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Hardy, criação de anos 60
da Hanna-Barbera (atual Cartoon Network) e excelente descrição de pessimista
fonte: Palavras na Gaveta

Sim, aquele seu amigo com um urubu no ombro acha que ficou lindo e vamos explicar porque a ave chama essa atenção toda.  Para isso lá vamos nós com mais uma resenha descuidada, baseada em um artigo sugerido por minha amiga Bia Lins no Linkedin e de autoria de Morgan Housel, com o título original de “Why Does Pessimism Sound So Smart? Especially when things are so good.” que pode ser traduzido como”Porque o Pessimismo soa tão Esperto? Especialmente quando as coisas estão tão boas.”

Porque o cenário atual faz a alegria dos pessimistas

Primeiro é preciso entender, no geral as vida, a sociedade e tudo mais vão bem ou mal? Ainda mais considerando que o mundo ainda está se recuperando de uma grande recessão em 2008 e o Brasil ainda está lutando com a sua que começou em 2014. De fato, se observamos a avalanche de notícias ruins, verdadeiras ou falsas, que se espalham pela internet e outras mídias é difícil evitar a impressão que as coisas estão piorando.

Porém existem evidências de que, talvez estejamos na melhor época da humanidade, como observado em por Steven Pinker  em seu livro que afirma que, na verdade, a violência humana está em declínio. Sim, claro que o aquecimento global é um problema, a guerra na Síria e o número de assassinatos no Brasil continuam sendo problemas sérios e ainda serão por um bom tempo. Mas o ponto dele é que na análise fria dos números a violência está se tornando mais rara e menos aceitável a medida que o tempo passa.

A questão é que nossa percepção parece dizer que as coisas estão piorando. Tanto que as histórias sobre distopias e futuros apocalípticos já fazem tanto sucesso que estão dando dinheiro.   Hoje somos bombardeados por informação sobre todo o acidente ou incidente que acontece, seja ele provável improvável, distante ou próximo. No final todos os casos parecem próximos e prováveis e devemos nos proteger, em alguns casos até demais. Algo que o sociólogo alemão Ulrich Beck denominou “Sociedade de Risco”. Onde a instabilidade e a constante mudança, muitas delas provocada pelo ser humano,  e a falta de referências que caraterizam nossos tempos enfatizam essa sensação de perigo. As profissões para que existem hoje podem desaparecer em poucos anos. Querer ter um emprego e viver sua vida de forma segura sem muitas atribulações pode ser considerado um sinal de fraqueza para quem nasceu nas gerações mais novas e todo mundo deveria ser um líder arrojado que ri na cara do perigo. Existem milhares de opções para tudo mas só vale se for a melhor e tem de ser agora. É possível entender porque isso provoca tanta ansiedade e faz o consumo de medicamentos pular? Todo esse “estímulo” teria no deixado ainda mais ligados nessa questão de risco e até por uma questão de sobrevivência acredito que estamos mais acostumados a ver risco como algo a ser evitado do que gerenciado, o que seria a opção mais razoável.

Mas tem outro fator: o pessimismo é charmoso

Pelo menos é essa a hipótese  de Morgan (o autor) ao afirmar que o pessimismo parece esperto, especialmente quando os tempos não são tão ruins assim. Uma pesquisa da professora Teresa Amabile observou que críticos que fazem resenhas negativas são vistos como mais espertos do que aqueles que dão resenhas positivas sobre o mesmo livro. Só o pessimismo seria profundo enquanto o otimismo parece superficial.

O prêmio Nobel Daniel Kahneman considera que existe uma resposta evolutiva que nos faz reponder com mais força para a perda que para o ganho, o seu Nobel veio desse estudo. Outro detalhe interessante: ele não é um economista, mas um estudioso de comportamento (psicologia) aplicado à economia. Como disse Deirdre N McCloskey, historiador, escrevendo para o N.Y. Times: “Por razões que eu nunca entendi as pessoas gostam de ouvir que o mundo está indo para o inferno”.

5 razões para explicar o charme do urubu

Morgan, elenca algumas razões que observou para explicar porque o pessimismo ganha tanto destaque

1. O otimismo parece ignorar os riscos. Assim, à princípio, o pessimismo parece ser mais inteligente. O que seria uma visão equivocada de otimistas com noção. Muitos entendem que existe o risco real de desastres, recessões, guerras, pandemias etc. Mas se consideram otimistas porque se focam em processos mais longos, como carreiras, projetos e aceitam que eventualmente será preciso enfrentar os momentos ruins. O pessimista considera o evento ruim como o fim da história, o beco sem saída. Enquanto o otimista considera o evento ruim como parte de uma boa história. Pessoalmente acho que a diferença estaria na perspectiva de tempo, na resistência e, especialmente, resiliência do otimista.

