Na verdade, a frase completa foi Atenção cientistas: Ninguém liga pro seu sapo! e foi uma provocação, no sentido de um convite à reflexão, feita aos participantes do VIII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação.  Não vi a palestra, mas suponho que descreve bem os problemas enfrentados pela divulgação científica e uma proposta de solução.

Divulgar ciência não é algo trivial. E no caso das questões ambientais a ponte a ser construída entre os cientistas e o público é maior ainda. O artigo Mind the Gap de Kolmuss e Agyeman  aborda justamente o abismo que existe entre as pessoas terem informações sobre os danos ambientais e assumirem posturas pró-meio ambiente. No estudo eles falam dos diversos fatores que influenciam o comportamento pro ou anti meio ambiente. Educação ambiental é um exemplo claro de como disponibilizar informação não necessariamente resulta em mudança de atitude ou mesmo a adoção de um comportamento desejado, o que é descrito por Kolmuss e Agyeman como o modelo linear. E, com base nisso, creio que dá para fazer um paralelo entre esse artigo e o que nosso simpático cineasta quis dizer.

A maioria das pessoas gosta de se dizer racional, mas a mensagem que as alcança é emocional. O sapo da história tem que ter algo a ver com a vida da pessoa ou algum fator de identificação precisa ser criado. As pessoas não se interessam dados, mas por histórias. E para quem acha que isso é um problema criado pela frágil educação brasileira lembro que os EUA, a primeira economia do mundo tem problemas parecidos ou piores, como, por exemplo, a ofensiva dos defensores do criacionismo e o ativismo contra vacinas;

Assim, existe um impasse: a ciência mostra como o universo é imenso complexo e variado enquanto a maioria das pessoas gosta de simplificações e notícias que mostrem o que elas querem ouvir. E a função da ciência é encontrar respostas, não necessariamente as que gostamos de ouvir. De qualquer forma, esperar que as escolas simplesmente funcionem e torcer para que a próxima geração seja banhada por novos conhecimentos e magicamente se tornar mais amigável à ciência pode soar cômodo, mas é uma solução muito preguiçosa e chinfrim. É preciso lidar com os recursos que temos para atingir o público que temos. Afora diagnóstico para definir melhores soluções, reclamar do público é simplesmente inútil.

É verdade que temos muitos problemas a resolver, como o baixo conhecimento da sociedade sobre o assunto na América Latina que é uma mostra que nossos esforços para fomentar e incentivar o interesse na ciência precisam melhorar muito. Mas em vez de reclamar é preciso procurar soluções.

Foi algo que observei no meu trabalho e acredito que até a literatura técnica concorda com o Meirelles, é preciso tornar as informações mais palatáveis para o público. E criar histórias é um bom caminho. Algo que a publicidade e seu irmão mais novo, o marketing fazem bem. E os profissionais dessas áreas não ficam reclamando do público, eles simplesmente tentam entender o que funciona com esse público e aplicam isso. Pessoalmente achei o artigo estimulante por ser algo que já venho tentando aplicar em meus trabalhos, como o Macaúba Amiga, onde o conteúdo técnico corre ao longo de uma narrativa. Saber que se está no caminho certo por fontes inusitadas é sempre bom.

No final das contas mesmo que alguém não goste do Meirelles o importante é pensar se ele está certo. Eu acredito que sim e a idéia dele vale para a ciência em geral e não apenas a área ambiental.

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