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Tempos atrás comentei sobre o desalentador panorama do conhecimento em ciências na América Latina. Por outro lado, participando de um evento sobre divulgação de ciência, descobri existem várias iniciativas pontuais lutando no dia-a-dia para reduzir esse problema.

Dentro da imprensa nacional costumo encontrar bons exemplos no o Globo Rural: no dia 29/11/2015 foi apresentada uma excelente matéria sobre a Agricultura de Baixo Carbono um assunto complexo de forma simplesmente magistral. Como diz o meu chefe o Globo Rural costuma a seguir uma linha de “contar histórias”, para conseguir manter o interesse do público e a mesmo tempo apresentar informações que estão fora do senso comum. Assim, primeiro foi apresentado um cidadão comum em um almoço de família discutindo sobre o aquecimento global e a importância da agricultura de baixo carbono. A função desse pedaço foi mostrar que o assunto também é de afeta o cotidiano e interessa a pessoas comuns e não apenas para o governo e cientistas. Depois o espectador é levado ao laboratório onde os cientistas falam de seu trabalho e as descobertas mais recentes sobre o assunto. Todo o trabalho é apoiado por infografias, gráficos e informações cuidadosamente sintetizadas para manter o interesse do expectador e introduzi-lo a um assunto pouco usual. Esse fio condutor me lembra muito a proposta do Fernando Meirelles que comentei tempos atrás.

Inclusive aqui é preciso observar que a internet teve um impacto fantástico na divulgação científica, justamente por cortar intermediários entre os cientistas e o público. Abrindo espaço para alguns cientistas talentosos alcançar um público interessado e, de certa forma, qualificar esse público. E a blogosfera, da qual eu faço parte, oferece constelações de bons trabalhos que pontuam essa noite escura que é a  divulgação de  ciência. Como o trabalho do Projeto de Divulgação de Ciência da FAPEMIG ou o Engenheiro de Materiais com o expressivo subtítulo “Por um mundo onde as pessoas saibam o que fazemos”. E muitas dessas iniciativas que começaram como blogs, cresceram, tornaram-se sites ou colunas de jornal. Um exemplo é o site A Neurocientista de Plantão, de Suzana Herculano-Houzel, que além de trabalhar com divulgação científica desde 1999, mostrando o lado “cerebral” do nosso dia a dia, também aborda questões relacionadas à comunidade científica brasileira. Além do site ela percebeu a importância de trabalhar em conjunto com as grandes mídias, uma forma de não se tornar apenas mais uma voz pregando no deserto, como eu me sinto nesse blog de vez em quando. Assim, ela também já escreveu vários artigos na mídia que podem ser encontrados em seu site.

Porém alguns desses sites têm alto número de acessos, mesmo não estando vinculados a um grande meio de comunicação ou instituição científica. Algumas dessas iniciativa tem até mais impacto que os grande veículos. O site I Fucking Love Science é essencialmente um clipping de notícias de ciências tem muito mais curtidas no facebook (24 milhões) que o poderoso e tradicional  New York Times (pouco menos de 11 milhões).

Outro exemplo é o Cientista que virou mãe, de Ligia Moreiras Sena que já se expandiu para um coletivo. Seu site é uma interessante combinação entre o rigor científico de alguém que começou nas ciências naturais e foi acrescentando um olhar típico das ciências humanas, como resultado da maternidade e o um doutorado em Saúde Coletiva. E como ciência é mais um método e uma atitude crítica do que um acumulado de títulos não posso me esquecer do NerdPai, também relacionado à blogosfera materno/paterna. Apesar de não ser um blog especializado em ciência ele têm seus bons momentos na área.

Além do vídeo, que tem lá suas demandas de produção, outra mídia que vêm supreendendo pela diversidade é a dos podcasts. Uma opção adequada para quem não tem tempo ou disposição para ler textos longos, como os Dragões de Garagem ou o Braincast.

E outro trabalho que não deve ser ignorado é o presencial, feito nas feiras de ciência. Como demonstrado pela Engenheira da USP Dra. Roseli de Deus Lopes, que ainda será tema para outra resenha descuidada.

Por outro lado também existem problemas: internet não tem controle de qualidade. Assim temos pseudo-ciência e curandeirismos de todo o tipo compartilhando o palco virtual com pesquisa séria. O movimento anti-vacina e todas as teorias de conspiração estão aí para mostrar isso.

Essa é uma lista longe de ser exaustiva, digamos que a constelação de divulgadores de ciência aumenta a cada dia e pode se tornar uma galáxia. A importância desses “lobos solitários” vêm se tornando cada vez maior à medida que o público se fragmenta devido a grande oferta de informação da internet, que propicia espaço muito maior do que o que poderia ser oferecido pelos jornais, TV e outras mídias mais centralizadas. Um dos problemas dos grandes veículos é que neles ciência é apenas mais um assunto concorrendo por espaço com outras pautas. Ao mesmo tempo os assuntos científicos podem ser extremamente especializados o que pode ser difícil para ser apreendido  por um jornalista comum. Até hoje ainda sinto um pouco de vergonha alheia quando lembro de uma âncora de telejornal toda feliz anunciando a descoberta da “partícula de Deus”, o Bóson de Higgs, como se o apelido fosse mais importante que a descoberta em si. Se nos jornais e TV o espaço para a pauta ciência é limitado, diminuto e sem intermediários, na internet é possível ver o assunto feito diretamente da fonte.

Ainda assim, existe muito a ser feito. No geral, me parece que ainda existe mais talentos individuais em divulgação que incentivo à formação de bons divulgadores em ciência, algo que pode estar mudando justamente devido à contribuição desses lobos solitários.

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