Confissões de um ex-defensor da privatização do ensino público


Introdução

Nos Estados Unidos existem escolas publicas, particulares e, em diversos estados, escolas particulares que são pagas com recursos públicos, através dos vouchers. Lá, assim como no Brasil, existe uma grande discussão se o modelo de ensino público regido pelo estado deve continuar existindo ou ser totalmente entregue para iniciativa privada. Eu não sou contra a existência das escolas privadas e tanto que gosto muito da ideia de escola comunitária. Mas acho importante que exista o ensino público.

Nesse aspecto, estava lendo o Blog do Freitas e vi um caso que me chamou a atenção: o do lobista Charles Siler. Como membro do Instituto Goldwater, no estado americano do Arizona, ele passou anos trabalhando para convencer legisladores e a opinião pública sobre os benefícios da privatização. Porém, agora ele se coloca como um orgulhoso advogado do ensino público e se apresenta como um ex-privatizador que mudou de lado. Nesses tempos de assunto polarizados achei esse caso tão interessante que fiz uma resenha, com muito de tradução, de uma entrevista onde Siler descreve quem era e como e foi sua radical mudança de posicionamento.

De onde ele veio

foto: Danilo Ramos/Rede Brasil Atual

Segundo o próprio, durante a sua formação e a maior parte da vida ele acreditou que escolas públicas eram obstáculos para o sucesso, a mobilidade social e até mesmo o crescimento da sociedade. Essa visão valia para a maior parte da atividade governamental em si. O governo seria pouco mais que um bando de burocratas trabalhando para si mesmos para aumentar os próprio orçamento e roubar o dinheiro do contribuinte, atuando como um obstáculo para a inovação e o sucesso individual. Suas crenças refletiam suas origens como evangélico do sul dos Estados Unidos. Nascido em uma família descendente de escravocratas do sul, ele estudou em escolas que foram obrigadas à receber alunos negros devido aos movimentos pelos direitos humanos a partir dos anos 60. Isso em um estado que foi forçado a dar o direitos como voto e outros por força do governo federal. Assim, para ele, o governo federal significava algo como burocratas em um escritório dizendo como as pessoas deviam viver as suas vidas.

Não é surpresa que sua visões políticas o tornaram libertário. Ele estudou economia da George Mason University, onde o departamento de economia foi planejado para desenvolver jovens talentos capazes de reformular a estratégia do partido republicano no sul dos EUA através de filosofia e método científico. O que inclui combater a integração de negros e brancos nas escolas através de “evidências”. Um bom exemplo da oregem e trabalho dos “think tanks“.

Segundo Siler, aos 30 anos ele não se via numa democracia liberal nos EUA, mas sob uma ditadura da maiorias sobre o indivíduo. Um de seus lemas era que “absoluta democracia são quatro lobos e uma ovelha decidindo o jantar”. Os sindicatos seriam parte do problema, já que permitiam que as pessoas formassem grandes grupos e decidissem o que as pessoas poderiam ou não fazer. Assim, era praticamente natural que, para ele, as escolas representassem tudo o que estava errado na sociedade. Além de ser mecanismos para continuar essas injustiças. Instuições burocráticas, controladas por sindicatos, planejadas para ensinar aos alunos conteúdo que eles não queriam aprender e obrigar os pais a pagar a conta através de impostos. Para Siler, lutar contra esse modelo era uma forma de melhorar a sociedade.

Apesar de seguir com usa missão com zelo ele se sentia frustrado com as opiniões positivas que muitas pessoas mostravam sobre a educação pública e programas governamentais, como o Medicare (saúde) e Social Security (previdência). As pessoas não entendiam o que era melhor para elas e, segundo ele mesmo, esse tipo de arrogância definia seu trabalho e o próprio movimento pela privatização.

Onde ele parou

Com o tempo surgiram dúvidas se seu trabalho realmente estava sendo benéfico para as pessoas. As “evidências” que ele defendia tanto em discussões na verdade eram difíceis de encontrar. E isso ocorria porque os grupos pró-privatização, como o que ele trabalhava, lutavam com incrível vigor para bloquear as tentativas de coletar dados das escolas privatizadas e, quando esse dados estavam disponíveis, os resultados eram desanimadores. Ele viu, em primeira mão, que os programas que recomendavam raramente produziam benefícios acadêmicos para os estudantes e em alguns casos aumentavam a desigualdade.

Estava se tornando cada vez mais difícil negar o que ele estava descobrindo, que a privatização era ruim para estudantes, comunidades e economias. Vários estudos mostravam a falta de ganhos acadêmicos entre os estudantes das escolas privatizadas, o aumento da segregação r discriminação. Esses programas também eram mais suscetíveis à fraudes. Afinal, os resultados tinham impacto direto nos recursos que as escolas recebiam do estado, creio que isso possa ser entendido como um “incentivo perverso”. E é um dos desafios da área educacional, obter indicadores confiáveis.

Confrontar essa realidade nos círculos conservadores e libertários não foi fácil mas ele teve amigos que o apoiaram mesmo em sua crise de consciência. Graças a um encontro com um antigo amigo, defensor do ensino público, ele se sentiu obrigado a fazer a análise mais crítica dos processos de privatização de sua vida e concluiu que a privatização das escolas públicas não era benéfica para pessoas e sociedade. Ele se sentiu obrigado a assumir que estava errado.

O ponto de inflexão

A aprovação de uma lei favorável à educação privada em seu estado, algo que anteriormente ele teria comemorado, foi a deixa para a mudança o em sua carreira. Ele se tornou voluntário em um programa de defesa da educação pública e passou a usar suas habilidades profissionais desenvolvidas em décadas de carreira para o outro lado.

Siler considera que a luta é imensa e desgastante. A estrutura de lobby pró-privatização da qual já fez parte é poderosa, organizada e tem muitos recursos. No entanto, ele está convencido de que o pêndulo está mudando de direção, em prol do ensino público, e considera que o processo de privatização foi longe demais. As pessoas, pais, professores e gestores estão se tornando mais resistentes. Os defensores da privatização total sabem que sua janela de oportunidade está se fechando e estão tentando conseguir o máximo que puderem antes que seja tarde demais. O que explica o intenso esforço em nível estadual.

Ainda que seja uma longa caminhada, ele acredita ser possível enfrentar a maré da privatização e está orgulhoso em lutar por um futuro melhor para seu país, do lado certo.

Concordando ou não com as posições de Siler eu acho o caso um bom exemplo de que nós somos mais do que as nossas crenças e de que não precisamos nos definir pelo que acreditamos, mas ter coragem de acreditar, questionar e mudar quando necessário.

Referência

Blog do Freitas

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