Em nosso último episódio eu comentei sobre o combate aproximado. Que começou com uma breve apresentação histórica do Balintawak Escrima, apresentado pelo guro Tales. Em seguida ele mostrou uma série de exercícios interessantes, feitos com o punho encostado ao do oponente Afinal, quando se está perto demais é preciso de outros sentidos além dos olhos para entender o que esta acontecendo, simplesmente não há tempo hábil para tática.  O seu punho colado ao do adversário funciona como um antena. O que converge com o explicado pelo guro Lucas sobre consciência corporal. Ainda assim a distância é tão pequena que se o adversário não “telegrafar” o golpe você mal vai saber o que te atingiu. Se um combate já é algo rápido, no combate aproximado a velocidade, e o risco, são elevados ao quadrado. Não há tempo para pensar, a defesa deve ser um simples reflexo. Assim, acaba sendo também um excelente exercício de concentração.

Outro ponto alto foi a aula de Pekiti Tirsia, aplicado pelo lakan Guro Waldevir Júnior. O próprio professor já é uma figura marcante. Se o Wolverine saísse dos quadrinhos para ensinar certamente iria se parecer com ele. Apesar de ser extremamente profissional e tão técnico quanto os outros professores, ele tinha uma abordagem diferente dos outros, algo mais passional . Foi uma aula muito diferente do que eu estava acostumado, geralmente algo mais filosófico ou esportivo, enquanto nesse caso foi mais militar. Até porque o Pekiti Tirsia vêm sendo muito usado para capacitar militares e policiais e seu foco está na sobrevivência urbana. Se eu pudesse definir o que apreendi do estilo numa palavra ela seria “ousado”. Como o guro observou: num combate com faca, ganhando ou perdendo você vai se cortar. Não é uma situação em que você deseje estar mas, se estiver é melhor saber o que está fazendo. O que me reforçou a impressão que o combate aproximado é algo desconfortável, arriscado e rápido. E agora entendo porque dentro do Arnis as facas são ensinadas apenas a partir de um nível mais avançado. Elas são menores e mesmo as de treino são mais perigosas, tanto para o alvo quanto para quem empunha. Como diz o mestre Dada “o bastão procura o osso, as facas procuram a carne”. O nível de dano e de força necessária são inversamente proporcionais. E parece existir algo psicológico, a faca inspira algo diferente, mesmo sendo menor ela assusta mais que o bastão. E isso vale até para as de facas de treino, mesmo elas não devem ser usadas de forma leviana. Tanto que passei à usar os óculos de proteção com mais frequência. pekiti-tirsia

Além do uso de lâminas outra das bases da modalidade está no triângulo, que faz parte até do seu símbolo. A movimentação em relação ao oponente deve seguir essa idéia do triângulo. Você não avança direto para o adversário, ainda mais usando uma lamina, mas se desloca pela diagonal para flanquear e contra-atacar o oponente. E é importante não recuar, evitando que o adversário ganhe espaço ou velocidade. O movimento me lembrou muito a posição do gato, algo que meu antigo professor de kung fu ensinava muito bem. O que mostra que a física e o bom senso valem para todos.

aula de Pekiti Tirsia

fonte: Arnis Kali RS

Nessa aula pude observar o uso da agressividade como um recurso didático para instigar o aluno a entrar no modo de pensar adequado para o estilo e as situações onde ele deve ser empregado. Por exemplo, após uma breve demonstração da função da voz de comando ele disse que nós devíamos gritar durante os exercícios. Inicialmente eu pensei que fosse pelo aspecto físico. Gritar, fazer barulho na hora de golpear potencializa a força, o Muai Thai é um bom exemplo. Mas à medida que fomos trabalhando fui percebendo outros efeitos. Você passa a se sentir mais atento, o processo de gritar, de bater os antebraços com força e sacudir o oponente e de ser alvo dessas coisas parece alterar um pouco a gente. Mesmo que essa agressividade seja aplicada de forma controlada como estávamos fazendo era possível sentir a adrenalina atuando. Logo eu estava fazendo coisas que não achava ser possível, como levantar um sujeito faixa-preta e bem mais pesado do que eu e esfaquear ele nas costelas sem que ele pudesse segurar a minha mão. A impressão que eu tenho é que o trabalho do guro não estava focado apenas em desenvolver inteligência motora, mas em alcançar de algumas características da arquitetura do cérebro. A gritaria e agressividade, os puxões, a voz de comando. Tudo isso parece estimular o chamado cérebro réptil, a parte mais primitiva do nosso cérebro, responsável por atividades básicas como lutar e fugir.  É de onde vêm o instinto de sobrevivência e a capacidade de lidar com violência. Pode não ser nosso lado mais bonito, mas certamente é algo necessário. Algo que me lembrou o que vi no Game Jam sobre essas diferentes partes do cérebro.

