Na parte 1 dessa tradução o Dr. Peter Gray na Psychology Today definiu os que seriam as brincadeiras arriscadas, mostrou suas raízes evolutivas e sua função na formação das crianças. Enquanto nesse tópico serão abordados os efeitos da privação do brincar. No final, meus dois centavos de comentário e as referências bibliográficas do autor.


As consequências negativas da privação do brincar em nossa cultura atual

Com base em tais pesquisas  Sandseter[1] escreveu um artigo na revista Evolutionary Psychology no qual afirma que “Estaremos observando um aumento em neuroticismo ou psicopatologias na sociedade se crianças forem limitadas em tomar parte de brincadeiras arriscadas adequadas à suas idades.”

147531-150087Ela escreveu como se fosse uma previsão para o futuro, mas eu revisei os dados para o livro Free to Learn e em outros lugares [5], indicando que esse futuro está ocorrendo e já ocorre há algum tempo.

Rapidamente, as evidências dizem que nos últimos 60 anos estamos observando em nossa cultura um contínuo, gradual, mas dramático declínio nas oportunidades das crianças de brincarem livremente, sem controle adulto. Especialmente em suas oportunidades de brincar de modos arriscados. Durante esses mesmos 60 anos observamos também um contínuo, gradual e dramático aumento em todos os tipos de desordens mentais na infância, especialmente desordens emocionais.

Olhando para as seis categorias de brincadeiras arriscadas, nos anos 50 até mesmo as brincadeiras das crianças mais novas regularmente caíam nessas categorias e adultos esperavam e permitiam tais brincadeiras (mesmo que não estivessem sempre contentes sobre isso. Atualmente pais que permitam tais brincadeiras provavelmente seriam acusados de negligência, pelos vizinhos e, porque não, até mesmo de autoridades.

Abaixo, como uma digressão nostálgica assumida, estão alguns exemplos das minhas próprias brincadeiras, como uma criança nos anos 50:

  • Com 5 anos, eu fazia passeios de bicicleta com meu amigo de 6 anos por toda a vila onde eu vivia e na região em volta. Nossos pais nos davam alguns limites, como a hora de voltar para casa, mas eles não restringiam o alcance de nossos passeios. E, claro, não tínhamos telefones celulares naquele época, não havia como contatar ninguém se nós nos perdêssemos ou nos machucássemos.
  • A partir dos 6 anos eu, e a maioria dos garotos que eu conhecia, tinha um canivete. E nós usávamos não apenas para talhar, mas também em jogos que envolviam arremesso de facas, nunca um contra outro.
  • Com a idade de 8 eu me lembro de meus amigos e eu passando os feriados e horários do lanche lutando na neve ou na grama em um barranco perto da escola. Nós tivemos torneios que organizávamos entre nós. Professores ou outros adultos não se incomodavam com nossas lutas e, se eles o fizeram, nunca interferiram.
  • Quando eu tinha 10 e 11 eu e meus amigos passávamos os dia andando de skate ou esqui sobre um lago de 5 milhas que ficava perto de nossa vila no norte de Minnesota. Nós levávamos fósforos e eventualmente parávamos nas ilhas para fazer fogueiras e nos aquecer, já que fingíamos ser corajosos exploradores.
  • Quando eu tinha 10 e 11 também era permitido que eu operasse a grande e perigosa prensa que ficava na copiadora onde meus parentes trabalhavam. De fato, frequentemente eu passava minhas quintas-feiras (5a. e 6a. série) fora da escola imprimindo o jornal semanal da cidade. Os professores e o diretor nunca reclamaram, ao menos eu nunca soube. Eu sabia que eles sabiam que eu estava aprendendo lições mais valiosas na copiadora do que eu teria na escola.

Tais brincadeiras não eram incomuns nos anos 50. Meus pais podem ter sido um pouco mais tolerantes e confiantes do que a maioria dos outros parentes, mas não muito. Quanto dessa tolerância seria aceitável para a maioria dos pais e outros adultos hoje em dia. Um índice do quanto nós mudamos. Em uma pesquisa recente com quase mil pais no Reino Unido, 43% acreditavam que crianças abaixo da idade de 14 anos não deveriam ser aceitas para ficar na rua sem supervisão e metade dos que acreditavam nisso achavam que as crianças não deveriam ter tal liberdade pelo menos até os 16 anos![6]. Meu palepite é que aproximadamente o mesmo seria observado numa pesquisa nos Estados Unidos. Aventuras que eram consideradas normais por crianças de 6 anos de idade agora não são aceitas nem mesmo por adolescentes.

