Anos atrás conheci a idéia de alfabetização ou escolarização precoce. Em princípio ,a idéia me parecia genial. Quem não lembra que Mozart começou a tocar aos 4 anos e se tornou o gênio que conhecemos? Uma criança que começou a escrever com 3 anos já teria quase 10 anos de experiência em leitura e escrita no sétimo ano. O que me parece ser algo vantajoso para uma futura carreira profissional. Se extrapolarmos a idéia para a matemática e outros tópicos a coisa parece ficar ainda melhor. Tanto que várias escolas adotaram a idéia de alfabetização precoce e alguns professores relatam até pressão dos pais para começar o ensino formal seus filhos tão logo quanto possível.

Porém é preciso entender que tudo tem seu custo e crianças são diferentes de adultos. Uma coisa que mudou e continua avançando são os estudos sobre como aprendemos e, especialmente, como as crianças aprendem. E isso não ocorre só através de pedagogos mas de forma multidisciplinar, envolvendo diversas neurociências. Se alguém fizer uma rápida pesquisa sobre alfabetização precoce vai descobrir que a maioria dos textos encontrados consideram a proposta controversa, nas notícias comuns, ou ruim nos textos de especialistas como Rosely Saião e outros.

Para deixar claro que não estou me referindo apenas à leitura e escrita, podemos considerar também o ensino de matemática. Vamos considerar a alfabetização precoce dentro de algo como o ensino de habilidades acadêmicas (leitura, escrita, tabuada etc.), desde o período pré-escolar, que seria antes do ensino fundamental no Brasil, começando aos 6 anos de idade.

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O dr. Peter Gray fez um levantamento de estudos sobre o assunto no exterior e os resultados não foram animadores. Os resultados observados têm sido consistentes, mesmo se comparando diferentes estudos. Segundo ele, se há uma coisa que o treinamento dessas habilidades acadêmicas na infância certamente produz é dano ao cognitivo, emocional e até mesmo acadêmico no longo prazo. Vários estudos controlados [2]comparam os efeitos da educação acadêmica precoce; com abordagens mais lúdicas, centradas nas brincadeiras infantis. A educação acadêmica precoce até oferece ganhos iniciais, mas eles desaparecem com o passar do tempo e, em alguns casos, podem até ser revertidos. Porém o pior é que esse modelo pode produzir danos de longo prazo, resultando em pessoas pouca habilidades social e baixa resiliência emocional, além dessa vantagem acadêmica possivelmente sumir com o tempo. Como eu disse antes, nada vêm de graça, nem mesmo em termos de aprendizagem.

Alguns estudos

Essa parte é uma tradução descuidada do artigo do Dr. Peter Gray. Nos anos 70 [2] o governo alemão fez estudos em larga escala analisando 100 jardins de infância (kindergarten). Na época o governo estava fazendo uma mudança gradual para incluir o ensino de habilidades acadêmicas desde os primeiros anos.  O estudo era essencialmente uma comparação entre dois tipos de instituição: as que incentivam as crianças a aprender de forma lúdica, centradas no brincar; em comparação com as que focam na instrução direta e acadêmica. O problema é que apesar dos ganhos iniciais do treinamento precoce com o tempo a performance desses estudantes começou a ficar pior comparada com a dos que tiveram espaço para brincar. Os resultados foram  convincentes o suficiente para que os alemães desistissem de estratégia inicial, optando por manter os jardins de infância centrados no livre brincar.

Nos Estados Unidos ocorreram estudos parecidos, com resultados semelhantes. Um estudo dirigido por Rebecca Marcon [3] focado principalmente em crianças negras de famílias pobres consideraram uma amostra de 343 estudantes. Os que estudavam em pré-escolas centradas no aspecto acadêmico também mostraram avanços iniciais, mas ao final do quarto ano essas vantagens desapareceram se comparadas ao alunos que brincaram mais, nas verdade, esses últimos já estavam apresentando notas até melhores. No caso o estudo não avaliou desenvolvimento social ou emocional, apenas o acadêmico.

