Para variar, temos uma renca de matérias sobre a situação da Educação no país ao sair o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2016 e a proposta de mudança do Ensino Médio numa mesma semana. Para entender o que é o Ideb eu recomendo esse artigo.  Esse índice é considerado tão importante porque define muito de nosso futuro: bons alunos na educação básica significam bons universitários e bons profissionais nas décadas à frente. É uma solução demorada, mas é sustentada. O que pode ser observando neste ótimo artigo que descreve como os investimentos nos primeiros anos de vida fazem toda a diferença para indivíduos e sociedade. Ao mesmo tempo, os problemas de formação nessa fase certamente vão impactar até na vida adulta.

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Escola, esse local emocionante – autor: Bill Waterson

A metade cheia (ou não tão vazia) do copo

Apesar da maioria considerar os dados desanimadores é possível ver um detalhado contraponto à essa tendência no blog  Avaliação Educacional, a.k.a. Blog do Freitas  que levantou alguns dados interessantes para colocar em perspectiva a situação do nosso sistema de ensino. Ele mostra que, apesar de estar abaixo da meta, a situação pode não ser tão ruim assim. Dentre as razões do autor vou ressaltar:

  1. O Brasil vem melhorando seu desempenho sistemática e consistentemente no ensino fundamental desde 2003. Isso é muito importante, pois trata-se da base da formação. Como podemos ter um ensino médio avançado, sem uma educação fundamental que dê base? O Brasil é o país que mais cresceu nos últimos anos no ensino de matemática, segundo a OCDE.
  2. Neste mesmo ensino fundamental, nas séries iniciais, cerca de 70% das escolas melhoraram seu desempenho na atual edição do Ideb, quando comparamos com o Ideb anterior de 2013, onde houve 58% de melhora: um aumento de 12% em escolas que melhoraram.
  3. Ainda neste mesmo ensino fundamental das séries iniciais, o próprio Ideb das escolas públicas em média aumentou. E no ensino fundamental das séries finais também. Não há queda no Ideb do ensino fundamental das escolas públicas.
  4. Embora o ensino fundamental e o médio sejam uma responsabilidade dos Estados e não apenas do governo federal, dos 27 estados brasileiros, 20 melhoraram o Ideb do ensino médio em relação a 2013.
  5. O Ideb de 2015 é igual ou maior do que o Ideb de 2013 em todos os níveis de ensino  das escolas públicas (fundamental e médio).
  6. No ensino médio, apesar de cairmos em matemática de 270 pontos em 2013 para 267 em 2015 aumentamos a média em português de 264 pontos para 267. Pode-se dizer que este é o único dado desabonador: a redução da média em matemática no ensino médio. Mas ele não anula os outros.

Na minha opinião o item 4, não é exatamente positivo, afinal a idéia é que todas as escolas melhorem, inclusive as particulares. Mas, a luz desses argumentos do Freitas, podemos até considerar que a educação brasileira, por pior que esteja, está melhorando. Ok, mas ficam várias perguntas, como:

  • Está  ocorrendo na velocidade desejada?
  • Essa melhoria é sustentável?
  • Estamos na direção certa?

A metade complicada

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fonte: Apostila do Prof. Yoshida

As respostas as perguntas anteriores são complicadas porque os estudos nessa área são difíceis. Estamos falando de milhões de alunos com milhares de variáveis afetando seu desempenho e, em muitos casos, leva um bom tempo para se avaliar os impactos. Avaliações na forma de testes padronizados como ENEM, PISA etc. são importantes ferramentas de pesquisa e comparação mas, são instrumentos limitados e podem não detectar várias coisas importantes que estão acontecendo nas escolas. Basear as políticas públicas com zelo excessivo nesse tipo instrumento, ignorando suas limitações é algo temerário (os trocadilhos ficam por conta do leitor).

Em outro texto comentei sobre casos documentados de idéias que pareciam boas no início e se mostraram ruins no longo prazo. Só essa possibilidade já é um tremendo complicador. Mesmo que novas políticas sejam implementadas corretamente, o que, por si só, é um trabalho longe do trivial, os indícios de seu impacto não são fáceis de se observar e mensurar. Nesse ponto, o Blog do Freitas faz um saudável contraponto com seu ceticismo em relação à provas ao observar que existem uma série de fatores que não são captáveis por provas. Entrando um pouco no aspecto pesquisa, acredito que a pesquisa quantitativa, como a que é feita por testes padronizados é ótima para mensurar, observar algo que o pesquisador já acreditava existir de antemão. Já a pesquisa qualitativa, aquela que você faz através de entrevistas, filmagens, questões discursivas, redações e etc. é exploratória. Ela serve para você descobrir coisas que não o pesquisador não necessariamente sabia que estavam acontecendo. Em suma, são métodos complementares.

