Uma controvérsia que rendeu muito pano pra manga na eleição para prefeito em 2016 foi a questão da redução de velocidade nas marginais de São Paulo como forma de melhorar o trânsito. A medida, já adotada pelo então prefeito Haddad, tornou-se uma promessa de campanha para Dória, que acenava com a revogação da redução de velocidade.

Como percebemos o trânsito

Para a maioria dos motoristas a redução de velocidade para 50km/h foi vista como um insulto. Como se o trânsito normal já não fosse ruim o suficiente. Ainda por cima o número de radares aumentou em 405%, uma combinação que levou o número de multas para a estratosfera e o humor dos motoristas para o centro o centro da terra. A medida foi tão impopular que a OAB acionou a justiça contra o prefeito, que já havia arranjado um boa briga ao tirar espaço dos carros para ciclovias. O argumento seguia a lógica abaixo.

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fonte: G1

Uma teoria discorda do senso comum

Porém, vários estudos observam uma realidade que não bate com essa idéia que, diga-se de passagem, parecia bem verossímil. A idéia de que a redução de velocidade máxima na verdade melhora a fluidez do trânsito fazendo com que os veículos andem mais rápido. Primeiramente é preciso mudar o foco da velocidade máxima para a velocidade que realmente vai fazer diferença, a média. No caso de São Paulo essa velocidade é de horríveis 6,9 km/h no final da tarde e comparando com os anos anteriores, a tendência é de queda. Pelo que entendi a idéia é que o que provoca a redução de velocidade em vias rápidas é que existem uma preferência maior por essas vias, são mais rápidas, e a diferença de velocidade entre diversos veículos somada à uma eventual inaptidão de alguns motoristas criaria gargalos de trânsito que logo se tornam engarrafamentos e acabam reduzindo a velocidade média para todo mundo. Em outro estudo a mudança de velocidade simplesmente não faz diferença na capacidade da via, não prejudicando o trânsito, mas reduzindo a gravidade de acidentes.

E isso sem contar que velocidade menores reduzem a gravidade de acidentes e que velocidades mais baixas também reduzem a probabilidade de acidentes ocorrerem, o tempo de reação dos motoristas aumenta. Qualquer um que já andou em vias expressas e muito cheias sabe que é razoavelmente fácil ocorrer um engavetamento envolvendo vários veículos e atrapalhando a vida de todo mundo.

Ainda assim, é difícil para o cidadão comum aceitar que um ganho sutil como o aumento de velocidade média ou um provável como a redução de acidentes (todo mundo acha que nunca vai sofrer um acidente) vale a pena. O ganho aparenta como algo abstrato frente ao incômodo real provocado pelo engarrafamento nosso de cada dia. Tanto que o novo prefeito de São Paulo, parece ter perdido seu ardor em alterar as regras.

A simulação

Pessoalmente, o argumento final foi ver uma simulação de trânsito interativa desenvolvida por esses alemães e seu cientificismo maravilhoso. É possível se alterar diversas variáveis, como o número de caminhões ou a quantidade de veículos. Apesar de não ser escrita em português, os controles são razoavelmente intuitivos e fica fácil de entender o funcionamento permitindo entender que o trânsito é resultado de uma complexa equação que têm diversas variáveis, como o número de veículos, o tipo, o desenho da pista, a velocidade máxima, a média e outros fatores. É uma forma simples de descrever um sistema complexo e nos mostra como respostas simples e senso comum podem limitar nossa percepção. Tudo bem que, como mostra Cathy O’Neal, a ciência não é neutra e a matemática também não, mas ainda é um ponto válido para começar uma reflexão.

Um paralelo com o passado

De qualquer modo a controvérsia era esperada e a resistência algo previsível, quando os primeiros radares surgiram também se iniciou a  Campanha Paz no Trânsito, envolvendo o GDF (o governo Cristovam Buarque), imprensa e sociedade, que implementou algumas políticas consideradas controversas na época:

  • com os radares, chamados de “pardais” pelos candangos, veio o controle de velocidade;
  • o respeito à faixa de pedestres, com preferência para os pedestres;
  • capacetes obrigatórios para motociclistas
  • o uso obrigatório do cinto de segurança e etc.
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Uns dizem que a indútria de multas é mito, outros que existe mesmo. Fonte: FlatOut.

No início, esse tsunami de mudanças foi considerado impensável para uma cidade onde todo mundo considerava 60km/h uma velocidade perfeitamente razoável, para o estacionamento. Muitos achavam que as leis não pegariam. Me lembro de gente indignada com a idéia de parar numa faixa para que pedestres atravessassem a rua em vários momentos eu fui um desses. Mas com disposição do governador e da polícia em multar uns bons milhares de motoristas por dia a população começou a ver vantagens e a aceitar melhor as mudanças. Apesar dos resmungos eventuais contra a indústria de multas que, em alguns casos acredito que exista mesmo, a cidade teve um trânsito um pouco mais civilizado e uma sensível redução no número de mortes por acidente. O que foi providencial  se considerarmos o grande aumento no número de carros e motoristas que veio com a primeira década do século XXI. De certa forma as leis mais rígidas tornaram o trânsito do Distrito Federal um pouco mais civilizado quando comparado com o de outras capitais brasileiras. E permitiu uma aplicação mais tranquilas em casos posteriores, como a implementação da lei seca para motoristas, que também reduziu o número de mortes no trânsito. O resultado de determinação das autoridades que foi assumido pelas sociedade como vantajoso com o passar do tempo. Nem sempre fazer o certo é vai ter fazer ser popular.

Conclusão

Mudanças em políticas públicas invariavelmente vão desagradar alguém e, em alguns casos, por “alguém” entenda muita gente. Ainda assim, como diria Milton Friedman, políticas públicas devem ser julgadas por seus resultados e não por suas intenções e em certos casos é preciso observar se os resultados compensa. Talvez a redução de velocidade máxima não seja isso tudo o que especialistas e alemães sugerem, mas é preciso dar tempo para que os resultados apareçam. O desagrado de hoje pode resultar em um mundo menos perigoso amanhã.

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