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fonte: wallpapercave

Já comentei que gosto de assistir o MMA, um esporte que considero emocionante e imprevisível. Um lutador pode dominar a luta na maior parte do tempo para ser nocauteado no último segundo e isso faz parte do esporte.Imagino o inferno que isso deve ser o para o pessoal que monta a grade de TV, pois o tempo de luta também é imprevisível. Como comprovado em Aldo X McGregor, que durou apenas 13 segundos, para a surpresa dos próprios lutadores.

Portanto, já era hora de se fazer mais uma resenha descuidada. Dessa sobre um blog que discute o MMA. Mas antes, segue uma rápida contextualização. Se achar isso desnecessário pule uns 3 parágrafos

Dentro do MMA, o UFC segue uma dinâmica incomum a outros esportes. É o esporte mais “privatizado” e orientado ao negócio e ao espetáculo que conheço. Tanto que é o primeiro evento esportivo que vi ter um diretor de criação que era cineasta e roteirista em sua equipe quando foi criado.

Por um lado isso vêm contribuindo para uma ascensão meteórica do esporte junto ao público comum. Em pouco mais de 20 anos o MMA evoluiu do que alguns criticavam como “rinhas humanas” para um esporte organizado e com lutadores tão famosos quanto jogadores de futebol. Como disse o boxeador, bronze olímpico em 20111, Esquiva Falcão agora somo “o país da luta, futebol e surf“.

Por outro lado, junto com  a atenção do grande público vêm o risco da banalização e a qualidade das análises e crítica muita vezes está aquém do que realmente acontece no octógono. Como já acontece na política, muitas vezes o debate atola em muita paixão e pouca técnica. Assim, o debate e a análise de um esporte tão rico acabam ficando rasos como um pires. Como agravante quando os lutadores começaram a virar celebridades, essa abordagem veio à reboque: certas matérias falam tanto sobre a vida dos lutadores, quem estão namorando ou o que fizeram no fim de semana que o aspecto realmente interessante: a luta, estratégia, treinamento, tática, superação e a surpresa vão sumindo. Ficam submersos sob uma gigantesca “ilha de caras” com pouca roupa e muito músculo.

Porém, o blog Casca-Grossa é uma bem-vinda exceção à regra e uma mostra que a cobertura do MMA também está amadurecendo. Escrito por Fernando Capelli que além de jornalista, é instrutor de artes marciais. Seu foco me parece ser mostrar o que está abaixo da linha d’agua desse imenso iceberg que é uma luta profissional de alto nível. O que rola no octógono é o auge de um longo processo. Ele discorre sobre os estilos de luta, os diversos “teams”, as academias onde os lutadores treinam; quem faz parte desse corpo técnico e as influências deles sobre o desenvolvimento dos lutadores; e como os lutadores evoluem para compensar um meio tão dinâmico e competitivo como o MMA.

Suas “leituras de luta”, geralmente publicadas alguns dias depois de um evento mostram uma visão muito detalhada de cada combate combinada com um conhecimento aprofundado e quase enciclopédico sobre artes marciais.  Por exemplo, foi no blog que aprendi que existe uma escola de kickboxing holandesa, a melhor análise que já vi sobre o emprego de caratê dentro do MMA entre outras coisas. Se as referências fossem colocadas em formato ABNT acredito que viraria artigo de revista científica e o texto ficaria chato pra @#$% fica melhor como está mesmo. É a diferença entre um jornalista comum e um estudioso de artes marciais falando sobre o assunto. Em contraste com a “escola Galvão Bueno de narração esportiva” não existe torcida descarada e nem drama. Nas leituras fico tentando imaginar para quem o autor está torcendo. Mas, se ele o faz, sua torcida é algo sutil.

Um aspecto didático que acho interessante é que o texto é acompanhado por gif’s animados repetindo momentos específicos das lutas. Assim, fica mais fácil entender a como um combate fluiu pois possibilita se observar o movimento exaustivamente. Algo que uma simples foto não permitira e o vídeos costumam a ser longos demais para observar determinado aspecto que o autor gostaria de ressaltar. Além do fato dos gif’s não atrapalharem a fluidez do texto. Você não precisa parar de ler para acionar um vídeo observar de depois voltar a ler. Outro aspecto está nas descrições de movimentação, observando se o lutador se movimenta para frente, para trás ou pelas diagonais. Em certos momentos eu chego a visualizar um campo de xadrez dado o detalhamento na descrição do movimentação. Detalhes como o quando os braços estão esticados ou mesmo se os joelhos estão dobrados também são observados, o que me lembra dos meus tempos de Kung Fu com o Valmir.

O autor demonstra a mesma profundidade que um crítico de cinema ou literário têm com seu objeto de estudo. No presente caso, são as lutas, que no final das contas, também são a expressões esportivas e diria até artísticas, só que de arte marcial. Nesse aspecto o blog é especialmente interessante para observar a complexidade do que está acontecendo no octógono e um argumento poderoso para mostrar que o esporte é mais que uma diversão de gente sem cérebro ou simplesmente violenta. É uma fonte para se entender melhor o mundo do MMA e diz muito mais que aquelas estatísticas que os americanos gostam tanto.

Não é um blog para se ler durante uma luta, acredito que a densidade dada ao assunto o torna perfeito para o formato texto, seria muita coisa para se falar num vídeo. Mas é muito bom para ser lido antes, para se ter uma idéia do que irá acontecer ou depois, para se entender melhor o ocorrido. A descrição do Honda x Holm foi excelente para entender o que aconteceu para levar à vitória de Holm, em detalhes. O que só me reforça o potencial didático do texto.

O outro lado bom de descobrir o blog foi que também fui conhecendo sites mais técnicos sobre o assunto. Como o Sexto Round, no qual o autor não está mal acompanhado.

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