Detalhe da caixa do jogo

Imagens: Galapagos Jogos

Dixit é um jogo de cartas, tabuleiro e também passatempo divertido, recomendado a partir de 8 anos de idade. Como já havia feito antes, eu resolvi ensina-lo para o infante. O que também foi um desafio já que ele continua bem fora da faixa de idade recomendada, por volta de uns 4 anos a menos. Mas para quem conseguiu algum sucesso com o King Of Tokyo, um jogo com mecânica mais simples prometia ser um passeio. Só que logo eu descobri estar redondamente enganado, de uma forma que apenas as teorias de aprendizagem poderiam explicar.

O jogo

Essencialmente, esse é um jogo de imaginação onde um jogador assume o papel de contador de histórias e os outros devem descobrir qual a sua carta. Foi desenvolvido por Jean-Louis Roubira, com belíssimas artes de Marie Cardouat e editado no Brasil pela Galápagos Jogos. Segundo a Ludoteca BCG, o jogo envolve regras de narração de histórias, votação e algumas ações simultâneas. O aprendizado das regras, como divisão das cartas, ordem de jogadas e contagem de pontos é razoavelmente simples. O que deixa a curva de aprendizagem do jogo curta e o torna um excelente jogo de entrada: uma opção para não nerds gente que não costuma a jogar jogos de tabuleiro. Essa parte foi razoavelmente fácil.

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84 cartas e lindas ilustrações.

O objetivo principal do jogador é descobrir qual é a carta do narrador, que vai ser misturada às cartas dos outros jogadores. Enquanto o objetivo do narrador é escolher uma opção que não seja fácil demais para que todos votem sua carta, nem difícil demais para que ninguém a encontre. Esse “equilíbrio” parece ser algo simples, mas a experiência mostra que não é necessariamente fácil.

Como observado pelo Eduardo, comentando sobre a experiência de jogar o Dixit, quem está jogando influi muito na experiência de jogo. Quanto mais experiência em comum você tenha com os outros jogadores mais referências você terá para entender as escolhas dos outros jogadores e formular estratégias. Sendo esse um dos pontos que torna a experiência divertida. Porém,  devido à idade do infante, é óbvio que ele é seria pessoa com menos vocabulário e referências da partida, algo que com certeza atrapalha, mas que poderia ser equilibrado com as escolhas dos outros jogadores (eu e a mãe, no caso).

Gosto muito do jogo, das minhas ressalvas deixo apenas o placar. Considero ele bonito mas pouco prático, a idéia de fazer um caminho pode criar confusões na contagem de pontos, especialmente em caso de empate. O que é agravado pelos peões em forma de coelho que podem cair com uma certa facilidade.

A experiência

Ainda assim, porca começou a torcer o rabo devido à algumas sutilezas que fazem a diferença durante a partida. Na hora da votação é preciso que todos os jogadores votem sua escolha de forma simultânea. Afinal, a escolha de um jogador pode influir na de outro. Assim, todos votarem ao mesmo tempo mantém o jogo equilibrado. Porém, frequentemente o infante se empolgava e já dizia sua escolha assim que as cartas eram expostas. O que prejudicava ele e influía na decisão de todos os outros.

O outro ponto é que ele parecia não conseguir ir além do óbvio. Até acho que ele entendeu como que era preciso fazer uma combinação de palavra e carta equilibrada para que nem todo mundo descobrisse. Mas acho que ele não sabia como fazer isso.  mas tenho outras hipóteses para explicar o que acontecia.

As Teorias de Piaget

A explicação para seu desempenho também pode ser encontrada nos famosos estágios de desenvolvimento cognitivo de Piaget. Como está entre os 2 e 7  anos nosso herói está na chamada fase pré-operatória: ele já consegue se comunicar bem, mas seu raciocínio ainda é muito ligado à intuição e baseado no que ele consegue perceber do ambiente. Essa fase é muito caracterizada pelo egocentrismo e a consequente dificuldade de entender que existem outros aspectos da realidade diferentes dos dele e além do que é imediatamente percebido. O ponto onde entra a tal da abstração. O que, no caso do jogo, seria imaginar qual carta o narrador teria escolhido ou mesmo perceber que os outros jogadores saberem da escolha dele influi na jogada dos outros.

Como observado por Anaí Peña (Slide 29), quando começa a sair do egocentrismo a criança passa a entender que outros podem ter perspectivas diferentes e, consequentemente, desenvolve uma estrutura cognitiva para lidar com isso, uma série de regras complexas para entender o que está acontecendo. E algumas dessas regras serão desenvolvidas mais tarde, no estágio operatório-concreto que só começa em torno dos 7 anos. O que ajuda a explicar porque Dixit é recomendado apenas depois dos 8. Ainda que uma criança mais nova entenda as regras básicas de escolher cartas, propor uma frase e votar. Enquanto outras “sutilezas cognitivas” podem simplesmente estão além do seu estágio de desenvolvimento. Ainda assim, as fases de Piaget não são compartimentos estanques, eles variam e acordo com a pessoa, estímulos e outras variáveis.

Assim, apesar das regras aparentemente mais simples, a partida não foi divertido quanto a experiência com King of Tokyo, que ele ainda adora jogar e ganha de vez em quando. No caso do Dixit, ele obviamente percebia que faltava algo para melhorar seu desempenho mas não sabia dizer exatamente o quê era. Talvez seja uma questão da adequar o nível de dificuldade escolhendo palavras mais simples ou mesmo tentar mais algumas vezes para observar se ele consegue avançar. Talvez seja simplesmente uma questão de melhorar minha habilidade ao apresentar o jogo compensando o que ele ainda não entendeu para que tenha uma experiência satisfatória e continue interessado. Isso funcionou da outra vez.

Conclusões

Ainda assim, recomendo o jogo. É o típico party game, jogo para festa, uma oportunidade excelente para estreitar laços, o que o torna interessante para famílias e grupos de amigos. E como um jogo de entrada, quando se quer apresentar jogos de tabuleiro sem deixar as pessoas horrorizadas e entendiadas com uma longa explicação de regras. Eu adoraria testá-lo em evento de integração de empresas e testar suas expansões.

De qualquer modo, o que se aprende é mais importante do que o que se ensina. Existem momentos certos para se aprender e é preciso respeitar o ritmo de aprendizagem de cada um. Queimar etapas ou apertar o passo mais que o devido traz mais estrago do que ganhos, como já observado em experiências anteriores. Mas descobri um outro jogo bem mais adequado para idade dele que ainda vai ser tópico para outra experiência.

 

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