spotlightDepois de um sofrido tempo de cinema assistindo O Regresso, a atuação de DiCaprio foi ótima mas podiam cortar uns 40 minutos de filme, assistir Spotlight foi uma deliciosa compensação.

O filme conta sobre o trabalho de um grupo de jornalistas americanos investigando casos de pedofilia na igreja católica em Boston/EUA no início dos anos 2000. É uma história contada de forma sóbria, sem pausas dramáticas, cenas épicas ou efeitos especiais.Mas mesmo sem esses penduricalhos continua sendo uma boa história. Contada com um cuidado e sutileza que dão um ar comum, quase cotidiano à personagens. O que aumenta a identificação com eles ao mesmo tempo que evita cair na armadilha de tornar a história algo banal.

Até então existiam relatos e denúncias isoladas sobre casos de pedofilia, o que é descrito no início do filme. Porém, o diferencial da equipe de jornalistas investigativos do Spotlight foi justamente uma investigação aprofundada e cuidadosa do assunto, mostrando existia uma política sistemática para abafar os casos sendo orquestrada pela instituição igreja. É um trabalho praticamente científico em esmiuçar as entranhas de uma burocracia institucional complexa concebida para disfarçar um problema terrível.

Nesse aspecto, o filme é praticamente uma aula e um tributo ao jornalismo investigativo, mostrando que o trabalho real não tem o glamour dos filmes de espionagem, mas muitas vezes vai envolver o esforço de procurar gente que não quer conversar, portas na cara e muita leitura em listas chatas e documentos velhos.  O que mostra a genialidade dos bons profissionais de jornalismo em encontrar e esculpir uma história surpreendente e que, ao mesmo tempo, seja palatável para o público. Mostra a pressão feita por grupos que podem estar honestamente, ou nem tanto, defendendo o que acreditam e como descobrir verdades desagradáveis é algo pesado até mesmo para aqueles que procurando elas.

Como designer gráfico não poderia deixar de abrir um parêntese para falar do cartaz, que segue um estilo tão sóbrio e bem feito quanto o resto do filme. Onde o preto e branco clean destaca ainda mais o vermelho pulsante do título apresentado numa dura fonte sem serifa. perfeitamente equilibrado com um subtítulo para atrair a atenção e um discreto gancho para o método de investigação que permeia a história. Uma homenagem clean ao jornalismo impresso.

Outro ponto interessante são os contrastes. Como as igrejas de Boston que parecem onipresentes castelos de pedra sobre as pequenas pessoas vivendo suas vidas abaixo delas. Um dos meus contrastes preferidos é de dois advogados. Um bem-apessoado, elegante e temoroso em enfrentar a elite da qual faz parte e o outro: ranzinza, amarfanhado, estrangeiro e determinado a lutar pelo que acredita ser o certo. As paletas de cores de cada cenário são interessantíssimas, reforçando ou reduzindo cada personagem de acordo com o cenário. Outro é o evidente contraste (e desconforto) do editor nos domínios do cardeal, que parece realmente um estranho no ninho. Elementos que são muito melhor descritos pelos meus colegas do Razão de Aspecto.

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Nos protagonistas, antagonistas e vítimas é possível sentir algo muito humano, em suas qualidades e defeitos, inclusive dos jornalistas que não são heróis incontestáveis. É possível perceber essa humanidade, esse algo cotidiano e ao mesmo tempo único em vários deles: seja no jornalista passional que questiona suas próprias convicções, no editor contido e quase tímido, na vítima com a dor represada por anos que finalmente pode ter voz ou no cardeal que é um político acima de tudo.

Enfim, recomendo o filme. Não é um assunto agradável, mas é um exemplo de como é necessário trazer as coisas à luz, especialmente essas desagradáveis. Mesmo que ainda não se consiga a reparação me parece ter sido um alívio para o sofrimento das vítimas.

PS: para quem eventualmente for fã do gênero investigativo: o Omelete fez uma relação com 13 grandes filmes sobre investigações jornalísticas.

 

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