chargeE lá vamos nós com mais uma resenha descuidada: Lembra daquela inúmeras listas de comentários que aparecem em notícias sobre o país? Além dos xingamentos, o flaxflu de sempre, alusões ao facismo, comunismo e cia. Outro clichê que sempre aparece é daquele comentarista tentando elevar o nível da discussão, ou simplesmente parecer inteligente, falando que a solução é a educação e que, sem ela, não temos a menor chance de futuro. Que deveríamos apostar tudo na educação, pois ela será a ponte para um futuro melhor. Bem, mesmo que esse eventual clichê  esteja certo, as soluções podem apontar para algo muito diferente que o senso comum nos leva a pensar.

O professor Rodrigo Zeidan da Fundação Dom Cabral e da NYU Shanghai produziu uma série de artigos analisando a educação à luz dos estudos desenvolvidos nas últimas décadas. Seu trabalho me parece ter foco no nível estratégico, partindo de algumas premissas interessantes e levando a resultados bem inusitados, para o senso comum. Para melhor entender sua análise é preciso considerar alguns pontos importantes. Listei os que considerei essenciais abaixo, mas recomendo ler o original (se preferir, existe uma versão em português depois do texto em inglês)

  • Ciência é um método, não um diploma – decisões devem ser baseadas em evidências e, para isso, pesquisa é essencial. As conclusões serão baseadas em dados e, se novos dados surgirem as conclusões podem mudar.
  • Nada vêm de graça nem é perfeito –  todas as soluções tem custos e uma análise racional vai depender da relação custo x benefício.
  • Todo mundo têm seus interesses e não dá para agradar todo mundo – A idéia é ajudar o máximo de pessoas e desagradar o mínimo, ainda que isso seja mais uma orientação que uma realidade.
  • Foco no longo prazo – mesmo que, no final das contas, estejamos todos mortos é ele que deve definir o futuro. Vamos além do hábito de achar que o último soluço da economia ou a moda mais recente vai moldar o futuro. Aceitemos que as mudanças não virão rápido, mas seus impactos devem ser duradouros. E assim, os jovens importam mais que os velhos.
  • Rótulos são irrelevantes – pouco importa ser liberal, comunista, conservador ou revolucionário. O que importa é se as soluções funcionam, de acordo com a situação e a maioria dos extremismos é ainda mais inútil. Enfim,de Marx a Mises, vale tudo.

O que ele sugere é que, por incrível que pareça ,o sistema educacional Brasileiro melhorou, o que está longe de ser um elogio. Nosso sistema saiu de algo ruim e elitista para apenas ruim. O que não é exatamente uma exceção pois a maioria dos sistemas educacionais do mundo, incluídos os dos países desenvolvidos, são ruins e geralmente falham em equilibrar equidade e eficiência. O que mostra como a tarefa está longe de ser trivial: O sistema educacional de um país é como um grandes navio, é díficil mudar sua inércia e o impacto de mudanças de rota é imenso. E, considerando o tamanho do sistema e seu impacto, testar hipóteses é algo difícil. Os impactos demoram muito tempo para serem observados e, convenhamos, ninguém aceita de forma muito confortável a idéia de usar crianças como cobaias, especialmente se for com seu filho ou sobrinho (ainda que isso esteja acontecendo todo o dia).

Assim, considerando a extensão do proposta e a complexidade do problema o  assunto foi dividido em diversos tópicos, mostrando que:

  1. estamos errados sobre o que entendemos como eficaz para um sistema educacional com uma perspectiva histórica, mostrando que houve algum avanço, o sistema antigo era elitista e ruim, enquanto ao atual é só ruim;
  2. uma análise do investimento brasileiro em educação nas últimas à luz de evidências científicas, que mostram que estamos apontando para o lado errado;
  3. atolamos numa numa insana obsessão por estatísicas bonitinhas
  4. investimos muito para expandir o sistema e isso pouco mudou a situação, mas custou uma nota;
  5. como miséria pouca é bobagem, as distorções bem intencionadas e  mal projetadas resultam em incentivos perversos;
  6. outro exemplo são os investimentos em ensino superior que ajudaram menos ainda. na verdade, mostrando que os retorno desse investimento é mais privado que público. Algo que eu imaginava quando escrevi sobre minha preferência pela educação superior paga.
  7. a universalização do acesso e a ineficiência;
  8. quando a escola começa, já é tarde demais, onde são observados os diversos fatores, inclusive o pré-natal, que interferem na educação em si. O que bate com uma tradução que fiz tempos atrás.
  9. propostas de soluções, mantendo aquele foco mais estratégico, onde o autor se preocupou mais em descrever características necessárias ao desenho de um sistema educacional que funcione do que os aspectos da ponta, do “chão de fábrica”, necessários ao sistema. Aqui foram observados parâmetros como: descentralização, definição de objetivos, prioridades (e os sacrifícios que isso significa); o constante monitoramento; e a necessidade de mais P&D, ciência aplicada à educação como uma diretriz, envolvendo espaço para a experimentação controlada.

Creio que um dos aspectos que mais gostei foi o pragmatismo na busca de soluções. Nesses tempos bicudos em que vemos tantos políticos descaradamente preocupados apenas com a própria sobrevivência, legendas de aluguel ou partidos como o PMDB posando de pragmáticos eu vejo um saudável contraponto na proposta do autor.

Para mim, foi um choque observar que o sistema educacional tem um papel menor do que eu esperava, entre vários outros resultados contra-intuitivos apresentados. O que só justifica uma análise rigorosa do assunto. Certas políticas podem ajudar um grupo específico e prejudicar outros, como no caso das creches do Quebec. O programa parece ser bom para mães solteiras, mas não para outros tipos de família, o que afetou os resultados de forma inesperada. Assim, é preciso um nível de refinamento no desenho e avaliação de impacto dos projetos ainda mais cuidadoso que geralmente se imagina. A necessidade de se fazer análises com esse nível de especificidade, ou correções de rumo posteriores. O que me lembrou de algumas discussões que estamos tendo sobre educação e transferência de tecnologia aqui no trabalho.

O trabalho ainda está sendo escrito e me parece longe de estar acabado e ilustra porque meu pai fala tão bem da Dom Cabral. A série pode parecer um tanto pessimista mas a proposta me parece justamente ser chegar à novas soluções para um problema complexo sobre o qual vale a pena refletir. Como o próprio autor observa: soluções simples para problemas complexos geralmente estão erradas. No final das contas essa é a discussão que realmente importa para garantir o futuro do nosso povo, no longo prazo.

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