narcos1

E em 2016 chegamos à segunda temporada da série Narcos, sobre o narcotráfico nas américas. Essa série americana com co-produção colombiana e brasileira  quebrou algumas regras padrão da TV, como o uso de narrador. Resultando numa visão sui generis da América Latina, pelo menos para a TV.

Uma série mais americana que norte-americana

Dentre os muitos elementos que gosto na série Narcos  está no fato de ser  uma combinação entre o apuro técnico da produção americana e a direção do brasileiro José Padilha (em alguns episódios, mas ele também é produtor) combinada em uma história colombiana. O resultado é uma história latino-americana como só poderia ser contada com (vários) dedos de gente daqui.

O filme descreve as diversas maquinações políticas e econômicas em torno do narcotráfico e como ela envolve pessoas  que lucram ou são destruídas no processo. Avançando além dos clichês de sempre, da visão paternalista, condoída ou pontuada por desprezo que eventualmente vemos quando se retrata a América do Sul. É claro que ainda existe pobreza, corrupção e desigualdade de renda, mas o pobres não são apenas vítimas e os ricos não são apenas elitistas fúteis. Somos apresentados como mais que um estereótipo infantilizado. Os latino americanos são mostrados como algo mais que sotaque carregado, barraco ou roupas de gosto duvidoso.  As personagens, sejam colombianas, chilenas, brasileiras ou americanas são pessoas, em suas qualidades e inúmeros defeitos.

7444d2a5dea434c0f1ad1ff8b2ab55ddÉ difícil falar em heróis ou vilões, porque o mundo mostrado em Narcos é mais complexo que isso. O que torna tudo ainda mais interessante, seja por seus vilões esperados, como seus heróis improváveis, como o policial violento lutando impiedosamente contra os traficantes, o agente da DEA fazendo seu trabalho, como pelo político que precisa colocar até seus amigos em risco ou selar o destino de pessoas inocentes por uma vitória maior. Nesse aspecto, eu acho que o César Gaviria  não deve ter ficado chateado com a série, nem vários policiais.

Enquanto assistia me lembrava de Perigo Real e Imediato do Tom Clancy, que depois virou um filme com Harrison Ford e não pude deixar de rir comigo mesmo ao perceber como o Clancy me soa profundamente ingênuo em sua descrição da Guerra às Drogas e da América do Sul. Em Narcos há algo muito mais complexo, detalhado e até cínico em relação ao tráfico e a realidade da vida ao sul do equador. Apesar das críticas colombianas à série achei que o país e seus cidadãos foram mostrados sob uma boa luz. O país não é uma donzela em perigo e os Colombianos não são idiotas esperando para serem salvos. São sujeitos de sua própria história, no melhor e no pior. Eles desejam, sangram e lutam pelo que consideram certo. Há colombianos corajosos, covardes, inteligentes ou estúpidos, humanos. Essa é uma história sobre a Colômbia, portanto nada mais justo que eles sejam mais do que figurantes, sejam os honestos ou os terríveis.

Um traficante humano, até demais

narcos-season-2Apesar de entender as críticas locais ao espanhol do Wagner Moura eu considero a atuação dele fantástica.  Creio que um dos efeitos mais estranhos do carisma do ator é que ele faz você gostar do Pablo Escobar. Algo particularmente perturbador quando você vai entendendo que aquele cara que você considerou legal à primeira vista provocou a morte de milhares de pessoas, muitas vezes por capricho. E nem existe o consolo de se pensar que fizeram por mercer. Muitas delas eram gente simples ou mesmo inocentes que cometeram o erro cruzarem seu caminho ou serem eventualmente úteis e descartáveis. E tudo isso sem deixar de ser um sujeito que valoriza a família. Ele é descrito como um ser humano, em qualidades e defeitos. Ele não é um louco, mas um sujeito que toma decisões, muitas delas terríveis. Consigo imaginar alguns chefes e gestores no lugar dele, do tipo que também pegam os filhos na escola, compram presente para a esposa e etc. depois de destroçar e passar por cima de um monte de gente feito um trator durante o expediente. E isso que torna Escobar ainda mais assustador em sua humanidade.

Uma ironia é que a personagem Escobar tornou-se tão forte que muita gente passou a acreditar que a série é sobre ele. Quando na verdade é sobre o narcotráfico. Assim, outro mito fica para trás: aquela idéia de que se você derrotar o vilão o mal acaba e a batalha será vencida. Acredito que o fim de Escobar nem sequer alterou os preços da cocaína no mercado americano e o seu vazio foi rapidamente preenchido por outros traficantes. Um exemplo real foi a destruição da mega refinaria de Tranquilândia, cuja destruição em 1984 pouco afetou o tráfico. Para a frustração do DEA e do governo americano. Que anos depois da morte de Escobar ou mesmo com os fim das FARC, continua seguindo firme e forte, enviando toneladas de drogas todos os anos.

E na escola?

Como não podia deixar de ser vejamos se existe algum potencial educativo. Séries baseadas em fatos reais são um terreno particularmente movediço para o ensino. Porque elas não foram planejadas para serem uma descrição histórica fiel, mas apenas conscientes o suficiente para atrair a atenção da audiência.

Por outro lado o fato de serem convincentes aumenta em muito a chance de que sejam consideradas como verdade, mesmo que de forma inconsciente. Digamos que elas acabem ficando com uma força retórica muito forte. Tanto que o filho de Escobar listou uns 28 erros só na segunda temporada e entendo perfeitamente a discordância de algumas pessoas que viveram aquele período. O que não é um problema para a produção do Netflix, já que estão fazendo uma versão assumidamente romanceada da história. Como dito no início: os fatos reais foram romanceados para fins dramáticos. Assim,eu recomendaria para nível superior, no máximo final do nível médio e considero que seu uso seria, no máximo, paradidático.

Exercícios escolares

A série poderia ser empregada para despertar o interesse sobre o período para estudos sobre ciência política, sociologia ou história da América do Sul. Um bom exercício seria justamente esse que o filho do Escobar fez: ver a série e enumerar onde ela está certa e onde não está.

Sobre a pessoa do megatraficante, que chegou a ser o sétimo homem mais rico do mundo. Ele me parece o caso de um gênio tático a quem faltava a visão estratégia. Brincando um pouco de história alternativa. Como teria sido a Colômbia se Pablo Escobar tivesse se tornado um estadista?

Outro ponto seria analisar as políticas relacionadas ao narcóticos. No ocidente se questiona cada vez mais a eficácia da chamada guerra às drogas, depois de décadas de leis duras e presídios lotados, com vários países fazendo experiências de legalização ou, pelo menos, de controle de danos em relação ao tráfico. Enquanto na Ásia e no Oriente Médio alguns países, como Indonésia e Filipinas, tem posturas particularmente duras sobre o assunto, países. Incluindo a aplicação da pena de morte para traficantes. Observar as vantagens e problemas de cada abordagem pode ser um ótimo tópico para discussão.

 

 

Anúncios