O termo “marcial” é latino e se refere ao Deus Marte, o deus da guerra. Assim, uma arte marcial, por mais que tenha o seu aspecto saudável, esportivo, espiritual e artístico também possui uma raiz guerreira, militar. Sendo assim, por mais que o treinamento seja importante o treino de luta em si não deve ser ignorado. É o momento em que se “coloca os dados e roda o sistema”, sendo possível observar o que já está aprendido e o que deve ser melhorado. A avaliação de aprendizagem é um elemento muito importante, é a validação de treinamento e dentro desse contexto uma das melhores modalidades de  avaliação será a luta. O treino sem avaliação pode se tornar uma armadilha, criamos vícios que podem ser trabalhosos para limpar no futuro. E existem certos aspectos que só poderão ser observados na luta. Mirar errado é um dos erros mais comuns, as pessoas treinam para não acertar o alvo e acabam se viciando em fazer isso. Muitas vezes o erro é sutil e só será percebido numa luta.  Aprendemos muito por interação e o treino de luta é muito, mas muito, interativo.

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fonte: ArteFilipina.com

A luta não precisa ser necessariamente de contato total. Quanto mais próximo do real melhor, mas existe uma relação custo x benefício a ser considerada. Regras e o uso de proteções como luvas ou capacetes são úteis para fazer com que essa relação compense. Até o MMA tem limites para garantir a integridade dos atletas. E mesmo assim, muitas lutas já foram canceladas porque os atletas se feriram em treinos mais pesados. Afinal, estamos falando de um trabalho físico extremo que provoca ferimentos. Assim, o realismo exagerado é pouco prático, gente quebrada não treina mais, em algos casos de forma definitiva. O que é ainda mais válido quando se treina com armas. Eventualmente uma luta mais “leve” pode ser até mais interessante para se praticar golpes ou manobras recém aprendidos e abrir espaço para uma auto avaliação. Sem a preocupação exagerada em vencer o praticante vai perceber o que funciona e o que não funciona na hora.

Observei isso por conta própria num treino de luta um dia desses. Havia um juiz estávamos com equipamento de proteção e bastões acolchoados. O juiz acompanhava a luta o dava pontos para quem conseguisse acertar o adversário. Não que isso me alegre muito, mas após um começo empatado eu perdi e de goleada, não marquei pontos. Mas apesar desse nunca ser um resultado desejado a derrota ensina. A grande maioria dos golpes que levei foi na mão. Se fosse um combate real minha mão provavelmente seria quebrada no primeiro ou segundo golpe e eu certamente não conseguiria segurar um bastão, ou qualquer outra coisa, por um bom tempo. Depois da luta o colega que fazia o papel de juiz, um faixa marrom, me explicou que o meu erro é que eu não estava recuando o braço para bater novamente, eu havia deixado ele exposto e o meu adversário usou isso a seu favor.

Alguns dias depois, treinando com um grande amigo e antigo parceiro de kung fu. Após comentar com ele sobre o treino de luta ele observou que eu praticamente não estava usando a ponta do bastão para golpear. Geralmente eu estava batendo na metade ou mesmo próximo da base, onde estava a minha mão. Era o tipo de detalhe que eu já devia estar fazendo há tempos, especialmente nas defesas. Meu amigo, que também é fisico, comentou que batendo com a ponta do bastão o golpe certamente ficaria mais forte, haveria mais transferência de energia cinética para o alvo.

Ele também observou outra coisa: que o reflexo de se defender com as mãos é algo básico, instintivo e como a maioria dos praticantes de artes marciais atua de mãos vazias e isso molda nossos reflexos. Porém no Arnis Kali e outros estilos Filipinos usam-se armas. Treinamos com elas até que se tornem uma extensão de nosso corpo. O alcance de um indivíduo armado geralmente é bem maior que outro desarmado. Com o detalhe que é muito, mas muito complicado usar as mãos para se defender de um ataque armado. E no Arnis treinamos com armas desde o início. O resultado é que a noção de alcance do praticante de Kali começa diferente dos que treinam outras artes. As armas vão diminuindo com o passar do tempo até finalmente chegar na extensão original do braço.

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Reparem que a extensão do braço esticado é quase o dobro.
Fonte: http://martialartstimes.net/baton-francais/

Dentre os efeitos dessa diferença pode-se notar que praticantes de outras artes que treinam Arnis podem a ter uma dificuldade a mais, pois estão acostumados a usar as mãos na defesa e no ataque. Sendo que esse é justamente um dos primeiros alvos a ser atingidos com o bastão ou a faca. A mão é a “cabeça da cobra” segundo o Mestre Dada. A mão atingida é uma ameaça a menos. E conversando com outros praticantes, que já praticaram karatê ou jiu-jitsu, eles também já haviam observado essa peculiaridade do Arnis Kali em comparação aos estilos desarmados.

Para evitar a velha armadilha do “minha arte é melhor que a sua” lembro que a arte ou estilo escolhido é apenas uma parte de uma complexa equação que, entre outras coisas, vai envolver: professor/ treinador, afinco no treinamento, tempo empregado para treino, equipamento e a própria afinidade física e mental do praticante. Não existe arte perfeita, existem as que funcionam.

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