635653Estou lendo o Método Soma, de Carlos Albuquerque. O método é uma ferramenta educacional cuja sigla significa: S de sistêmico, O de objetivos claramente definidos, M, monitoramento  e A de avaliação. O que me parece algo bem convergente com a proposta de método lógico que estudei ano passado.

Apesar da experiência e conhecimento do autor o texto não cai na armadilha do prolixo que é tão comum em textos acadêmicos. Na apresentação o autor seus objetivos ressaltando seu aspecto instrumental para municiar educadores no papel de capacitar as pessoas do campo. Para tanto o autor sugere que se observem vários aspectos além do técnico, como o social. O que me parece de acordo com a idéia das diversas esferas da sustentabilidade: social, ambiental e econômica.

Na sua contextualização, onde descreve as mudanças que estão ocorrendo no mundo, o autor descreve a importância da agricultura para a economia brasileira. Porém apesar dessa importância ele não deixa de mostrar que vivemos em uma sociedade distorcida, desigual e que os pequenos agricultores formam um dos grupos mais afetados por essa estrutra socioeconomica disfuncional. Ao mesmo tempo muitas mudanças ocorreram nessa sociedade que começou históricamente agrária e se tornou urbana. A produção agrícola que era tradicional está se tornando cada vez mais científica e tecnológica. Devido a complexidade dessa contextualização o autor criou um quadro comparando as mudanças de paradigmas e as tendências e necessidades que essas mudanças acarretam.

Em seguida temos uma análise do perfil dos agricultores, onde o autor se mostra claras as dificuldades que qualquer um que deseje trabalhar na área de TT e TD&E terá que enfrentar, especialmente para quem está acostumado com o ambiente urbano. O autor também elenca algumas características necessárias, como a paciência e fé no potencial humano especialmente se considerarmos a dificuldade em colher resultados concretos no curto prazo. As notas e boletins de escola fazem pouco sentido nesse ambiente, portanto é preciso criar indicadores específicos para cada caso, com foco nos resultados e não apenas na atividade de capacitação. Também é possível observar as fragilidades conceituais, metodológicas e estruturais da prática atual que devem ser corrigidas:

  • a avaliação da capacitação em si é essencial, especialmente para observar eventuais gargalos na didática e metodologia dos próprios educadores;
  • a frequente ausência de análise das necessidades de aprendizagem e características do público-alvo;
  • a falta de monitoramento do impacto do processo educacional; precariedade geral do ensino rural etc.

As críticas aos aspectos metodológicos convergem com o que é proposto em outras abordagens como modelo lógico, design instrucional e teorias de aprendizagem. Considero um bom sinal ver o eco de outras áreas de conhecimento.

Por outro lado o autor também observa alguns tímidos avanços, como a flexibilização do currículo do MEC, que abre espaço para se trazer a realidade do agricultor para a sala de aula; e o uso de meios de comunicação de massa, como TV, sessões rurais nos jornais impressos e o interesse de instituições públicas e privadas em produzir material didático sobre assuntos relacionados ao campo e, especialmente, o crescente interesse de uma parcela dos próprios agricultores em auto capacitação.

Nas característica da educação de adultos eu gostei da importância que o autor dá ao uso de métodos de ensino variados, especialmente os que privilegiam a interação, como aqueles em que é possível se discutir e executar algo. Como apresentado, os alunos retêm apenas 10% do conteúdo lido, por outro lado, são capazes de reter até 90% do que foi discutido e praticado. Acho que isso é especialmente importante por mostrar o espaço que existe para as técnicas de aprendizagem interativas e como as abordagens centradas na simples transferência de conhecimento são limitadas. Muito do que o autor fala está 100% dentro do que se espera para a educação do século XXI.

Outro aspecto abordado foi o da resistência do público alvo, devido ao fato de estarem longe da escola há muito tempo, ou mesmo por terem uma lembrança ruim da escola, as técnicas de apredizagem tradicionais de sala de aula podem ser especialmente problemáticas nesse contexto. Nesse aspecto é preciso concordar que especialmente os pequenos agricultores são ao mesmo tempo a parcela mais carente de capacitação e também a mais resistente justamente por não estar preparados para lidar a competição existente no setor agrícola.

Em Processo de aprendizagem o autor observa aprendizagem do ponto de vista behaviorista da mudança de comportamento. Porém o autor evitar cair na armadilha de uma abordagem behaviorista restrita em excesso, observando principalmente os aspectos instrumentais para a aprendizagem que essa abordagem oferece. Aspectos como experiência anterior e afetividade também devem ser considerados. O aprendizado não é frio, estático ou linear, mas multidimensional, envolvendo diversos aspectos da inteligência e experiência anterior, moldado pelas necessidades e percepções dos alunos, o que toca na especial importância da motivação. Inclusive observando que o erro pode ser uma rica fonte de aprendizagem.

Assim, detalhando mais a sigla, SOMA pode ser entendido como:

  • Sistêmico: O que importa são os resultados, o sistema é orientado por eles
  • Objetivos: definidos de forma clara e mensurável
  • Monitoramento: deve ser constante para avaliar a evolução das pessoas em capacitação de forma a ajustar o sistema para cumprir os resultados esperados
  • Avaliação, os trabalho executados são constantemente avaliados e o aperfeiçoamento do sistema é feito ao longo do processo (confesso que não entendi bem a diferença entre monitoramento e avaliação).

Em diagnóstico, o autor critica os diagnósticos exaustivos por serem longos e retirarem o produtor rural de seu local de trabalho. O que certamente vai tornar o público resistente. Em contrapartida ele recomenda especial foco no nível de conhecimento específico sobre os temas da capacitação. Assim o diagnóstico seria algo mais gradual, começando com um diagnóstico preliminar e sucinto sobre os aspectos que podem ser resolvidos por meio de capacitação. Um opção seria se basear mais em testes piloto de curso do que em questionários. Isso significa admitir que serão necessários pelos menos 3 testes até o curso estar razoavelmente validado. Nesse ponto os objetivos claros e mensuráveis serão essenciais para validar o curso. O conteúdo é estabelecido em função desses objetivos, a taxonomia de Bloom pode ser bem útil nesse aspecto.

Ainda que o planejamento e execução dos cursos estejam centrados no instrutor é preciso considerar a participação dos alunos. Eles devem ser estimulados a contribuir com sua experiência e a fazerem um feedback construtivo para a qualidade do curso, mesmo que isso signifique mudanças nas técnicas de ensino e conteúdo. Afinal, comunicação é uma via de mão dupla. Se os alunos perceberem que são realmente agentes ativos no curso ficaram mais motivados e oferecerão insights mais significativos, terão melhor participação e melhor aprendizagem.

O autor é favorável ao desenvolvimento de indicadores para medir os resultados do curso, mais como uma forma de tornar o desenvolvimento da capacitação mais objetivo. No entanto, considerando que o objeto da ação de capacitação são as pessoas é preciso aceitar a individualidade e o fato de que as reações e tempos de resposta dos alunos pode se desdobrar de forma inesperada. O que denota a necessidade de humildade e diplomacia da parte de quem planeja e implementa a intervenção.

Nos capítulos seguintes o autor explica melhor seu método e apresenta cases de uso.

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