Introdução

A questão acima foi levantada pelo doutor Peter Gray (tema de várias resenhas por aqui) ao escrever sobre os protestos de professores americanos de educação infantil. Eles não estavam lutando por aumentos de salário ou melhoria de condições de trabalho, mas contra algumas políticas impostas nas escolas como testes em excesso, exercícios maçantes e pouca oferta de atividades criativas ou divertidas.

Ele coletou uma série de relatos sobre a realidade dos Jardins de Infância americanos que soam assustadores, os quais seguem abaixo na forma de uma resenha (com muito de tradução meia boca) do artigo Kindergarten Teachers Are Quitting, and Here is Why  publicado na Psychology Today.

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Cena do filme Pink Floyd Wall – divulgação

O problema

Segundo ele, os problemas não estão ocorrendo simplesmente por culpa dos professores, mas algo mais sistêmico e vem de suas condições de trabalho. Especialmente do fato que professores estão proibidos de fazer o que eles acreditam ser correto. Eles são pressionados políticas decididas de cima para baixo por pessoas que pouco entendem de educação infantil e não são obrigadas a lidar com os resultados dessas políticas, como os professores tem que lidar todos os dias. O único erro dos professores seria não resistir com mais veemência contra as demandas impostas sobre eles e seus alunos.

Os argumentos dos professores

Um efeito dessas políticas é a evasão de profissionais,  provavelmente dos melhores. Que estão mudando de carreira ou se aposentado por não querer participar de um sistema educacional falho e que faz mal às crianças. Como exemplo foram coletadas algumas falas para ilustrar o sentimento entre os professores.

  • “Eu tive que me aposentar em 2017 porque não podia aguentar a pressão de ter que forçar meus alunos de 5 ou 6 anos de idade a sentar e ler, conversar era proibido. Eu lecionei por 18 anos e nos últimos 3 anos ensinando desse modo para meus pequenos alunos eu ouvi eles chorarem, falar sobre como não entendiam, como eles odiavam a hora da leitura e fingir interesse. Nós estávamos basicamente regurgitando uma fórmula pronta. Isso era terrível. Eu odiei ir para o trabalho nos últimos 2 anos com todo o estresse das expectativas de resultado acadêmico. Todos os administradores escolares queriam ouvir exatamente a mesma coisa, de sala em sala, de escola em escola”
  • “Professores vem reclamando sobre mais testes todos os anos. E todos os anos nós ouvimos “Ok, veremos isso” e todo ano alguém acima decide que ‘Precisamos de mais dados‘. O que significa mais testes, mais tempo sentado, menos brincadeira. Pessoalmente eu não podia lidar mais com isso e pedi aposentadoria precoce.”
  • “Eu trabalhei como professora de artes de meio período em uma turma de jardim de infância. A professora era um sargento, movendo as crianças de uma atividade para outra a cada 15 minutos. Isso cobria matemática, leitura, escrita etc. Essas crianças estavam feridas (psicologicamente) e geralmente não se acalmavam. Eu acabei saindo porque não conseguia ficar perto daquela professora gritando. Eu posso apenas imaginar como as crianças se sentiam”
  • “Eu tenho ensinado no jardim de infância por quase 40 anos.  As expectativas do currículo parecem ter vindo do cima e as pessoas que as escreveram pensaram que podiam legislar um desenvolvimento infantil mais rápido.  É esperado que alunos de jardim de infância sejam capazes de escrever frases e histórias, entendam matemática e façam testes no computador. Muitos deles nem sequer conseguem escrever um “X”. Escolas estão sendo dirigidas por “dados” e professores estão sendo cobrados para reduzir seus alunos a números. Por favor, vamos deixá-los brincar!”
  • Eu tenho ensinado no jardim de infância por 25 anos. (…) Na semana passada eu fiz uma avaliação de leitura para meus alunos de 5 anos em que eles tinham que inferir o significado da palavra “bifocais” após ouvir uma história de 5 parágrafos sobre Benjamin Franklin (sem figuras). Esse é o tipo de insanidade que permeia o currículo do Jardim de Infância. Estou me aposentando antes do planejado porque eu simplesmente não posso continuar sendo parte disso.”
  • “Eu queria ser um professora de Jardim de Infância, porém na época em que eu recebi minha certificação as coisas foram de mal a pior nas salas de aula da América. Eu tolamente pensei que poderia me esgueirar com arte e brincadeiras, mas estava errada. A “polícia do Currículo” apareceu na classe em que eu estava trabalhando e aquele foi o início do fim para mim. Ensinar é chato, seco e estressante quando você tem que forçar pequenas crianças a fazer o que algo para o qual elas não estão prontas. Os poderosos estão saindo impunes porque os professores (eu incluída_ não fazem nada além de reclamar. Quando vamos nos levantar e dizer que basta?”
  • “Como ex-professor infantil e administrador eu estou entristecido pelo foco a avaliações utilizadas na educação pública atual. Nosso estado determina uma avaliação estritamente acadêmica para alunos de pré-escolar e jardim de infância. Os resultados formam 50% da avaliação dos professores. Se você quer manter seu emprego é obrigatório focar em desenvolvimento acadêmico em vez do aprendizado cinestésico, desenvolvimento cerebral,  emocional e social apropriados para a idade.”
  • “Eu tenho sido assistente de professor por 15 anos. Estamos pedindo dessas crianças de 5 e 6 anos coisas que elas não são emocionalmente capazes de fazer e agora vendo várias crianças jovens com ansiedade.”
  • “Palavras que saíram da minha boca nesse outono: Nós NÃO brincamos no jardim de infância. Não faça isso de novo! (para um estudante que estava fazendo um  escorpião em 3D muito legal usando blocos de matemática em vez de completar a tarefa que foi pedida (…) Não, eu não posso ler Pedro o Gato para você. Temos que fazer nossa leitura (90 minutos de lição). (…) Não, nós não podemos fazer nenhuma arte. Temos que fazer nossa lição de leitura. (meus alunos tem 40 minutos de aula de arte, uma vez por mês). Não, você não pode olhar os livros ou brincar com os brinquedos. Não não podemos fazer um experimento de ciências. Temos que fazer nossa leitura. (…) Eu odeio meu trabalho. Amo meus alunos, odeio o currículo. Mas não posso sair, estou muito perto da aposentadoria para recomeçar.”
  • O Jardim de Infância deveria ser um transição, cheia de brincadeiras e aprendizagem centrada no estudante, entre o berçário e o início do ensino fundamental. Mas, em vez disso as crianças não estão tendo essa transição. Elas são jogadas em um ambiente estruturado que requer que elas sejam mini robôs. Devem se sentar por longos períodos de tempo (até adultos achariam isso difícil) e devem usar o cérebro sem a ajuda de movimento livre para se livrar da chatice. Eles não podem usar a imaginação ou perguntas que estimulem interação com professores e seus pares. Jardins de infância não deveriam ter carteiras e cadeiras. Eles deveriam ter recantos de leitura, jogos educativos e divertidos e espaço para explorar.