Weikart [4] em 1967 fez um experimento bem controlado com 68 estudantes pobres de Michigan, que foram divididos em 3 grupos, de acordo com o tipo de pré-escola ou creche: tradicional, baseada no livre brincar; avançada, que era parecida com a tradicional mas com mais interferência de adultos; instrução direta, similar ao nosso treinamento acadêmico precoce (trabalhando com exercícios escritos e testes). A divisão foi feita de forma semi aleatória de forma a deixar os 3 grupos tão equilibrados quanto o possível. Além das experiências na escola as famílias foram visitadas a cada duas semanas, com o intuito de instruir os pais em como ajudar seus filhos. Essas visitas eram focadas nos mesmos métodos usados em sala de aula. E os resultados foram similares aos de outros estudos. Com a diferença que nesse caso os estudantes também foram avaliados aos 15 anos de idade e novamente aos 23. Nas avaliações posteriores não haviam diferenças acadêmicas relevantes entre os diferentes grupos, porém foram observadas diferenças em outros quesitos: No grupo dos estudantes que participaram da instrução direta foram observados o dobro de atos de má conduta (suponho que vandalismo, brigas ou crimes muito leves), se comparado com os outros dois grupos. E aos 23 anos as diferenças foram ainda mais dramáticas, o grupo da instrução direta apresentou mais casos de conflito com outras pessoas, evidências de problemas emocionais e 39% mais de casos de prisão se comparados com uma média de 13,5% nos outros dois grupos.

Minha opinião e outras mais

É importante entender que esses resultados não podem ser tomados ao pé da letra. O que se observou foi que crianças com educação rígida desde cedo tem uma maior tendência a ter problemas com habilidades socioemocionais no futuro o que não significa que vão ser sempre gênios intragáveis e infelizes. Sempre vai haver o filho-do-amigo-da-vizinha que passou por tudo isso e é ótima pessoa hoje em dia . De fato, existem muitas outras variáveis além da escola a serem consideradas, como situação dos pais, questões pré-natais. Afinal, quando a escola formal começa pode já ser tarde demais.  E por isso as amostragens amplas e aleatórias tornam esses estudos mais consistentes. Estudantes afetados por essas variáveis têm a mesma chance de estar em qualquer um dos grupos. O que os estudos mostraram foi um padrão difícil de ser observável e não uma lei inevitável. E é justamente para isso que existe a ciência, para mostrar aquela verdade que está além das nossas percepções e experiências.

O que temos é um típico caso de resultados contraintuitivos. Os resultados mostraram algo diferente do que se esperava. Eu, pelo menos, achava que uma educação forte e controlada desde o início faria bem e fiquei chocado em ver o contrário. Uma das grandes dificuldades da educação, especialmente a pré-escolar, é que seus impactos só vão ficar aparentes muito depois. O que tende a estar além da percepção dos pais na hora de definir a educação dos filhos. Imagine como os pais do grupo de instrução direta se sentiram ao ver os resultados do estudo aos 23 anos. Lembre-se que também foram os resultados da educação que eles escolheram.

Por outro lado, a Dra. Cristina Cupertino observa que é até possível que alguns alunos possam acelerar seus estudos, mas eles são mais exceção do que regra. Algo como meros 2% do total dos estudantes (sim, são raros) e, ainda assim, uma série de condições deve ser observada: especialmente para garantir se eles estão felizes com a aceleração dos estudos e estão se desenvolvendo bem em outras esferas além da acadêmica. Se considerarmos a tendência natural de qualquer pai em achar que seu filho é a última bolacha do pacote  está nesses 2% é importante que essa avaliação seja feita por um profissional.

Mas, apesar das evidências em contrário, escolas oferecem esse ensino precoce ou são pressionadas pelos pais. Está na moda. O professor Luiz Carlos Freitas da  Unicamp é categórico ao dizer que a alfabetização precoce é um crime. Lembremos que o aprendizado da criança é diferente do adulto e tem características específicas.

A principal questão é se os custos compensam os ganhos. Eu acredito que não. Acho que estudar não é realmente algo fácil, muitas vezes é um esforço mesmo e que as crianças terão uma vida pela frente de educação constante. Não sou contra escola exigente ou mesmo competitiva, acho as olimpíadas escolares um incentivo genial, por exemplo. Mas cada coisa a seu tempo, deixemos que eles tenham infância primeiro. No longo prazo, até a vida acadêmica e profissional serão melhores.

Referências:

[1] Nancy Carlsson-Paige, Geralyn Bywater McLaughlin, & Joan Wolfsheimer Almon. (2015).  Reading Instruction in Kindergarten: Little to Gain and Much to Lose.  Published online by the Alliance for Childhood.http://www.allianceforchildhood.org/sites/allianceforchildhood.org/files…

[2]  Linda Darling-Hammond and J. Snyder. 1992. “Curriculum Studies and the Traditions of Inquiry: The Scientific Tradition.” Edited by Philip W Jackson. Handbook of Research on Curriculum. MacMillan. pp. 41-78.

[3] R. A. Marcon,  2002. “Moving up the grades: Relationship between preschool model and later school success.” Early Childhood Research & Practice 4(1).http://ecrp.uiuc.edu/v4n1/marcon.html.

[4] Larry J. Schweinhart and D. P. Weikart. 1997. “The High/Scope Pre- school Curriculum Comparison Study through age 23.” Early Childhood Research Quarterly 12. pp. 117-143.

foto: salon.com

 

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