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fonte: Linkedin

Graças ao avanço da tecnologia o prefixo multi tornou-se algo desejado em diversas atividades: multimídia, multidisciplinar, multitarefa. Dentre esses, o termo multitarefa significa  a habilidade de se fazer várias atividades ao mesmo tempo ou alternar entre tarefas de maneira rápida e sem dificuldade. Algo bem de acordo com as características dos computadores, tablets e cia que tanto amamos. Com eles é possível trabalhar com diferentes programas acionados ao mesmo tempo podemos pular rapidamente de uma janela (e atividade) para outra. Assim, a capacidade de ser multitarefa, também conhecida com multitasking, se você gostar de termos corporativos modernosos, passou  a ser reconhecida como uma indício de profissionalismo, agilidade mental e produtividade. O problema é que a ciência não concorda muito com a idéia ou, pelo menos, vêm descobrindo que nada vem de graça.

Essa ciência e suas descobertas desagradáveis

Além da tecnologia outra coisa que avançou muito foram as neurociências, o estudo do funcionamento do cérebro humano. Em conjunto com a psicologia estamos desenvolvendo um novo entendimento sobre a forma como nosso cérebro funciona, como otimizar seu uso e, nesse caso, como evitar algumas armadilhas.

Um estudo da Universidade de Stanford com mais de 100 pessoas observou que somos mais produtivos lidando com uma atividade por vez do que com atividades múltiplas. Alguns especialistas consideram que a perda de produtividade seria algo em torno de 40%. Enquanto outro estudo, da Universidade de Londres, observou que estudantes que fizeram múltiplas tarefas durante testes cognitivos tiveram resultados semelhantes a usuários de maconha.  Seu usarmos aquele velho indicador de inteligência chamado QI, a perda foi em torno de 15 pontos. Isso significa que homens adultos ficaram com resultados próximos aos de crianças de 8 anos de idade. Essa seria uma boa hipótese para explicar a maturidade de muitas discussões que vemos na internet atualmente. O que mais essas pessoas estariam fazendo enquanto comentavam? Imagine a qualidade das outras coisas que elas estavam fazendo? Como o trabalho.

O que realmente acontece

Para o muitos neurocientistas, a idéia de multitasking seria uma falácia. O que o cérebro faz, na verdade, é trocar de uma atividade para outra e não fazer mais de uma ao mesmo tempo e mesmo isso têm seu preço. Existem obviamente o caso de atividades físicas que temos muita prática e acabam requerendo muito pouco processamento do cérebro, elas estariam muito introjetadas e assim, acabamos “liberando espaço” para fazer outras coisas. Como conversar e caminhar por um caminho conhecido. Porém mesmos nesses casos pode ocorrer uma perda de performance. Por exemplo, andar conversando aumenta as chances da pessoa se perder ou tropeçar e as campanhas contra usar o celular e dirigir são consequência da péssima combinação entre celular (praticamente uma máquina de distração) e celular, os acidentes estão aí como prova, o risco de acidente aumenta em 4 vezes, ou 200% se preferir porcentagem.

Os danos, de curto e longo prazo

Assim, a nossa obsessao em fazer coisas ao mesmo tempo poderia estar reduzindo nossa produtividade em até 40%. O processo de fazer várias coisas ao mesmo tempo seria algo desgastante e a perda do “fio da meada” na mudança entre uma tarefa e outras aumenta a chance de erro. E ambos, o desgastes e a possibilidade de erro, provavelmente serão agravado depois de muito tempo de atividade. Assim, depois de muito tempo você não apenas vai estar mais exausto como sua chance de fazer besteira aumenta.

