Aviso: o seguinte texto reflete meramente a minha opinião pessoal, não configurando opinião da Embrapa ou qualquer empresa privada, ONG ou orgão de governo.

O título parece piada mas foi sério. No dia 27/10 foram lançadas 6 novas cultivares de mandioca na Embrapa. O que também foi notícia na TV Terraviva.  E foi uma oportunidade interessante para conhecer o processo de pesquisa participativa. Algo que vem sendo muito usado nas pesquisas com agricultura familiar, desenvolvimento sustentável e agroecologia.

Por um lado é uma modalidade de pesquisa não-tradicional e justamente por isso controversa. Seus críticos falam que certas soluções acabam sendo tão específicas que não podem ser generalizadas para outros lugares, que falta a essa modalidade o rigor científico ou mesmo que esse trabalho é mais extensão rural do que pesquisa agropecuária. Por outro essa modalidade aproxima o produtor da pesquisa e também permite a troca de informações, o intercâmbio entre os saberes tradicionais, práticos e os científicos. Ao mesmo tempo que adianta o processo de levar uma inovação para a sociedade, já que os produtores se tornam multiplicadores na nova tecnologia. Os pesquisadores acompanham os produtores desde o plantio das cultivares escolhidas até a colheita e fazem os testes necessários para atestar o desenvolvimento das cultivares e lidar com eventuais contingências. Claro que o processo exige uma certa variedade de produtores trabalhando em conjunto, essa variedade torna a generalização das descobertas e permite antecipar certas contingências, como doenças e pragas que podem afetar o plantio.  E a complexidade da fase pós-colheita, não basta produzir é preciso fazer com que o produto chegue aos consumidores de uma forma economicamente sustentável. E acredito que é chegar a esse ponto o que diferencia uma idéia promissora de um trabalho digno do termo inovação

Esse aspecto participativo da pesquisa ficou muito patente nas falas dos pesquisadores que conheciam todos os produtores pelo nome e foram enfáticos em citar a importância da participação deles. O que reforça a via de mão dupla que parece ser a pesquisa participativa. É uma modalidade de pesquisa trabalhosa, que envolve não apenas habilidades técnicas, mas também inteligência emocional e interpessoal do pesquisador pois é um processo que envolve muita gente e com características, linguajar e cultura bem diferentes. É importante conseguir diferenciar  atividade de resultado e como analisar esses resultados e seus impactos. A armadilha de se fazer projetos definidos por intenções e não por resultados deve ser um risco possível nessa modalidade. Obviamente a pesquisa participativa não é a única modalidade envolvida, houve também a seleção de espécimes de mandioca na natureza, e a parte de biotecnologia para trabalhar e obter as características desejadas para as novas cultivares.

Foi um evento interessante, repleto de produtores, orgulhosos com seus chapéus, bonés, botas e a certeza de quem é parte importante da economia do país. E também uma oportunidade de ver o coroamento de um trabalho de mais de 10 anos que ainda vai continuar por muito tempo. Só espero que não demore muito para encontrar essas mandiocas coloridas nos mercados. O bobó de camarão deve ficar muito mais bonito.

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