Conheci esse jogo durante o curso de Games e Gamificação em Educação e de uma forma engraçada: num dos fóruns do curso eu descobri um link sobre o uso do jogo em aulas de filosofia e comentei no fórum anterior. Um colega de curso leu e contou sobre sua experiência com o jogo e resolvi testar. Agora eu corroboro a opinião do colega, o jogo é realmente muito legal, sendo algo diferente do que entendemos por videogame em geral. E o mais interessante é seu imenso potencial para aprendizagem.

Em termos de gênero de jogo esse é um jogo um tanto complicado para enquadrar. Pelo que vi pode ser considerado um adventure game.  A jogabilidade é um tanto travada, a exploração e interação algo limitado e os “combates” são simplistas, creio que o melhor paralelo que eu poderia fazer seria com o clássico ” The Secret of Monkey Island” dos anos 90.

Na verdade, o forte do jogo está nos diálogos e na interação social com os personagens. As roupas, a linguagem corporal, tudo está orientado em torno da interação entre jogador e personagens. Há partes que você percebe que foram criadas especificamente para fazer com o que o jogador crie vínculos com Clementine, a criança que é protegida pelo personagem/jogador. De fato, o jogo é definido pelas decisões que o jogador toma, o que ele fala, como ele lida com outras pessoas, como ele lida com Clementine. Como o meu colega de curso falou: um dos aspectos mais legais é observar que o comportamento da menina é influenciado pelos exemplos de comportamento que o jogador dá para ele. Se o jogador mente, ela começa a mentir e etc. Existe a linguagem falada, a corporal, entonações de voz e tempo limitado para tomar decisões. É preciso negociar, ameaçar e tomar decisões difíceis o tempo todo. O que aumenta a imersão e o envolvimento do jogador.

imagem diálogo

Um exemplo do sistema de diálogos. O jogador tem um tempo limitado para escolher alguma das alternativas de resposta.

Além do uso educacional em aulas de filosofia já citado acho que essa mecânica de jogo seria muito interessante para treinamento de profissionais que precisam lidar com outras pessoas, como recepcionistas, vendedores ou policiais. Por exemplo, em 2010 assisti uma palestra com um militar do exército britânico e ele comentava sobre a importância da consciência cultural dentro das forças de ocupação ocidentais atuando no Iraque. Ele comentou que era preciso que houvesse essa consciência cultural (cultural awareness) em níveis variados. O soldado precisaria ter uma noção de linguagem corporal e o básico da linguagem local enquanto oficiais deveriam entender formas de pensamento, normas de etiqueta local etc. Como dito por Holiday (2008) muitas decisões ruim são resultado de ignorância cultural. Em situações como operações as de manutenção da paz promovidas pela ONU esse tipo de consciência cultural seria ainda mais importante, como observado por Baker (2010).

Outro exemplo poderia ser para atendimento médico, onde se poderia ensinar a estudantes de medicina a começarem seus diagnósticos de acordo com o discurso de um paciente virtual, ou treinar vendedores para reconhecer e lidar com diversos tipos de cliente. Assim, uma mecanica de jogo como essa desenvolvida pela empresa Telltale, em que fosse possível se desenhar situações de aprendizagem usando linguagem verbal, escrita e corporal, roupas, cenários etc. poderia ser muitíssimo interessante para ensinar consciência cultural e habilidades sociais. Mas para ser mais exato, pessoalmente não acredito que o jogo “ensine” no sentido mais tradicional e behaviorista da palavra. Acho que um jogo como esse serve como um ambiente seguro onde o jogador/aprendiz pode ter experiências, observar, refletir e construir seu conhecimento baseado nessas experiências dentro do ambiente. A idéia é interessante e seria um bom tópico para pesquisa.

Imagino até que um sistema bem-projetado poderia ser utilizado como um ambiente seguro para que pessoas tímidas ou com problemas sociais ganhassem mais segurança para lidar com as pessoas,se sua eficácia for comprovada empiricamente, claro. Nesse aspecto uma mecânica como essa poderia ser um instrumento de inclusão social, ainda mais  se considerarmos que a vida civilizada se baseia justamente em nossa habilidade social.

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