147531-150084Parte tradução, parte resenha descuidada do artigo Risky Play: Why Children Love It and Need It, do Ph.D Peter Gray. Para deixar mais palatável vou dividir em duas partes. Na primeira abordando as características das brincadeiras arriscadas e sua importância e na segunda discutindo o impacto da privação do brincar nas crianças de hoje. Acredito que o relato se refere principalmente à sociedade americana, ele é professor em Boston, mas acredito que seja válido para crianças de classe média do mundo ocidental como um todo, incluindo o Brasil. E sim, já fiquei fã do sujeito.


Medo, poderíamos pensar, é um experiência negativa que deve ser evitada a todo o custo. No entanto, como todo mundo que já teve ou já foi uma criança sabe, elas adoram brincar de maneiras arriscadas. Maneiras que combinam a alegria da liberdade com a medida correta de medo para produzir a divertida mistura conhecida como “emoção”.

Seis categorias de brincadeiras arriscadas:

Ellen Sandseter, uma professora da Queen Maud University de Trondheim, Noruega identificou seis categorias de riscos que parecem atrair as crianças em suas brincadeiras.

  1. Grandes alturas: crianças escalam árvores e outras estruturas até alturas assustadoras, das quais elas ganham uma visão privilegiada do mundo e devido à emocionante sensação de “Eu consegui!”
  2. Velocidade: crianças se balançam em cordas, cipós, balanços; deslizam em esquis, skates ou escorregadores; descem rios; pilotam bicicletas, skates e outros dispositivos rápidos o suficiente para produzir a emoção de quase perder o controle.
  3. Ferramentas perigosas: dependendo da cultura crianças brincam com armas, arcos, flechas, equipamentos de fazenda (onde brincadeira e trabalho se combinam) ou outras ferramentas conhecidas por serem potencialmente perigosas. Existe, claro, grande satisfação em ser confiado a usar tais ferramentas mas também grande emoção em controlar  esses objetos, especialmente sabendo que erros podem machucar.
  4. Elementos perigosos: crianças adoram brincar com fogo, próximo ou dentro de profundos corpos d’agua como rios ou piscinas, mesmo que eles ofereçam algum perigo.
  5. Agitação e dureza: crianças de todos os lugares adoram brincadeiras de perseguição e luta e frequentemente preferem estar na situação mais vulnerável, seja como o perseguido ou como aquele que está por baixo numa luta. Posições com mais chance de se machucar ou que demandem mais habilidade para superar.
  6. Desaparecer, se perder: crianças pequenas gostam de brincar de pique-esconde e passar pelo emocionante, e assustadora, experiência da separação temporária de seus companheiros. Crianças mais velhas ainda gostam de se aventurar em áreas externas, sem a presença de adultos, explorando territórios que lhes são novos e cheios de perigos imaginários, como o risco de se perderem.

O valor evolutivo da brincadeira arriscada:

Outras espécies de mamíferos também gostam de brincadeiras arriscadas. Filhotes de cabritos monteses brincam ao longo de encostas e pulam de forma desajeitada que torna a aterrissagem mais difícil. Jovens macacos gostam de pular de galho em galho, longe o suficiente para desafiar suas habilidades e fazendo isso de alturas que vão machucar, no caso de uma queda. Jovens chimpanzés gostam de pular de galhos altos agarrando os galhos mais baixos apenas quando já estão perto de atingir o chão.  Enfim, mamíferos de várias espécies, não apenas a nossa, passam boa parte de seu tempo perseguindo um ao outro e brincando de luta e eles também parecem preferir as posições mais vulneráveis.

De uma perspectiva evolutiva a questão mais óbvia sobre brincadeira arriscada é: Por que isso existe? Ela pode causar ferimentos (apesar de que ferimentos sérios são raros) e até mesmo morte (ainda que muito raramente). Então porque a seleção natural não acabou com isso? O fato que não acabou evidencia que os benefícios devem superar os riscos. E quais são os benefícios? Estudos de laboratório com animais nos dão algumas pistas.

Pesquisadores desenvolveram modos de privar jovens ratos de brincadeiras durante um fase crítica de seus desenvolvimento, sem privá-los de outras experiências. Ratos que cresceram desse modo se tornaram emocionalmente aleijados. Quando colocados em um novo ambiente eles reagiram com medo exagerado e falharam em se adaptar e explorar o novo ambiente da forma que um rato normal faria. Eles podiam alternar entre congelar de medo ou passar para a agressão inapropriada e inefetiva. Em experimentos anteriores, achados similares foram observados em macacos jovens privados do brincar (ainda que os controles nesses experimentos não eram tão eficazes quando nos experimentos com ratos).

Tais achados contribuíram para se entender melhor o aspecto da regulação emocional na teoria do brincar. Segundo as pesquisas uma das maiorias funções do brincar é ensinar jovens mamíferos como regular o medo e a raiva. Em brincadeiras arriscadas, jovens aplicam a si mesmos doses controladas de medo e praticam autocontrole e comportamento adaptativo enquanto experimentam medo. Eles aprendem que eles podem gerenciar seus medos, superá-los e sobreviver. Em brincadeiras duras e agitadas eles também experimentam a raiva, afinal uma criança podem acidentalmente machucar a outra. Mas ao continuar brincando eles aprendem a superar aquela raiva. Se eles se descontrolam a brincadeira acaba. Dessa forma, de acordo com a teoria de regulação emocional brincar é, entre outras coisas, o modo como jovens mamíferos aprendem a controlar seu medo e sua raiva de forma que eles possam enfrentar perigos reais e interagir próximo a outros, sem sucumbir às suas emoções negativas.

Referências bibligráficas serão apresentadas na parte 2

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