma combinação de palavra e carta equilibrada para que nem todo mundo descobrisse. Mas acho que ele não sabia como fazer isso.  mas tenho outras hipóteses para explicar o que acontecia.

As Teorias de Piaget

A explicação para seu desempenho também pode ser encontrada nos famosos estágios de desenvolvimento cognitivo de Piaget. Como está entre os 2 e 7  anos nosso herói está na chamada fase pré-operatória: ele já consegue se comunicar bem, mas seu raciocínio ainda é muito ligado à intuição e baseado no que ele consegue perceber do ambiente. Essa fase é muito caracterizada pelo egocentrismo e a consequente dificuldade de entender que existem outros aspectos da realidade diferentes dos dele e além do que é imediatamente percebido. O ponto onde entra a tal da abstração. O que, no caso do jogo, seria imaginar qual carta o narrador teria escolhido ou mesmo perceber que os outros jogadores saberem da escolha dele influi na jogada dos outros.

Como observado por Anaí Peña (Slide 29), quando começa a sair do egocentrismo a criança passa a entender que outros podem ter perspectivas diferentes e, consequentemente, desenvolve uma estrutura cognitiva para lidar com isso, uma série de regras complexas para entender o que está acontecendo. E algumas dessas regras serão desenvolvidas mais tarde, no estágio operatório-concreto que só começa em torno dos 7 anos. O que ajuda a explicar porque Dixit é recomendado apenas depois dos 8. Ainda que uma criança mais nova entenda as regras básicas de escolher cartas, propor uma frase e votar. Enquanto outras “sutilezas cognitivas” podem simplesmente estão além do seu estágio de desenvolvimento. Ainda assim, as fases de Piaget não são compartimentos estanques, eles variam e acordo com a pessoa, estímulos e outras variáveis.

Assim, apesar das regras aparentemente mais simples, a partida não foi divertido quanto a experiência com King of Tokyo, que ele ainda adora jogar e ganha de vez em quando. No caso do Dixit, ele obviamente percebia que faltava algo para melhorar seu desempenho mas não sabia dizer exatamente o quê era. Talvez seja uma questão da adequar o nível de dificuldade escolhendo palavras mais simples ou mesmo tentar mais algumas vezes para observar se ele consegue avançar. Talvez seja simplesmente uma questão de melhorar minha habilidade ao apresentar o jogo compensando o que ele ainda não entendeu para que tenha uma experiência satisfatória e continue interessado. Isso funcionou da outra vez.

Conclusões

Ainda assim, recomendo o jogo. É o típico party game, jogo para festa, uma oportunidade excelente para estreitar laços, o que o torna interessante para famílias e grupos de amigos. E como um jogo de entrada, quando se quer apresentar jogos de tabuleiro sem deixar as pessoas horrorizadas e entendiadas com uma longa explicação de regras. Eu adoraria testá-lo em evento de integração de empresas e testar suas expansões.

De qualquer modo, o que se aprende é mais importante do que o que se ensina. Existem momentos certos para se aprender e é preciso respeitar o ritmo de aprendizagem de cada um. Queimar etapas ou apertar o passo mais que o devido traz mais estrago do que ganhos, como já observado em experiências anteriores. Mas descobri um outro jogo bem mais adequado para idade dele que ainda vai ser tópico para outra experiência.

 

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Uma referência ao livro “O Senhor das moscas” que me parece estranhamente adequada ao assunto.
fonte: A Taberna

Para um interessado por educação e jogos, entender a diferença entre a competição saudável e a nociva, também conhecida como guerra é algo essencial e, ao mesmo tempo, um enigma. O que leva um ato saudável a se transformar no desejo de destruir o outro? Entender esse processo é algo importante, afinal, isso acontece com uma certa frequência, qualquer leitor de jornal e usuário de redes sociais vê isso ocorrendo todo o dia.

Para mim é difícil entender esse processo de mudança: como atividades inicialmente pacíficas descambam para a guerra e porque isso acontece com uma certa facilidade?  Se tomarmos a internet como exemplo, a maioria das argumentações tem como objetivo produzir dano ou reafirmar uma posição, somente isso. E as brigas de torcida então? Como fatos ocorridos num campo de futebol, jogado por profissionais  se tornam o catalizador de violência que envolve multidões? Em que ponto uma discordância saudável ou um simples esporte se torna uma competição tão ferrenha que pessoas praticamente entram em conflitos  tribais?

Jogos, Debates e a tal da Guerra

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Propaganda anti-japonesa da segunda guerra mundial. Postura de primata, pele amarela, estuprador, arma mão, sorriso cruel e olhos estranhos. Uma forma de criar uma imagem desumana do inimigo.
fonte: Kid Bentinho

Para deixar as coisas mais claras é preciso diferenciar um pouco os conceitos. Eu gosto muito da definição do Rapoport em “Guerras, Jogos e Debates”.  Nos jogos um bom adversário e o respeito às regras são essenciais. Num jogo a vitória sobre um adversário fácil não tem brilho é justamente a dificuldade que torna a partida interessante, divertida e traz algum mérito. A mesma coisa acontece em debates, onde uma pessoa tenta convencer outra de sua posição. Ambas exigem astúcia, habilidade, inteligência, mas também a capacidade de entender a posição do adversário e seu pensamento. O que também levaria a ter empatia por esse e respeito à sua posição do adversário. Enquanto na guerra, o adversário é um obstáculo a ser destruído, o objetivo da guerra é causar dano, por qualquer modo possível, até a destruição do adversário. Nesse aspecto a guerra está sendo vista de seu ponto de vista essencial sem entrar no mérito das diversas variações do termo guerra. Também é preciso considerar que para se chegar à esse estado é preciso perder a empatia com o outro, desumanizar o inimigo é um dos atos padrão da propaganda de guerra.

O experimento de Sherif

Encontrei uma luz sobre o assunto em um artigo do Dr. Peter Gray  analisando um famoso experimento sobre conflitos e resolução de conflitos me ajudou a entender melhor como esse processo ocorre. Ele levantou algumas questões interessantes acerca dos aspectos saudáveis e os não tão saudáveis da competição. Uma preocupação importante para quem quer trabalhar com jogos e que já foi assunto por aqui anos atrás. E que vai ser apresentado abaixo parte tradução, parte como resenha descuidada.

O estudo foi realizado nos anos 50 em Oklahoma sendo possível por causa dos padrões de ética de pesquisa de época. Porque eu duvido que você deixaria seu filho participar desse experimento hoje em dia.  O estudo envolvia meninos de 11 e 12 anos que participariam de um acampamento de verão e seguiu três fases.

