Eu poderia dizer que This War of Mine é mais um videogame de guerra, mas não necessariamente. Em vez de um soldado armado, um herói, um general tomando decisões de comando ou qualquer outra coisa comum aos jogos do gênero neste caso os protagonistas são os “figurantes” os civis presos no fogo cruzado das facções opostas. Quem são as facções, como começou o conflito, nada disso importa. O jogador é nada mais que um bando de sobreviventes que deve tomar decisões de vida ou morte todos os dias para sobreviver ao cerco em uma cidade semidestruída e coalhada de franco-atiradores à espreita nas ruas. É preciso arranjar comida, àgua, abrigo, negociar, reutilizar e, eventualmente roubar. Enfim, o que for necessário.

A linguagem visual foi algo bem trabalhado fazendo com que o jogo tenha um bom impacto visual sem depender de muito processamento, muita memória RAM ou placas de vídeo anabolizadas. As cores tem pouquíssima saturação, sendo quase um jogo em preto e branco com hachurado visível, como que simulando desenhos a nanquim feitos num diário. O que aumenta o clima frio e depressivo do jogo, dá a idéia de algo bem europeu. Diria que o jogo foi baseado nas experiências de quem sobreviveu aos conflitos dos balcãs nos anos 90. E me lembrou o conhecido curso SHTF (Shit Hits the Fan) onde se podem encontrar os melhores textos sobre survivalism que já li. E o fato da produtora do jogo ser a  polonesa 11Bit Studio, de um país que já foi palco de diversas guerras, também credencia o jogo para ser uma experiência bem diferente dos tiroteios em primeira pessoa que geralmente vemos nesse gênero.

O jogo é algo pesado, sombrio e opressivo. Até mesmo um eventual tédio parece reforçar o clima de desespero do jogo. A emoção de uma saída noturna em busca de comida e outros itens pode ser destroçada ao se descobrir que seu esconderijo foi saqueado e logo você mesmo se verá no papel de saqueador.

Dos meus poréns eu realmente senti falta de um bom tutorial para aprender a jogar, os controles nem de longe me pareceram tão intuitivos quanto o desenvolvedor gostaria e perdi alguns dias,  e alguns personagens para a fome, tentando entender como eles funcionavam. Me segurei para não procurar dicas sobre o jogo justamente para não contaminar minha experiência. Afinal os personagens também eram pessoas comuns tragadas pela guerra, sem o menor treinamento para lidar com isso e era assim que eu também queria me manter.

fonte: Gamespot

Nesse aspecto o jogo tem aspectos bem sacados como a pequena biografia dos personagens. Um texto curto contado em primeira pessoa como seria se você estivesse abrigado com eles. A biografia e foto é importante para criar vínculo entre o jogador e o personagem e reforçar a noção de perda caso o personagem eventualmente morra. E esse aspecto é cada vez mais presente à medida que seus personagens sofrem com doenças, fome ou tristeza. A opção salvar é bem limitada, na verdade não é possível voltar atrás após se cometer um erro fatal, apenas recomeçar do início. O que está totalmente de acordo com a atmosfera do jogo.

Admito que adoraria ver uma expansão do jogo com mais personagens, mais opções para criarmos diferentes tipos de vínculo. Como dito pelo franco-atirador americano Garett Reppenhagen, ninguém tem o monopólio da narrativa de uma guerra. Personagens variados significam mais opções de narrativa a serem construídas ao longo do jogo. Nesse aspecto seria uma evolução semelhante à que ocorreu no cinema. Antigamente a guerra era mostrada como uma aventura e essencialmente do ponto de vista ocidental. Mas outras opções mais doloridas e realistas foram surgindo, o conflito multicolorido foi cedendo lugar a filmes como a O Resgate do Soldado Ryan. Sem contar com a chance de ver outras perspectivas, como os excelentes A irmandade da Guerra e A Assembléia fizeram. Assim, torço para que o jogo seja, além uma bem-vinda inovação, e um sinal de amadurecimento do tema guerra dentro do universo dos jogos.

Ao mesmo tempo acho que ele tem um potencial educacional justamente por tirar o glamour da guerra.  Fico pensando em que reflexões poderiam ser tiradas de um jogo como esse em aulas de história, antropologia. E quem sabe colocar um pouco de juízo na cabeça daqueles que acham que “o problema do Brasil foi que nunca tivemos uma guerra civil para arrumar as coisas”. Imaginem como seria um jogo desses em que você pode colocar você e seus entes queridos no meio de um cenário de guerra civil e ver eles morrerem de balas, doença ou fome? Imagino como uma experiência dessas pode sacudir algumas visões de mundo forjadas no conforto de uma casa limpa e com comida na despensa.

Porque esse jogo de guerra é de um pacifismo convincente.

Atualização

E o pessoal da produtora, esses poloneses que continuam me deixando admirado, fez uma interessante expansão a “The Little Ones”(os pequenos) onde os horrores da guerra e da sobrevivência são vistos do ponto de vista das crianças, considerando que essas continuam sendo crianças: brincam, choram e aprendem e que os adultos que elas irão se tornar será influenciado por suas experiências numa cidade sitiada. Ainda não joguei esse conteúdo mas estou bem curioso. Continua sendo um jogo que eu não chamaria de divertido, mas de uma experiência necessária.

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