Ainda é cedo para dizer se o trabalho multitarefa realmente é capaz de danificar o nosso cérebro, isso vai demandar pesquisas de longo prazo, eventualmente na casa das décadas. Afinal, outra hipótese possível é que existam tipos de formação, ou má-formação, que predisponham algumas pessoas a serem multitarefa. Mas hoje em dia já é aceito que a forma como usamos nosso cérebro interfere em sua estrututra. A muito grosso modo, pode se dizer que o que fazemos muito cria mais sinapses em nosso cérebro. Sejam bons ou mais hábitos. O Neurocientista Kep Kee Loh acredita que o modo como interagimos com os dispositivos eletrônicos, como computadores, celulares etc podem estar mudando a forma como pensamos e essas mudanças estão ocorrendo no nível da estrutura do cérebro. Nesse ponto, pesquisadores da University of Sussex  compararam cérebros  através de ressonância magnética. E observaram que as pessoas que fazem ações multitarefa com muita frequência tem menos densidade cerebral em partes do cérebro responsáveis por empatia e controle emocional e cognitivo. Imagino o que o futuro dos nativos digitais pode nos reservar em algumas décadas.

Um exemplo violento

8815998_origAcho que o melhor exemplo de como o cérebro não está estruturado para tarefas múltiplas pode ser visto nas situações violentas, especialmente as de vida ou morte. A violência entre seres humanos, o combate ,cria um nível tensão que pode produzir danos severos e duradouros à mente humana. No livro On Combat observa-se que as duas guerras mundiais e a guerra da Coréia tiveram mais gente em hospitais psiquiátricos do que mortos em combate.

Nessa situação limite o cérebro entra no que os autores chamam de modo de sobrevivência. Segundo a teoria do cérebro triuno, nosso cérebro réptil  assume o controle e simplesmente passa por cima do emocional e do racional. Só a sobrevivência vai importar, seja ela obtida por fuga a todo custo ou luta impiedosa. E coordenar atividades múltiplas nessa hora é algo tão supérfluo que perder o controle da bexiga e dos intestinos  (a.k.a se borrar todo) é algo considerado perfeitamente normal dentro da situação. Se isso acontece no resto do corpo não seria estranho esperar algo diferente no cérebro.

Outro efeito que a tensão excessiva provoca é a perda de habilidades complexas. Tanto que é esperado de pilotos, especialmente os militares, a capacidade de controle emocional, mesmo em situações de tensão. Para evitar que o cérebro réptil entre em ação e transforme o manche em uma alavanca inútil e os instrumentos em relogios ininteligíveis.

O outro efeito da tensão excessiva é que as capacidades do cérebro ficam tão focadas, e limitadas, que até alterações de percepção chegam o ocorrer. Segundo os autores de On Combat policiais e soldados envolvidos em tiroteios relatam diversas alterações como exclusão auditiva, a perda da percepção de som; visão de túnel, perda da visão periférica; distorção temporal, observar as coisas ocorrendo em câmera lenta; sensações de dor reduzidas; ou mesmo aumento da percepção sonora. A hipótese em que nas situações limite o cérebro desligue certas funções que seriam não essenciais ou mesmo aumente outras para a garantir a sobrevivência naquele momento.

Um singela defesa

É claro que eventualmente precisamos fazer mais de alguma coisa ao mesmo tempo, é um fato. E várias atividades que requerem pouca atenção nossa podem ser feitas em conjunto, como ouvir música e escreve (como eu estou fazendo no momento em que escrevo), caminhar e conversar. Enfim, como observado por Paul Bloom em sua pequena defesa do trabalho multitarefa é que nem toda a atividade requer 100% de concentração. Sim, pousar um avião ou fazer cirurgia demandam toda a atenção do operador, mas isso não ocorre com todas as atividades que fazemos. E algumas são tão chatas que realmente desejamos fazer alguma outra coisa ao mesmo tempo para nos distrairmos e conseguirmos terminar aquilo, como ouvir música no trabalho.  A multitarefa nesse caso seria uma forma de tornar o momento mais suportável. 

De qualquer modo, esses achados sugerem que a sociedade construiu uma situação que não é exatamente saudável para o ser humano. Talvez mudar a estrutura social e econômica que demanda tanto trabalho multitarefa seja uma forma melhorar esse quadro. Algo semelhante ao que já foi observado com os horários das escolas. É a ciência levando a conclusão agora desagradáveis mas que podem levar a uma sensível melhora no futuro. E com os eventuais ganhos de produtividade até a economia sairia ganhando.

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