Semanas atrás participei do curso Pensar Infográfico. A infografia pode ser entendida como a combinação de imagem, texto, números e gráficos de forma a sintetizar e descrever produtos ou processos complexos. E, considerando como estamos nos tornando cada vez mais visuais que textuais, ao mesmo tempo que temos vários processos complexos para descrever, entender infografias torna-se uma habilidade útil não apenas para designers, mas para pessoas em geral.

No caso é importante assinalar que o objetivo do curso não era fazer infografias, mas entender as características e a lógica de produção das infografias. Como o próprio nome diz a idéia era “pensar infograficamente”.

Assim, após a definição do conceito de infografia e apresentação de sua ” anatomia” os professores entraram na questão histórica. As origens dos infográficos. Apesar do termo ser recente foram mostrados diversos exemplos históricos, como os diagramas de Da Vinci e outros menos conhecidos mas ainda assim importantes. Como dito por um dos professores as crises e guerras sempre incentivaram a inventividade humana e como eventos complexos eles precisavam ser explicados.

Alguns exemplos, tão legais que eu não posso deixar de citar: O trabalho de John Snow, um médico inglês (YOU know nothing) que antes do desenvolvimento da teoria microbiana conseguiu entender o como o cólera se espalhava em Londres. Ele não só se contrapôs a teoria miasmática em voga na época como também, sem saber da existência do vibrião da cólera observou a casualidade entre a qualidade da água e o número de doenças. Um trabalho que hoje conhecemos como epidemiologia. E onde entram os infográficos? No fato que ele demonstrou seus dados para as autoridades britânicas através de uma interessante combinacão entre mapas e tabelas de doentes. Um uso inovador para a georeferência, muito antes do GPS.

O mapa original mostrando a concentração de casos de cólera nas ruas de Londres

Florence Nightingale, além de alma caridosa e pioneira da enfermagem também foi inovadora no uso de gráficos. Fez uma série de correlações entre o número de feridos e mortos na Guerra da Criméia e as condições de higiene dos hospitais. Para ilustrar seus dados ela produziu uma série de gráficos inovadores para mostrar que o número de mortes devido a fatores de higiene (evitáveis) era maior que o número de mortes em combate.

O gráfico de fatalidade de Nightingale

Outro trabalho fantástico foi o de Charles Joseph Minard, um engenheiro civil francês que fez um infográfico sobre a campanha de napoleão na rússia. Apesar da frieza e precisão dos números seu infográfico é uma poderosa descrição das imensas perdas enfrentadas pelo exército francês. O que demonstra, para mim e meus contemporâneos, que não somos a última coca-cola do deserto só porque temos smartphones.

O Gráfico de MInardi, saindo de Paris até Moscou e voltando a Paris. Repare a diferença entre quantos saíram e quantos voltaram.

Todos são exemplos claros do poder da retórica visual da infografia. E, como bem demonstrado depois pelos professores, como isso pode ser trabalhado ou mesmo exagerado para se atender a objetivos específicos. Bogost teria adorado a aula, nas verdade ele fala um pouco do assunto em Persuasive Games.

Depois disso, os professores mostraram seu processo de produção através de trabalhos publicados. Além de acadêmicos eles são profissionais atuando no mercado o que é algo raro e um dos pontos fortes do curso, o rigor acadêmico alinhado à experiência profissional. Foi possível ter uma idéia clara dos objetivos, problemas comuns e o modo de pensar das pessoas que produzem infografias. Nesse aspecto reside também um dos complicadores: infografias são um trabalho multidisciplinar, o resultado do diálogo entre quem produz a informação e quem desenha o infográfico. Algo que funciona numa lógica diferente do modelo de caixinhas corporativas em formato de linha de montagem que costumamos a ver nas empresas. É preciso um arranjo produtivo um pouco mais refinado e menos hierárquico.

Ao final tivemos um exercício de produção onde fomos divididos em grupos e esboçamos um infográfico a partir das mesmas informações. Foi legal observar a diversidade de resultados e os padrões de semelhança.

Mais que um curso sobre como fazer a idéia era mostrar justamente esse modo de pensar e nos oferecer um necessário “letramento” visual para entender e, posteriormente, criticar e produzir infografias. Bem mais do que eu esperava para um curso de um dia.

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