Em um post distante chamado O Fracasso também ensina falei das minhas desventuras em uma malfadada proposta de projeto, que após muito trabalho não foi aceita. Digamos que ela não era ruim, mas também não foi boa o suficiente.

Mas o mundo gira e as chamadas de projeto também. Surgiu uma chamada de projeto para financiamento externo no qual a minha idéia poderia se adequar. Já escaldado das experiências anteriores trabalhei junto com uma pessoa mais experiente e nos dipusemos a redigir uma nova proposta.

Como esperado essa também não era fácil e primeiro teríamos de superar a “tensão superficial” que significa apresentar a proposta em plenária no auditório, para depois enviar para um comitê técnico e só então enviar a proposta para o orgão devido. E apenas após essa via crucis podemos botar o projeto para andar. Parece chato e burocrático, sim. Mas também significa que estamos sendo cuidadosos com o uso do dinheiro alheio.

E novamente foram muitas tardes de trabalho. Apesar de muito do material anterior ter sido aproveitado, houve muita coisa a ser corrigida e reforçada. A primeira coisa a ser feita foi rever aquele contundente relatório do examinador e responder a todas as perguntas, dentro do texto. Elas tinham respostas, mas algumas delas também levaram à novas perguntas, algumas das quais apenas poderemos responder apenas quando o trabalho de pesquisa real começar a ser feito.

As pessoas adoram falar de ciência mas é algo muito mais citado do que realmente entendido ou praticado. E uma de suas várias peculiaridades que precisamos observar é que a ciência é concorrencial. Seu trabalho é questionado diversas vezes e de formas variadas para se saber se é realmente consistente. Assim, não é um meio famoso por ser exatamente amigável ou piedoso. E isso não é necessariamente um defeito, é mais uma característica. Melhora quando a coisa fica no impessoal.

Assim, boa parte do nosso trabalho foi no sentido de deixar a proposta mais clara e, especialmente, mais consistente. Elaboramos hipóteses, levantamos literatura técnica correlata, definimos melhor o que estávamos estudando e desejávamos obter e especialmente definimos quais as nossa possíveis dificuldades. Assumindo que alguns fatores imprevisto poderiam surgir afinal como disse o astrofísico Neil Degrasse Tyson “In science, when human behavior enters the equation, things go nonlinear. That’s why Physics is easy and Sociology is hard.“(Em ciência, quando o comportamento humano entra na equação as coisas ficam não lineares. É por isso que física é fácil e sociologia é difícil). E isso foi o que mais observamos durante nossas conversas para escrever o projeto.

E ainda havia uma plenária para apresentar. Com umas boas dezenas de pesquisadores e analistas. Alguns provavelmente um tanto desconfiados da validade da proposta, do tema e mesmo da nossa capacidade de construir algo útil a partir daquilo tudo. Nossa palavra-chave era consistência. Mostra que aquele era um projeto pequeno, mas com objetivos e metas claras a serem cumpridas e resultados sólidos e possivelmente inéditos a serem obtidos num campo que, cada vez mais, estamos considerando que é pouco estudado.

Para nosso alívio a apresentação foi ótima, fomos questionados diversas vezes. Mas, como comentei antes, nesse meio o problema não é você ser bombardeado por perguntas: é falhar em responder alguma delas. E conseguimos não deixar nenhum pergunta sem resposta. Para minha supresa tivemos até alguns momentos de apoio.

Assim, alguns dias após a plenária o comitê técnico aprovou a proposta que foi enviada à sua devida autarquia. Após muitas, mas muitas revisões, para aproveitar o clichê, a sorte está lançada. Estamos concorrendo com alguns milhares de projetos, mas ao menos temos uma proposta imensamente melhor que a primeira.

E também está sendo um aprendizado sobre metodologia científica e de gestão de projeto. Todo mundo têm seu modo de aprendizagem preferido: alguns gostam de livros, outros de se enterrar na internet, tem quem adore um bom professor em sala de aula. Mas no meu caso eu aprendo muito sentado, trabalhando e conversando de forma quase despretensiosa. Aquela conversa que parece conversa de boteco, sem muita direção.  Algo pouco linear mas cheio de conteúdo. E nesse aspecto tenho a sorte de estar trabalhando com um pesquisador tão experiente quanto mente aberta. Um guia que está me ensinando a ir além das idéias inusitadas e boas intenções. Estou aprendendo muito sobre como desenvolver um trabalho com mais consistência e profundidade.

Enfim, sei lá se vai dar certo, mas as coisas estão promissoras. Meus planos voltaram a andar.

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