  1. dividir os garotos aleatóriamente em dois grupos distintos, dormindo em diferentes partes do campo, com atividades e músicas diferentes para que cada grupo desenvolvesse sua própria identidade de grupo.
  2. criar condições planejadas para induzir hostilidades entre os dois grupos. Os garotos não sabiam que participavam de um experimento, eles achavam que estavam participando de um acampamento normal

  3. uma vez que os grupos estivesse suficientemente hostis seria tentados vários métodos para reduzir a hostilidade.

Considerado um clássico, os resultados mostraram que a hostilidade poderia ser reduzida através do estabelecimento de objetivos comuns, desejados por ambos os grupos e que poderiam ser melhor obtidos através de cooperação. Por exemplo, os pesquisadores criaram uma falha no suprimento de água do campo. Para resolver essa crises os grupos aceitaram trabalhar em grupo e juntos exploraram a linha de água até encontrar o problema. Com essa e outras práticas as hostilidades entre os grupos foram reduzidas e no final já haviam várias amizades entre membros de grupos diferentes que surgiram de iniciativa deles.

Se o foco experimento original era pesquisar meios de reduzir a hostilidade o Dr. Gray faz uma proposta interessante ao olhar para o outro lado, os métodos utilizados para induzi-la, algo pouco discutido. Na verdade os procedimentos para isso foram razoavelmente simples. Quando os grupos foram divididos os participantes foram convidados a competir em um torneio que envolve uma série de jogos competitivos, com a equipe de adultos do campo atuando com juízes. Os vencedores recebiam prêmios e pontos eram marcados para seus grupos. E aí começam as hostilidades reais.

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Cena do filme “O Senhor das Moscas” agora o aspecto tribal ficou mais claro, não?

À medida que o torneio avançava os grupos se tornavam mais antagônicos. O fair play inicial logo começou a mudar para provocações, acusações de roubo nas partidas e roubo como retaliação. A hostilidade se espalhou pelo campo dentro e fora do torneio, e mesmo que o perfil dos garotos em ambos os grupos fosse parecido (brancos, protestantes e de classe média e eles tenham sido aleatoriamente eles passaram a ver os meninos do grupo oposto como gente muito diferente deles, essencialmente traidores sujos que mereciam uma lição. Brigas físicas ocorreram em diversas ocasiões, ataques ao alojamento do grupo adversário e alguns garotos começaram a se armar com pedras e se recusar a comer no mesmo refeitório que o outro grupo. E quando isso acontecia tensão e violência se tornavam bem prováveis, com o risco de brigas grupais no refeitório. O que começou como um torneio esportivo cada vez mais se tornava em algo parecido com duas tribos em guerra. E tudo criado por um torneio esportivo formal.

O Brincar

Agora, vamos deixar o experimento de lado e pensar com pouco sobre como garotos geralmente brincam. E onde o Dr. Gray aproveitou para diferenciar a brincadeira do esporte formal, com suas regras, prêmios e etc.

Muitas das brincadeiras de garotos envolvem batalhas, encenadas, claro. Em alguns casos essas batalhas acontecem puramente no reino da fantasia. Os meninos criam suas cenas de batalha, decidem quem vai fazer qual papel, quem é ferido, morre ou ressuscita. Algumas pessoas, que não entendem o brincar dos meninos ,confundem esse brincar com violência e tenta impedi-lo, especialmente quando a brincadeira é mais vigorosa, empolgada, ou pela maneira um tanto áspera e caótica como eles se comportam. Sim, às vezes é difícil diferenciar quando meninos estão brincando ou brigando. Mas não é necessariamente violência, é brincadeira. Deveríamos considerar esses garotos não como guerreiros, mas como pequenos atores de improviso. Eles estão usando a imaginação para criar e atuar em histórias dramáticas e emocionantes. Brincar desse modo é não competitivo e também não violento. Não há contagem de pontos, ninguém ganha ou perde, todos estão apenas atuando em seus papéis. Também não há equipes fixas em brincadeiras desse tipo. Se este tipo de brincadeira envolve exércitos de fantasia os participantes montam os exércitos de forma diferente para cada tipo de brincadeira. Brincadeiras desse tipo não criam inimigos, pelo contrário, elas cimentam amizades.

Um aspecto dessas batalhas de fantasia é a brincadeira informal, que é retirada em esportes como o futebol, basquete e cia. Aqueles que passamos a chamar de esportes, especialmente quando jogados de modo formal, com regras, campeonatos e etc. Esses esportes também podem ser vistos como batalhas de fantasia. Existem times, territórios a serem invadidos, defendidos e conquistas a serem feitas, tudo ritualizado por regras que definem o comportamento dos jogadores.  Por “brincar de forma informal” Gray considera que essas brincadeiras ou mesmo jogos informais são totalmente organizadas pelos seus participantes sem consequências fora do contexto da brincadeira. O que importa é a diversão de todos, até a organização é algo secundário. Não há troféus, prêmios, campeonatos ou placares. Os vencedores não terão fãs nem os perdedores serão depreciados. Essas brincadeiras de guerra podem ser denominadas competitivas mas na verdade seriam, quando muito, pseudo competitivas. Pode haver torcida ou mesmo um pouco de comemoração mas no final, ninguém se importa sobre quem ganhou. Os perdedores vão para casa tão felizes quanto os pretensos vencedores. Esses jogos também reforçam amizades e evitam criar inimigos.

Formal x Informal

Se os meninos do experimento tivessem participado de jogos informais, mesmo que fossem de basquete ou cabo de guerra dificilmente haveriam as hostilidades. Sem ganhos ou perdas determinados por autoridades externas os jogadores teriam se focado mais em se divertir do que vencer. Sem juízes adultos para separar vencedores de derrotados eles poderiam ter cooperado para estabelecer regras para seus jogos e julgar de forma consensual como elas funcionariam. Eles teriam que discutir e resolver suas diferenças. Roubo e provocações, se fossem longe demais destruiriam a diversão e a própria razão de ser da brincadeira. Assim, quem não estivesse se divertindo simplesmente sairia e assim o único jeito de manter a brincadeira acontecendo seria brincar de modo a garantir que o máximo de garotos se divertisse. E crianças sabem como fazer isso.

