Os filmes da série Guerra nas Estrelas, além de serem muito divertidos, oferecem algumas reflexões interessantes para quem é capaz de aproveitar a oportunidade e refletir sobre algo mais profundo.

Foi o caso de um artigo do Angry Staff Officer, o blog de um oficial do Exército Americano que faz ótimos paralelos entre o universo ficcional de Guerra nas Estrelas e organizações militares. Além de ser um fã assumido da série ele também considera analogias úteis para ensinar assuntos militares para soldados. Usar contextos conhecidos como base para explicar novos conceitos para os alunos, tornando a aprendizagem mais provável, é algo bem de acordo com Paulo Freire.

Geralmente o foco de Guerra nas Estrelas gira mais em torno dos indivíduos do que das organizações que formam o cenário. Mas o artigo é interessante por focar justamente nessas organizações: O Império (ou Primeira Ordem, se preferir) e os Rebeldes/ Resistência. Nesse caso, combinando um pouco de tradução com resenha e cia, a idéia é oferecer uma visão do impacto da cultura organizacional a partir da cultura pop.

O exemplo das estrelas

Segundo o autor, o filme Os últimos Jedi   mostrou de forma gritante as diferenças essenciais que separam o rebeldes e o Império em termos de organização. A primeira parte do filme já começa ilustrando com maestria os pecados de liderança dos vilões no ataque à uma base rebelde que está sendo evacuada às pressas, abandonando equipamento valioso diga-se de passagem. Os rebeldes estão cercados por naves imperiais, em menor número, menos armados e pegos no meio da evacuação com todo trocadilho que a situação merece. Porém, toda essa vantagem é desperdiçada pelo comandante imperial, General Hux, que prefere deixar os seus muito úteis destroyers à espera para empregar sua arma nova preferida, uma mega-nave com um canhão estilo estrela da morte. O que deixa claro que os generais imperiais não aprenderam muito nos 7 filmes anteriores.

E frente a um ousado e inesperado ataque rebelde o que esses generais fizeram? Se adaptarem, reagiram? Não, permaneceram estáticos, se atendo a tática definida no início sem questionar até o último momento. Quando liberaram seus caças para interceptar os bombardeios já era tarde demais para fazer diferença.

O que também demonstra que a Primeira Ordem assim como o Império continua altamente hierarquizada e sem espaço para a iniciativa pessoal ou adaptação. O que a torna refém dos caprichos, ou pura falta de visão, de quem está nos cargos mais altos. Como bem dito pelo autor  “um imenso poder de fogo foi anulado por uma longa tradição de liderança tóxica e microadministração“.

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Não se iluda com o corte alemão desse uniforme. O exército alemão foi bem inovador ao criar grupos de soldados bem treinados e prezar pela iniciativa já na primeira guerra mundial. E os stosstruppen alemães atiravam muito melhor que o stormtroppers imperiais.  Fonte: Lucasfilm

E como toda a boa estrutura corporativa grande e complexa a primeira Ordem é marcada por seus conflitos internos. É clara a tensão entre os generais e Kylo Ren, o jedi do mal residente, e prejudica a unidade de comando. O que um faz não é coordenado com as ações do outro resultando em várias oportunidades perdidas, um expertise imperial. Inclusive, derrubar  o almirante no chão na frente dos subordinados é um excelente exemplo de assédio moral.

Do outro lado, o da Resistência/Rebeldes, ocorre exatamente o contrário. O que não significa algo muito melhor. Um dos heróis, o comandante Poe, é um excelente piloto e líder tático criativo. Capaz de apostas ousadas para manter uma vantagem tática sobre o inimigo. Porém, apesar de ser excelente nos níveis operacional e tático, Poe é um desastre para o nível estratégico. Ele simplesmente desobedece ordens diretas e parte para o ataque contra a mega-nave inimiga.  Destruindo toda a força de bombardeios pesados dos rebeldes no processo. Suas apostas custam caro e exemplificam porque os rebeldes estão fugindo de sua última base com o pouco que podem carregar. Para piorar a ficha de Poe duas coisas ficam claras: bastava um bombardeio para destruir a mega nave; a perda dessa nave afetou pouco o esforço de guerra imperial, que continua perseguindo os sobreviventes e explica muito bem porque a rebelião deve evitar embates diretos. O império pode se dar ao luxo de sofrer perdas, o que não vale para os rebeldes.

