Sleeping Student

fonte: sites.psu.edu/siowfa15

Um consenso que beira o clichê é que a educação brasileira é muito ruim e precisa ser mudada. Nesse aspecto, 2016 foi uma no pródigo idéias, como a proposta de reforma do ensino médio comentada por aqui em outro artigo.  Para resumir a minha opinião as medidas são ousadas e não vi muito esforço para explicá-las de forma mais embasada.

Por outro lado, existem diversas medidas simples, com diversas evidências favoráveis que poderiam melhorar o rendimento de nossos estudantes. Uma delas está ligada ao horário das aulas e, principalmente, ao sono.

Se no caso das crianças acordar cedo é comum e elas sejam mais ativas no período da manhã. Segundo Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono, a situação muda quando chega a adolescência devido a uma necessidade de sono diferente, tanto que ele recomenda que o ensino médio seja vespertino. Assim, mesmo no Brasil os estudantes não estão dormindo o suficiente. Com a devida ressalva que o objetivo deste artigo não é criticar quem acorda cedo, mas mostrar que o que funcionada em determinada fase da vida pode não funcionar em todas. A grande questão não é que horas as pessoas acordam, mas o quanto elas dormiram.

Dormimos pouco e mal

Pesquisas dos últimos anos vêm observando que os adolescentes tem um ritmo de sono diferente dos adultos e o problema é que as escolas, planejadas por adultos, seguem o ritmo de sono dos adultos e não de seus alunos adolescentes. Usando dados do Departamento de Educação Americano, o Centro de Controle de Doenças fez um estudo grande, envolvendo mais de 30.000 estudantes, onde observaram que a maioria das escolas começava antes de 8h da manhã. Sendo que a Associação Americana de Pediatria não recomenda que os estudos comecem antes de 8h30 para garantir que os alunos tenham dormido o suficiente. Sob esse estado privação ou, déficit de sono praticamente constante, considera-se que os estudantes tem mais chance de:

  • ter sobrepeso;
  • fazer menos atividade física;
  • sofrer depressão e/ou ansiedade;
  • ter resultado acadêmico inferior (perceba que só esse sintoma já deveria ser razão para a escola começar mais tarde);
  • sem contar o riscos de ferimentos, que aumenta em pessoas sob privação de sono.

Segundo o estudo do CDC, os estudantes adolescentes precisam de algo em torno de 8h30 até 9h30 de sono diário para evitar esses sintomas. Talvez alguém se pergunte por que eles simplesmente não dormem mais cedo. Mas o problema é também está se observando que adolescentes realmente tem problemas para dormir cedo, com o agravante do uso constante de celulares e videogames à noite.

Segundo Wei Shin-Lai da Universidade Estadual da Pensilvânia os estudantes simplesmente não dormem o suficiente e sugere que aproximadamente 15 a 25% dos estudantes entre 15 e 25 anos são definidos pelos estudiosos do sono como “corujas”, vivendo em ciclos de 26 horas em vez das usuais 24 de todo mundo. Assim, uma “coruja” que acorda as 8 horas provavelmente vai dormir por volta das 2h da madrugada em vez de meia-noite.

A quantidade ideal de sono vai mudar de acordo com a pessoa, mudando de acordo com a idade e também com o sexo. Lai afirma que mulheres que já tiveram seu estirão de crescimento dentro os 10 ou 12 anos estarão bem com algo por volta de 7 ou 8h de sono. Enquanto homens, que costumam a ter um estirão de crescimento por volta dos 16  ou 17 anos vão precisar de algo em torno de 9 horas de sono.  E o tempo para se recuperar de uma noite sem dormir para estudar seja algo em torno de 3 dias. Pensando assim, talvez os adolescentes não sejam tão vagabundos quanto se gosta de acusar.

Imagino que alguém (caso o leitor seja esse alguém) deve estar se lembrando que acordava lá pelas 5 da manhã, ralava na escola, no trabalho ou em ambos e hoje em dia têm seu emprego e sua vida. Para esse alguém eu pergunto: E se esse sofrimento de acordar cedo, na verdade, tenha piorado sua desempenho de forma que hoje você é menos do que poderia ter sido? A idéia pode soar deprimente mas entender isso é importante para garantir um futuro melhor para as próximas gerações.

Para ilustrar como isso é algo comum, nos EUA, quase 40% dos estudantes adolescentes do sexo masculino declaram dormir menos de 7 horas por noite. Se jogarmos a situação para o caso brasileiro a situação provavelmente seria ainda pior, porque a maioria das escolas começa às 7h e os estudantes certamente devem acordar ainda mais cedo, devido ao tempo perdido no trânsito.

Um mapa das melhores horas para estudo

Como comentado no blog Psicóloga+Doutoranda que me inspirou para esse texto, estudar já é um processo muito exigente em termos de concentração e energia, imagine o prejuízo resultante de fazer isso sem ter dormido o suficiente. Através da infografia abaixo ela demonstra a importância do sono e os mecanismos biológicos que vão impactar na aprendizagem.

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Conclusão: estudantes deveriam dormir mais e ir para a escola um pouco mais tarde

Enfim, novamente acredito que temos um caso de pesquisas chatas e seus resultados que contrariam o senso comum. Pessoalmente soa um tanto insano e assustador pensar que mantemos gente para fazer uma atividade complexa e importante para a sociedade sob condições desfavoráveis simplesmente porque “sempre foi assim”. Na verdade, esse padrão “8h ás 18h” de todo mundo acordando no mesmo horário produzindo do mesmo jeito vem sendo cada vez mais questionado. Relembrando, não é apenas sobre que horas você acorda, a verdadeira questão é se dormiu o suficiente.

Uma mudança nos horários dos estudantes talvez não interesse nem aos pais ou escolas devido ao impacto inicial na logística. Mas creio que seria um excelente ponto para experimentos e comparações para conferir se a hipótese de mudança no horário dos estudantes pode trazer uma melhoria significativa no desempenho. No final das contas é um cálculo de custo x benefício que pode significar uma melhora significativa no desempenho e na qualidade de vida de nossos estudantes.

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