Como eu disse, no mesmo período que tivemos esse dramático declínio na liberdade de brincar das crianças e, especialmente, a liberdade delas em correr riscos, nos temos observado um aumento semelhante em todos os tipos de desordens mentais infantis. A melhor evidência disso vem da análise de escores em questionários de avaliação clínica  nos grupos representativos de crianças e jovens adultos ao longo de décadas. [5] Tais análises revelam que hoje em dia 5 a 8 vezes mais jovens adultos sofrem de significativos níveis de ansiedade e depressão clínica. Ao mesmo tempo que se reduz a liberdade das crianças em correr riscos de forma contínua e gradual, também tem ocorrido da mesma fora um aumento de psicopatologias infantis.

Essa história tem sido irônica e trágica. Nós privamos crianças de brincadeiras livres e arriscadas para protegê-las do perigo, mas no processo estamos fazendo com que elas tenham problemas mentais. Crianças são naturalmente preparadas para ensinar a si mesmas resiliência emocional brincando de modos arriscados e emocionantes. No longo prazo nós arriscamos muito mais impedindo tais brincadeiras do que permitindo elas. E nós as privamos de diversão.

Brincar, para ser seguro, deve ser livre, não coagido, gerenciado ou forçado por adultos

Crianças são altamente motivadas a brincar de modos arriscados, mas elas também são muito boas em saber suas próprias capacidades e evitar riscos que elas não estão prontas para assumir, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Nossas crianças sabem muito melhor que nós o que elas estão capacitadas a enfrentar. Quando adultos pressionam ou encorajam crianças a assumir riscos que elas não estão preparadas para encarar o resultado pode ser trauma e não emoção. Existem grandes diferenças entre crianças, mesmo entre crianças que são similares em idade, tamanho e força. O que é emocionante para uma é traumática para outra. Quando professores de educação física demandam que todas as crianças em uma turma escalem uma corda ou poste até o teto, algumas crianças, para as quais o desafio é grande demais, passam por trauma e vergonha. Em vez de ajudarem elas a aprenderem a subir ou conhecerem as alturas a experiência as afasta para sempre de tais aventuras. Crianças sabem como se dosar com o nível correto de medo para elas. E para obter essa capacidade elas devem ser responsáveis por suas próprias brincadeiras. Eu observo que uma porcentagem relativamente pequena de crianças tendem o superestimar suas capacidade em repetidamente se machucam brincando. Essas crianças precisam de ajuda para aprender limites.

Um fato irônico é que essas crianças muito mais provavelmente vão se ferir em esportes dirigidos por adultos do que em suas brincadeiras escolhidas livremente. Isso ocorre porque o encorajamento dos adultos e a natureza competitiva dos esportes leva as crianças a assumirem riscos, tanto de se ferirem quanto de ferirem outros, que elas normalmente não escolheriam em brincadeiras livres. Isso ocorre porque em tais esportes elas são encorajadas a se especializar e, consequentemente, usar de forma excessiva certos músculos e articulações. De acordo com os últimos dados do Centro de doenças americano, mais de 3.5 milhões de crianças por ano abaixo da idade de 14 anos recebem tratamento médico por ferimentos de esporte. Isso é algo próximo de 1 em cada 7 envolvida em esportes infantis. Medicina esportiva para crianças tornou-se um grande negócio graças a adultos que encorajam jovens esportistas a se engajar tão duramente e com tanta frequência que elas exageram. Encorajando jovens zagueiros a atacar tão forte que eles tem concussões, encorajando jovens nadadores a treinar tão forte que eles danificam seus ombros até o ponto de precisarem de cirurgia. Crianças brincando por diversão raramente se especializam, eles gostam de variedade nas brincadeiras e eles param quando alguém se machuca ou mudam seu modo de brincar. E como é tudo diversão eles tomam cuidado para não machucar seus colegas. Adultos que estão envolvidos na idéia de ganhar e esperam conseguir bolsas trabalham contra os modos naturais de se evitar ferimentos.[7]

Assim, nós privamos as crianças de seus próprios e emocionantes modos de brincar, escolhidos por elas mesmas, acreditando que são perigosos. Quanto, na verdade, eles não são tão perigosos e os ganhos compensam os riscos. E quando nós encorajamos crianças a se especializarem em esportes competitivos os riscos de ferimentos são bem maiores. É hora de reexaminarmos nossas prioridades.

