Viés de sobrevivência, limite dos dados e meu problema com histórias de superação


O viés cognitivo pode ser entendido uma distorção de raciocínio na análise de dados que pode nos levar a interpretações irracionais da realidade. Nesse aspecto, o pesquisador Marcel Ribeiro Dantas publicou um excelente fio no twitter sobre um desses vieses: o de sobrevivência. O exemplo dele ilustra bem como os vieses são sutis, contraintuitivos e nos levam a conclusões erradas, mesmo que a base sejam dados verdadeiros.

Uma demonstração antiga e famosa

O Marcel começou seu fio através de um exemplo famoso, da 2a. Guerra Mundial, proposto pelo estatístico Abraham Wald. Wald liderou uma equipe que analisava todos os bombardeios que retornavam de suas missões sobre a Europa ocupada pelos nazistas para observar onde eles eram mais atingidos e usar esses dados para definir onde a estrutura das aeronaves devia ser reforçada. As marcas vermelhas na ilustração abaixo mostram os tiros que observados nos aviões que retornaram.

Em princípio parecia ser mais lógico recomendar algo vomo reforçar as partes danificadas por muitos tiros. Porém, Wald fez exatamente o contrário e não se preocupou com essas áreas. Marcel explica um detalhe nos dados que derruba a ideia de reforçar as áreas mais atingidas, que parece mais lógica, mas está errada por mais que pareça correta. Os únicos aviões que podem ter suas marcas observadas são os que retornaram. Afinal, não seria possível observar as marcas nos aviões derrubados.

Assim, considerando toda a amostragem de aviões, inclusive os que não retornaram, se não haviam marcas de tiros em uma determinadas região, é porque tiros recebidos naquela regiões (em branco no desenho) provavelmente que tinham maior chance de abater a aeronave. Assim, é possível observar que na imagem não há marcas de tiro na região ondem ficam os pilotos ou nos motores.

Esse caso demonstra a importância de se fazer boas perguntas e que muitas vezes as respostas vão estar onde os dados faltam. Saber os limites dos dados colhidos, o que não se pode afirmar a partir desses dados é o que evita o viés de sobrevivência.

Outra forma que Marcel usou para descrever o problema foi através de um DAG (em inglês: directed acyclic graph) o Gráfico Acíclico Direcionado. Esse tipo de gráfico é usado, entre outras coisas, para observar correlação ou causalidade em estatística. No caso, observar se existe causalidade entre o estado da aeronave, o número de tiros e o local do ataque. Conforme o gráfico abaixo, as setas definem que os fatores ( círculos abaixo) influenciam no resultado (círculo de cima).

Segundo Marcel, ajustar pela variável de colisão (a do meio, para onde as duas outras setas apontam) gera uma dependência espúria entre as 2 causas. Ou seja, esse gráfico mostra que há uma relação entre número de tiros e o local onde os tiros atingem.

Outro exemplo mais recente

Marcel observa que um fenômeno parecido está acontecendo agora na guerra entre Rússia e Ucrânia. Como dizem, numa guerra a primeira vítima é a verdade, e a avalanche de informações das redes sociais não está ajudando muito para quem não sabe analisar informação. Especialmente considerando a exibição de vídeos feitos durante ou após as batalhas. Em vários é possível ver soldados russos se rendendo ou mesmo passando vergonha, tanques parados por falta de combustível, soldados russos sob ataque e até mesmo equipamento antigo, destruído ou em mal estado. Ainda que todos esses videos sejam verdadeiros, seria um mesmo erro do caso anterior analisar apenas pelos dados que vemos, os vídeos, e não considerar o que não podemos ver.

Por exemplo, quando mais civis morrem, menores as chances de algum desses civis filmar a ação e disponibilizar posteriormente na internet. Um equipamento moderno ou bem pilotado tem menos chances de ser abatido e se não for abatido, não veremos ele destruído. Olhando para um caso o inverso, soldados não tão violentos podem ser filmados como o episódio que vimos de um civil perguntando para o soldado “Quer carona p/ sair da Ucrânia?” e todos rindo. Se o soldado tivesse matado aquele civil, certamente não haveria vídeo. Portanto, apesar de vermos tanques sem combustível, os que foram abandonados e puderam ser filmados mas não vimos outros equipamentos continuaram funcionando. Eu entendo que a partir dos videos não é possível afirmar se o que está acontecendo, soldados russos derrotados ou equipamento ruim, é exceção ou regra.

Um DAG sobre os videos da Ucrania para ajudar a entender as hipóteses

Considerando que muitas pessoas estão morrendo nessa guerra mas, ainda que essas pessoas estivessem filmando, dificilmente essas filmagens virão à público. Assim, o DAG seria o da figura abaixo. Ou seja, na prática há um viés de seleção sobre que tipo de conteúdo chega a nós. “Mas Marcel, e se for verdade que só tem lata velha?”

