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Antes de mais nada um aviso: não sou técnico na área agropecuária (agronomia, zootecnia etc.), minhas opiniões são meramente pessoais e não refletem a opinião ou posicionamento da Embrapa.

Semana passada eu participei do Congresso Mundial de ILPF que ocorreu em Brasília na semana passada. Foi interessante por ver aquele pedaço do Brasil que raramente aparece nos noticiários. Até porque o assunto certamente seria considerado técnico demais para a maioria dos editores. As técnicas de integração do qual o ILPF faz parte são consideradas importantes no Brasil porque podem reduzir a produção de gás carbônico na produção agropecuária, um dos gases do efeito estufa, aquecimento global e cia; recuperar áreas de pastagem degradada, incapazes de alimentar o gado, de uma forma produtiva e por intensificar o uso da terra de uma forma sustentável. O que significa reduzir em muito, se não totalmente, a necessidade de se abrir novas áreas para a produção de alimentos.

A maioria das palestras foi muito técnicas mas alguns aspectos interessantes já entraram na minha alçada: Como uma palestra sobre o uso de Integração na França com uma descrição interessante do processo de apresentação das técnicas aos produtores. Que envolveu algo que achei muito próximo da pesquisa-ação que empreguei no meu projeto de jogo. Outra foi uma sobre capacitação nas Universidades. Essa começou com uma interessante análise das dificuldades que a própria estrutura universitária oferece, com sua especialização excessiva enquanto a Integração parece exigir um razoável nível de flexibilidade, transdisciplinariedade e certamente é mais complexa que a produção tradicional. O que, a meu ver, foi confirmado em diversos relatos de produtores que acompanhei durante o evento. Um dos produtores falou que o problema da capacitação é generalizado, indo das brigas entre gerentes ao pessoal de campo que tem problemas com tarefas fora de sua especialidade. O que me pareceu mais patente é que a integração vai demandar um profissonais mais flexíveis e capacitados que o sistema atualmente requer. Altos índices de rotatividade no emprego não serão bons para os fazendeiros e entre os funcionários quem ficar certamente  vai receber mais. O que é interessante para mim, pois significa que serão precisas abordagens inovadoras e materiais didáticos diferentes, para conseguir capacitar os produtores, em todos os níveis.

foto 1 (2)E dentro do evento ainda ocorreu um dia de campo. No caso de uma empresa de pesquisa agropecuária isso significa um dia em que as descobertas e experimentos sobre determinado assunto são apresentadas, geralmente no local onde os experimentos são feitos. O que no nosso caso significa, no campo. E dessa vez eu não estava aplicando nada, apenas assistindo e ajudando.

E assim, às 7 da manhã estava eu junto a algumas dezenas de vans esperando todo mundo chegar para ir até as áreas de experimentos em ILPF. Recomendo a todo o designer de vez em quando sair da frente do computador e ver como a identidade visual da sua empresa e o material que criamos é usado em condições reais. É gratificante ver as coisas funcionando e didático descobrir as que não funcionam.

Como todo o evento complexo é algo tenso, são centenas de pessoas separadas em grupos que vão ver diferentes apresentações em locais diferentes de forma simultânea e tudo isso num ambiente muito distante do controle oferecido pelas salas de reunião com ar-condicionado. O trânsito, o clima, a fauna, tudo se torna variável a ser considerada. Um tronco no meio do caminho que caiu durante a noite pode zonear todo o seu planejamento . Na prática o evento é quase um grande carrossel onde um grupo visita uma estação, onde assiste uma apresentação, comenta e pergunta e depois vai para outra estação e assim por diante até visitar todas. Imagine isso com vários grupos  assistindo e se movimentando ao mesmo tempo em áreas como plantação, pasto e floresta. Somando a isso o fato que tudo tem de ser levado para lá, energia, água, banheiros, transporte…. A logística pode ser um pesadelo, mas se bem executada o efeito é fantástico.

O outro aspecto interessante é a troca de experiências. Para os pesquisadores, mesmo os experientes, eventos como esse são um desafio. Como dizia um grande professor meu, a ciência é concorrencial. Ela evolui porque as pessoas estão sempre testando as afirmações apresentadas para ver se o pesquisador realmente sabe do que está falando. E além dos outros pesquisadores também temos os produtores, gente com experiência real que não se impressiona com firulas acadêmicas e também tem muito conhecimento sobre o assunto. E como todo o bom desafio isso parece ser muito estimulante para os pesquisadores. E um bom experimento mostra o que dá certo e o que dá errado. Como disse um dos pesquisadores, a empresa erra, ou para ser mais específico testa e erra, justamente para que o produtor não tenha que errar. Como dito por outro pesquisador, não é apenas descobrir como um processo funciona, mas ajudar o produtor a tomar decisões de forma mais fundamentada. E esse é um dos aspectos mais interessantes de se estar numa empresa de pequisa e não numa universidade. A conexão com o mundo lá fora é muito mais forte. A pesquisa está longe de ser um fim em si mesmo, não basta uma descoberta, ela deve se tornar uma inovação, uma tecnologia, ela tem de chegar ao mercado e ao cidadão comum. E um produtor pode ser tão detalhista e exigente quanto outro pesquisador. Inclusive alguns dos que mais questionam são justamente colegas de empresa, o que só reforça esse saudável aspecto concorrencial da ciência.

Foram quatro dias longos, com um muuito cansativo, mas valeu a pena. Fiz contatos interessantes que vão render boas conversas via mail e certamente alguns projetos futuros.

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