2015-09-09 13.38.18O dia 11 de setembro é o Dia Nacional do Cerrrado, essa savana que ocupa 24% do território brasileiro e é “apenas” o segundo maior bioma brasileiro. E como eu trabalho no centro de pesquisas da Embrapa sobre o Cerrado participei de uma exposição sobre o Cerrado no Conjunto Nacional de Brasília, entre os dias 8 e 11 de setembro de 2015. Que também foi tema de matérias da EBC, do programa Brasil Caipira (a partir dos 14 minutos) e do jornal local da Rede Bandeirantes.

A exposição abordou vários itens como a flora, fauna e rochas do cerrado. Bem como apresentou uma pequena amostra cultivares e tecnologias desenvolvidas pela Embrapa, como o maracujá BRS Pérola do Cerrado, que estava sendo exposto com a Aprofama, as cultivares de mandioca que devem ser lançadas ainda em 2015 e as pesquisas sobre o uso de rochas na agricultura.

A minha parte nesse latifúndio foi novamente conduzindo o meu jogo sobre o Cerrado. Especialmente quando chegassem os estudantes de nível fundamental que visitariam a exposição. Após uma palestra sobre o Cerrado apresentada por uma pesquisadora da Embrapa eles teriam uma visita guiada pela exposição e, por fim, uma sessão de jogo.

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Aquela parte com as cadeiras azuis foi o meu escritório durante essa semana

Para cumprir essa parte dessa vez eu tive o apoio de outros facilitadores e, pela primeira vez em um bom número. O que evitaria casos estressantes como o do aniversário do Parque da Água Mineral, onde tive mais mesas que conseguia gerenciar. Graças à Universidade de Brasília tive o apoio de 7 bolsistas de nível médio. Assim, minha parte do trabalho começou na semana anterior com o treinamento dos bolsistas. Dessa vez apliquei uma técnica diferente de treinamento. Em vez de uma chata apresentação coloquei eles para fazer um campeonato informal. Assim, eles jogaram várias vezes e enquanto jogávamos eu ia explicando características do jogo e falando um pouco das minhas experiências com eles. Isso deixou o treinamento muito menos chato e permitiu que os bolsistas ganhassem não apenas conhecimento, mas que começassem a adquirir um certo nível de domínio do jogo. O que faz toda a diferença para quem vai atuar como facilitador. Um ponto que ajudou muito foi a própria atitude deles, os bolsistas se engajaram, demonstram iniciativa e interesse e isso fez toda a diferença. Mesmo quando não havia ninguém para atender eles simplesmente se sentavam a continuavam jogando, mesmo que fosse apenas para passar o tempo, não deixava de ser um treinamento útil. Admito que conhecer eles me fez um pouco mais positivo em relação ao futuro. Com a idade deles eu nunca me imaginaria atuando como bolsista ou promovendo a educação sobre o Cerrado. Considerando como eles já são hoje imagino onde estarão daqui a alguns anos.

2015-09-11 11.21.41A presença dos facilitadores tornou atividade com os jogos muito mais produtiva. Apesar do pouco número de mesas fomos capazes de atender até 12 estudantes de uma vez. Após a explicação das regras os bolsistas ajudavam os jogadores. E no caso dos grupos grandes a versão gigante das regras em flipchart foi muito útil. A fase das regras é um momento tenso, a explicação das regras tende a fazer o jogo mais difícil do que realmente é, sendo algo um tanto intimidador para quem não costuma a jogar jogos de tabuleiro. Porém, como já descrito pelo Aldricht, essa parte 100% instrucional é importantíssima para garantir que o jogo funcione, seja ele um jogo sério ou divertido. É o que eu chamo de tensão superficial dos jogos. É obrigatoriamente uma fase que temos de superar dentro da experiência de qualquer jogo e, como dito por um amigo meu, muitas vezes os textos das regras não ajudam em nada. No meu caso eu até percebi até que um ou outro aluno já desistiu nessa fase. Algo que antigamente me preocupava, mas hoje em dia não considero como um problema, se forem poucos. Por enquanto é melhor que meu jogo permaneça como uma atividade voluntária. Prefiro um desinteressado assistindo do que jogando e interferindo no círculo mágico do resto do grupo. E confabulando com professores das turmas entendi que vários dos desistentes apresentavam problemas de déficit de atenção.

Quanto partimos para os jogos em si a carga de trabalho foi dividida muito bem com os bolsistas. O que me liberou para lidar apenas com os casos mais complicados e cuidar da parte estratégica, como mostrar aspectos do processo para os professores. O que me abriu espaço para lidar com as partes que me fazem gostar desse trabalho. Por exemplo, eu gosto de observar as curvas de aprendizado individuais, aprender um jogo novo deixa elas evidentes e ver como alguns dominam o jogo mais rápido que outros. Ver os jogadores tentando adequar as regras do jogo ao que já entendem, o que Piaget chamaria de adequar o novo conhecimento adquirido no jogo às estruturas cognitivas preexistentes e, no meu caso, ver com prazer quando eles assimilam o conhecimento novo e passam a usar as regras de formas que nem eu mesmo imaginaria.

Outro aspecto divertido é ver a aprendizagem coletiva gerada pela interação dos grupos, um típico caso de que o todo e mais do que a soma das partes. Ter grupos jogando o mesmo jogo lado a lado também oferece a possibilidade de comparar as diferenças e considero isso tão interessante quanto ver um raro tipo de coral ou uma aurora boreal.

Ser facilitador num jogo desses também me lembra muito o processo de se narrar, ou mestrar, um jogo de RPG. Uma história contada a partir das ações dos jogadores. E tendo os facilitadores para cuidar das regras pude me dedicar, com afinco, a criação dessa narrativa. Criando um estória a cada jogada e discretamente ressaltando as situações de aprendizagem do jogo a partir das ações deles. Alguns casos foram interessantíssimos, como os grupos que quase acabaram com o jogo por excesso de degradação ambiental e a oportunidade de mostrar como isso foi consequência da ação dos jogadores. Em vários casos estudantes que optaram por não jogar pediram uma chance para fazer isso depois e por uns 50 minutos conseguimos prender toda a atenção daqueles que aceitaram participar.

Apesar de cansativa a experiência é muito estimulante, além dos estudantes é sempre possível conhecer gente interessante: Como o presidente da Aprofama, um sujeito engajado, tão entusiasmado em apresentar seu trabalho para o trabalhador mais simples como falar do mesmo assunto em uma entrevista da TV. Assim como a mãe engenheira florestal querendo mostrar que o mundo vai muito além do que a paisagem urbana oferece e até mesmo um funcionário do shopping de terno que também é skatista e está criando hortas urbanas junto à pistas de skate para envolver adolescentes e afastá-los das drogas.2015-09-11 11.07.23

Enfim, foi como a experiência com a Agrobrasília desse ano, só que expandida. A melhora no treinamento e a atitude dos bolsistas me abriu novos espaços. Os erros do passado melhoraram muito o processo e com os recursos corretos é possível oferecer uma experiência interessante para os jogadores. Resta agora mensurar o quanto se aprende a partir dessa experiência.

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