Como já comentei em vários posts anteriores, a diversidade é uma das coisas interessantes desse trabalho. Em uma das visitas ao hospital passei por mais uma dessas, do 8 ao 80 de novo.

A primeira paciente parecia bem promissora, mais velha, com idade por volta de uns 12 anos. Sorriu na hora em que fiz o convite, ela sorriu e aceitou. Já imaginava que teríamos uma partida interessante, de repente até mais de uma. quem sabe. Já na parte ela simplesmente parou e disse que não estava entendendo nada. Ok, as vezes eu deixo as explicaçòes longas e a melhor forma de se entender um jogo é jogando. Proponho jogarmos com umas poucas peças para ela pegar o jeito e depois vamos contando os pontos. Percebo que a disposição foi substituída pela apatia. Abro a porta para ela desistir, afinal isso não é um dever de escola. Mas ela parece agora apática demais até para pensar no assunto. Eu insisto, tento anima-la, mas logo ela desiste e sugiro o jogo de damas. Afinal esse é como calça jeans, um clássico que sempre funciona. E minha idéia afunda quando ela me diz que nunca entendeu damas. Putz! É a primeira vez que ouço essa. Explico as regras, mas percebo que a porta já está fechada: ela procura a TV, a fofoca comentada ao lado, mas não entra no jogo. Não querendo alongar mais esse sofrimento eu abro a porta de novo e ela desiste e volta para o conforto da rede social da vez.

Enquanto estou juntando as peças e os cacos da minha disposição uma garotinha ao lado nos assistia. Ela mal deve ter 4 anos e me pergunta se pode jogar e a mãe ao lado já avisa que aquele jogo é para crianças maiores. Mas como a experiência já me deixa mais safo, instaneamente o complexo sobre o Cerrado se torna um quebra-cabeças que nunca se repete e com essa desculpa coloco nossa pequena curiosa no jogo. Empilho as peças e começamos a montar. A medida que montamos eu salpico informações sobre o bioma cerrado. Nada muito pretensioso considerando a idade e porque não quero tornar a experiência chata demasiadamente didática. A nova jogadora entende as formas de encaixe muito rápido e logo quase não preciso corrigi-la. Logo ela questiona porque o quebra-cabeça não fica completo e eu digo que esse é um quebra-cabeça louco e o preço cobrado por ele nunca se repetir é ficar sempre parecendo que falta algo. Ela aceita o argumento e continua jogando. Testa, gira peças, encaixa num lugar, em outro. Uma pequena exploradora em movimento por savanas, florestas e rios. Enquanto estamos jogando ela olha curiosa para a caixa fechada do jogo de damas e pergunta se também podemos jogar aquele. Eu aviso que aquele é para crianças maiores e que certamente ela não irá gostar. Ela aceita e continuamos jogando.

Mas ao final de nossa segunda partida de quebra-cabeça ela me pede para jogar o tabuleiro de damas. Ela posiciona as peças perfeitamente no tabuleiro enquanto eu vou inventando uma versão mega-facilitada do jogo na minha cabeça. A mãe se aproxima e acha graça, comentando que o irmão mais velho estava ensinando ela a jogar damas e xadrez. Hein? Parece que quem está precisando pensar fora da caixa sou eu. A pequena começa jogando bem, a percepção das jogadas é limitada e eu a incentivo a pensar no tabuleiro todo e não apenas uma peça por vez. Ela entende e logo começa a variar, erra pouco, ouve muito e principalmente, ela pensa e se diverte com o que está fazendo, para uma criança dessa idade eu estou achando a mocinha simplesmente fantástica.

E assim jogamos, ela testa, pergunta, corrige, ela constrói seu conhecimento errando, mas sem medo de errar. Como já vi antes, a menina simplesmente floresce se o ambiente é adequado e o que desejo é oferecer exatamente isso, eu rio e a incentivo. E ela não decepciona. Acredito que além da atitude certa os pais estão fazendo um bom serviço com a menina. Uma combinação de fatores internos e externos.

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