Uma experiência pessoal

Aqui, eu (o autor) atesto vi algo assim ocorrer ao observar à distância meu filho e seus colegas de escola brincando. Num certo momento meu filho ficou cansado e não conseguia mais correr atrás dos colegas. Eu já estava me preparando para entrar no meio e dar uma deixa para ele sair e descansar um pouco sem parecer que estava desistindo. Afinal eu sou um adulto competitivo, masculino, hétero, mais ou menos branco, o mal encarnado em forma de gente e no fundo não queria que meu filho desistisse de brincar. Mas, para minha surpresa, um de seus colegas simplesmente se aproximou e disse para ele: “Ok, você me pega e a gente continua”. E assim o novo pegador saiu correndo atrás dos outros e deu alguns segundos para meu filho recuperar o fôlego, sem interromper a brincadeira de todos. Eles arranjaram uma excelente solução e o objetivo deles de continuar brincando foi cumprido com muito mais fair play e eficiência que o adulto aqui, agindo no papel de lei, agente regulador ou Estado, poderia ter inventado.

Conclusão

Voltando ao Dr. Gray, ele acredita que como esses jogos informais acabam envolvendo mais cooperação, seria razoável supor que tais jogos teriam tornado os grupos mais próximos. Batalhas de fantasia e esportes informais são brincadeira pura e esse brincar cria amizades e não inimigos. Enquanto os esportes formais e seus torneios estão fora do que seria considerado brincar livre porque são controlados por entidades externas, nós adultos. E tais jogos têm consequências claras fora do contexto do jogo, o que altera totalmente a atitude dos jogadores.

Assim, os esportes formais ocupam um espaço entre a brincadeira e a realidade e, dependendo de uma vasta gama de fatores, um jogo formal se equilibra entre o real e o fantasioso. Quando esse equilíbrio se inclina demasiadamente para a realidade uma derrota torna-se uma derrota real e os derrotados passam a ver os competidores como inimigos reais. O estudo de Sherif aparentemente encontrou uma forma de transformar esportes formais em estopins para batalhas reais. Ter consciência desses gatilhos, especialmente de como evitá-los é algo importante para manter saudáveis quaisquer experiências de aprendizagem que envolvam algum tipo competição.

Bibliografia

Gray, P. (2009) A New Look at the Classic Robbers Cave Experiment: . (online) disponível em http//www.psychologytoday.com/blog/freedom-learn/200912/new-look-the-classic-robbers-cave-experiment (acesso janeiro/2017)

Rapoport, A. (1974) Fights, Games, and Debates. University of Michigan Press

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No final de 2016 foi aprovado o projeto Popularizando Conhecimentos sobre sobre os Recursos Naturais do Bioma Cerrado através do Jogo Educativo Ambiental “Desafio no Cerrado”. Encarnações anteriores desse projeto foram temas dos artigos “O fracasso também ensina” e “E a sorte está lançada, sem contar com a sorte“. Enfim, é algo que venho trabalhando há algum tempo e agora finalmente começa a vir à luz.

E ontem tive duas reuniões para apresentar o jogo. (Sim, o jogo que tanto falo que esse citado no título do projeto) inicialmente para colegas de trabalho que fazem parte do projeto e estão na parte logística e estratégica do trabalho e futuros participantes, como facilitadores do jogo nas escolas que vão fazer o operacional, o chão de fábrica do trabalho e eventuais parceiros externos que tem interesse em apoiar o projeto.

Depois de tanto tempo trabalhando com o público-alvo, adolescente, crianças e companhia foi interessante observar a reação de adultos e relembrar que o jogo é recomendado “a partir” dos 11 anos de idade e não “apenas para” 11 anos. Mas principalmente foi uma oportunidade para relembrar porque escolhi esse trabalho.

Apesar da equipe do projeto ter uma boa idéia do que era o jogo. Para eles era apenas mais uma ferramenta de aprendizagem que simula um ecossistema e tem algum potencial de aprendizagem a ser avaliado e não muito mais que isso.  Eles ainda não haviam participado da melhor forma de se conhecer um jogo, que é jogando. Nesse aspecto, um jogo pode ser uma excelente forma de se observar a riqueza de um trabalho multidisciplinar. Um dos participantes é um pesquisador e biólogo com larga experiência em botânica, especialmente sobre os recursos naturais do Cerrado. Enquanto outra, também pesquisadora, é psicóloga com experiência em métodos de coleta e avaliação de dados em treinamento, desenvolvimento e educação.

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Sim, o trabalho multidisciplinar é legal, mas como descrito acima também tem seus riscos. Fonte: o blog Invisible Flame Light

As leituras que os dois fizeram da experiência de jogo eram absolutamente diferentes, complementares e ao mesmo tempo riquíssimas. Nosso biólogo falou que inicialmente era um esforço mental para ele “puxar o freio de mão” da visão de biólogo e aceitar que o jogo é uma simulação simplificada do  Cerrado que possa ser operada por estudantes de nível fundamental, o público-alvo. E segundo ele isso já é um esforço natural, mas ainda assim compensador ao ver que os conceitos básicos estavam presentes. Como a descrição dos corredores ecológicos ou o fato de que os buritis realmente aparecem em áreas com muita umidade como veredas e próximo aos rios. Por outro lado, nossa psicóloga observou que, o jogo funcionava como uma ambiente de aprendizagem onde os conceitos e informações sobre Cerrado e meio ambiente são operados. O que,do ponto de vista cognitivo, funcionada como a construção de um andaime, uma estrutura cognitiva na mente do estudante onde ele passa a organizar, assimilar e ser capaz de organizar as informações que ele têm ou vai passar a ter no futuro sobre esse tema. O que é proposta de aprendizagem através de jogos sob a visão das teorias cognitivistas de aprendizagem, (como a do Piaget). Ao mesmo tempo o jogador também aprende ao observar a experiência do outros jogadores interagir com eles e com os materiais do jogo (peças, peões e placares) que só fazem sentido dentro do contexto de jogo.

Mais tarde tive outra reunião, dessa vez com possíveis futuros participantes que vão atuar na aplicação nas escolas. E foi outra experiência, mas ainda assim muito rica. A experiência teórica deu lugar a prática com crianças e estudantes e a experiência de jogos em si, que é bem mais comum mas gerações mais novas. Eles imergiram mais na experiência de jogo e fizeram perguntas muito mais diretas e próximas das que iremos encontrar com os alunos. Eles também fizeram uma análise crítica do jogo, como o da primeira reunião, mas com uma forte preocupação em também manter a dinâmica do jogo funcionando, até porque esse é um elemento que também deve ser analisado. Como comentei com eles, e a literatura técnica concorda: Jogo educativo pode ser como comida saudável, pode até te fazer bem, mas o gosto for ruim ninguém vai querer comer. Algo que acontece com frequência em jogos educativos que têm um lindo conteúdo teórico embalado dentro de um jogo chato. Essa preocupação foi observada por eles que também sugeriram uma fase especial para explicar as regras. O que concordou e reforçou a idéia sugerida por nossa psicóloga de que precisamos fazer uma primeira partida como tutorial, um jogo curto com peças escolhidas para explicar as regras do jogo. Na fase inicial toda a concentração dos estudantes estará em entender as regras, só depois disso eles conseguem observar estratégias, funcionamento do ecossistema e etc. Não é possível conseguir um resultado total com apenas uma partida. O que observei em outra oportunidade. Enfim, é algo muito legal ver a mesma idéia ser proposta por fontes absolutamente diferentes e isso ainda bater com a sua própria experiência.