Portanto, acredito que políticas públicas de educação não devem se basear apenas em resultados imediatos de avaliação sob o risco de se perder algo importante e não aparente que pode fazer toda a diferença no objetivo principal da educação: formar cidadão melhores. Educação é um meio e não um fim em si mesmo. E temos o péssimo hábito de passar a considerar testes padronizados como um fim em si mesmo. Qualquer um que já viu um cursinho para vestibular, ENEM, concurso ou o-teste-da-vez pode observar isso.

Sim, os resultados das escolas do Ceará (melhores notas do Ideb) são lindos, mas sem pesquisas aprofundadas, e demoradas, não saberemos exatamente o que provocou esses resultados. E, principalmente, precisamos saber se é realmente possível replicar o trabalho deles em outros lugares. Apesar das pessoas acharem que a escola é uma indústria, ela não é. O que aconteceu em um ambiente escolar não necessariamente pode ser replicado em outro. A nota do Ideb é só um indicador, não descreve tudo que está acontecendo. Há muitos fatores internos e externos que impactam o desempenho escolar e, em alguns casos, mais até que a própria escola.

O navio

O sistema educacional de um país continental é algo como um transatlântico. Um mudança de rota exige o movimento de mecanismos imensos, a logística dessa máquina é complicada e tudo tem que ser bem planejado. Enfim, algo desse tamanho não manobra rápido e rotas mal calculadas podem ser desastrosas. Nesse aspecto, o que acho assustador é que o governo está me lembrando o capitão Schettino e nossa educação o Costa Concórdia.

Em 2016 o governo entrou com uma medida provisória propondo mudanças importante no ensino médio. O próprio Freitas concorda que o modelo atual não é exatamente uma maravilha. É fato que mudanças são necessárias, como observado aqui . Eu mesmo simpatizo com a idéia de se diferenciar as matérias de acordo com os interesses pessoais ou vocação do aluno. Ao contrário de algumas críticas histéricas (redes sociais são ótimas para propagar histeria) que dizem que certas matérias vão acabar. Elas só vão deixar de ser obrigatórias, o que pode até melhorar a qualidades das turmas, quem estiver lá por escolha e não obrigação. Porém, mesmo que isso funcione em outros países, alguém já testou isso por aqui? Pelo menos alguém já estudou para ver o que os envolvidos (professores, pais e estudantes) pensam da idéia? Sobre a consulta aos alunos o Porvir apresentou uma ótima idéia e também uma bela infografia.

Outro ponto, como dizem os americanos*: Amadores discutem táticas, mas profissionais estudam logística. Mesmo que as mudanças propostas pelo MEC sejam simplesmente geniais ficam várias pontas soltas a serem amarradas mais à frente, a lista abaixo está longe de ser completa:

  • Como será a transição para esse novo modelo?
  • Existem salas e materiais suficientes? Caso negativo, como serão feitos e como serão implantados?
  • Como ficarão os professores e suas carreiras? Haverá demissões? Contratações?
  • Como serão treinados os professores para essa nova realidade? Especialmente os que já estão trabalhando
  • Como os conteúdos serão organizados por escola? Vão existir escolas para quem tem preferência por exatas e outra para humanas ou fica todo mundo junto?
  • As demandas do mercado de trabalho nos últimos anos apontam para profissionais capazes de trabalhar em grupo e com diferentes profissões. Como isso será trabalhado nas escolas?
  • Como vão ficar os assuntos transdisciplinares, como educação ambiental?
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Eu aposto que todo mundo achou que colocar o Titanic em velocidade máxima era uma excelente idéia. Antes dele bater, claro.

Ao mesmo tempo eu não vi soluções para alguns problemas de longa data:

Para adicionar mais pimenta na reflexão, o Porvir (via Mercado Popular) propôs algumas idéia simples que teriam grande impacto.

Eu torço para que tudo isso e muito mais já tenha sido cogitado e planejado, mas é difícil não ser cético com uma mudança tão súbita. Enfim, essas preocupações são essenciais. Afinal, ainda que o sistema atual seja ruim, nada é tão ruim que não possa piorar e, como agravante, eventuais erros nessas reformas vão ter impactos imensos e prolongados.

*”Amateurs talk about tactics, but professionals study logistics.” frase dita em 1980 pelo General Robert H. Barrow, então comandante do USMC.

Atualização

Wagner Victer, secretário de educação do Rio de Janeiro em 2016, escreveu um artigo sobre os impactos da MP. Onde ele descreve de forma excelente alguns dos complexos desafios logísticos que serão trazidos pela MP do ensino médio e os novos custos consequentes à essa mudança de rota. Ilustrando muito bem a complexidade da mudança de rota no “navio” citado acima.

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