Férias, o que rende crianças sem aulas, doidas para brincar e o tempo, geralmente restrito, de treino ganha mais um concorrente. Especialmente para os pais e mães que treinam. Porém se as crianças tiverem idades entre 6 e 10 anos é possível alinhar o treino e a brincadeira, praticar… brincando. Ainda que não seja exatamente o treino de artes marciais usual ainda é possível praticar algumas coisas com os pequenos. Portanto, um aviso: este não é um texto sobre o ensino de artes marciais para crianças, existem ótimas referências e descrições. Bem como bons profissionais por aí fazendo esse trabalho, que é diferente do ensino para adultos.

No caso o foco vai ser nas artes marciais filipinas também conhecidas como Eskrima, Arnis, Kali ou FMA (Filipino Martial Arts) que tem a particularidade de trabalhar com armas brancas ou sem armas. Mas, com os devidos reparos, a idéia geral também pode valer para outras artes marciais. Essas “batalhas” são como um sparring leve. De qualquer modo, o treino, ou brincadeira mesmo, com crianças pode oferecer oportunidade para:

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Parece brincadeira mas é muito mais. fonte: Bayani Warriors.

1- O cenário de luta contra vários oponentes

Crianças aprendem brincando, o brincar livre é a melhor forma de aprendizado que um criança pode ter, então dê o espaço que elas precisam para construir suas fantasias e use isso a seu favor. Apenas conduza, não tente controlar as crianças ou elas vão desistir. Assim, eu adoro inventar lutas de espada com meu filho e sobrinhos e aproveitar para treinar contra dois ou três atacantes. A brincadeira é muito boa para simular, se é uma luta de jedi, cavaleiros ou ninjas não importa, qualquer um deles está ótimo. Esse é um cenário comum na maioria das artes marciais com foco em defesa pessoal e crianças são ótimas para esse cenário. Elas te atacam com aquela coragem que só a ignorância oferece. Quase instintivamente elas te cercam, procuram pontos francos e te obrigam a entender com lidar com oponentes múltiplos. Para equilibrar um pouco as coisas, eu geralmente deixo elas com armas mais longas e eu fico com algo curto ou mesmo mãos limpas para treinar desarmes.

2- Capacidade aeróbica

Esse cenário significa que o alvo (você) vai ter que se manobrar e se mover constantemente para não ficar cercado. Dê preferência ao movimento usando o terreno (carros, bancos de praça, brinquedos de parquinhos) ou mesmo os próprios adversários como barreiras para compensar a desvantagem numérica. Tudo isso é muito cansativo e, para agravar, as crianças não cansam fácil e se recuperam rapidamente. Essa impressão vai ser aumentada se o adulto já estiver um tanto quanto… geriátrico. A situação rende um tremendo exercício e adulto vai queimar umas boas calorias.

3 – Defesa das pernas

A necessidade de manobrar já vai demandar um bom trabalho de pernas do adulto, o que vai ser agravado pela necessidade de defender as pernas com um frequência incomum. É uma particularidade desse cenário, especialmente quando a diferença de altura entre os oponentes (o adulto e as crianças) é de umas boas dezenas de centímetros. Mesmo que nas FMA existam os ataques 8 e 9 (pernas) ou 5, que pode acertar na linha da cintura ou abaixo, a maioria dos adultos está acostumada a se defender de ataques na altura do tórax e da cabeça. Porém, como altura das crianças é bem mais menor seu alvos também vão ser. Somando isso à dificuldade dos múltiplos oponentes e o uso de uma “arma” mais curta  o exercício e a diversão estão garantidos.

4 – Humildade

Lembrando o ponto inicial, é uma luta contra crianças pelamordedeus. Vencer não é exatamente uma vitória, mas sim uma prática divertida e um espaço para alguns experimentos. Nesse contexto o que significa testar coisas novas e se abrir para o risco de tudo dar errado e uma criança fazer a festa em cima de você. De qualquer forma, mesmo sem os experimentos, elas provavelmente vão conseguir acertar um ou dois golpes, o que é mérito delas e uma oportunidade de aprendizagem para o adulto. E, claro, o objetivo do adulto é praticar o das crianças se divertir e ninguém se diverte perdendo o tempo todo.

5 – Controle

Indo além do cenário dos oponente, crianças adoram ritmos e música. E como vários exercícios de FMA como o Sinawali e o Labang Laro (o termo significa luta combinada ou jogo de luta) funcionam com ritmos seria possível se criar alguma brincadeira divertida e útil assim.

