E no dia 13/10/16 atendendo a um pedido do Hospital da Criança José de Alencar, levei o jogo de Cerrado para fazer parte de um evento com jogos de tabuleiro para os pacientes, acompanhantes, voluntários da Abrace e funcionários do Hospital.Em essência, fazemos como trabalho o que a maioria das pessoas faz como diversão, nós jogamos. E novamente tive o apoio essencial do Luis Cláudio da Orgutal que, além de ser um voluntário, faz a coisa funcionar junto comigo e a Suely, coordenadora de voluntariado do hospital. Ele trouxe e montou as mesas, sugeriu outros voluntários e trouxe a maioria dos jogos que foram empregados no dia. Além da equipe do hospital que nos ajudou e até ofereceu um lanche e uma razoável quantidade de água, que é essencial para quem mora numa cidade com pouca umidade e vai passar uma tarde inteira falando.

Como não é a primeira vez que participo tive o prazer de ver o processo “correr sobre os trilhos” sem muitos problemas. E é recompensador ver que a idéia está funcionando. Como em outras vezes os voluntários novatos se adaptaram rapidamente: chegamos, montamos as mesas, higienizamos os jogos e cada um ficou responsável por  apresentar um jogo aos visitantes, ensinar as regras e jogar com eles. Como o público do hospital é bem variado, flexibilidade e jogo de cintura são essenciais. Simplesmente não dá para planejar ou escolher quem vai ser seu parceiro. Esse é um daqueles eventos um tanto caóticos em que gerência conta mais do que planejamento meticuloso.

Para descrever a variedade: poderíamos ter a nossa frente desde uma criança de 3 anos até a sua mãe com seus 40 e poucos anos, em um certo momento poderíamos jogar com uma pessoal ou com o máximo que o jogo permitia, com alguém esperando a sua vez. Assim, o processo precisa ser simples para ser robusto o suficiente para dar conta do recado.

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A equipe
O lado bom é que iniciativa é algo que não falta entre os voluntários. Muitas vezes a criança que quer jogar está muito abaixo da faixa etária para o qual determinado jogo foi projetado. E nesse ponto é função do facilitador compensar as limitações do jogador e manter a experiência interessante para todos. É uma experiência intensa para os voluntários e mesmo para mim, que já faço isso há algum tempo, especialmente devido à disposição incansável das crianças. Pessoalmente ,achei mais intenso que no ano anterior e isso considerando que eram 9 voluntários trabalhando de forma praticamente ininterrupta. Algumas crianças jogavam, iam para suas consultas e depois voltavam com vontade de continuar.  Tanto que uma das voluntárias, que trabalha com a Ludoteca BCG e também é experiente em apresentar jogos e explicar regras para adultos considerou essa experiência muito mais complexa e exigente do que a da loja.

Em termos de tipo de jogo, esse é o reino dos jogos casuais, com regras simples e tempos de jogo curto, no máximo uns 30 minutos. As crianças ficam bem estimuladas pela variedade de jogos que nunca viram. Jenga continuou o seu sucesso, atendendo todas as idades. Loopin Chewie é algo que pode ser explicado em uns 30 segundos e como Pass the pigs está quase no limiar entre jogo e brinquedo.

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O trabalho
No meu caso fiquei com o meu jogo de Cerrado, que dessa vez atraiu as crianças mais velhas e me deu oportunidade de usar o jogo com uma complexidade maior do que geralmente uso nos sábados. Crianças dos 10 anos em diante podem entender as regras completas, ainda que o ideal sejam 12 anos. Mas, ainda assim, elas já conseguem criar estratégias variadas dentro da partida e acabam encontrando as diversas situações de aprendizagem que foram projetadas para o jogo. Tanto que uma das partidas teve um excelente controle de áreas degradadas. Do tipo que eu não via há tempos. E isso considerando que eu simplifiquei a explicação inicial das regras, já que a rotatividade de jogadores é alta em um evento como esse e uma explicação de regras muito longa pode deixá-los desmotivados. Sempre há outros jogos disponíveis e eles querem jogar todos. Como diz o Aldricht em The Complete Guide of Simulations & Serious Games  a explicação das regras é a parte mais tradicional de um jogo, em termos de ensino, mas é essencial para fazer toda a experiência funcionar.

Avaliação e o futuro.

No geral, o nosso modelo de trabalho está razoavelmente maduro, funciona bem, demanda pouco esforço para montar e desmontar e os participantes saem satisfeitos. Em termos de melhorias talvez possa incluir mais voluntários para permitir um certo grau de revezamento e centrar nos jogos de maior sucesso, com uma preferência por jogos que envolvam mais jogadores. A melhor forma de se interessar por um jogo é ver ele sendo jogado e a experiência fica bem mais interessante com várias pessoas. Talvez um meio de avaliação no futuro, mas é algo complicado já que boa parte do nosso público não sabe lidar com questionários.

E uma das minhas alegrias foi ver que esse pequeno projeto pessoal foi a semente para outras coisas legais. Como árvores e também a parceria entre a Orgutal e a Abrace, que vão levar o uso de jogos de tabuleiro e o voluntariado a um novo patamar. Não sou mais um cara sozinho com uma sacola de jogos, agora somos muitos. Como diria Sócrates em “O Banquete”: amor não é o que está em você, mas o que for além de você.

Conclusão

Foi um evento simples, mas divertido, que por algumas horas colocou os pacientes em situações variadas nas quais a doença que os levou ao hospital simplesmente não importava. Pessoalmente é uma satisfação ver algo imaginado se tornar real. Não vamos curar ninguém, mas já ficamos satisfeitos deixar uma boa lembrança.

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