O outro aspecto muito legal é observar o efeito do jogo nos jogadores, independente do perfil e da reunião. Acredito que um jogo novo atua como um desequilíbrio cognitivo controlado, o que força a criação de estruturas cognitivas para assimilar essa novidade, algo corroborado por nossa psicóloga. E com a dimensão social e física de uma mesa de jogo de tabuleiro isso é aumentado, algo que ouvi num dos Game Jam que participei. Assim, o jogo atua como um “catalizador cognitivo”. As pessoas são obrigadas a aprender algo, testar e empregar no mesmo momento. O que desperta sua concentração, deixa elas mais falantes e animadas. Algo que, a meu ver, bate totalmente com a idéia de hard fun do Papert.

Se conseguirmos criar nos alunos o mesmo entusiamo que consegui observar na equipe significa que todo esse trabalho realmente valeu a pena.

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Hardy, criação de anos 60
da Hanna-Barbera (atual Cartoon Network) e excelente descrição de pessimista
fonte: Palavras na Gaveta

Sim, aquele seu amigo com um urubu no ombro acha que ficou lindo e vamos explicar porque a ave chama essa atenção toda.  Para isso lá vamos nós com mais uma resenha descuidada, baseada em um artigo sugerido por minha amiga Bia Lins no Linkedin e de autoria de Morgan Housel, com o título original de “Why Does Pessimism Sound So Smart? Especially when things are so good.” que pode ser traduzido como”Porque o Pessimismo soa tão Esperto? Especialmente quando as coisas estão tão boas.”

Porque o cenário atual faz a alegria dos pessimistas

Primeiro é preciso entender, no geral as vida, a sociedade e tudo mais vão bem ou mal? Ainda mais considerando que o mundo ainda está se recuperando de uma grande recessão em 2008 e o Brasil ainda está lutando com a sua que começou em 2014. De fato, se observamos a avalanche de notícias ruins, verdadeiras ou falsas, que se espalham pela internet e outras mídias é difícil evitar a impressão que as coisas estão piorando.

Porém existem evidências de que, talvez estejamos na melhor época da humanidade, como observado em por Steven Pinker  em seu livro que afirma que, na verdade, a violência humana está em declínio. Sim, claro que o aquecimento global é um problema, a guerra na Síria e o número de assassinatos no Brasil continuam sendo problemas sérios e ainda serão por um bom tempo. Mas o ponto dele é que na análise fria dos números a violência está se tornando mais rara e menos aceitável a medida que o tempo passa.

A questão é que nossa percepção parece dizer que as coisas estão piorando. Tanto que as histórias sobre distopias e futuros apocalípticos já fazem tanto sucesso que estão dando dinheiro.   Hoje somos bombardeados por informação sobre todo o acidente ou incidente que acontece, seja ele provável improvável, distante ou próximo. No final todos os casos parecem próximos e prováveis e devemos nos proteger, em alguns casos até demais. Algo que o sociólogo alemão Ulrich Beck denominou “Sociedade de Risco”. Onde a instabilidade e a constante mudança, muitas delas provocada pelo ser humano,  e a falta de referências que caraterizam nossos tempos enfatizam essa sensação de perigo. As profissões para que existem hoje podem desaparecer em poucos anos. Querer ter um emprego e viver sua vida de forma segura sem muitas atribulações pode ser considerado um sinal de fraqueza para quem nasceu nas gerações mais novas e todo mundo deveria ser um líder arrojado que ri na cara do perigo. Existem milhares de opções para tudo mas só vale se for a melhor e tem de ser agora. É possível entender porque isso provoca tanta ansiedade e faz o consumo de medicamentos pular? Todo esse “estímulo” teria no deixado ainda mais ligados nessa questão de risco e até por uma questão de sobrevivência acredito que estamos mais acostumados a ver risco como algo a ser evitado do que gerenciado, o que seria a opção mais razoável.

Mas tem outro fator: o pessimismo é charmoso

Pelo menos é essa a hipótese  de Morgan (o autor) ao afirmar que o pessimismo parece esperto, especialmente quando os tempos não são tão ruins assim. Uma pesquisa da professora Teresa Amabile observou que críticos que fazem resenhas negativas são vistos como mais espertos do que aqueles que dão resenhas positivas sobre o mesmo livro. Só o pessimismo seria profundo enquanto o otimismo parece superficial.

O prêmio Nobel Daniel Kahneman considera que existe uma resposta evolutiva que nos faz reponder com mais força para a perda que para o ganho, o seu Nobel veio desse estudo. Outro detalhe interessante: ele não é um economista, mas um estudioso de comportamento (psicologia) aplicado à economia. Como disse Deirdre N McCloskey, historiador, escrevendo para o N.Y. Times: “Por razões que eu nunca entendi as pessoas gostam de ouvir que o mundo está indo para o inferno”.

5 razões para explicar o charme do urubu

Morgan, elenca algumas razões que observou para explicar porque o pessimismo ganha tanto destaque

1. O otimismo parece ignorar os riscos. Assim, à princípio, o pessimismo parece ser mais inteligente. O que seria uma visão equivocada de otimistas com noção. Muitos entendem que existe o risco real de desastres, recessões, guerras, pandemias etc. Mas se consideram otimistas porque se focam em processos mais longos, como carreiras, projetos e aceitam que eventualmente será preciso enfrentar os momentos ruins. O pessimista considera o evento ruim como o fim da história, o beco sem saída. Enquanto o otimista considera o evento ruim como parte de uma boa história. Pessoalmente acho que a diferença estaria na perspectiva de tempo, na resistência e, especialmente, resiliência do otimista.

2. O pessimismo mostra que nem tudo está indo na direção certa, o que ajuda a racionalizar as próprias limitações. A miséria adora companhia. Observar que coisas fora do seu controle podem ser a causa dos seus problemas e não as suas próprias decisões é um sentimento reconfortante pois alivia a sensação de responsabilidade. Assim, sutilmente o consideramos atraente. É comum naqueles pessimistas reclamões que sempre têm uma queixa a relatar e deve fazer o maior sucesso nessas igrejas que adoram culpar o diabo por tudo.

