A frase embaixo significa “O único filme que começou como comédia e está se tornando um documentário”. Pode não ser do filme original, mas eu achei uma excelente observação.

Eu tenho vários motivos para me lembrar desse filme, e não gosto da maioria deles, mas são evidências inegáveis. Como os cortes de gastos governamentais abatendo o orçamento da educação; o trato com professores  que se tornou um assunto policial; o absurdo desenconhecimento sobre ciências na américa latina; saber que 70% dos brasileiros passarem um ano inteiro sem ler um livro; a preocupante situação das escolas no Brasil e no mundo afora; e observar de forma quase sintomática o debate raso das redes sociais que ilustra como vivemos sob a ditadura do senso comum, tornando senso crítico algo praticamente clandestino. Eu até poderia elencar outros motivos para achar esse filme pertinente mas ficaria deprimido. Considerando essas tristes evidências achei que seria importante pensarmos no que o cinema pode nos sugerir para o futuro. Esse filme foi uma da minhas influências na decisão de estudar educação, uma comédia que sugere como seria o mundo se , como dizia Nelson Rodrigues, os idiotas dominassem o mundo por uma simples questão de superioridade numérica.

Idiocracy (Idiocracy, de 2006) é uma comédia de ficção científica, e de humor negro, que recomendo para qualquer um que se importa com o tema educação, independente de suas preferências políticas. A trama é a história de um cidadão médio e põe médio nisso, o cabo Joe Bauers (Luke Wilson) e a prostituta Rita (Maya Rudolph) que foram cobaias num experimento militar que acaba sendo esquecido. O que era para durar um ano acaba deixando os dois hibernando por mais de 500 anos. Quando eles acordam descobrem que o futuro tornou-se algo inesperado. A humanidade tornou-se infantil, egocêntrica, extremamente anti-intelectual e mentalmente preguiçosa devido a dependência das máquinas feitas no passado,  a nossa época. Eles conseguem usar máquinas, só não fazem idéia de como elas funcionam. Mesmo não sendo um gênio Joe não consegue se adaptar bem à essa nova sociedade. Entre outras coisas porque agora ele é o homem mais inteligente do mundo. Em compensação Rita, que me parece um tanto mais esperta, se adapta sem o muito problema.

Essencialmente, viramos um grande bando de retardados onde tudo foi simplificado/emburrecido para atender os anseios de uma sociedade que trocou a busca por inovação, a curiosidade e o avanço (interno e externo) por qualquer coisa mais fácil e barata. O desejo de descobrir e de aprender, simplesmente acabou. O filme é o inverso das ficções utópicas onde nos tornamos uma sociedade mais avançada e também uma ironia ácida com as distopias apocalípticas. Até então ninguém havia pensando num Mad Max burro como uma porta.

Esse não foi um filme de sucesso, mas ainda assim é marcante. Na verdade o corpo mole da distribuidora do filme explica seu insucesso e até sugere a qualidade inquietante do filme. Não foram exibidos trailers nos cinemas, críticos não receberam cópias do filme, ele nem passou nos cinemas brasileiros, indo direto para os DVD’s, um raro caso de anti-promoção de um filme.  Segundo a wikipedia, existem duas hipóteses: o filme não foi bem recebido em sessões-teste ou a distribuidora temia ofender seu público-alvo (esse argumento é praticamente uma piada pronta).  Para mim, o filme descreve um mundo em que todos os esforços para instigar o senso crítico, iniciativa, inteligência e humanismo caíram por terra.  Sério, zumbis antropófagos são um passeio no parque comparado com isso.  Idiocracy é a perfeita representação do que seria apocalipse para os educadores. É pior que o Ragnarok dos Vikings porque não é uma batalha eterna, mas a derrota final.

Enfim, se você ver esse filme e rir como todo mundo mas também engolir em seco pensando onde nós vamos parar e se dispor a fazer algo sobre isso. Meus parabéns, você faz parte da resistência.  Lutemos para que a Idiocracia seja apenas um filme. Inclusive, como no filme, não existe uma solução mágica e rápida, não se pode voltar no tempo ou sonhar com algo melhor, é preciso lidar com o que temos.  Essa é uma batalha de décadas, na qual a maioria dos que lutaram não será lembrada por isso. Mas a alternativa é horrenda demais para ser aceita impunemente, ainda que seja engraçada.

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