No dia 17 de dezembro repeti minha atividade com jogos de tabuleiro na semana de Natal do Hospital da Criança de Brasília – José Alencar. Novamente, trabalhei junto com a casa de jogos Orgutal cujo apoio foi essencial para o evento acontecer.

Basicamente, fizemos o mesmo que no ano passado. Juntamos vários jogos de tabuleiro, levamos mesas e voluntários e passamos a manhã jogando e ensinando a jogar no saguão do hospital. Atendendo aos pacientes, acompanhantes (pais e parentes que cuidam das crianças) e até outros voluntários e membros do hospital.

Como no ano passado enquanto limpávamos os jogos já apareceu gente querendo jogar. Tive de separar um dos voluntários para jogar com os mais animados enquanto levantávamos o nosso “circo”. Para um evento desses funcionar  os voluntários são tão importantes quanto os jogos em si. E, nesse aspecto, é animador ver como pessoas com a atitude certa se adaptam à situação. Porque o evento acaba sendo algo um tanto caótico, como a maioria das coisas que envolvem crianças se divertindo. E como agravante são crianças, pais, outros voluntários, diferentes históricos e diferentes níveis cognitivos a serem equilibrados. E tudo isso com quase uma dezena de jogos diferentes, cada um com seu conjunto de regras, a serem lembradas e explicadas. Você explica um jogo para um grupo e logo surge outro completamente diferente ou o próprio voluntário está querendo explorar algo diferente e termina numa nova mesa. Em alguns casos os voluntários aprenderam a jogar do mesmo modo que alguém troca o pneu com o carro em movimento. Mas eles deram conta do recado, os círculos mágicos dos jogos foram mantidos e a diversão fluiu.

Como já aprendemos um pouco sobre o público no ano anterior evitamos alguns jogos e incluímos outros. A situação é propícia para os chamados “party games”, jogos mais despretensiosos em que o aprendizado de regras seja rápido e a partida não seja muito longa. O público tende a demonstrar uma interessante sanha exploratória para conhecer jogos que geralmente nunca viu antes. Dixit  continua sua carreira de sucesso no hospital. Eu já esperava que o Jenga  também seria bem aceito, mas confesso que foi até mais do que eu esperava. Durante o tempo que ficamos lá ele foi jogado praticamente o tempo todo, tanto pelas crianças quanto pelos adultos. Dentre os fatores que explicam o sucesso  desses jogos estão a facilidade de explicar as regras e o fato de que crianças e adultos ficam razoavelmente igualados neles. No caso do Jenga o jogo é tão simples que bastava observar ele sendo jogado para entender, ao mesmo tempo ele acabava sendo extremamente flexível. Um paciente podia deixar a mesa para ser atendido e isso não interferia no jogo dos outros.

Também joguei meu jogo de Cerrado. Afinal levo ele para lá desde o início do meu trabalho. E a recepção foi melhor do que eu esperava, afinal a carga de aprendizagem dele é um pouco maior que a dos outros. Tive até gente perguntando por ele e querendo saber onde poderia comprar.

Ao mesmo tempo, esses jogos comprovam a minha impressão de que a melhor propaganda para um jogo é ver ele sendo jogado. O grupo sentado, concentrado, discutindo o jogo e, em alguns momentos, tenso (no bom sentido) e feliz têm um efeito quase magnético sobre as pessoas que estão procurando algo para jogar. O inverso vale para um jogo na caixa, ainda que a curiosidade das crianças sempre abra espaço para se abrir uma caixa

O outro aspecto que interessante é que como os jogos são novos para a maioria adultos e crianças acabam razoavelmente próximos. O que torna os jogos ainda mais interessante para os pequenos. Fiquei feliz quando uma das voluntárias do hospital pediu para aparecermos mais vezes, pois aquilo era muito divertido para os adultos também. É, parece que o bom e velho flow funciona para todos.

Em termos de melhorias a se fazer, porque sempre se pode melhorar, um treinamento prévio para os voluntários seria uma boa. Mesmo que eles já conheçam vários jogos, sempre fica algum que eles não conhecem. Isso ficou comprovado por duas das voluntárias que treinei na noite anterior e que tiveram um desempenho simplesmente fantástico.  Imagino se todos forem adequadamente preparados então. E algumas explicações sobre as peculiaridades do hospital evitam gafes e deixam os voluntários mais à vontade para trabalhar. Por exemplo, dependendo de quem está jogando o voluntário precisa improvisar com as regras para adequar ao nível de dificuldade, ou mesmo recomendar um outro jogo caso ache que a experiência não será boa. Mas para isso o voluntário precisa de algum nível de domínio sobre as regras. Nesse aspecto incluir voluntários do próprio hospital e gente com esse experiência semelhante foi uma boa.

De qualquer modo o saldo continua 100% positivo. A equipe do hospital nos recebeu ainda melhor que no ano passado e nos meus dias comuns já começo a observar impactos positivos: como outros jogos na sala de voluntários e o interesse da coordenação de voluntariado em criar um projeto específico com jogos para o hospital. As hipóteses que me levaram a trabalhar lá se mostraram válidas e outras pessoas estão observando isso. Já consegui até arranjar mais uma voluntária que atua no hospital e ganhamos mais interessados em aparecer outras vezes. Ainda observei alguns que não estavam apenas se divertindo, mas estudando e observando com repetir esse trabalho. O que é tudo o que eu queria, que ele vá além de mim.

No mais, meu sinceros agradecimentos a todos que nos ajudaram: do voluntário que queimou os neurônios, de quem levou as mesas e separou jogos, quem deixou um lanchinho até os que acompanharam e divulgaram o trabalho. O hospital conseguiu nos receber de forma ainda melhor que no ano passado.

Não curamos ninguém, mas enquanto jogamos com as crianças o motivo que as trouxe lá virou um detalhe. Naqueles momentos eles eram competidores, conquistadores, criativos. Pode ser apenas um momento, mas naquele momento era algo diferente de doença que mantinha eles no hospital. Pode parecer pouco, mas já justifica todo o trabalho.

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