Sim, essa relação existe. A idéia pode até soar inusitada, mas como observado por Tainá Maia o relacionamento das mulheres com artes marciais no ocidente é mais longo que se pensa. E também é um assunto perfeito para ser resgatado tão perto do dia internacional da mulher.  A luta feminina pelo direito ao voto no Reino Unido foi uma história fascinante mas também cheia de violência, prisões, injustiça, coragem, determinação férrea e… jiu-jitsu. Muito dessa luta se deve ao aprendizado e prática de artes marciais. Esse pequeno resgate é a minha homenagem às lutas femininas.

Um pouco de contexto

As mulheres que participavam do movimento eram conhecidas como sufragistas, que foi tema de um filme em 2015. Porém, o que foi abordado como um drama social no cinema, não refletiu esse outro aspecto da história real igualmente fascinante. Segundo uma matéria do Jornal Le Monde: as mulheres acometidas pela brutalidade masculina, e algumas apalpadas também, se defenderam e lutaram (literalmente) por sua causa.

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Repressão em Londres.

Em 1903, a sufragista Emmeline Pankhurst (1858-1928), criou a Women’s Social and Political Union (WSPU), conhecida como “The Union“, com duas de suas filhas, Christabel (1880-1958) e Sylvia (1882-1960). No entanto, nas manifestações eram comuns os insultos, pedras e até homens subindo nos palanques para impedir os discursos, espancando as mulheres sob o olhar conivente da polícia.

Quando as militantes aprisionadas iniciavam greves de fome para reclamar o status de prisioneiras políticas, eram alimentadas à força ou soltas apenas o suficiente para se reestabelecer e serem presas novamente.

Em muitos casos, era a própria polícia que partia para a violência com todos os cassetetes que pudesse. Como no episódio conhecido como a Black Friday (não foram compras), em 18 de novembro de 1910. A repressão a uma manifestação custou a vida da irmã de Emmeline, além de ferimentos graves e a prisão de quase 100 sufragistas. A repressão foi tão forte que até o jornais da época, que geralmente as descreviam como um bando de baderneiras contra a “ordem natural das coisas”,  ficaram ao lado das sufragistas, mostrando a violência da ação policial contra as manifestantes, que estavam em desvantagem numérica frente aos homens. No entanto,  as autoridades se recusavam a investigar qualquer eventual excesso da polícia.

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As armas da polícia. Foto: Kim Traynor – CC

Depois da Black Friday, elas não iriam mais despreparadas. Algumas passaram a fazer proteções de papelão sob a roupa, enquanto outras escolheram outras abordage como o uso de pedaços de pau e equipamentos de ginástica para fazer frente aos cassetetes da polícia.

E o Jiu-jitsu entra em campo

Nesse período as artes marciais japonesas eram novidade e estavam na moda. O movimento sufragista viu uma oportunidade em Edith e William Garrud que eram instrutores de jiu-jitsu em Londres. Edith conheceu a arte junto com o marido em 1899 e foi uma das primeiras instrutoras de artes marciais do ocidente. Geralmente, ela fazia as demonstrações enquanto seu marido explicava. Incentivada pela liderança do grupo tornou-se instrutora em classes exclusivas para as sufragistas e participante do movimento. Tanto, que treinou um grupo de mulheres para tarefas perigosas dentro do grupo. Ela costumava fazer demonstrações públicas enfrentando outro praticante de jiu-jitsu, vestido de policial. Dentre seus objetivos estava garantir que as lideranças do grupo não fossem recapturadas pela Polícia e proteger as militantes de agressores durante as manifestações.

O jiu-jitsu mostrou-se especialmente útil para elas. A arte preza pelo uso da técnica sobre a força frequentemente utilizando a força do adversário contra ele por meio da manipulação de articulações como pulso, ombro, cotovelo, joelho e tornozelo com o uso de chaves e alavancas. O que permitia que alguém mais franzino, como uma mulher, pudesse derrubar ou mesmo levar à submissão um homem bem maior. As técnicas também eram adequadas ao ambiente apertado de uma multidão.

Outro lugar que também aceitava mulheres era a Bartitsu Society.  Onde se ensinava defessa pessoal com jiu-jitsu, savate e até o uso de armas improvisadas, como o guarda-chuva. O que era uma prática ainda revolucionária na europa, justamente porque as mulheres estavam começando a praticar esportes e outras atividades físicas.

