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fonte: Allposters.com

Doctor Who é uma série de TV inglesa que em 2016 chegou aos 53 anos, com interrupções, que não a impediram de se tornar uma grande influência na produção de ficção científica e TV. Até porque temos gerações que passaram sua infância assistindo Doctor Who que já estão no mercado, especialmente no Reino Unido. Dentre seus roteiristas, o que ajuda a explicar o sucesso da série, temos alguns autores como: Douglas Adams, de O guia do mochileiro das galáxias; Eoin Colfer de Artemis Fowl; e Neil Gaiman, de Lugar Nenhum e Sandman.

A série conta a história de um viajante misterioso, e um tanto amalucado, que se apresenta apenas como “O Doutor”. O nome da série vem justamente da estranheza das pessoas com isso perguntando “Doutor Quem?” (Doctor Who?) após ele se apresentar. Além se parecer ser um cientista completo, o Doutor comanda uma nave chama TARDIS, sigla de Time and Relative Dimensions in Space”, ou se preferir em em português, “Tempo e Dimensões Relativas no Espaço” que viaja pelo tempo e espaço e, devido a um pequeno defeito, está eternamente disfarçada de cabine telefônica de polícia dos anos 60 o que a tornou um ícone da série. Por uma coincidência similar à dos filmes de invasão alienígena que faz com que a imensa maioria das naves desça nos Estados Unidos o Doutor parece ter uma especial predileção pelo Reino Unido. E nesses 50 anos a série já apresentou diversos detalhes interessantes.

Originalmente, era uma série de TV voltada para um público familiar e com uma proposta educativa. Sobre um viajante do tempo com sua neta Susan explorando tempo e espaço, aprendendo sobre história quando viajava para o passado e sobre ciências quanto ia para o futuro. Tanto que, além da neta, os primeiros companheiros de viagem foram dois professores que seguiram Susan, então aluna deles. E sim, o Doutor nunca viaja sozinho, geralmente estando acompanhado por uma ou mais pessoas que atuam como companheiros, auxiliares e até mesmo reféns, dos inimigos do Doutor a função deles é dar uma dimensão humana à série a colocar pessoas comuns como participantes da trama. Em termos de gênero. Em termos de gênero, digamos que as histórias orbitem entre a ficção científica com algumas doses de terror infanto-juvenil.

E dos vestígios de DNA educacional  vem alguns dos pontos que mais gosto na série, como o encantamento pela descoberta, pelo interesse do Doutor em mostrar o que nunca antes foi visto. Apesar de que a parte ciências “de verdade”já ter sido substituída por muita ficção, acho que ficou algo da atitude esperada do cientista, sem o rigor metodológico. Geralmente o Doutor adora mostrar algo novo para seus companheiros e muitas tramas da série buscam descobrir um mistério ou entender algo novo, mesmo que esse novo seja um tanto aterrador. O Doutor, pode ser corajoso, mas certamente não é um guerreiro: na única luta de espadas que vi em toda a série a performance dele não foi lá grande coisa. Ele não usa armas e seu instrumento de trabalho é uma tal da chave de fenda sônica que é basicamente um faz-tudo tecnológico. Em boa parte dos episódios que vi o grito de guerra do Doutor seria algo como “Corram!” enquanto sei-lá-o-quê avança para cima do grupo.

Essas não são histórias resolvidas na base da porrada, os conflitos são muito mais questões de ter percepção para se entender o que está acontecendo, mesmo que seja uma armadilha, e criatividade para descobrir uma solução. Às vezes é necessário prender ou mesmo destruir, mas isso não é algo a ser comemorado, mas necessário.  O que me parece bem de acordo com um povo que já sobreviveu à duas guerras mundiais em suas portas. O doutor também não é um cientista que caiba no estereótipo do rato de laboratório, mas alguém que vai ao campo, um cara de pesquisa aplicada e que desenvolve tecnologias ou simplesmente descobre como algo funciona. Ele praticamente faz o ciclo de C&T, indo da pesquisa de algo até a viabilizar tecnologia necessária para esse algo funcionar. Pessoalmente adoraria ver um estudo de longo prazo para observar se assistir Doctor Who ajudou a formar adultos com mente mais aberta, curiosos e criativos. O que é só uma hipótese minha, claro. Eu não encontrei nada sobre isso, mas parece ser algo razoavelmente aceito que a série se tornou um exemplo de transmídia.

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Dave Tennant, meu Doutor preferido. fonte: BBC

Inclusive, o aspecto criativo fica bem visível na produção. Como era uma série de TV de anos 60 não haviam os grandes recursos de hollywood nem a computação gráfica de hoje em dia. Assim, as limitações e problemas de produção foram compensados com muita criatividade e provavelmente uma boa dose de improviso bem feito. Por exemplo, quando o primeiro ator da série começou a ter problemas de saúde inventaram a capacidade de regeneração do Doutor, que o fazia voltar com um novo corpo e uma nova personalidade, permitindo a renovação do personagem e liberdade de criação e interpretação para autores e atores. Assim, já temos 12 encarnações diferentes do Doutor ou facetas de uma personalidade complexa. Como o 1o. já foi definido por seus sucessores como “aquele rabugento”, o excêntrico 4o. Doutor ou o intenso 10o.. Até mesmo a TARDIS já apresentou diversas variações. O que também é um risco e um mérito da equipe da BBC, que dança sobre um fio de navalha entre atualizar a série sem descaracterizá-la e/ou manter a tradição sem engessar tudo. Mas também é o tipo de detalhe que explica muito da longevidade da série.

Eu, por exemplo, conheci o personagem em sua décima versão, quando era interpretado por David Tennant quando visitava a loja Forbidden Planet de Southampton  e foi assim que se tornou minha referência para a personagem. Tanto que o Doutor parece ter um certo gosto por encarar a diversidade. Para quem quiser ter uma boa idéia da variedade de doutores e suas aventuras recomendo Os 12 Doutores da Rocco.

Enfim, dentre os muitos detalhes gosto muito dos valores da história: de mostrar como o universo pode ser um lugar interessante, que aprender e descobrir pode ser um prazer e como a diferença que nos torna únicos. Se tantas histórias exaltam a guerra, em Doctor Who o herói é um explorador estranho, inteligente, com apenas uma razoável noção do que está fazendo, mas tão divertido quanto inspirador. E, claro, para lá de nerd, mas no melhor sentido que o termo possa ter.

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