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O Comandante Poe: não se iluda com a pinta de galã. fonte: Lucasfilm

O que temos na Resistência é uma organização desestruturada. Um grupo com muito espaço para iniciativa e improviso, até demais. Um grupo tão carente de método quanto de equipamentos e líderes capazes. Afinal, se alguém corajoso e displicente como Poe chegou a ser comandante é porque provavelmente não haviam opções melhores. Tanto que foi só foi rebaixado depois de desobedecer as ordens da General Leia, e indiretamente destruir toda a força de bombardeios pesados dos rebeldes. Quando Leia é ferida sua substituta, a Vice-almirante Holdo, assume o comando e parece ter a visão estratégica que faltava a Poe. Ela sabe que o primeiro objetivo de uma guerrilha é sobreviver para lutar outro dia e que não pode aceitar o mesmo nível de perdas que o seu inimigo. Porém ela tem um outro problema: a falta de clareza, falhando em se comunicar e ter a confiança dos que estão sob seu comando. E isso se torna ainda mais grave numa organização amante da gambiarra como a que ela comanda. Um defeito verossímil para alguém que provavelmente assessorava decisões e é promovida, súbita e involuntariamente. O resultado é que lá vamos nós com mais gente de coragem, iniciativa e planos improvisados que dão errado.

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Erwin Rommel, o tipo de General com “G” maiúsculo que faltou em ambos os lados. fonte: badass of the week

E olha que já houve um avanço. No filme Rogue One, a obsessão dos rebeldes pelo consenso levou a uma demora de decisão que ia custar uma janela de oportunidade crítica. O resultado foi um ataque mal planejado que, apesar de bem sucedido, teve custos imensos, em equipamento e pessoal. Como dizia o general Erwin Rommel: “O suor poupa o sangue, o sangue poupa vidas, mas o (uso do) cérebro poupa ambos.”

A tal cultura organizacional

Assim, além da batalha do bem contra o mal, da luz contra as trevas, da liberdade contra a tirania etc. também temos o embate de duas organizações com linhas de ação e pensamento absolutamente distintos, com seus respectivos lotes de pecados administrativos. A rigidez e falta de iniciativa do Império/ Primeira Ordem contra a falta de estrutura e improviso dos Rebeldes/Resistência. Muito do que ocorre na história acaba sendo decorrência desses diferentes modos de pensar de cada lado.

Essa soma de “modos de pensar e fazer”, regras, crenças e tradições  é chamada de cultura de uma organização. Seu estudo é multidisciplinar e, entre outros está na alçada da Antropologia Corporativa (com uma boa explicação do que é e como se usa). Se você pensava que antropologia era só para estudar Índios ou outras minorias eu fico feliz em dizer que isso está errado. E para entender como funciona esse multidisciplinar recomendo ler A diferença entre antropologia e…

O aspecto cultural afeta a todos, independente do nível de educação ou competência, é o meio afetando o indivíduo, é algo difícil de perceber. Afinal, a nossa cultura forma nossa visão de “normal”. Baseado em sua experiência com capacitação de empresas país afora,   o economista Rodrigo Zeidan tem um bom artigo descrevendo como questões culturais afetam a administração de empresas no Brasil,

Por exemplo, Borges-Andrade, Abbad e Mourão (2006) consideram que inovações serão aceitas dentro de uma organização se seus membros considerarem que elas são vantajosas. O que explica porque tantos chefes já surgiram com idéias do arco da velha que, mesmo que fosse tecnicamente corretas ou até geniais, simplesmente não foram aceitas e afundaram. Creio que todo mundo já viu isso acontecer em algum momento da sua vida, seja na escola, no trabalho ou até mesmo em casa.

Entender essa cultura organizacional é de suma importância para todo o tipo de organização. Sejam elas grandes ou pequenas empresas, repartições de governo, organizações não-governamentais etc. O fator cultural é uma influência em qualquer tomada de decisão. Certos problemas não são questões técnicas, preguiça ou coisa parecida, O problema é se contrariarem a cultura vigente. E mudanças culturais não são fáceis de obter.

Referência Bibliográfica

Porque as outras já estão nos links.

Borges-Andrade, J. E., Abbad, G., & Mourão, L. (Orgs.). (2006). Treinamento, desenvolvimento e educação em organizações e trabalho: Fundamentos para a gestão de pessoas. Porto Alegre: Artmed.