Num domingo qualquer um sobrinho me apareceu com um DVD para me mostrar. Eu vi e não achei nada muito interessante: ao bater o olho já vi que a capa havia sido grosseiramente alterada. Provavelmente era um produto pirata e de um pirata bem ruinzinho. Eu indiquei os problemas da capa e expliquei porque era um trabalho ruim. Ele ficou um tanto decepcionado e frustrado porque achou que conseguiria me enganar.

A ironia foi que ele me enganou sim, só não foi no ponto que ele esperava. Porque eu nunca teria imaginado que ele, do alto de seus 8 anos, poderia fazer sua própria versão de capa de DVD. Eu só consegui ter essa habilidade com 20 anos e usando um photoshop cem vezes mais capaz do que o programa de edição de imagem genérico e meia-boca que ele usou.

E esse foi mais um dos pontos que meu sobrinho me deixou positivamente impressionado nos últimos tempos. E acredito que suas pequenas aventuras gráficas são consequência de seu divertimento com o Minecraft um mundo virtual que parece pouco interessante, mas de certa forma está demonstrando ser o Lego do Século XXI.

Meu sobrinho não só está usando o jogo, nesse meio tempo ele envolveu uma outra sobrinha minha em suas aventuras e juntos procuram tutoriais para fazer novas construções, criam suas próprias casas e castelos, aprendem a personalizar o jogo para seus interesses e estudam novas opções de modificação do cenário.

Enfim, a dupla se tornou uma pequena comunidade de aprendizagem. Em conjunto eles estão aprendendo e construindo seu próprio conhecimento sozinhos, sem intermediação de adultos. Ajudados apenas por tutoriais que parecem ser feitos por adolescentes não muito mais velhos do que eles. Paulo Freire adoraria ver isso.

Em termos formais não sei nem se posso chamar Minecraft de um jogo, dada a ausência de certos elementos formais típicos de jogos como objetivos claros, obstáculos etc. Ele pode ser definido mais como um mundo virtual, um “parquinho”(sandbox) onde meus sobrinhos estão fazendo experiências.

Seja qual a caixinha acadêmica ele deva ser encaixado o que realmente importa, os seus efeitos são bem interessantes. Os usuários passam a ter motivação para aprender e essa motivação é forte o suficiente para que eles se tornem autodidatas e criem suas próprias comunidades de aprendizagem. Eles estão aprendendo a aprender, tornam-se agentes de sua própria aprendizagem. O que é algo que nossas escolas vêm tendo cada vez mais dificuldade em oferecer para essa geração.

E essa relação não passou despercebida por outros especialistas como aqui, ali, acolá e produzindo algumas experiencias também.

Assim quando os pais olharem com preocupação para o filho enfurnado no computador sugiro que direcionem o pequeno para os aspectos úteis que ele pode ganhar no jogo. Certamente os pais podem ter boas surpresas.

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