Quais são suas experiências e observações sobre brincadeiras infantis arriscadas? Como você brincavam quando era crianças? Como suas crianças brincam? Você permite que suas crianças brinquem livremente do modo que Sandseter descreveu e, caso positivo, como você lida com a pressão social sobre isso? Esse espaço (Nota do tradutor: o fórum do texto original, que não irá fazer parte dessa tradução) é um fórum de discussão e suas histórias, comentários e questões serão tratadas com respeito por mim e outros leitores.

Para conhecer muito mais sobre a necessidade dos jovens de brincar livremente leia  Free to Learn do mesmo autor.


Os dois centavos de opinião do tradutor

Acho muito interessante ver como essas idéias concordam com certas teorias pedagógicas como a Montessoriana ou a Waldorf. Elementos como liberdade e o contato com a natureza são típicos dessas linhas.

Pessoalmente, acredito que muito desse impedimento ao brincar vem da ansiedade dos próprios pais. Nossa percepção de risco mudou devido ao avanço dos recursos de comunicação e dos próprios métodos de pesquisa. Hoje em dia ficamos sabendo de crianças doentes na Índia como de tiroteios em massa em escolas americanas. Já pensou como deve ser assustador deixar seu filho numa escola americana hoje em dia? Você sendo lembrado que é raro, mas que existe o risco de um maluco aparecer atirando em todo mundo? Somos bombardeados com informações sobre quantas crianças morrem por ano brincando e mesmo que a probabilidade seja ínfima o sensacionalismo da mídia cria a  percepção de que os riscos são muito maiores do que realmente assim. Hoje em dia tudo é quantificado, até mesmo as taxas de mortalidade infantil. A mensuração de risco constante, demonstrada por estatísticas como “x crianças morrem por ano brincando com Y” leva a uma percepção exagerada de que o risco é algo a ser evitado a qualquer custo.  Dessa forma o conceito de risco aceitável mudou muito, como demonstrado no texto. Ao mesmo tempo a maioria das pessoas vive em grandes cidades em vez de pequenas vilas como a que o sr. Gray teve sua infância. E a vida nas grandes cidades também está sendo considerado um fator que provoca stress e eventualmente mais risco de problemas mentais. E nas grandes cidades essa sensação de risco parece ser ainda maior. Imaginemos então no caso brasileiro com os índices de violência daqui.

Ainda assim, acredito que estamos perdendo essa noção, a do risco aceitável.  Capacetes e cintos reflexivos são legais? Sim. Impedir que seu filho ande de bicicleta? Não. É preciso dosar e o maior mérito do artigo é mostrar que a idéia de segurança a qualquer custo está sendo paga com o desenvolvimento emocional das crianças.

Referências

[1] Sandseter, E. (2011). Children’s risky play from an evolutionary perspective. Evolutionary Psychology, 9, 257-284.

[2] Spinke, M., Newberry, R., & Bekoff, M. (2001). Mammalian play: Training for the unexpected. The Quarterly Review of Biology, 76, 141-168.

[3] e.g. Pellis,S., & Pellis, V. (2011).  Rough and tumble play: Training and using the social brain.  In A. D. Pelligrini (Ed.), The Oxford handbook of the development of play, 245-259. Oxford University Press.

[4] LaFreniere, P. (2011). Evolutionary functions of social play: Life histories, sexdifferences, and emotion regulation.  American Journal of Play, 3, 464-488.

[5] Gray, P. (2011). The decline of play and the rise of psychopathology in childhood and adolescence. American Journal of Play, 3, 443–463.

[6] Referenced in Burssoni, M., Olsen, L., Pike, I., & Sleet, D. (2012).  Risky play and children’s safety: Balancing priorities for optimal development.  International Journal of Environmental Research and Public Health, 9, 3134-3148.

[7]  Um excelente livro sobre o dano que adultos causam em crianças com o esporte infantil é Until It Hurts de Mark Hyman


 

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