símbolo do Arnis Kali com referência a bandeira das Filipinas
Posso não ser um especialista em artes marciais, mas já vi diferentes estilos e abordagens de seus professores. Conheci um professor de Kung Fu que, além de excelente professor, também era massoterapeuta que era notável por seu cuidado com os alunos e observação detalhada dos exercícios. O Valmir observava até o ângulo das articulações para garantir que você não produzisse uma lesão futura.

E após um bom tempo sem treinar nada, voltei para uma academia e, após uns bons meses de treino, participei de uma graduação (exame para mudança de faixa) da arte marcial filipina Arnis Kali, na academia Magka-Isa. Após esse evento creio que pude ver o suficiente para tecer alguns comentários sobre o aspecto educacional do sistema.  O Arnis Kali e o sistema Inocalla, conduzido pelo Grão Mestre de nono grau Herbert “Dada” Inocalla tem sido, para mim, um caso único. Tanto por sua simplicidade como pela discreta sofisticação do sistema de ensino.

O primeiro aspecto que me chamou a atenção foi que essa arte marcial começa com o uso de armas e somente depois do domínio dos bastões se passa para lâminas e depois dessa paras as mãos nuas. Um dos motivos é histórico: O arquipélago filipino têm um longo histórico de invasões e eventualmente o tempo de deslocamento dessas forças invasoras era uma questão de meses. Ao contrário do que acontece em países com um grande território, como a China ou a Índia. Assim, era preciso treinar a resistência e torná-la razoavelmente eficaz em um curto espaço de tempo. As armas transformam até mesmo o estudante pouco treinado em um adversário razoavelmente perigoso.

Outro dos efeitos práticos é que também não é preciso um longo tempo de preparação física para se obter alguma capacidade. O que também torna uma arte marcial com um grau de acessibilidade muito interessante, atendendo pessoas de diferentes tipos físicos. O que fica bem evidenciado nas aulas, que tem desde pré-adolescentes até gente com mais de 60 anos.

Esse foco na praticidade, no eficaz e no efetivo é uma característica que permeia o Arnis Kali e o sistema de aprendizagem. No início  o foco é aprender os chamados “Dozes pontos” uma série de golpes básicos que vai fundamentar a maioria dos movimentos que serão aprendidos depois. De acordo com a opinião de um colega é um estilo “enxuto”, os movimentos são simples e diretos. Como o mestre gosta de dizer: sem fantasias. A idéia é ir direto ao ponto, usando os recursos disponíveis e de acordo com a situação. O que também é demonstrado pela ênfase em armas simples ou mesmo improvisadas.

Descrição do Arnis Kali e foto do Mestre Dada com bastões
fonte: Diário do Nordeste

No início o foco é se decorar os pontos e aprender os movimentos básicos, sem muita preocupação com detalhamento. Apenas o necessário para que o aprendiz não se machuque. Segundo o mestre, nessa fase o objetivo principal é ganhar memória muscular, fazer com que o corpo memorize os movimentos melhor que a mente. Ainda assim, existem procedimentos simples e eficientes para não deixar o aprendizado demorado e enfadonho: Os exercícios que começam sequenciais logo variam, a sequência é quebrada ou subdividida e novas sequencias são exercitadas de um modo que me lembra o aprendizado de música, existe um ritmo que pode ser sentido até nos golpes de bastão. Os golpes e defesas se complementam como notas músicais e logo o aprendiz começa perceber e obter alguma fluidez entre um golpe e outro. Um movimento praticamente “chama” o outro. Como diria uma grande amigo e praticante de kung fu e pakua: o combate é praticamente um bebop de ataques e defesas. E essa aproximação com a música talvez possa ser relacionada à outra raiz histórica. Cientes do potencial letal do Arnis, muitas forças de ocupação, como os Espanhóis, proibiam que os nativos treinassem ou mesmo portassem seus facões. A solução foi treinar com bastões, como se fosse uma “dança”. Uma estratégia similar à empregada pelos capoeiristas no Brasil. E quem batucava bem com o bastão se adaptava rapidamente ao uso do facão em caso de guerra. O uso de bastões também tornavam os treinos mais seguros e o nível de estrago num eventual combate um tanto mais aceitável para os dias atuais, o que caracterizou o Arnis moderno. As pessoas de hoje em dia acham um tanto desagradável a imagem de membros decepados.

