Noite não muito promissora: eu estava exausto, havia deixado meu outro jogo no trabalho, estava apenas com o jogo de damas e só notei que havia esquecido minha garrafa de alcool 70% quando cheguei no hospital. Para piorar, o álcool em espuma disponível lá não apenas limpava as peças como também detonava com elas. Ou seja,  minhas perspectivas não estavam muito animadoras naquela noite.

Ainda assim, num dos quartos conheci um daqueles garotos tão bonitos que parece parte do elenco de um comercial de margarina. Ele tem 5 anos e estava sozinho no quarto com a avó. Considerando a idade imagino que ele não vá se interessar muito por damas. Mas apesar de ser muito tímido com estranhos, segundo a avó, e nunca ter jogado damas ele aceita aprender e jogar uma partida.

Explico as regras básicas para ele e vamos jogando. A avó ao lado acompanha, cutuca, recomenda jogadas e eu diplomaticamente vou sugerindo que ela dê algum espaço para ele. Tenho certeza que ela tem a melhor das intenções mas ela cai na armadilha de uma abordagem behaviorista falha na qual apresentar o comportamento desejado é mais importante que a aprendizagem em si. Eu não quero que ele faça o que eu gostaria, quero que ele pense como um jogador de damas. Mesmo que essa noite seja apenas o início de seu aprendizado.

Nas primeiras jogadas meu oponente está totalmente travado, primero espera que a avó lhe diga o que fazer ou me olha esperando que eu lhe diga o que fazer. A avó entende o silêncio como um pedido de ajuda, enquanto eu pretendo tornar a vida do garoto um pouco mais divertida, mas não necessariamente mais fácil. Assim, para criar algum vínculo e deixá-lo mais à vontade para pensar eu me ajoelho junto ao leito da cama para ficar na mesma altura que ele e podermos nos ver olho no olho. Eu passo a falar com a voz baixa e pausada, sem medo de longos silêncios e sem cobrar que ele me responda rápido. Minhas jogadas são respondidas com o silêncio. Eu espero, tento esconder qualquer traço de impaciência e pergunto que jogada ele deseja fazer. Ele parece ter muito medo de errar, mas vai relaxando à medida que mostro para ele que esse é um ambiente em que não precisa temer o erro. Faço minhas jogadas com narração: movo meus peões e vou comentando, de forma tão despretensiosa quanto possível, quais são minhas jogadas e o que estou planejando. Adiciono um pouco de comédia tentando trazer um pouco da batalha que o jogo representa. Faço barulhos e finjo explosões quando as peças se movem ou são comidas e começo a chama-lo de “general”. É preciso ser didático sem parecer didático, o principal neste caso é o lúdico.

Nesse meio tempo a avó se afasta e avisa que vai dar uma volta. Assim eu cumpro meu objetivo secundário da noite: além de entreter as crianças dou um tempo para os acompanhantes tomarem um banho ou, pelo menos, desanuviarem um pouco.

E, de forma bem cuidadosa e algo desconfiada ele vai relaxando e colocando a mente para funcionar. Ele começa esboçar o pensamento estratégico de um jogado:, percebo que está pensando em jogadas, formulando hipóteses e tentando prever o que irei fazer, ainda que de forma bem básica, mas nada demais para uma primeira partida. Quando não tem idéia nenhuma pergunto se ele quer alguma sugestão. Faço isso tomando o cuidado de soar neutro e sempre lhe dar mais de uma opção para que, mesmo com ajuda, ele seja obrigado a tomar uma decisão. Silenciosamente ele concorda quando eu ofereço ajuda e, em alguns casos, aponta para qual peça deseja mover. Vejo um discreto sorriso na hora em que ele come as minhas peças e tenho vontade de lhe dar um beijo na testa quando vejo as mãozinhas se movendo para me apontar a peça que deseja mover. A partida parece durar horas e estou mais atento a indícios de sua aprendizagem que ao jogo em si. Mas chega a um ponto em que ele se cansa e sinto que seu interesse decai. Prefiro terminar o jogo antes do que deixar que ele jogue só porque estou esperando algo dele. O garoto realmente já tem o mais que o suficiente para lidar.

Ele me parece um tanto cansado, espero que isso seja mais consequência do esforço mental do que efeito da quimio, mas também parece estar satisfeito. Assim são os embalos de terça à noite, eventualmente tenho boas partidas mesmo nos dias mais insuspeitos.

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