Nesse aspecto, acredito que a questão também se liga um pouco ao tema da inveja. O que me lembrou uma fala do Leandro Karnal em um Café Filosófico: Para observar quem são seus verdadeiros amigos ele sugere um “teste Heidggeriano”ótimo: Diga que está tudo bem e você está numa ótima fase e observe a reação dos outros, as sutis. Se a miséria e os problemas despertam a solidariedade e o desejo de ajudar é um tanto lógico esperar que o sucesso eventualmente desperte o efeito contrário. O que levaria a alguns possíveis avisos pessimistas de seus amigos

Por outro lado uma certa dose de pessimismo também pode ser uma fonte de reflexão para a melhoria pessoal o que se conecta com o argumento número 3, o que não é necessariamente ruim. Na verdade essa não é uma discussão de valor (pessimismo ruim x otimismo bom).

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Autor: Carlos Ruas

3. Pessimismo requer ação enquanto o otimismo significa deixar as coisas como estão. O pessimismo ganha a nossa atenção porque geralmente envolve a tomada de ação. Enquanto o otimismo é mais “de boas” sobre manter o curso, como observado pelo foco de longo prazo do otimista descrito antes. E manter as coisas como estão é algo muito mais fácil de ser ignorado. Em termos de ganhar nossa atenção nada têm tanto apelo como um problema que deve ser resolvido. Mas, por segurança,  é preciso lembrar  que o otimismo pode ser uma desculpa para a preguiça ou auto indulgência.

4. O otimismo soa como conversa de enganador, enquanto o pessimismo soa como alguém tentando te ajudar. O que de vez em quanto acontece mesmo. Acredito que os estelionátrios são pessoas otimistas em sua capacidade de convencer suas vítimas que vão ter altos ganhos com pouco esforço, além de mestres em despertar o otimismo da vítima. Por outro lado Morgan considera o otimismo o padrão correto e observa que o pessimismo pode ser um argumento tão bom quanto qualquer outro, especialmente em torno de assuntos emocionais como dinheiro e política. O medo também vende que é uma beleza.

5. Pessimistas extrapolam tendências presentes sem considerar como os mercados se adaptam. O que é importante porque visões pessimistas frequentemente começam com um fundamento em análises racionais. Assim, o aviso parece ser tão racional quanto assustador.

Aqui precisamos entender que nosso autor é da área de economia e mercado. Tanto que em seus exemplo ele mostra uma declaração de um ambientalista, feita em 2008. Que considerava que em 2030 a China precisaria de 90 milhões de barris de petróleo por dia e, na época, a produção mundial total era de 85 milhões com poucas mudanças. E ele estava certo, o mundo ficaria sem petróleo naquele cenário. Porém, não é assim que os mercados funcionam. A falta fez o preço subir o que incentivou o desenvolvimento de novas técnicas de perfuração, como demonstrado pela descoberta do pré-sal e o expertise brasileiro em coleta de petróleo em mares profundos, e agora temos petróleo sem muito problema. Na verdade, o problema dos últimos anos foi que temos petróleo até demais e o preço despencou. O Rio de Janeiro que o diga.

Outro exemplo é a velha previsão de Malthus sobre o crescimento da população e a produção de alimentos, uma previsão que teve suas pernas quebradas com a revolução verde na agropecuária. Na qual o Brasil faz uma honrosa participação, especialmente através da Embrapa. Essa falha em considerar a capacidade de adaptação é uma causa comum para o fim da maioria das previsões pessimistas.

Conclusão

Ainda assim o autor deixa claro que é preciso ouvir os pessimistas. Como elencado no item 3, eles mostram onde é preciso agir e avisam sobre as pedras no caminho à frente. Até para voltarmos a ter razões para sermos otimistas. Nesse caso a questão não é o pessimista ser charmoso, é ele estar certo ou não.Não ignore os pessimistas, apenas não se deixe levar por eles e, de forma saudável, desconfie de suas agendas. Afinal, como sugerido no livro O Otimista Racional mesmo que os indícios específicos possam ser ruins, talvez o quadro geral seja melhor do que aparenta.

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fonte: VisitBritain/Britain on View | Getty Images

Recentemente li no Linkedin uma matéria sobre a abertura de uma escola para clientes de altíssima renda que vai ser aberta em São Paulo. A escola é americana e vai para o Brasil depois do sucesso da Graded School em São Paulo. Para ilustrar os custos de uma escola desse tipo: a taxa de matrícula de é 40 mil reais e as mensalidades podem ser de até 8 mil reais. Sorry periferia. O foco da matéria não foi educação, mas o mercado de luxo. Então, o foco foi maior nas instalações, matérias oferecidas e objetivos. Não seria justo exigir muita coisa em termos de pedagogia.

Por um lado, acredito que as pessoas que podem bancar esse custo devem ter direito a escolher a escola que preferirem, diversidade de opções não é necessariamente um problema. E a existência de escolas de elite não é exatamente novidade, ainda mais num país desigual como o Brasil. Na verdade, há quem considere nossas universidade públicas e gratuitas bem elitistas, como esse artigo e esse outro. Mas esse já é assunto para outro tópico.

As armadilhas

Por outro lado, além do artigo sobre as caras instalações da escola, com direito à lagosta no almoço,  alguns bons comentários deram o que pensar. Um dos raros casos em que valeu a pena ler a parte de comentários, parabéns ao Linkedin. O primeiro foi esse do José Finocchio Jr que levanta uma questão pertinente.

“Visitei uma escola de elite em moema, não tinha um único estudante negro. UM. eu disse UM. Não sou comunista muito pelo contrário, mas esse isolacionismo nunca, nem por sonho formará lideres do mundo. Vai formar sim crianças mimadas que vivem numa bolha. Graças a Deus ainda não inventaram inteligência comprada, e o menino pobre …paupérrimo super inteligente detona todas essas crianças mimadas. Não existe maior estimulante intelectual que a dificuldade. (…)”

O fenômeno da ausência de negros que ele observou não é algo incomum e uma possibilidade provável no caso dessa nova escola em São Paulo ou qualquer outra de alta renda ou mesmo de classe média. Eu mesmo tenho uma conhecida que tirou os filhos de uma escola particular porque eles eram os dois únicos alunos negros da escola, o que rendeu os problemas esperados. O que não é nada mais que um reflexo do nosso triste quadro de desigualdade e mostra como a classe social não necessariamente os protege do racismo. Talvez até os deixe ainda mais expostos, por serem poucos em determinado ambiente ou por eventualmente aparentarem estar “fora de seu devido lugar” na visão de algum racista de plantão.