Ainda assim, se acertar um alvo em movimento pode não ser tão fácil. Fazer isso controlando a força e a precisão vai ser mais difícil ainda. É importante lembrar que são crianças e não adultos em miniatura. Tanto que, no cenário dos múltiplos oponentes, eu pessoalmente prefiro que eles me ataquem do que lutem entre si. Afinal, ninguém quer ter que explicar para o resto da família sobre o dedo quebrado do sobrinho, o que leva ao próximo tópico.

Os cuidados necessários

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Se um dia eu ficar rico, meus filhos e sobrinhos vão estar assim no natal. fonte

É importante saber gerenciar o risco. Um ralado ou um pouco de dor pode acontecer em qualquer brincadeira mas o adulto deve prezar pelo controle o cuidado. As sugestões abaixo podem ajudar mas estão longe de prever todos os casos. Portanto seja cuidadoso e equipamento de proteção individual não fazem mas a ninguém.

As “armas” e as devidas proteções

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Guarda da espada: simples e útil

Para começar eu evito os bastões, mesmo os leves. As crianças adoram sabres de luz de brinquedo, que são essencialmente bastões expansíveis para crianças, esses serzinhos adoráveis que não entendem o conceito de bater leve.  Pessoalmente detesto da ergonomia dos sabres de luz a ausência de guardas demonstra como uma guarda na espada é uma maravilha de ergonomia de design. Mas aviso que lutar com sabres de luz acesos numa noite escura é divertidíssimo. Assim, mesmo usando esse tipo de brinquedo acho interessante usar uma proteção para os olhos das crianças, como um óculos de plástico ou algo que não solte cacos.  Eventualmente o reflexo pode se acionado e o adulto reagir com mais precisão que o devido.

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Outra guarda de espada: mais complicado e bonito, mas continua útil.

Bastões leves revestidos de espuma  são razoáveis, mas demandam controle da força. Porém, bastões menos densos podem ter efeito de chicote na defesa, o que pode render surpresas desagradáveis e os mais densos ainda podem machucar se usados com força.

Minha arma preferida é aquele espaguete usado em piscina, cortado para chegar a um tamanho aceitável, pode até ser decorado. No caso, como adulto, eu fico com um pedaço menor. Dependendo do cumprimento  vai agir quase como um chicote em algumas manobras,  mas serve. Mais curto fica melhor. A  grande vantagem é que o impacto equivale a uma guerra de travesseiros e como eles são bem largos a chance de acertar o olho é menor, ainda um óculos de proteção nunca faça mal. O risco de machucado mais alto é no caso de impacto punho contra punho. Assim, luvas acolchoadas, como as de MMA, podem ser uma boa pedida, especialmente para o adulto. A idéia não é só proteger os dedos do adulto, mas principalmente reduzir o risco de estrago nas crianças no caso de um impacto acidental.

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Ficou bonito não? Rende vários outros usos: fonte: HypeScience.

O espaço

Uma sala grande com objetos delicados bem guardados pode ser boa, mas eu acho ideal uma área externa. Sua sogra vai matar você se os netinhos quebrarem os bibelôs.  E um espaço maior vai fazer diferença na hora de manobrar.

Sobre outras artes marciais

O praticante de jiu-jitsu, luta-livre ou judô que nunca brincou de guerra de cosquinhas com os filhos não sabe o que está perdendo. É um bom momento para ensinar um pouco sobre manipulação de articulações, com a devida ressalva sobre as responsabilidades e cuidados. Kung Fu, Karatê e outras artes de strike só precisam escolher o desenho animado ou filme preferido.

Conclusão

A proposta aqui não é um treino de alta perfomance, nem colocar crianças em treinos direcionados e estruturados, mas apenas um alinhamento entre interesses de adultos e crianças para o período das férias escolares. Eles já tem aula no resto do ano.

Ainda assim, o livre brincar é uma forma de aprendizagem, física e emocional. Se você quer praticar algumas coisas e ao mesmo tempo oferecer para crianças uma situação onde elas podem soltar sua agressividade sem medo de repreensão, aproveite. Um espaço para soltar isso de forma socialmente aceitável é saudável para crianças e adultos. É uma forma de ensinar para as crianças a desenvolver mecanismos para lidar com medo, frustração, raiva e construir resiliência emocional. Quer que seu filho te veja como o herói? Aceite ser o vilão. Se quer ensinar sobre vitória e derrota, deixe ganhar ou perder sem que as crianças percebam. Como diriam em jogos de RPG, seja um bom NPC (personagem não jogador). Brincar é uma das melhores formas de se construir vínculos saudáveis com crianças.

E ainda ajuda a evitar a ferrugem quando estiver fora da academia.

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