Assim, o Arnis e especialmente o sistema Inocalla pode ser caracterizado pela elegância da simplicidade aplicada à aprendizagem de uma arte marcial.  Cada faixa tem objetivos de aprendizagem específicos a serem cumpridos, com a complexidade e variedade de movimentos aumentando de acordo com a experiência. O equipamento disponível permite demonstrar e exercitar diferentes situações. O que é especialmente importante numa técnica que preza pelo uso de armas improvisadas e simular situações de rua. O cuidado com a segurança aliado à preocupação em simular situações reais e produzir situações de aprendizagem eficazes pode ser observado no equipamento.

Já o espaço da sala de treino renderia um capítulo à parte. Talvez seja uma das salas de aula mais estimulantes que eu já vi. O lugar é planejado para favorecer a aprendizagem, sendo repleta de ilustrações e diagramas de posição, movimento, equipamentos de treino e até as paredes mostram aspectos culturais que frequentemente são abordados durante as aulas. Em alguns momentos me lembra uma sala de ensino fundamental. Que, como já comentei antes, acho muito melhor que as salas de aula para adultos. Algo que poderia ser melhor estudado e aprendido pelos pesquisadores de educação.

Mas ainda que  a aprendizagem possa parecer hierarquizada pelas diferenças de faixa, o grupo como um todo funciona como uma grande comunidade de aprendizagem onde os mais experientes ajudam os mais novos e aprendem com o próprio processo de ensinar. Algo muito diferente da competitividade em excesso ou o clima marrento que já vi em outros lugares. Acho que Paulo Freire ficaria feliz num ambiente como esse.

É possível perceber o claro incentivo do mestre em difundir seus conhecimentos e formar novos mestres capacitados para ensinar. A capacidade de ensinar é exercitada e incentivada muito antes que os praticantes se tornem mestres. É frequente o mestre convidar algum graduado para explicar o básico quando há um aluno recém chegado na aula.

E com esse sistema “discreto” para capacitar instrutores também pode-se inferir que existe um sistema de avaliação e seleção que é processual. Enquanto uma prova é apenas um retrato da capacidade de um estudante no momento que é testado a avaliação processual ocorre num espaço de tempo mais longo. A análise do processo de aprendizagem de cada estudante vai além do mero momento da prova. No meu caso, por exemplo, acredito que o mestre e os outros avaliadores já estavam observando o meu desempenho nos treinos desde a semana anterior ao teste. Por “coincidência”, na semana do teste o mestre permite que os estudantes venham em mais aulas. Acredito que isso funciona tanto como um reforço como uma janela de avaliação mais ampla. Por ser subjetiva esse tipo de avaliação demanda uma capacidade de análise ainda mais apurada de quem ensina e quem avalia. Tanto que é frequente que mestres de outras academias estejam presentes.

Um detalhe me deixou curioso e eu ainda gostaria de analisar no futuro é o fato de alguns do mestres de nível mais alto também são praticantes graduados de tai chi.

Outro aspecto interessante é que existe uma parte teórica.O sistema de ensino tradicional, com um palestrante falando e uma turma ouvindo, não é negado mas usado apenas quando é a opção mais adequada. No final da aula é comum a apresentação de casos relacionados à defesa pessoal, demonstração de técnicas e até mesmo elementos da história do Arnis e, consequentemente, das Filipinas. Nos exames de faixa esses assuntos são cobrados na forma de perguntas dos professores.  Assim, o sistema Inocalla acaba sendo também uma eficaz iniciativa de diplomacia cultural para difundir a valorizar a história e cultura das Filipinas.

O que temos é um sistema focado em alcançar objetivos claros, com um planejamento educacional dividido em módulos e definido para cumprir esses objetivos, dentre eles a divulgação e expansão de uma arte marcial. Sinceramente, eu recomendo para professores de artes marciais, educação física e educadores em geral. Mestre Dada é um professor por excelência e vale a pena um estudo mais aprofundado de seu sistema de ensino.

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