O que também mostra um outro risco desse “efeito bolha”. Além do racismo observado por Finnochio há o isolamento em um ambiente uniforme, com pouca diversidade e que pode eventualmente limitar as percepções de mundo dos estudantes. Fazendo com que eles achem que “todo mundo é como a gente”. Assim a escola se tornaria uma “enlatadora de crianças” de classe mundial que vai entregar alunos com ótimas notas no PISA, toneladas de conteúdo na cabeça mas eventualmente com pouca autonomia, criatividade e bagagem emocional e/ou cultural. Coisas que também são trazidas como consequência de lidar com as diferenças e geralmente obtida fora de ambientes assépticos e 100% seguros.

Nesse aspecto mesmo as caras faculdades de elite do mundo, como Havard ou Oxford, também são mares de diversidade, com gente de todo o mundo e bolsas para manter pessoas não tão abastadas, mas provavelmente muito inteligentes, que possam contribuir com a universidade e o ambiente acadêmico. É preciso lembrar que aprendizagem está mais ligada a interação com outros seres humanos do que com as instalações da escola ou o equipamento utilizado em sala de aula. A criatividade frequentemente vêm com o contato com diferentes visões de mundo. O que explica muito certas metrópoles cosmopolitas como Nova York, Londres ou Tóquio caraterizadas por sua diversidade.

As soluções

Por outro lado, apesar de considerar o efeito bolha um risco real. Também li um belíssimo contraponto em outro comentário, de Marcia Catherine Wright, sobre a formação dela numa escola Britânica  e como a instituição evitou esse “isolamento de casta” entre seus alunos de forma magistral.

“Sou estrangeira e por isso estudei na Escola Britânica não mencionada no artigo talvez porque hoje em dia a mensalidade para os adolescentes gira em torno de RS$18mil/mês. Naquela época não seguíamos a grade brasileira porque o objetivo era oferecer a mesma formação que era oferecida na Europa a quem estava no Brasil. Alem de filhos de diplomatas, haviam filhos de expatriados e bolsas pra gringinhos cujos pais não podiam pagar. Afinal era uma extensão da cultura da comunidade o que incluiria a 1a igreja protestante, a Anglicana, casa de repouso pros gringos idosos, etc. Ser sócio-responsável e abraçar causas passando o dia com outras crianças atendidas por projetos sociais era prática comum e regular pra não criar uma geração alienada mesmo que num país onde do lado de fora da escola, amigos não faziam isso. Muitos de meus colegas, como eu, até hoje são voluntários regulares e é com alívio que não mais somos criticados por sermos diferentes e nos misturarmos naturalmente com “subordinados”, “gentalha” e outros termos que ouvíamos dos brasileiros que quando não racistas (tínhamos africanos, orientais etc na classe) discriminam outros seres humanos por sua condição sócio-econômica, optam pelo assistencialismo sem envolvimento psico-emocional (doações em dinheiro, roupas, brinquedos, etc) ao invés de compartilhar conhecimento e afeto e transformar vidas, como hoje vemos virou “chic” abrir ou fazer parte de Ongs. Por mim, pouco importa em qual berço o voluntário nasceu(porque isso tb é discriminação), sendo relevante o fato de ao invés de reclamar, coloque o coletivo acima de ideologias e interesses pessoais e priorize seu tempo para compartilhar valor com quer “menos favorecido” trabalhando pro bono, moldando a sociedade desejada por todos. Isso se aprende em casa e se reforça na escola, ainda pequeno mas requer não “propostas” e sim que seja um valor cultural , uma prática considerada natural. Aqui quando o gringo faz isso porque tá na veia dele – permanentemente ou periodicamente enquanto em casa come lagosta (e isso é assunto privado, outra coisa que se respeita)- é chamado de “louco” só porque o faz com amor.”

Conclusão

Sim, o risco da bolha existe e acho que parte da classe média e alta no Brasil sofre disso. Mas, como demonstrado pela Márcia, isso está longe de ser inevitável. Como observado na Escola Britânica, não foi apenas uma questão de fazer obras assistenciais, mas promover um ambiente diverso e criar vínculos entre os alunos e as pessoas atendidas pela escola através do trabalho. Nem toda a criança rica precisa se tornar mimada. Na verdade seu desenvolvimento vai refletir muito mais os valores da escola e da família dos estudantes do que seu nível sócio-econômico. E espero que essa nova escola, a Avenues, seja capaz de produzir os líderes mais humanos e capazes que o país e o mundo precisam.

P.S.

Para quem pensa no status de ter os filhos em uma escola de ricos aproveito para lembrar um detalhe interessante: Nos países que permitem o ensino em casa alguns desses bilionários estão trocando as escolas por tutores. A criança terá 100%  de atenção do tutor, e a logística de deslocamento é reduzida, especialmente porque filhos de ricos são alvos de sequestro e eles gastam uma nota em segurança.  Porém, mesmo as empresas de tutoria, que devem ser muuito mais caras, não recomendam o uso de tutores por tempo integral por muito tempo. Justamente porque os alunos perdem em desenvolvimento de certas habilidades sociais ao conviverem a variedade de colegas oferecida por uma escola. Então, menos preocupação com exclusividade e mais foco no resultado.

Não, esse não foi um post patrocinado mas eu fiz do mesmo jeito. Considerem como um relato de experiência e observação de teorias de aprendizagem e desenvolvimento de competências ocorrendo no cotidiano.

Para quem acompanha esse blog o interesse de seu autor por jogos e aprendizagem já é conhecido. Afinal, um dos meus trabalhos preferidos, a ponto de ser voluntário, é ensinar crianças a jogar. Logo, ensinar meu filho foi praticamente uma questão de honra. Porém, ensinar a jogar é um momentos frequentemente subestimado mas fundamental para a diversão existir.

No caso essa fase foi ainda mais complicada devido às peculiaridades de nosso aprendiz em questão, mas está sendo resolvida de forma divertida. Para ser mais exato em termos de título o ponto não é evitar ensinar, mas fazer apenas o mínimo necessário. Mas vamos aos fatos.

O Jogo

King of Tokyo (O Rei de Tóquio) é um jogo de tabuleiro que explora essa famosa fascinação japonesa por monstros gigantes destruindo sua capital. O foco é na diversão e não o terror. Os jogadores competem entre si para descobrir que monstro destruirá a cidade japonesa tornando-se o Rei de Tóquio (e vencedor do jogo). Os monstros são variados, com uma certa puxada para o cômico, como a cara de enfado do Alienoid ou os absurdo monstros da expansão de Halloween. Existe uma tabela simples e funcional para controlar os pontos de vida e de vitória de cada monstro,o que dispensa a existência de um placar geral e uma série de cartas de poderes que tornam os monstros mais personalizáveis, aumentando a rejogabilidade. A solução do problema encarado nessa história também é um tributo à robustez do sistema de jogo. Se o jogo não t fosse tão bem projetado a solução seria muito mais difícil.