Ainda que isso seja possível seria um caso mais de sorte do que mérito da análise, que por ser limitada não permite concluir que sejam apenas latas velhas. É importante lembrar é tudo uma questão de probabilidade. O que é mais provável que seja verdade? As amostras disponíveis, não são necessariamente aleatórias e podem ser uma seleção dos vídeos mais interessantes. Obviamente isso pode ocorrer tanto do lado Russo como do Ucraniano. Mas como o Marcel observa, é mais difícil ou mais fácil algo ocorrer com base nessas variáveis.

Ele observou outro colisor no DAG da guerra na Ucrânia: o equipamento abatido, que também é um dado real. Mas é o mesmo raciocínio, se for considerado apenas o que foi abatido, sem noção de quantos aviões realmente estão sendo utilizados no total, também poderemos ter a impressão errada sobre o equipamento da Ucrânia e da Rússia. A Ucrânia pode abater uma moderna aeronave russa, mas quantas outras do mesmo tipo cumpriram suas missões sem perdas?

Um caso parecido ocorreu na guerra do Kossovo, antiga Yugoslávia, quando um caça furtivo americano F-117 foi abatido por um velho míssil soviético. Foi uma comoção, mas foi apenas uma perda entre centenas de missões em que os outros aviões retornaram sem problemas. Inclusive, depois se descobriu que os sérvios foram espertos e usaram outros expedientes para compensar a furtividade, como espiões perto das bases vigiando quando os aviões saíam para avisar que eles estariam no ar. Assim, os operadores de radar ficavam mais atentos, aumentando a chance de encontrarem algo.

O meu problema com as histórias de superação

Histórias de superação podem ser fascinantes: aqueles famosos casos da pessoa que superou a pobreza, analfabetismo, crime, peste etc. e ainda assim venceu na vida. Vários são temas de livro e filmes. Muitas dessas histórias podem ser exemplos inspiradores ou uma forma de colocar problemas pessoais em perspectiva. Porém, à luz da ideia de viés de sobrevivência é possível entender que esses casos se superação são improváveis. Talvez seja justamente por isso que são histórias raras e nos chamam tanta atenção. Um comentário do economista liberal Joseph Stiglitz, ilustra bem como a meritocracia e a superação são improváveis.

“90% dos que nascem pobres morrem pobres por mais esforço ou mérito que façam, enquanto que 90% dos que nascem ricos morrem ricos, independentemente de que façam ou não mérito.”

fonte: Blog do Freitas

Ainda que eu tenha admiração pelos protagonistas dessas histórias vejo muito de romantização da pobreza e do sofrimento. Nenhum dos dois tornam as pessoas melhores, com o agravante de fazer o sofrimento parecer um mérito. Eu diria que, em certos casos extremos, parece haver até um certo grau de sadismo em alguns fãs dessas histórias. Afinal, enaltecer os que superam pode significar uma forma de punir ou justificar o sofrimento dos que fracassam. Citando um amigo muito inteligente:

(…) por detrás desta ideia de “homens fracos geram tempos difíceis” está a defesa de que o homem só manifesta o seu melhor quando é reduzido ao extremo. Que a luta pela sobrevivência é a atividade realmente digna do humano. E não a arte, a filosofia, a diplomacia, a colaboração.

Aniello em Homens Fortes geram tempos difíceis, canal MyNews. 2022.

Eu adicionaria que foi a habilidade de colaborar que tirou nossos ancestrais das cavernas. Portanto, se analisarmos as histórias de superação contra a pobreza eu vejo é um caso claro de viés de sobrevivência: para cada um que é capaz de superar esses imensos obstáculos é preciso lembrar do milhares de outros que ficam pelo caminho. É possível entender que numa sociedade desigual como a brasileira as chances de se conseguir subir na vida pelo próprio mérito são muito baixas. O que parece uma vitória pessoal, na verdade, esconde o fracasso de uma sociedade em dar condições mínimas para milhões de outros. Nisso eu não vejo meritocracia, apenas condições injustas e desiguais. Não importa quantos coachs picaretas afirmem o contrário.

Conclusão

Um dos (muitos) detalhes que gosto no ser humano é que somos o homo sapiens sapiens, não apenas sabemos, mas sabemos que sabemos. Isso significa que somos capazes de refletir e entender os limites do nosso conhecimento. Dentre esses limites, o viés de sobrevivência é um bom exemplo e demonstra como somos menos racionais do que gostaríamos. Entender como essas tendências a erro existem e ocorrem é importante para compreendermos melhor mundo em que vivemos de uma forma mais humilde e verdadeira. Conhecer esses limites reduz não apenas os erros, mas também dificulta que sejamos manipulados.

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