Outra aula foi com o tuhon Daniel Barros, sobre o Latosa Escrima, da família Latosa e muito difundido na Europa e EUA. O sistema  tem pontos bem legais, como a idéia da “caixa”. Que, pelo que entendi, define uma área entre a cabeça, ombros e barriga do adversário onde a maior parte dos golpes deve ocorrer. O que pode ser relacionado ao boxe. O que talvez seja explicado pelo fato que o Grande Mestre Rene Latosa já atuou como boxeador da força aérea americana. O detalhe, ele nunca teve treino formal como boxeador, mas isso realmente não parece ter sido um problema. Um aspecto particularmente interessante é a questão de equilíbrio, especialmente de controle. Não que outras artes não tenham isso, mas há uma preocupação mais visível. Não existe preocupação em girar o bastão ou qualquer coisa assim para ganhar força, a idéia são muitos ataques rápidos, sem longos movimentos para voltar o bastão para trás e ganhar força. Nesse aspecto o uso correto do próprio peso, desde as pernas e o consequente equilíbro necessário para isso explicam essa preocupação. O resulta me parecem ser golpes curtos e ao mesmo tempo fortes.

No geral, outro aspecto interessante nas artes filipinas que já havia reparado é a questão da acessibilidade, o que talvez seja característico de artes voltadas para a defesa pessoal. Suponho que o Krav Maga também entre nessa lista, mas não conheço o suficiente dele para afirmar. Por acessibilidade quero dizer que são estilos que não dependem de um tipo físico ou nível atlético específico. Em alguns treinos eu também fui levantado feito um boneco de pano por gente 15 kg mais leve que eu. O que lembra a idéia filosófica do Jeet Kune Do de Bruce Lee de que não é você que deve se enquadrar no estilo, mas o estilo que deve ser capaz de ser adaptado para a sua capacidade física. O que obviamente não exime o praticante de treinamento esforçado e constante. O que também é reforçado pela capacidade do Arnis complementar outros estilos. O que é mostrado pela variedade de praticantes no evento que também pratica outras artes.

Foi um aprendizado riquíssimo do tipo que você sai um tanto mudado. Ainda quero entender o efeito que ser torcido, puxado, esfaqueado e derrubado em treinamento têm sobre a amizade, mas parece ser positivo. Conheci um casal que treina junto e eles dizem que simplesmente não brigam em casa porque gastam a energia treinando. E como diz o mestre, gritamos no treino para não precisar gritar em casa. No mais, não foi um momento de dominar, mas de conhecer técnicas novas e ver os efeitos físicos e psicológicos de um treinamento prolongado. Também foi uma oportunidade de treinar com gente de tipos físicos e habilidades muito diferentes da galera da academia que estamos acostumados. Gente mais alta demanda uma abordagem diferente de gente mais baixa, assim como os agressivos são diferentes dos cautelosos.

No mais foi um evento variado que contou até com a participação do cônsul-geral das Filipinas e creio que um dos raros diplomatas que também é faixa-preta e praticante de Arnis.

O último ponto que não poderia deixar de citar foi a comida. Confesso que fiquei triste quando soube que ia passar o fim de semana sob regime vegetariano, mas tive um grande surpresa com a comida do Tarcísio. Além de deliciosa, realmente me deixou me sentindo melhor do que quando cheguei. Talvez essa conversa de “detox” tenha algum valor. Enfim, a experiência como um todo foi algo que certamente planejo repetir.

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