O problema

O jogo é algo casual e divertido, mas eu tinha um problema: Como jogar com meu filho que tem apenas 4 anos se a idade mínima recomendada é de 8 anos? Isso mesmo, só metade da idade recomendada. Para ilustrar a importância do fator idade: as idades recomendadas geralmente são definidas com base no grau de complexidade das regras e no tempo necessário de partida. Regras complexas demais tornam a experiência cansativa para um jogador novinho e se o tempo de jogo estiver além da janela de concentração do jogador a experiência pode se tornar ruim um saco. Como diria Csikszentmihalyi, dificuldade de menos torna a experiência sem graça e dificuldade demais pode levar a ansiedade ou simples desistência. E, no presente caso, as chances das regras serem complexas demais para o usuário eram altas.

Por experiência própria já observei que até a fase de explicação das regras já pode ser negativa para o usuário, especialmente nesse caso de regras além do perfil dele. Se o chunk (ou tolete) de informação for maior do que o usuário pode absorver em sua memória ele vai achar as regras chatas (diminuindo a motivaçã0), perder informações que vão fazer falta mais à frente e colocar toda a experiência de jogo em risco. Eventualmente até assumindo um comportamento tóxico que atrapalha a experiência de jogo de todos os participantes. Qualquer um que já jogou em rede viu isso acontecer e brasileiros já acumularam uma certa má fama nesse ponto. Ainda assim, a fase da explicação das regras é fundamental e eu tinha algumas questões para responder.

  • Como explicar as regras para alguém novo demais?
  • Como oferecer uma experiência divertida caso não entenda totalmente o que está acontecendo?
  • Como jogar um jogo que demanda leitura para alguém que não foi alfabetizado?
  • Enfim, como ele seria capaz de aprender se o meu modo de ensinar poderia ser mais um problema que uma solução?

A experiência

O que experimentei foi agir principalmente como um facilitador do que necessariamente outro jogador, um juiz ou um professor. Expliquei o que ele poderia entender, mas o mínimo para evitar encher a paciência dele. Ou seja, partimos para o jogo em si tão logo quanto possível, aceitando que na experiência inicial ele teria um grau de liberdade limitado que poderia ser aumentado com o decorrer do jogo. Eu explicava o que ele devia fazer e ele ia obedecendo. À cada rolagem de dados eu explicava os resultados de cada ação com uma história dentro do jogo (combate entre monstros e estragos na cidade) criando um contexto que em que as regras fizessem sentido para ele. Em muitos casos relembrei os anos como jogador/ mestre de RPG e atuava um pouco. Seguindo nessa linha, depois de algum tempo passei a perguntar como ele descreveria as ações de seu monstro. O objetivo de mostrar um contexto onde as regras se conectam com a história ou vincular determinado momento ou a uma emoção é criar “raízes” dentro da memória do usuário, facilitando o entendimento e a memorização.

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O resultado

Obviamente ele não aprendeu em apenas uma partida, esse é um processo que ainda está rolando, mas seu aprendizado aumenta a cada sessão e a experiência  é divertida para ele. Ainda que de vez em quando faça um furdunço na rolagem de dados. Logo ele começou a inventar suas próprias descrições do que estava acontecendo e a necessidade de facilitação começa a diminuir. Ele vem aprendendo mais por observação de outros jogadores e meu retorno sobre as consequências de suas jogadas do que por instrução direta. Agora ele já está entendendo elementos da rolagem de dados e reconhecendo algumas cartas e aplicando seus efeitos apenas pelos desenhos, lembrando de experiências anteriores ou supondo seu efeito pela desenho da carta. Nesse aspecto, facilita muito o fato do jogo se basear mais em ícones que texto. O jogo não é apenas atrativo, ele também é visualmente eficaz, um ponto essencial em qualquer interface seja para um videogame, simulador, infografia ou tabuleiro. Em alguns momentos o infante até já chegou a me questionar ou corrigir caso eu esquecesse algo. E já está entendendo a dinâmica do jogo, percebendo quem tem mais chance de ganhar ou perder e adaptando suas táticas, como atacando quem está mais forte. O principal fator é que ele ficou motivado e está sendo mais capaz do que eu esperaria.

Como pai, eu estou superando minha tendência partenalista de fazer coisas por ele e deixando que ele aprenda a partir das próprias decisões e experiências. A obsessão por controle é um erro comum entre professores, especialmente em jogos. O controle excessivo é muito danoso para a experiência de jogar e para a aprendizagem em si, vale mais um erro divertido dentro do jogo, ensina muito mais.

Em termos de teoria de aprendizagem a experiência me lembra a idéia de desenvolvimento proximal do Vygotsky que, a grosso modo, significa não focar no que o estudante sabe mas no que ele tem potencial de aprender dentro de um contexto social. Venho tentando sempre deixar a informação perto do nível dele, mas um pouquinho além para que ele seja obrigado a aprender algo para conseguir fazer o que deseja. Seria dar o espaço necessário para que a criança resolva por si mesma. É um acerto que parece simples, mas demanda um bom conhecimento de quem está aprendendo e um bom grau de sensibilidade e improvisação do facilitador. A diversão é um fio de navalha entre a chatice e a ansiedade sobre a qual o facilitador deve guiar o jogador.

Conclusão

imagePessoalmente foi um exercício de facilitação e aplicação das teorias de aprendizagem que pode ser muito útil para o futuro. Um teste de conceito do que seria a facilitação ideal para ensinar alguém muito jovem a jogar. Confirmando que aquele clichê do design instrucional que diz “ao final desta aula espera-se que o aluno seja capaz de blábláblá” pode ser uma exigência problemática.

Em termos de prioridade o primordial é a diversão, mesmo que seja uma diversão cansativa e que demande esforço, como proposto por Papert em Hard Fun (diversão trabalhosa). Talvez aceitar níveis menores de aprendizagem ao final de uma aula, mas definir um processo de fixação e domínio de um conteúdo seja algo muito mais interessante. O que também me reforça a impressão que é inviável achar que vai ocorrer aprendizado que preste com apenas uma sessão.

A relação custo x benefício que, nesse caso, pode ser entendida como o esforço para se aprender as regras e jogar frente ao benefício de aprender com a experiência simplesmente não compensa com uma sessão de jogo só. A memorização provavelmente será mínima e a aprendizagem muito superficial. Acredito que jogos sejam um caminho para se obter domínio de um conteúdo e ficar mais amigável a ele. E acho que atualmente domínio é algo que vale muito mais que memorização, para essa já temos os computadores.