Essas falas são um dado qualitativo, não existem outros dados para dizer se podem ser usadas para descrever o sentimento da maioria dos professores da região. Ainda assim, dados desse tipo são importantes para mostrar que há algo errado que não está sendo detectado pelas avaliações atuais e que deve ser estudado mais à fundo. O mais assustador é que esses não são relatos referentes a escolas americanas problemáticas ou em bairros com situação socioeconômica complicada, essas são as escolas comuns. O que já ficou claro para os especialistas é que esse foco exagerado em aprendizagem acadêmica desde o jardim de infância produz poucos benefícios, danos de longo prazo   e outras evidências sugerem que também não necessariamente serve para reduzir o abismo entre os mais ricos e os mais pobres. É importante lembrar que existe uma paradoxo na avaliação de desempenho, os avaliados mudam e se adaptam à avaliação e me parece ser o que ocorreu nessas escolas.

Conclusão

É importante lembrar que o contexto citado aqui é o do Jardim de Infância, equivalente à educação infantil pré-escolar no Brasil. Para quem acredita que todo mundo deve se esforçar, lembro que o texto não fala sobre adolescentes ou estudantes de pré-vestibular. As crianças citadas, são muito novas, entre 5 e 6 anos, várias sequer foram alfabetizadas, mas já tiveram seu tempo e espaço para brincar livre mutilado. E brincar é a forma de aprendizagem mais importante que uma criança pode fazer. Outro exemplo pode ser observado em Cingapura, um lugar bem classificado nos testes do PISA que parece ter problemas similares aos americanos, com estudantes mais velhos no caso.

Apesar do texto do Dr. Gray falar dos EUA, eu acredito que o cenário brasileiro é similar, especialmente em escolas de classe média e alta.

Para deixar claro, não sou contra a gestão de educação baseada em evidências, é preciso estudar e avaliar a educação para mensurar sua eficácia. Mais pesquisa em educação é algo benéfico, especialmente se feita com o rigor devido (sobre quem pesquisa e não sobre quem é pesquisado).  Porém, é preciso fazer uma análise mais ampla, considerando vários instrumentos. Estudos de saúde mental entre estudantes americanos sugerem que está ocorrendo uma queda na saúde mental dos estudantes, com doenças como ansiedade e depressão aumentando. Talvez não existe relação direta entre testes estruturados e queda na saúde mental, mas a seriedade do problema demanda estudos. Ganhos de conhecimento são importantes, mas não existe instrumento de coleta de dados único e perfeito, é preciso triangular diferentes dados para se obter um quadro mais nítido e, especialmente, dosar a relação custo x benefício.

Atualização

Na verdade, mais do que relação custo x benefício a questão da escola é maior: a infância é um dos períodos mais curtos da vida humana, mas tem imenso impacto na formação do tipo de pessoa que teremos no futuro. Nesse aspecto, a carta abaixo descreve bem descreve bem porque devemos nos preocupar com o tipo de pessoa que estamos incentivando na escolas. Segundo o o Memorial do Holocausto, ela foi encontrada num campo de concentração nazista, de  autor desconhecido.

Prezado Professor, sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver.
Câmaras de gás construídas por engenheiros formados.
Crianças envenenadas por médicos diplomados.
Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas.
Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades.
Assim, tenho minhas suspeitas sobre a Educação.
Meu pedido é: ajude seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e saber aritmética, só serão importantes se fizerem nossas crianças mais humanas.”