Apliquei o jogo no Jardim Botânico de Brasília. Dessa vez não havia nenhum evento em específico ocorrendo e tivemos outras opções de jogos, resultado de uma lucrativa parceria com a Orgutal.

Ao contrário dos estudantes e jovens de sempre o público dessa vez foi literalmente familiar. A maior parte do público era de famílias, grupos familiares jogando juntos e em arranjos variados: eram filhos, pais, mães, tios avós com os netos.

Como conhecer um jogo novo é uma situação de aprendizagem é possível ter uma idéia de como o aprendizado algo novo é visto por diferentes famílias. Em algumas isso é uma diversão, em outras um desconforto, sendo que temos aqueles que crescem com o desafio e os que fogem dele.

Chega a ser engraçado observar o desconforto de um adulto com a hipótese de parecer ignorante frente à uma criança. O que demonstra um pouco da diferença de atitude por idade. Apesar dos adultos em geral se sentirem desconfortáveis com a idéia de jogar com crianças, se superada essa “tensão superficial” eles podem obter um bom momento de interação com seus pequenos. De fato é algo que demanda uma certa dose de segurança pessoal.

Nesse aspecto é muito legal ver como crianças florescem quando tem a devida atenção de seus pais ou parentes. Vi uma criança de 6 anos montar jogadas interessantes e ver coisas que os adultos ao seu lado não viram enquanto jogava contra sua mãe e uma amiga. Infelizmente, isso também fica visível pelo contraste: quando você vê o discreto estrago que a ausência dos pais provoca. Isso ficou visível com outra criança que participou, 3 anos mais velha e que basicamente foi “deixada por lá”. Essa quebrava a cabeça para entender o que estava acontecendo na mesa e com uma visível baixa estima tendia a desistir perante qualquer dificuldade. Ela tenta compensar falando sobre brinquedos caros e tenho que me esforçar para não constrangê-la ainda mais quando o placar começa a se distanciar e ela vai ficando para trás. Perder é um risco aceitável para quem é seguro de si, mas uma catástrofe para quem já não tem uma boa autoestima. Assim, ele joga apenas um pouco, mas depois fica “orbitando” a mesa vendo os jogos dos outros. Convido ele para jogar novamente, mas ele não aceita. Ele ouve um pouco das explicações, mas logo se distrai, vai passear e retorna. Ele quer e não quer.

Essa é uma daquelas pequenas tragédias, insidiosa por sua sutileza. Um crime que deixa poucos rastros, mas esses terão impacto por muito tempo. Dificilmente o coitado vai perceber um dia que ele poderia ser mais se tivesse tido algum apoio decente dos pais. Muitas vezes a ausência pode ser pior que decisões ruins. Provavelmente ele vai achar que sua criação foi bem “normal”e os pais certamente nunca vão perceber o que negaram ao filho. Ao menos esse foi um dos poucos. A maioria estava junto e conseguiu se divertir junto com os filhos. Há um eco bonito quando o brilho nos olhos de uma criança que aprende algo é respondido pelo brilho nos olhos da mãe que estava lá para ver seu filho aprendendo algo.

A experiência de ter vários jogos também abriu espaço para um público mais amplo. Crianças novas tem uma divertida habilidade em criar suas próprias regras e o que era um jogo pode rapidamente virar um quebra-cabeça de acordo com a imaginação do jogador que estiver à mesa. Essa variedade se torna um desafio para o facilitador que deve ser ainda mais flexível para manter o círculo mágico do jogo funcionando. É preciso evitar a armadilha do didatismo em excesso e deixar que isso continue sendo um jogo. No final das contas ainda atendemos poucos, mas os que estavam lá tiveram uma boa experiência.

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