O trabalho de Edith Garrud foi notado pela imprensa, que cunhou o termo Suffrajitsu para descrever o “impacto” do seu trabalho, com especial atenção à habilidade de Edith em derrubar policiais e agressores do alto de seus 1 metro de 50 de altura. Seu grupo especial era denominado “the Bodyguard” (as Guarda-Costas) também chamadas pela imprensa de “Amazonas”. Era praticamente um BOPE da Union. Além do treinamento, a própria academia de Edith se tornou um santuário onde mulheres perseguidas podiam se esconder.

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“A sufragista que sabia Jiu-jitsu” charge. fonte: Islington Local History Centre/BBC

Aventuras e desventuras femininas na Londres dos anos 10

O trabalho não envolvia apenas habilidade de luta, mas também astúcia. Em uma vez a polícia tentou capturar Emmeline que havia saído de uma manifestação com uma pequena escolta, disfarçada sob um véu. A polícia atacou o grupo e derrubou a líder até deixa-la inconsciente, apenas para descobrir que sob o véu estava outra pessoa. Eles foram enganados enquanto ela saia em segurança pelo outro lado.

No mesmo ano, ocorreu um evento que ficou conhecido como a Batalha de Glasgow. Uma multidão de 4000 pessoas iria assistir a um discurso de Emmeline, que nesta época discursava em flagrante desafio ao governo inglês, que decretara sua prisão. Muitos duvidavam que ela teria coragem de vir a público naquele evento. Além do cordão de isolamento à espera das mulheres, um grupo de 50 homens da polícia estava escondido no porão do prédio e vários detetives disfarçados estariam na platéia. Mesmo sabendo que a polícia certamente atacaria, a líder da Union optou por fazer seu discurso. Na noite anterior, um grupo de mulheres saiu de Londres de trem, se instalou num hotel próximo, fingindo ser um grupo de teatro. Um boato de que as militantes tentariam forçar o cordão de isolamento distraiu a polícia, eles não sabiam que Emmeline já havia passado, disfarçada. Ela pagou o seu ticket como parte da platéia e se sentou nas arquibancadas junto com o público, enquanto suas amazonas se posicionavam no palco. Quando finalmente Emmeline subiu no palco e começou seu discurso, os policiais saíram do porão com o apoio de oficiais disfarçado na multidão. Nesse momento a jovem escocesa Janie Allen, uma amazona também disfarçada, puxou uma pistola e atirou contra o chefe de polícia. As balas eram de festim, mas isso serviu para criar uma confusão entre os policiais e dar tempo para as amazonas assumirem uma formação defensiva, enquanto sua líder discursava. Quando a polícia voltou a tentar subir, deram de frente com arame farpado em volta do palco. As amazonas foi  haviam levado o arame em buquês de flores. Só após passar esse obstáculo que os policiais conseguiram subir no palco para interromper o discurso. Porém, ainda enfrentaram uma dura batalha: 30 mulheres com pedaços de madeira, contra mais de 50 policiais com cassetetes. E tudo isso sob vaias de uma platéia francamente favorável às mulheres.  A polícia acabou dominando o grupo e capturando Emmeline, mas não foi nada fácil. E o que parecia uma derrota tática para as mulheres foi um vitória simbólica com a coragem demonstrada pelas militantes e seu efeito no público.

E o resto foi história

A luta arrefeceu com o início da primeira guerra mundial, quando as sufragistas se dedicaram a apoiar o esforço de guerra. Em 1918 elas conseguiram o direito ao voto, com restrições, e 10 anos depois todas as mulheres adultas do Reino Unido já podiam votar.

85878127_suffrajitsuCom o tempo a ações de Edith e as amazonas foram relegadas à notas de rodapé ou mesmo esquecidas. Algo lamentável para essas mulheres incríveis. Eu, por exemplo, só descobri essa história recentemente. Uma saudável exceção é a trilogia em quadrinhos Sufrajitsu, uma série de história alternativa escrita por Tony Wolf, com desenhos do brasileiro João Vieira. Pessoalmente gostei muito dos detalhes de art nouveau das capas. Outro exemplo é o documentário “No Man Shall Protect Us” (Nenhum homem deve nos proteger) também sobre os aspectos marciais dessa luta feminina. E acredito que Edith ou Emmeline não fariam feio frente à Mulher Maravilha. Acredito até que houve uma discreta homenagem à essas mulheres corajosas no último filme.

Em termos de estudos eu imagino que procurar uma correlação entre idéias feministas ou uma atitude mais independente entre mulheres praticantes de artes marciais seria uma hipótese interessante.

Por fim, a história demonstra que a idéia de “lutar como uma mulher” pode ser mais valorosa do que costumamos pensar.

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