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No final de 2016 foi aprovado o projeto Popularizando Conhecimentos sobre sobre os Recursos Naturais do Bioma Cerrado através do Jogo Educativo Ambiental “Desafio no Cerrado”. Encarnações anteriores desse projeto foram temas dos artigos “O fracasso também ensina” e “E a sorte está lançada, sem contar com a sorte“. Enfim, é algo que venho trabalhando há algum tempo e agora finalmente começa a vir à luz.

E ontem tive duas reuniões para apresentar o jogo. (Sim, o jogo que tanto falo que esse citado no título do projeto) inicialmente para colegas de trabalho que fazem parte do projeto e estão na parte logística e estratégica do trabalho e futuros participantes, como facilitadores do jogo nas escolas que vão fazer o operacional, o chão de fábrica do trabalho e eventuais parceiros externos que tem interesse em apoiar o projeto.

Depois de tanto tempo trabalhando com o público-alvo, adolescente, crianças e companhia foi interessante observar a reação de adultos e relembrar que o jogo é recomendado “a partir” dos 11 anos de idade e não “apenas para” 11 anos. Mas principalmente foi uma oportunidade para relembrar porque escolhi esse trabalho.

Apesar da equipe do projeto ter uma boa idéia do que era o jogo. Para eles era apenas mais uma ferramenta de aprendizagem que simula um ecossistema e tem algum potencial de aprendizagem a ser avaliado e não muito mais que isso.  Eles ainda não haviam participado da melhor forma de se conhecer um jogo, que é jogando. Nesse aspecto, um jogo pode ser uma excelente forma de se observar a riqueza de um trabalho multidisciplinar. Um dos participantes é um pesquisador e biólogo com larga experiência em botânica, especialmente sobre os recursos naturais do Cerrado. Enquanto outra, também pesquisadora, é psicóloga com experiência em métodos de coleta e avaliação de dados em treinamento, desenvolvimento e educação.

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Sim, o trabalho multidisciplinar é legal, mas como descrito acima também tem seus riscos. Fonte: o blog Invisible Flame Light

As leituras que os dois fizeram da experiência de jogo eram absolutamente diferentes, complementares e ao mesmo tempo riquíssimas. Nosso biólogo falou que inicialmente era um esforço mental para ele “puxar o freio de mão” da visão de biólogo e aceitar que o jogo é uma simulação simplificada do  Cerrado que possa ser operada por estudantes de nível fundamental, o público-alvo. E segundo ele isso já é um esforço natural, mas ainda assim compensador ao ver que os conceitos básicos estavam presentes. Como a descrição dos corredores ecológicos ou o fato de que os buritis realmente aparecem em áreas com muita umidade como veredas e próximo aos rios. Por outro lado, nossa psicóloga observou que, o jogo funcionava como uma ambiente de aprendizagem onde os conceitos e informações sobre Cerrado e meio ambiente são operados. O que,do ponto de vista cognitivo, funcionada como a construção de um andaime, uma estrutura cognitiva na mente do estudante onde ele passa a organizar, assimilar e ser capaz de organizar as informações que ele têm ou vai passar a ter no futuro sobre esse tema. O que é proposta de aprendizagem através de jogos sob a visão das teorias cognitivistas de aprendizagem, (como a do Piaget). Ao mesmo tempo o jogador também aprende ao observar a experiência do outros jogadores interagir com eles e com os materiais do jogo (peças, peões e placares) que só fazem sentido dentro do contexto de jogo.

Mais tarde tive outra reunião, dessa vez com possíveis futuros participantes que vão atuar na aplicação nas escolas. E foi outra experiência, mas ainda assim muito rica. A experiência teórica deu lugar a prática com crianças e estudantes e a experiência de jogos em si, que é bem mais comum mas gerações mais novas. Eles imergiram mais na experiência de jogo e fizeram perguntas muito mais diretas e próximas das que iremos encontrar com os alunos. Eles também fizeram uma análise crítica do jogo, como o da primeira reunião, mas com uma forte preocupação em também manter a dinâmica do jogo funcionando, até porque esse é um elemento que também deve ser analisado. Como comentei com eles, e a literatura técnica concorda: Jogo educativo pode ser como comida saudável, pode até te fazer bem, mas o gosto for ruim ninguém vai querer comer. Algo que acontece com frequência em jogos educativos que têm um lindo conteúdo teórico embalado dentro de um jogo chato. Essa preocupação foi observada por eles que também sugeriram uma fase especial para explicar as regras. O que concordou e reforçou a idéia sugerida por nossa psicóloga de que precisamos fazer uma primeira partida como tutorial, um jogo curto com peças escolhidas para explicar as regras do jogo. Na fase inicial toda a concentração dos estudantes estará em entender as regras, só depois disso eles conseguem observar estratégias, funcionamento do ecossistema e etc. Não é possível conseguir um resultado total com apenas uma partida. O que observei em outra oportunidade. Enfim, é algo muito legal ver a mesma idéia ser proposta por fontes absolutamente diferentes e isso ainda bater com a sua própria experiência.

O outro aspecto muito legal é observar o efeito do jogo nos jogadores, independente do perfil e da reunião. Acredito que um jogo novo atua como um desequilíbrio cognitivo controlado, o que força a criação de estruturas cognitivas para assimilar essa novidade, algo corroborado por nossa psicóloga. E com a dimensão social e física de uma mesa de jogo de tabuleiro isso é aumentado, algo que ouvi num dos Game Jam que participei. Assim, o jogo atua como um “catalizador cognitivo”. As pessoas são obrigadas a aprender algo, testar e empregar no mesmo momento. O que desperta sua concentração, deixa elas mais falantes e animadas. Algo que, a meu ver, bate totalmente com a idéia de hard fun do Papert.

Se conseguirmos criar nos alunos o mesmo entusiamo que consegui observar na equipe significa que todo esse trabalho realmente valeu a pena.

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