Mais uma noite de hospital, já estou num ponto que tenho vários conhecidos, pacientes que já jogaram comigo várias vezes, mas ainda assim sempre surgem jogadores novos que rendem interessantes surpresas.

Sempre que chego gasto algum tempo na necessária limpeza das peças com alcool antes de visitar os pacientes. Como a imunidade dos pacientes é baixa esse é um procedimento obrigatório toda vez que eu entro num quarto novo. Assim, geralmente eu começo na sala de convivência da internação onde posso colocar o jogo numa passadeira larga o suficiente para passar o alcool com rapidez.

E foi lá que eu conheci o A. um sujeito simpático e curioso que estava brincando com a mãe. Percebi que ele estava me olhando e sussurando perguntou para a mãe o que eu estava fazendo. Como eles eram novos no local e a mãe certamente também não sabia o que eu fazia aproveitei para me apresentar e convida-los para jogar.

Claro que A. aceitou e chamou a mãe para continuar. Mas considerando a cara de cansaço da mãe aproveitei para dar uma deixa para ela descansar um pouco. Deixa que ela entendeu e prontamente aproveitou que A. estaria comigo para poder tomar um banho.

Crianças de 4 anos são um desafio para minha habilidade como facilitador e para o jogo também. A idade ideal fica em torno dos 11 anos e ele não tinha nem metade disso. Mas o problema pode ser compensando pelo que chamo de “calibragem de desafio” reduzindo o número de regras e peças para tornar o jogo mais simples e aumentando minha presença como facilitador para auxiliar A. na experiência de jogo. Existe um fio de navalha entre ajudar ele a jogar e jogar por ele.

Assim, estamos jogando praticamente um quebra-cabeça disforme onde ele se concentra em encaixar as formas de cerrado e eu vou pontuando características do Bioma para ele. A. se mostra curioso, mas como eu já vi esse processo é mais um diálogo que uma aula, o que significa que dou muito espaço para ele falar.

O que em alguns momentos se torna divertidíssimo. A imaginação de uma criança de 4 anos é algo cru, de uma criatividade quase selvagem, com os limites entre a fantasia e realidade bem mais suaves que na mente adulta. Em alguns momentos beira o surreal, como conversar com a delírio. Eu mostro os animais de cerrado e ele me pergunta onde estão os dinossauros e logo me conta um complexa (e maluca) história sobre dinossauros e porque ele gosta deles. E tudo isso começou com a figura de uma tamanduá. Eu descrevo um pouco do tamanduá para ele, onde adicionei uma imitação de tamanduá bandeira que vi numa peça de teatro, com direito a uma lambida virtual do tamanduá que ele achou muito engraçada. O jogo se torna praticamente secundário, uma ilustração do cerrado que estamos criando, enquanto ele vai imaginando coisas, como um batman que corre atrás do coringa. Afinal coringa é verde e eu respondo mostrando que no cerrado também existem árvores de flores roxas, como a Sucupira. Palavra que até o final do jogo ele consegue pontualmente se esquecer, tornando-se Sucu. ou Sucupi, por sinal a cor roxa é outra das cores do coringa. Confesso que agora eu consigo imaginar melhor o que as pessoas ouviam quando eu estava com meus amigos falando sobre RPG.

E assim, a noite vai, as peças vão se encaixando enquanto eu falo da chuva, das matas e da degradação dos rios, enquanto ele me responde com naves espaciais, dragões e sonhos que vão se encaixando em nosso diálogo. Jogamos até a mãe dele voltar do banho e terminarmos para ele lanchar e tomar remédios. Ele parece ter se divertido, mais com o que construiu do que o que ouviu de mim. Enquanto do meu lado eu me diverti ainda mais com o que eu ouvi dele. Voluntariado é assim, esteja preparado para o inesperado, ele pode te trazer boas surpresas mesmo num hospital.

Anúncios