Obviamente, ele está longe de dominar o jogo, até porque ele ainda tem uma das competências necessárias, a capacidade plena de ler. E tenho minhas razões para não apressar a alfabetização dele. O que é compensado pelo pai facilitador. Mas, ainda assim, para ele é um jogo divertido e todo o esforço cognitivo necessário para ele vale a pena, que é exatamente o que entendemos como motivação. Sem deixar de observar que, do alto de seus 4 anos, ele já ganhou partidas, mais de uma. E, no final das contas, como pai, se meu filho está feliz o que mais importa?

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fonte: sites.psu.edu/siowfa15

Um consenso que beira o clichê é que a educação brasileira é muito ruim e precisa ser mudada. Nesse aspecto, 2016 foi uma no pródigo idéias, como a proposta de reforma do ensino médio comentada por aqui em outro artigo.  Para resumir a minha opinião as medidas são ousadas e não vi muito esforço para explicá-las de forma mais embasada.

Por outro lado, existem diversas medidas simples, com diversas evidências favoráveis que poderiam melhorar o rendimento de nossos estudantes. Uma delas está ligada ao horário das aulas e, principalmente, ao sono.

Se no caso das crianças acordar cedo é comum e elas sejam mais ativas no período da manhã. Segundo Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono, a situação muda quando chega a adolescência devido a uma necessidade de sono diferente, tanto que ele recomenda que o ensino médio seja vespertino. Assim, mesmo no Brasil os estudantes não estão dormindo o suficiente. Com a devida ressalva que o objetivo deste artigo não é criticar quem acorda cedo, mas mostrar que o que funcionada em determinada fase da vida pode não funcionar em todas. A grande questão não é que horas as pessoas acordam, mas o quanto elas dormiram.

Dormimos pouco e mal

Pesquisas dos últimos anos vêm observando que os adolescentes tem um ritmo de sono diferente dos adultos e o problema é que as escolas, planejadas por adultos, seguem o ritmo de sono dos adultos e não de seus alunos adolescentes. Usando dados do Departamento de Educação Americano, o Centro de Controle de Doenças fez um estudo grande, envolvendo mais de 30.000 estudantes, onde observaram que a maioria das escolas começava antes de 8h da manhã. Sendo que a Associação Americana de Pediatria não recomenda que os estudos comecem antes de 8h30 para garantir que os alunos tenham dormido o suficiente. Sob esse estado privação ou, déficit de sono praticamente constante, considera-se que os estudantes tem mais chance de:

  • ter sobrepeso;
  • fazer menos atividade física;
  • sofrer depressão e/ou ansiedade;
  • ter resultado acadêmico inferior (perceba que só esse sintoma já deveria ser razão para a escola começar mais tarde);
  • sem contar o riscos de ferimentos, que aumenta em pessoas sob privação de sono.

Segundo o estudo do CDC, os estudantes adolescentes precisam de algo em torno de 8h30 até 9h30 de sono diário para evitar esses sintomas. Talvez alguém se pergunte por que eles simplesmente não dormem mais cedo. Mas o problema é também está se observando que adolescentes realmente tem problemas para dormir cedo, com o agravante do uso constante de celulares e videogames à noite.

Segundo Wei Shin-Lai da Universidade Estadual da Pensilvânia os estudantes simplesmente não dormem o suficiente e sugere que aproximadamente 15 a 25% dos estudantes entre 15 e 25 anos são definidos pelos estudiosos do sono como “corujas”, vivendo em ciclos de 26 horas em vez das usuais 24 de todo mundo. Assim, uma “coruja” que acorda as 8 horas provavelmente vai dormir por volta das 2h da madrugada em vez de meia-noite.

A quantidade ideal de sono vai mudar de acordo com a pessoa, mudando de acordo com a idade e também com o sexo. Lai afirma que mulheres que já tiveram seu estirão de crescimento dentro os 10 ou 12 anos estarão bem com algo por volta de 7 ou 8h de sono. Enquanto homens, que costumam a ter um estirão de crescimento por volta dos 16  ou 17 anos vão precisar de algo em torno de 9 horas de sono.  E o tempo para se recuperar de uma noite sem dormir para estudar seja algo em torno de 3 dias. Pensando assim, talvez os adolescentes não sejam tão vagabundos quanto se gosta de acusar.

Imagino que alguém (caso o leitor seja esse alguém) deve estar se lembrando que acordava lá pelas 5 da manhã, ralava na escola, no trabalho ou em ambos e hoje em dia têm seu emprego e sua vida. Para esse alguém eu pergunto: E se esse sofrimento de acordar cedo, na verdade, tenha piorado sua desempenho de forma que hoje você é menos do que poderia ter sido? A idéia pode soar deprimente mas entender isso é importante para garantir um futuro melhor para as próximas gerações.

Para ilustrar como isso é algo comum, nos EUA, quase 40% dos estudantes adolescentes do sexo masculino declaram dormir menos de 7 horas por noite. Se jogarmos a situação para o caso brasileiro a situação provavelmente seria ainda pior, porque a maioria das escolas começa às 7h e os estudantes certamente devem acordar ainda mais cedo, devido ao tempo perdido no trânsito.

Um mapa das melhores horas para estudo

Como comentado no blog Psicóloga+Doutoranda que me inspirou para esse texto, estudar já é um processo muito exigente em termos de concentração e energia, imagine o prejuízo resultante de fazer isso sem ter dormido o suficiente. Através da infografia abaixo ela demonstra a importância do sono e os mecanismos biológicos que vão impactar na aprendizagem.

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Conclusão: estudantes deveriam dormir mais e ir para a escola um pouco mais tarde

Enfim, novamente acredito que temos um caso de pesquisas chatas e seus resultados que contrariam o senso comum. Pessoalmente soa um tanto insano e assustador pensar que mantemos gente para fazer uma atividade complexa e importante para a sociedade sob condições desfavoráveis simplesmente porque “sempre foi assim”. Na verdade, esse padrão “8h ás 18h” de todo mundo acordando no mesmo horário produzindo do mesmo jeito vem sendo cada vez mais questionado. Relembrando, não é apenas sobre que horas você acorda, a verdadeira questão é se dormiu o suficiente.

Uma mudança nos horários dos estudantes talvez não interesse nem aos pais ou escolas devido ao impacto inicial na logística. Mas creio que seria um excelente ponto para experimentos e comparações para conferir se a hipótese de mudança no horário dos estudantes pode trazer uma melhoria significativa no desempenho. No final das contas é um cálculo de custo x benefício que pode significar uma melhora significativa no desempenho e na qualidade de vida de nossos estudantes.

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