2. O pessimismo mostra que nem tudo está indo na direção certa, o que ajuda a racionalizar as próprias limitações. A miséria adora companhia. Observar que coisas fora do seu controle podem ser a causa dos seus problemas e não as suas próprias decisões é um sentimento reconfortante pois alivia a sensação de responsabilidade. Assim, sutilmente o consideramos atraente. É comum naqueles pessimistas reclamões que sempre têm uma queixa a relatar e deve fazer o maior sucesso nessas igrejas que adoram culpar o diabo por tudo.

Nesse aspecto, acredito que a questão também se liga um pouco ao tema da inveja. O que me lembrou uma fala do Leandro Karnal em um Café Filosófico: Para observar quem são seus verdadeiros amigos ele sugere um “teste Heidggeriano”ótimo: Diga que está tudo bem e você está numa ótima fase e observe a reação dos outros, as sutis. Se a miséria e os problemas despertam a solidariedade e o desejo de ajudar é um tanto lógico esperar que o sucesso eventualmente desperte o efeito contrário. O que levaria a alguns possíveis avisos pessimistas de seus amigos

Por outro lado uma certa dose de pessimismo também pode ser uma fonte de reflexão para a melhoria pessoal o que se conecta com o argumento número 3, o que não é necessariamente ruim. Na verdade essa não é uma discussão de valor (pessimismo ruim x otimismo bom).

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Autor: Carlos Ruas

3. Pessimismo requer ação enquanto o otimismo significa deixar as coisas como estão. O pessimismo ganha a nossa atenção porque geralmente envolve a tomada de ação. Enquanto o otimismo é mais “de boas” sobre manter o curso, como observado pelo foco de longo prazo do otimista descrito antes. E manter as coisas como estão é algo muito mais fácil de ser ignorado. Em termos de ganhar nossa atenção nada têm tanto apelo como um problema que deve ser resolvido. Mas, por segurança,  é preciso lembrar  que o otimismo pode ser uma desculpa para a preguiça ou auto indulgência.

4. O otimismo soa como conversa de enganador, enquanto o pessimismo soa como alguém tentando te ajudar. O que de vez em quanto acontece mesmo. Acredito que os estelionátrios são pessoas otimistas em sua capacidade de convencer suas vítimas que vão ter altos ganhos com pouco esforço, além de mestres em despertar o otimismo da vítima. Por outro lado Morgan considera o otimismo o padrão correto e observa que o pessimismo pode ser um argumento tão bom quanto qualquer outro, especialmente em torno de assuntos emocionais como dinheiro e política. O medo também vende que é uma beleza.

5. Pessimistas extrapolam tendências presentes sem considerar como os mercados se adaptam. O que é importante porque visões pessimistas frequentemente começam com um fundamento em análises racionais. Assim, o aviso parece ser tão racional quanto assustador.

Aqui precisamos entender que nosso autor é da área de economia e mercado. Tanto que em seus exemplo ele mostra uma declaração de um ambientalista, feita em 2008. Que considerava que em 2030 a China precisaria de 90 milhões de barris de petróleo por dia e, na época, a produção mundial total era de 85 milhões com poucas mudanças. E ele estava certo, o mundo ficaria sem petróleo naquele cenário. Porém, não é assim que os mercados funcionam. A falta fez o preço subir o que incentivou o desenvolvimento de novas técnicas de perfuração, como demonstrado pela descoberta do pré-sal e o expertise brasileiro em coleta de petróleo em mares profundos, e agora temos petróleo sem muito problema. Na verdade, o problema dos últimos anos foi que temos petróleo até demais e o preço despencou. O Rio de Janeiro que o diga.

Outro exemplo é a velha previsão de Malthus sobre o crescimento da população e a produção de alimentos, uma previsão que teve suas pernas quebradas com a revolução verde na agropecuária. Na qual o Brasil faz uma honrosa participação, especialmente através da Embrapa. Essa falha em considerar a capacidade de adaptação é uma causa comum para o fim da maioria das previsões pessimistas.

Conclusão

Ainda assim o autor deixa claro que é preciso ouvir os pessimistas. Como elencado no item 3, eles mostram onde é preciso agir e avisam sobre as pedras no caminho à frente. Até para voltarmos a ter razões para sermos otimistas. Nesse caso a questão não é o pessimista ser charmoso, é ele estar certo ou não.Não ignore os pessimistas, apenas não se deixe levar por eles e, de forma saudável, desconfie de suas agendas. Afinal, como sugerido no livro O Otimista Racional mesmo que os indícios específicos possam ser ruins, talvez o quadro geral seja melhor do que aparenta.

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